O território populoso e inquieto do facebook

Na contemporaneidade, é  desafiante observar como as pessoas se comunicam diante das tantas mudanças tecnológicas. O contato mais íntimo ganha distância. As invenções modernas asseguram a construção de uma sociedade de massas. Podemos visualizar multidões em espetáculos. Não precisa de um cantinho, um violão. Os shows comportam fãs e ídolos, lembrando altares e oração. Na vida cotidiana, os recados ocupam a internet. O e-mail é poderoso, acelera as ordens e os sentimentos. Já se foi o tempo das cartas, cheias de metáforas ou de lamentos. As encomendas são entregues na velocidade que os negócios exigem, para sustentar lucros e divulgação das novidades.

O mundo é outros, dizem os mais velhos. No entanto, as sociabilidades continuam, temos que fazer contatos, conhecer novos lugares, estabelecer comportamentos, acompanhar as modas. Não basta, apenas, olhar as urgências do presente. Há quem viva situações diversas que envolvem soluções complexas. As nostalgias não estão no lixo. Elas motivam anúncios, definem musicais, animam decorações de festas. Portanto, não celebremos a linearidade. Tudo tem uma mistura, produz certas confusões inquietantes. São muitas linguagens que não se afastam das formas de solidão e desencontro. O reino da ambiguidade não se extinguiu. Resiste, com pompas e cerimônias.

Gosto de contemplar a história que estou vivendo. Não fujo do momento. Analiso o vaivém das culturas, pois considero a memória decisiva. Ela nos traz referências, nos localiza, dialoga com os impasses e as superações. Procuro desfazer-me dos preconceitos, dos estranhamentos neuróticos. Por isso, entre outras coisas, navego pelo facebook, não deixo de possuir minhas críticas, porém sigo aprendendo. As transformações criam pertencimentos, choques de interesses, especializações. Somos chamados para sentir os desenhos da vida, seus labirintos renovados, seus discursos refeitos. Estou  atento. A estrada é longa, os territórios multiplicam usos e valores.

As informações invadem jornais, fofocas, TVs… As atualizações são rápidas, porque as técnicas se ligam no mercado, no alargamento das trocas na aldeia global. As pesquisas são instrumentos de consultas frequentes nas polêmicas sobre as redes sociais e seus poderes de penetração. Dados recentes afirmam que existem brasileiros cadastrados conectados nas redes, em média, oito horas por mês. São números relacionados com o facebook. O Brasil tem a segunda base de usuários, sendo ultrapassado apenas pelos Estados Unidos. São estudos divulgados pelos jornais do final de semana. Outro número surpreendente: os smartphones já representam 25% das venda dos telefones celulares no Brasil. Podemos dizer, então, que o território do facebook é populoso e inquieto. Ele cresceu com rapidez.

Não há gratuidade, nem as mudanças acontecem magicamente. A prática social dita seus deveres. No facebook, expõem-se produtos, não, apenas, necessidade de permutas de fotos e de lembranças. Não há como desprezar acrocabias na convivência. Elas imprimem comportamentos que servem de modelos, mas também abrem espaços de contestação. O historiador que adormece nos acervos manchados de poeira perde o ritmo do tempo. A história tem seus fragmentos. É importante não incentivar, somente, as  distinções. No facebbok, conversa-se, sente-se, firmar-se costume. Por que não compreender as suas singularidades sem pré-julgamentos?

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4 Comments »

 
  • Canto da Boca disse:

    Tudo acontece numa “velocidade estonteante”, não dá tempo de sedimentar nada. Uma novidade já nasce velha, um clique e milhões de informações aparecem; informações e não o conhecimento; um clique e tenho o mundo ao meu alcance; milhões de propostas, de convites. Uma alteração de valores que me assusta, sentimentos pulsando nas pontas do dedos, é onde bate o coração. Ao mesmo tempo que isso me amedronta, me seduz, é uma ambiguidade imensa.

    Outro dia estava perguntando aos meus alunos se eles já haviam escrito cartas e enviado-nas pelo correio; se sabiam o que era telegrama, disquete, gravador, fita k7 para gravadores, telefone de discar – tudo agora é digital -, e o engraçado é que eles manifestaram desejo pelo passado, e pelas tecnologias “superadas”…
    Mas apesar de não estar fora do tempo, sinto um grande estranhamento com essa atualidade tão velha.

    Obrigada pelo texto, vou levá-lo aos meus alunos, vamos debatê-lo na aula de Sociologia, um excelente material para discutirmos sobre a tecnologia mediando a comunicação.

    Abraço!

    🙂

  • Valda

    É um tema que toca muito na vida de cada um. Existem reclamações, falam do vazio, mas temos que conviver com as invenções da cultura. É tudo muito ambíguo. Poderia ser diferente?
    abs
    antonio

  • Darius disse:

    A inclusão imposta pelo Facebook, Twitter, redes sociais e etc é algo a se pensar, uma inclusão que gera exclusão, aumenta as vendas e cria expectativas. As redes sociais ao que me parece são mais uma das armas do Hiper-espetáculo, a contemplação do outro se restringe a telinha do computador. Gostamos cada vez mais da contemplação, mas a pena é que gostamos de contemplar o ridículo, o grotesco,o “Carpe-Diem”, parece que Nietzsche influenciou apenas nos valores de Dionísio, Apolo coitado, foi esquecido e jogado em cadeias.

  • Karem Almeida disse:

    Eu fico pensando no que isso tudo vai dar. Estando dentro do trem é difícil observar sua trajetória e prever seu destino final. Ficamos hoje sim, num saudosismo daquele tempo em que o toque, o abraço e a carta recém chegada arrepiavam. Mas… e a geração que não viveu isso? O que será capaz de arrepiar a geração que curte, compartilha e reduz sua narrativa à contagem de caracteres? Não seria essa economia de letras uma astúcia do sistema? A redução da palavra visando o estreitamento da crítica?!

 

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