O tratado do medo

Não sei se o medo tem um rosto delineado. Prefiro não cair em certeza e apostar que tudo tem forma indefinida. Escolhemos as palavras, sentimos as suas extensões. Mas será que há geometrias fixas? O que é o medo para quem perdeu a família ou para quem vive no meio de polícias agressivas? Como imaginar as milícias nazistas assustando seus ditos rivais? E as agressões que se sucedem em ambientes tensos e obscuros? O medo tem cor?A cultura revela a multiplicidade, nos assemelha, nos torna estranhos, brinca, foge, desmancha. Portanto, escrever um tratado sobre um sentimento tão presente é mesmo uma tentativa de vacilar e arquitetar imaginações surpreendentes. Uma ousadia sem limites.

É preciso não se deixar levar pela determinações comuns. Por detrás, de um riso amargo mora um medo que alguns conseguem identificar. A história está repleta de espantos, de comportamentos espertos nos seus disfarces para despistar as dificuldades e desequilibrar quem se julga senhor de todos os territórios. Quem pensou as utopias, as justificou, está projetado um outro mundo ou apenas sacudindo no lixo seus medos mais primários? E as religiões? Ela não param de inventar perdões e simular graças nas oferendas aos deuses. A incompletude humana é complexa e balança-se em cálculos incertos. Vivemos a raridade de exatidão, a permanência frequente das ansiedades dos outros.

O inesperado descontrola e atordoa. De repente, coisas desparecem, a harmonia era um engano, os amores eram fantasias nada saudáveis. A indefinição move os ritmos das palavras, exige atenção e distrai o cuidado.O poeta escreve, porém sabe que as figuras nem sempre consolidam o paraíso que o livraria do pecado original. Insiste, para não perder o fôlego e continua a mover a roda da fortuna. Não se preocupe em mergulhar em ironias e dialogar com Prometeu. Observe que as fronteiras são escassas e que a magia existe para confundir e inquietar a estima. O mundo nunca seria espelho de si mesmo.Ele não se conhece.

Temos medo. Os traços dos rostos não garantem uma forma absoluta, mas o coração bate anunciando que a coragem está sufocada. Não há como expulsar o medo da história, nem compreender as relações socais sem constatar as diversas manipulações que afligem e incomodam as fragilidades. O inacabado atiça voos e não admira respostas prontas.Um tratado do medo não teria um tamanho pequeno, seria assustador e visitaria todos os encontros que atravessam as histórias. Talvez, uma obra inútil. Não adianta teorias inesgotáveis. O suspense faz parta das ambiguidade cotidianos. As aparências enganam. O poder de articular desejos sem conviver com frustrações é uma máscara perigosa.

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