O voto e a bola: a dança do inesperado na vida

Falam das esfinges do passado. Lembram Édipo, sentem saudade de Prometeu. Asseguram que os segredos estão escancarados na era de tecnologia. Até a urna é eletrônica, num pais que nem resolveu seus problemas básicos de saúde e educação. A ciência é soberana. Descartes não escreveu perdendo palavras. Firmou-se no mundo da filosofia. Eternizou-se, com suas verdades. Tudo certo e claro? Não. Nada está no lugar e guardado na gaveta da cômoda verde. De repente, se ligue numa campanha eleitoral, onde a religião domina a cena maior e os preconceitos retornam para assustar os vacilantes.

Marina defendeu outros modelos, sem ampliar seu programa de forma mais visível. Atraiu eleitores. Teve uma votação expressiva. Construiu um patrimônio importante. Poucos mediram o momento da opção, as flutuações e os medos que acompanharam muitos seguidores da candidata. Tem razão em defender o equilíbrio ecológico, em mostrar os estragos que trazem o desenvolvimentismo acelerado. Faltou ir mais fundo em outras questões.

Chegou o segundo turno, com reviravoltas. O inesperado não se cansa de aprontar. As igrejas passaram ser espaços definidos como estratégicos. Terços, santinhos, misturas de crenças surgiram nas páginas dos jornais e nos blogs/e-mails da internet. Cadê os planos de governo? Como vamos nos livrar dos infortúnios sociais ? As dúvidas são muitas, mas a luta se acirra. Continuidade ou descontinuidade? A polêmica extrapola toda expectativa, é o bem contra o mal. Os anjos e os demônios devem estar sorrindo, com tanto maniqueísmo.

A cidadania tem seus princípios. Não é  roda-gigante vazia, em festa realizada numa madrugrada chuvosa. O voto pesa. O tempo é parceiro e não dá para esconder aonde cada um caminha. O discurso da ameaça não tem substância. Os brasileiros sobreviveram a muitos desencontros. Não são crianças soltas numa praça abandonada. É preciso não se embriagar com a fofoca. Na eleição, o voto é  de ouro e o silêncio é de prata. Tire o mofo da lucidez e siga adiante sem serrar a sua consciência.

Mas o inesperado não dá sossego. Escolheu o mês de outubro, para festejar suas alegrias. No futebol, os resultados fortalecem as armadilhas do lúdico. Luxemburgo saiu com o saco na mão das Gerais. Redime-se no Rio de Janeiro. O seu Flamengo do coração sapecou 3×0 no grande Internacional de Porto Alegre. Mereceu o troféu da semana da série A. E o Náutico? Está com o pé preso na lama, porém o Sport embarcou numa vitória animadora.Quem se mantém na ponta da tabela são o Figueirense, Bahia, América de Minas e Coritiba. É a fatigante odisséia da séria B.

Os resultados agitam as torcidas. O Fluminense empata com o Botafogo. Arrasta-se. O Grêmio está mordendo. Venceu o Cruzeiro e consolida o esquecido Renato. O São Paulo avança, como ninguém previa. Derrota o Santos, com um placar de 4×3. O Corinthians, com Ronaldo, ficou no empate com o Guarani. Um domingo para sentir o coração balançar. Os acasos da vida trazem movimentos e desfiam verdades. A vitória maior tirou o  Salgueiro  da série C. Feito inesquecível. E música para os ursos dançarem, com todo romantismo dos bons afetos.

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6 Comments »

 
  • Bom dia professor,

    De fato o texto é dançante, porque o cenário das eleições o faz de tal forma. Omissões, embriaguez brasileira para com assuntos sérios, uma maior religiosidade ou espiritualidade ( não sei que termo poderia usar)desse Brasil “azul e amarelo”, que poderá “serrar” a lucidez de muitos brasileiros que dançam conforme a canção se faz, sem nenhum sinal de “?” para tais assuntos ou propostas. Mais um vez muito bom texto e me despeço ressaltando a vitória e classificação para série B do meu Salgueiro que o senhor ressalva, não somente do time(que nem sou fã por sinal), mas da importância para a região salgueirense onde nasci, embora um feito que de certa forma chocou, entretanto, coloca mais um toque pernambucano na pré-elite do brasileiro. Os acasos da vida trazem movimentos e desfiam verdades. Realmente.

    abraços,
    Aurélio

  • Aurélio

    A eleição mexe muito, pois não há propostas profundas. Fica nas acusações emocionais. Isso é perigoso e de baixo nível. E vamos torcer pelo Salgueiro e na eleição ter calma e caminhar com quem visa o coletivo de forma mais ampla.
    abraços e grato pela visita
    antonio paulo

  • Carlos Eduardo Medeiros disse:

    Antonio Paulo,
    Ontem tive o prazer de ir ao cinema e assistir “Tropa de Elite 2”. Exercício político. A máquina do poder infiltrada e assessorando o “populismo paternalista” dos donos das favelas [leia-se traficantes]. É impressionante como o maniqueismo atual da nossa política se faz presente durante todo o filme, de um lado o “bem” representado pelos justiceiros somado aos políticos do povo e do outro a polícia que tenta manter a ordem, o “mal”. Enquanto escrevia esta resposta se passava na televisão o cúmulo dos políticos atuais,”aquele é do bem, aquele é do bem…” o bem será alcançado quando o povo chegar as urnas e conseguir sem apoio financeiro decidir em quem votar. Novos currais eleitorais e votos de cabresto da atualidade.Até quando? Até quando o Brasil envolverá política e religião, hoje púlpitos se transformaram em comícios arrebatando fieis para as urnas. Termino meu comentário com uma frase do filme, em uma cena que me impressionou pela beleza fotográfica, em uma tomada aérea de Brasília, o Capitão Nascimento nos indaga: quem é que sustenta todo este sistema [poder paralelo da milícias]nos morros cariocas? Se o senhor ainda não pode ver o filme, faça o mais rápido possível.
    Abraços.

  • Carlos

    A falta de reflexão deixa todo mundo confuso. Não se ensina a andar com a crítica. Então vem a infantilização. Por isso, fica complicado fazer política com clareza. Cria-se confusão. A política se torna um mercado e nós procurando o eixo dos valores. Mas nada de se ausentar. Temos cidadania para defender.
    abs e grato pela visita
    antonio paulo

  • Cláudia disse:

    Querido Prof. Antonio Paulo,

    Fiquei tão feliz de poder compartilhar novamente de sua presença, nem que seja de forma virtual.
    Vejo que tem recorrido à tecnologia para semear a sensibilidade que tanto propaga, e também o envolvimento com as questões referentes à coletividade. Como sempre, cativando quem o lê.
    Obrigada pelo convite,
    Cláudia

  • Cláudia

    Resolvi lançar a escrita para outros mundos. É o que gosto mais de fazer e aguardo você, presente nesses territórios.
    bjo
    antonio paulo

 

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