Octavio Paz: a palavra é nua

 

Num país em que o presidente sofre pressões inusitadas, os políticos são denunciados, o cinismo ganha corpo no cotidiano, a negligência assume lugar de destaque ficamos tontos com os sensacionalismos contínuos. As dificuldades financeiras da imprensa tornam os escândalos o cerne do noticiário. Fermenta-se um jogo infernal de poderes malditos. As controvérsias se multiplicam e os traficantes de drogas impõem normas violentas. Há um esvaziamento crescente e fatal dos partidos políticos. A lógica da suspeita merece atenção, não podemos fertilizar inocências e burocracias. O que se salva?

Há uma queda dos valores ou uma confusão generalizada. Onde fica a verdade? Ela sumiu ou naufragou em inúmeras versões. Cada um guarda ressentimentos, agiliza armadilhas, a desconfiança constrói um mapa ardiloso. As palavras mascaram emboscadas. Octavio Paz afirma que a crise se manifesta, com profundidade, no mal uso das palavras. Precisamos repensar o mundo, inclusive como existe a possibilidade de renomeá-lo. A dimensão estética perdeu-se na mediocridade das propagandas consumistas.

A literatura traz um outro olhar. O mundo está invadido pelas imagens. Não se iluda. A  fragilização da poesia e da capacidade de inventar deprime. Se a repetição assume a monotonia de costurar a vida, a melancolia dissolve a convivência social. As sentenças dos juízes se vestem de contradições. As espertezas envolvem cada ato, como  se  buscassem o menor esforço, a teoria do engano. Octavio faz outra busca,desenha as palavras nunca desprezando o encantamento.  Contrapõe, nos tira do descartável. As palavras têm ritmos. Fundam prazeres,  redefinem sentimentos, tocam os tangos  de Piazzola.

N’ O arco e a lira, de Octavio, existe a construção de caminhos de leveza, sem mistificar salvações. Ele mostra que a palavra é instituinte e incomoda quem a acolhe como uma mercadoria. A história não foge do seu lugar, nem do seu tempo. Ninguém escreve solto, sem compromisso. Conversar com o mundo é mover os significados , não firmar apatias. Quem se mira  no espelho dos últimos labirintos sacraliza imagens,  propaga o pecado original e a culpa. Não esqueça que a rebeldia garante a instituição da vida. Ela morre com palavras inúteis.

A sociedade do herói fabricado anuncia espetáculos. Tudo tem sabor de acaso que o planejamento termina destruindo. Se não há surpresas, se a máquina reina, a queda é frequente e as energias entrelaçam desespero. A literatura borda traços inusitados.  Ela contraria, desmonta o definido. Viver a consagração de verdades que cegam e emudecem empurra a história para dança dos demônios. Talvez, nem possuam a força do desengano, mas assustam e compõem um medo sem fim. O império da fantasia não se foi.

Todo escritor formula sua arquitetura. Auster é lúdico , misterioso, Calvino transcende o lugar de  curvas e retas transitórias, Octavio tem veias vermelhas brilhantes, com eternidades míticas animadas. Não confunda as escritas, nem as isole. Não pense que a verdade é quieta e a ciência segura as vacilações. Há quem escreva sem perder o fôlego. Pamuk gosta de minúcias e tensões, Kundera é um mestre que enfeitiça o leitor. Escrever é respirar, pertencer ao mundo, sem desistir ou se abalar com as invejas persistentes. Mas não delire: o homem não é o rei dos animais. Ele desconhece o maior segredo.

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