Os afetos e as palavras: a conjugação da vida solta

Criar polêmicas faz parte do ato de escrever. As palavras comunicam-se com o mundo, mesmo que expressem silêncios permanentes. Equivoca-se quem despreza a escrita, por mais simples e despretensiosa que seja. A cultura não é somente imagens, tão divulgadas pelas invenções tecnológicas recentes. Ler a convivência social é uma grande arte, sobretudo quando fertilizamos conexões. Os significados pedem palavras ou as palavras pedem significados? Deixemos a questão para instigar a imaginação de cada um. A multiplicidade desfaz  a mesmice e busca caminhos diferentes.

As gramáticas renovam-se. Os dicionários se reconfiguram. Há coisas ditas, no passado, que voltam com ânimo e promessas redefinidas. Sepultar o vivido pode ser um escorregão perigoso. Nada como celebrar a crítica e curtir os paradoxos. Não importa a precariedade dos argumentos. É sempre fundamental falar, conversar, inquietar a mudez, orquestrar sinfonias de vozes e ecos. As pausas trazem a recuperação do fôlego, porém não podem ser longas, como um exílio sem sentido. Há histórias que se firmam dentro do coração. A palavra não precisa estar exposta. Sua forma muda de lugar, borda anisedades e atiça futuros. Portanto, nem tudo se esgota, nas afirmações mais radicias. Falta o ponto final que nunca se apresenta para vedar a porta.

A linguagem possui regras. Não poderia ser de outra maneira. Não existe uma lógica única. Ela se transforma, pinta com cores variadas. No mundo atual, os vocabulários sofreram metaformoses contínuas. As  interpretações não se ausentam. Você vê um filme, se emociona, contempla suas aventuras estéticas, mas o que dirá disso tudo? Como o diálogo será tramado? O visual exige que as palvras o visitem e estendam suas relações com o mundo. Quando narro minhas histórias, sinto que as compreendo com mais profundidade. Com, então, negar meu direito de esticar desejos e alegrias e desacordar leitos adormecidos que estimulam apatias?

Pamuk nos mostra, com delicadeza, intimidade com as narrativas, viagens subjetivas pelos mistérios da Turquia. A intimidade está registrada em cada momento que escreve. Remete a outras lembranças, remonta o tempo, arquiteta imaginações surpreendentes. Pamuk não está solitário. Recorde-se de Guimarães Rosa, Mia Couto, Gracialiano Ramos, Saramago… Os espelhos da existência convivem com estranhamentos, com verbos que conjugam as ações da vida e pedem atenção. Ultrapasse a terceira margem, entrelaçando a palavra com a respiração do afeto. No corpo, há traços incomuns e sedutores. Por que não traduzi-los?

As astúcias de Ulisses nos colocam o humano, impasses e reviravoltas. Há situações limites, há mapas desfigurados. A literatura não cede. A cultura não se concilia com razões claras e objetivas. Ela se encontra com as magias. Elas puxam as palavras, despertam sensibilidades, vão além do imediato. Assim,  a vida pode ser contada sem medo de encerrá-la num texto repetitivo. Se não coubessem incompletudes na cultura, ela não se anunciaria e não passaríamos dos desmantelos do paraíso e do pecado original. Ulisses pulava os cercos, navegava nas dúvidas, sabia das idas e vindas dos disfarces. Não se assustou com a solidão de Narciso, nem com os gritos rebeldes de Prometeu. No seu barco, há vagas para todos.

You can follow any responses to this entry through the RSS 2.0 feed. You can leave a response, or trackback from your own site.

4 Comments »

 
  • Emanoel Cunha disse:

    Enrodilhar nos barcos da vida, principalmente em rumos desconhecidos, ao mesmo tempo que trazem dúvidas, medos e incertezas, as mesmas tecem as inseguranças humanas de descobrir o novo. Agir nas mútiplas circuntâncias dessas situações, coloca o indivíduo frente as imposições que lhes serão apresentadas, pois não é fácil se completar pelos desejos que se almeja em vida. Portanto é necessário conhecer suas dúvidas para driblar suas histórias. As trilhas sinuosas da atualidade servem de contorno para modelarmos o nosso “EU” e as posições disfarçadas existentes em sociedade demonstra que é através do conhecimento de suas artimanhas que construímos nossa aprendizagem.

    Abraços Professor.

  • Flávia Campos disse:

    Antonio,
    Muito lindo! (e ainda nem estamos na lua cheia)
    Só você para fazer com que o mundo dos deuses se entrelace com o mundo dos humanos!
    Quem faz da arte de escrever uma conjugação de palavras e afetos desaprende o que é a mesmice e redescobre o sentido da conversa e das “histórias que se firmam dentro do coração”; transgride as regras da linguagem e as regras do viver humano; substitui as reticências pelo ponto final e a apatia pela realização de desejos e alegrias…
    Enquanto tivermos Pamuk, Guimarães Rosa, Mia Couto, Gracialiano Ramos, Saramago, Rezende… saberemos traduzir as magias, despertar as sensibilidades que “vão além do imediato”. “Assim, a vida pode ser contada sem medo de encerrá-la num texto repetitivo”.
    Gracias por nos abrigar neste barco!
    Bjs
    Flávia

  • Flávia

    Você é sempre muito generosa.
    bjs
    antonio

  • Emanoel

    Você entrou no espírito de viagem de Ulisses. Isso é bom.
    abs
    antonio

 

Deixe uma resposta

XHTML: You can use these tags: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>