Há muitas repúblicas nos espaços do mundo

Ontem, o Brasil comemorou mais um ano de República. As datas históricas lembram trajetórias, sempre atreladas à capacidade de recordação coletiva dos feitos heróicos e retumbantes. Talvez, exageremos na ironia. Ninguém esconde a memória sem punição. As ações possuem significados. Houve muita frustração na época. Os mais radicais esperavam leis democráticas, partidos comprometidos com justiça social, vontade de redefinir os preconceitos vindos da escravidão, abolida em 1888. As história dos povos são acidentadas, não se escrevem com linhas retas.

A Alemanha, a Itália, a Argentina já sofreram dissabores e não estão longe de sofrerem outros. Não há povos  sem manchas nas suas vestes ou sem desmantelos nos seus projetos. As relações se desfazem, revelam-se outras, no diálogo constante entre permanências e mudanças. Existem grupos de poder que programam ilusões e deixam as expectativas se espalharem. O tempo cuida de costurar memórias, de consolidar valores, de refazer decepções. O Brasil republicano não cumpriu o que tanto se anunciava. Continuaram os desmandos oligárquicos, as desigualdades sociais, os descontroles administrativos.

O mundo do século XX, não foi pacífico, nem exemplar. Lá estavam fascistas, racistas, capitalistas vorazes, construtores de bombas atômicas. Mas qual é a época plena de harmonia, sem violências ou individualismos destruidores? Não é sem razão que se fala nos discursos do bem e do mal. A instabilidade percorre cada momento, mesmo quando ele não ocupa um espaço mais dilatado. As culturas são diferentes. Inventam valores e formas que se articulam e se rejeitam. Mas há algo que serve de espelho e assegura as semelhanças.

Os escândalos povoam as sociedades, mesmo as consideradas civilizadas. Nunca esquecer Freud é quase um mandamento, nem tampouco as reflexões do astucioso Maquiavel. Isso é não uma declaração de eternidades. Não vamos proclamar também o descrédito no humano. Achar que os enganos são comuns e persistentes é desistir da história. Há o desejo e a inquietude, o caminhar por cartografias inesperadas e alvissareiras.

Não olhar para as diversidades e as dissonâncias é acreditar no absoluto, no que não se move. Não é o caso. Os anos republicanos passam, as projeções se renovam e as lutas democráticas não esmorecem. Mesmo com o estreitamento da aldeia global, não sacramentemos as repetições. Ativar a dúvida e a crítica ajudam a não sacrificar a esperança.

Se na política o desandar nos atiça, em muitos cantos da vida se formam desencantos. Todo final de ano, as notícias ampliam a sonoridade dos escândalos. No futebol, parece um ritual. No Brasileirão da série A, as denúncias esquentam, com polêmicas ruidosas. Dizem que o campeonato está preparado para o Corinthians, para glória de seu centenário e a honra de seu ídolo Ronaldo. Azar do Cruzeiro e do Fluminense.

Com espertezas, sempre presentes no mercado da bola, com os inúmeros errosde arbitragens, fica dificil ver clareza no horizonte.Insinuar que tudo está combinado é trazer fofocas, sem provas e tumultuar de vez a sequência dos entusiasmos e lamentações. As inseguranças e a falta de ética cercam os grupos sociais, fragilizando até mesmo suas diversões. A República do Futebol não se distancia das outras que desfilam na história.

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