Os arquivos da vida, os arquivos das histórias

O tempo me carrega. Não preciso olhar para os lados, nem ouvir o tique-taque daquele velho relógio da casa dos meus avós maternos. Ele ficou na  memória. Lembra as noites de insônia. Morria de medo de assombrações. Ficava aceso. Dormia quando a madrugada chegava , cansado de tanto imaginar. Quem sabe se não estava criando fantasmas que, ainda, sobrevivem com outras formas e idades? Pode ser. Não é à toa que os desejos surgem e desenham o território da fantasia. Nada se perde no arquivo da vida. Os esquecimentos nos protegem, mas as surpresas nos tiram a concentração. De repente, recuperamos imagens escondidas e as transformações nos sacodem.

Não desprezo os objetos. Eles guardam acontecimentos. Não pensem que a imobilidade é a indiferença. Escuta-se com ruído e com silêncio. Basta atenção e sensibilidade. Os ritmos da vida conectam-se com o tempo ou com os tempos. A pluralidade envolve o mundo, por isso é importante não deixar de observar as semelhanças, onde tudo parecia uma esquisita maneira de encerrar uma aventura. Não é insistência intelectual, mas algo que sinto no corpo e no cheiro de cada vigília: a vida possui muita permanência. Há quem proclame a mudança como o ânimo da história. Tenho minhas desconfianças. os disfarces são poderosos.

A memória se reveste dos paradoxos do lembrar e do esquecer. Ela não sossega a história, não abandona a inquietude. Tudo isso não significa que as metamorfoses são profundas. O mínimo do mundo já é um abalo, desconcerta e assusta. Especulamos que as revoluções fazem a história respirar e firmar as ansiedades com o futuro. Nem sempre, as revoluções atiçam reviravoltas. Muitas vezes, ilustram planos, ornamentam discursos, justificam violências. Nunca as contemple com entusiasmo. Medite sobre  o que foi, efetivamente, radical na Revolução Francesa. Crie sua gangorra, sua medida, movimente seus arquivos subjetivos e as fontes exaltadas pela academia.

Não prosseguimos nos caminhos abertos sem desenhos de organização. Quem ousa dispensar as cartografias ou torná-las um espaço de geometrias descoloridas ? Há a invenção que não recusa o passado, mesmo que produza sensações diferentes. O vaivém do tempo exige atenção, pois ele guardas as perguntas e as respostas mais profundas. Há um momento de revelação que se conjuga com as teses de Walter Benjamin.É fugaz e não mecânico, não suporta dialéticas endurecidas, nem positivismos mascarados. Nunca subestime a leitura de Benjamin, porém não o envolva nos limites da racionalidade. Passeie pela estética, pela emoção, pela visão do paraíso.

Portanto, não há sequências sem arquivos, nem tampouco eles, apenas, colecionam fatos e hierarquizam arrogâncias. Tudo se toca, não custa ressaltar. A linearidade se balança em trapézios. Quando o presente embarca no oceano do controle, o passado busca outras ondas e turbulências. O presente movimenta-se com os arranhões do passado, mas também com seus perfumes e abraços. Segure os ponteiros dos relógios e mergulhe nas figuras de uma pintura de Picasso ou nas cenas de um filme de Fellini. Não conte os números, mas as sensações. Construa espelhos sem reflexos exatos. Desande-se.

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2 Comments »

 
  • Natália Barros disse:

    Antonio Paulo, correndo o risco do pieguismo, correndo o risco da transferência, digo: você é meu orientador favorito! Sabe aquele colo que eu precisava estes dias? É este texto! Obrigada!

  • Natalia

    Grato. Nada como um bom colo.
    bjs
    antonio paulo

 

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