Os avessos cruéis e as conversas do mundo

Há quem acredite em energia negativa. Faz tudo para fugir de pessoas que desfilam no reino da mesquinharia. Eu não discordo. Acho que os sentimentos atravessam a construção da cultura, com uma heterogeneidade marcante. Seria impossível classificá-los, como se estivesse num concurso de vestibular. A sociedade é de massas, as pessoas se parecem, não buscam aprofundar certas questões, mas a afetividade não é reflexo de espelhos anônimos. Estamos em movimento. Escrevemos descrevendo situações, tentando criar linguagens que nos permitam fôlego e descontração, porém não adianta querer nos sentir donos das estradas da vida. Há muitas ilusões que nos envolvem e nos levam para devaneios intermináveis.

Iludir-se não é um defeito pernicioso. Faz parte do humano. O que nos confunde é que junto com as imperfeições, idealizamos um mundo onde o absoluto ganha todo território. É incrível como temos dificuldades de administrar nossas lacunas. Não à toa que existem Adão, Eva, Prometeu, Antígona, Agostinho, Lacan. As dúvidas sobram.Elas deslocam a história, desfazem mesmices, configuram lugares. Há sempre o toque da falta, do que não foi acabado, da angústia de resolver os desacertos. Somos pequenos deuses, por isso há permanências que incomodam os vaidosos.

No capitalismo, a competição é a mola do negócio. A generosidade é, muitas vezes, um artifício, filantropia enganosa, campanha para disfarçar as desigualdades cruéis. Os argumentos sobrevivem. Há quem apele para organização natural da coisas. Existem os bons e os maus, a predestinação é inevitável. Portanto, não há porque lamentar os descontroles. Os virtuosos merecem afagos especiais, não podemos idealizar outros comportamentos. É a exaltação do individualismo, como se o mundo tivesse um ritmo inalterável. Nossos sofrimentos compõem a sinfonia tocada por uma orquestra que, apenas, olha o tempo passar. Desmancha-se a ideia de construção, resta pedir perdão pelos pecados. A sorte está lançada.

Discordo. Somos diferentes e não temos as escrituras de vidas sacramentadas. As reviravoltas desfazem compassos, aparentemente, insubstituíveis. A cultura não se aquieta, escondendo-se dos conflitos. Eles agitam, mostram a força das relações de poder, a inocência de aceitar julgamentos neutros. Os juízos de valor não circulam vazios, eles trazem densidade histórica, intenções, arrogâncias, integrações. As energias não caem do céu. Elas assinalam vontade de poder, estratégias de dominação que nem sempre se abraçam com as nossas. Daí, o confronto, a negatividade, a desconfiança, a hipocrisia, a violência.

Se o mundo que desejamos é outro, ele não será arquitetado sem luta. O sossego é momento de respiração tênue. São os nossos combates que desenham a história. Ela não corre solta. Nem tudo é traduzido com certezas e convicções de que há verdades definitivas. Lembre-se do que afirmou Pascal: Quando considero a breve duração de minha vida absorvida na eternidade que vem antes e depois… o pequeno espaço que ocupo e o que vejo ser engolido pela infinita imensidão dos espaços, e que nada sei e que nada sabem sobre mim, fico amedrontado e surpreso por me ver aqui e não ali, agora e depois. Humano, demasiado humano.

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3 Comments »

 
  • Emanoel Cunha disse:

    A incompletude trás consigo a ânsia de abnegar, algumas vezes, os nossos vazios. No entanto como suas vaguidões intercepta o nosso eu, passamos a dar significados aos espaços imaginados e desenvolvidos pela construção do homem na história. A competição é uma desses espaços que não preenche as lacunas da sobrevivência humana, assim como, as afetividades constroem valores sociais de se viver a vida como ela é…

    Abs

  • Valerio disse:

    Antônio,

    discordamos juntos e concordamos, muitas vezes, juntos,

    acima de tudo nos posicionamos em prol da solidariedade.

    até breve

  • Valério

    O eixo é a solidariedade.Isso é bom.
    abs
    antonio

 

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