Os Descendentes: amores amargos e confusos

O tempo não tem certificado de garantia. Há perdas que são percebidas na longa duração. Por isso, é fundamental observar o significado de cada sentimento, não esperar que ele se perpetue. Não há gratuidade, pedaços do céu caindo na varanda iluminada. A construção da vida se faz com cores variadas que, nem sempre, admitem formas ortodoxas e exigem modelos conhecidos. Há gostos de rupturas e de desesperos. Nem tudo está concretizado no que foi escrito no cimento armado do edifício mais ousado. O imaginário é um magma, não vive de quietudes.

Os Descendentes, filme dirigido por Alexander Payne, com o excelente ator George Clooney, é exemplar. Traz a vida nos entraves maiores, sai do espetacular, colocando situações do cotidiano que passam rasgando corações e transformando valores. Não há respiração que não se altere. O desempenho de todos é fabuloso, com diálogos pontuais que chamam para uma reflexão sobre os desfazeres dos amores amargos. Há ação, trama, mas o eixo são os desmantelos afetivos que pedem solução. Nada de sensacionalismos vazios, porém densidade na sequência das questões. A família não está ausente dos descontroles da sociedade de consumo. Envolve-se com eles e submerge em frustrações demolidoras. Caem regras, diluem-se vontades, retomam-se passados.

A falta de articulação entre as pessoas é um dado marcante da contemporaneidade. Não se trata, aqui, da produção de mercadorias. Em nome da mulitplicação da riqueza material, o emocional é desprezado. O tempo é carregados de agoras que  firmam  a hierarquia do status social. Enfrentar a intimidade de uma relação é desafio constante. As conversas entre o subjetivo e o mundo que o cerca possui complexidades. A velocidade do relógio desloca atenções para focos mais objetivos. Vale, quase sempre, o império do pragmatismo. Portanto, o espaço se abre para surpresas e reviravoltas.

George representa um pai desorientado e ausente. Mergulhado nos negócios, não percebe o tamanho do abismo que se aprofunda e destrói suas expectativas. A perplexidade deixa-lhe desacreditado. Não compreende a dimensão do que o tumultua. Seu labirinto tem saídas, aparentemente, agressivas. A construção do sentimento não pertence a uma lógica linear. Os aprendizados mudam estratégias, alteram comportamento, buscam o que parecia incomum. A tragédia não é o fim da narrativa, mas a solidariedade alarga as possibilidades de refazer a história. Os cenários da vida não se desenham com mesmices, desde que haja lugar para o esquecimento e a reinvenção. O filme mostra o inesperado, porém não apaga o movimento da dor.

É fundamental que a arte configure trilhas e discuta situações amorosas. Todos procuram o amor, querem a felicidade, ficam na superfície e não se dão conta dos obstáculos. Surgem, então, as inúmeras dúvidas: como conciliar a sede da grana com os encontros do coração ou há condições de cuidar do outro na sociedade do descartável? O amor não acontece num jardim, sem ruídos, próximo da esquina do paraíso. Não há isolamento. A vida chega, com suas turbulências, mesmo quando estamos quietos, curtindo uma música, bordando o manto do sossego. O filme nos coloca o fluir da sensibilidade, do olhar para os saberes do sentimento. Ensina.

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