Os desenhos do mundo nas esquinas das palavras

O mundo das imagens nos veste com as mais diferentes formas. É impossível fugir do assédio midiático, mesmo que a crítica nos acuda e nos tire das ingenuidades fabricadas.  As tecnologias possuem soberanias. Estão presentes nos múltiplos espaços. Ajudam na sala de aula, organizam exposições de produtos, metem-se nos discursos dos políticos. Citam seus benefícios e custos, com exaltações e encantamentos. É difícil uma escorregão dos seus entusiastas que esquecem os privilégios e as divisões sociais. A neutralidade está longe da aldeia global.

Vestidos ou nus caminhamos, pois o movimento compõe a história. Não necessita ser visível. Ha sentimentos escondidos que acendem corações. Não basta cultivar o silêncio. Ele também não despreza os significados. A cultura se faz com conversas e valores, expressões e gratuidades. Portanto, as invenções humanas nunca marcam de maneira única. Não dá para contar a história, sem arquitetar criatividades e imaginação, nas, se adornando, apenas, com os poderes da verdade dominante. Existem desconfianças, abismos, encruzilhadas. Como eliminar a dúvida e a instabilidade? As astúcias pertencem, exemplarmente, às narrativas de Ulisses, porém nos ensinam a localizar metáforas e conviver com  o passado.

O som das palavras traz música para vida. Os ritmos podem firmar alegrias, conectam-se com os relógios mais estranhos do tempo. Estão em calendários com fotografias apáticas, nos ruídos surpreendentes do celulares. Ficamos com medo dos tamanhos das medidas, porque elas sintetizam escolhas. Negar as medidas e os limites  é desmontar a cultura. Não se afogue na exatidão. Tudo ganha relatividade, para as criaturas que se nutrem da incompletude, até mesmo nos anúncios da redenção. O eterno retorno talvez seja um tormento filosófico, contudo nos sacode e atrai a permanência redefinida.

O mundo desenhado e escrito toca em segredos e adivinhações. Quem formula teorias deveria saber que são efêmeras, não duram mais que um pesadelo. Há lembranças. Quem fecha a porta para as reflexões de Rousseau, Camus, Hegel, Goethe, Freud e tanto outros? Elas vão e voltam, recarregam as sintonias do tempo. Ninguém é senhor absoluto da memória. Ela é seletiva e instigante. Deitamos nos sofá do psicanalista, passeamos pelas esquinas das ruas da infância, construímos identidades que se transformam. Por vezes, nos desconhecemos, quando parecia que a equação da existência seria resolvida sem angústia. Somos seres de exílios e perdões. Não há mapas que configurem as trilhas que percorremos.

O futuro se estende. Quem sabe o juízo final aconteça e assegure que Deus não perdeu seu reinado e sua famosa misericórdia? A perplexidade não se aquieta. Quem conta a história não dispensa a experiência. Achar que tudo se resume à  extensão do arquivos e as metodologias dos acadêmicos é perpetuar hierarquias. As palavras e as imagens se completam. As contradições dizem das lacunas, das divergências, dos desafios. O que cansa é a violência do cinismo persistente. As perdas respondem perguntas. Algumas perdas testemunham as vacilações de quem ainda rascunha paraísos. Outras estão próximas de nós. Desmancham-se em agonias ou projetam o encontro com o inesquecível. As peças do jogo também adormecem, entrelaçam sonhos.

 

 

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