Os deslocamentos da cidade e a memória descuidada

A cidade é nossa grande moradia. Não podemos deixar que ela se inviabilize. O crescimento da população é constante. Os centros urbanos compõem-se de multidões que agitam o cotidiano. A rua é cenário de acontecimentos diversos e inesperados. Estamos no fluxo contínuo de novidades e de ofertas. Mas as carências não se ausentam. Por detrás de muito consumo, a miséria ainda sobrevive em lugares que, aparentemente, deveriam consolidar igualdades. No entanto, os disfarces é que se ampliam. Há muita aflição nas competições e vontade de aumentar o volume dos cartões de crédito. A sociedade move-se, muitas vezes, sem lutar contra exploração, buscando resolver suas urgências no individualismo mais mesquinho.

As mudanças registram-se e confrontam-se com a memória. Quem passa um tempo fora da sua cidade, sente que algo estranho sucedeu e a perplexidade se levanta. A velocidade corta a reflexão. Onde havia espaços com sombras para conversas, hoje existem prédios articulados com as tecnologias e os modismos mais atraentes. Os olhares refazem-se. É preciso compreender que a vida corre solta na especulação promovida pela grana e pelo vasto arsenal de promoções imobiliárias. É difícil acompanhar os projetos e decifrar os segredos dos pactos entre o público e o privado.

O tempo se vai e a paisagem sofre radicais intervenções. Não adianta contar os anos. Hoje, bastam poucas semanas para as construções se estruturarem. Onde havia um cinema, surge uma Igreja ou uma grande loja de eletrodomésticos. Não faltam opções para os investidores. Eles não querem perder o ritmo. Tudo isso é visível, não se faz dentro de labirintos. As cartografias se redesenham com traços improvisados e agressivos. O que recordar? Quais são os pertencimentos que, ainda, me tocam? Não é um desperdício tentar configurá-los com valores que abandonaram a história? A nossa moradia desfia sentimentos.

Mas a lógica do custo/ benefício continua fascinando. O desprezo que se dá às questões afetivas mostra como o desencontro é imenso. Não é à toa que a sociedade se enche de drogas nas variadas ações. Se não temos nossas referências, a solidão traz fantasmas. Não aquela solidão que instiga a autonomia e a contemplação. O que persiste é o isolamento e o culto aos privilégios. As fantasias do concreto armado seduzem. A casa representa status e não aconchego. A vida em torno do trabalho justifica os esforços para festejar conquistas monetárias. As conversas, as intimidades, a leveza  se perdem. Vale a superfície e o faz de conta.

A fragmentação avassaladora dificulta a crítica, localiza em detalhes. Não há o cuidado em formular argumentos que  não se descuidem de visualizar o entrelaçamento das relações. Se a cidade não cria lugares de sossego, mas só exalte a força da grana e do lucro, esvazia-se a memória. Ela se reduz à celebração de exposições fotográficas ou as questões metodológicas de pesquisa. Para que a história se anime, flua, as narrativas não devem perder espaços de encanto. Passado e presente são estradas de diálogos e não, apenas, de estranhamentos.

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4 Comments »

 
  • Zélia disse:

    Gostei bastante. Trocou por palavras sentimentos e sensações que me/nos envolvem ao trafegar pela cidade, por esse Recife ainda de muitos contrastes. Quando conheço espaços e ruas por trás das grandes vias me surpreendo admirando casas, residências,e até praças (abandonadas) resquícios de um tempo familiar, e lembro que fazíamos festa de aniversário na sala, na varanda, no quintal, cada um trazia um prato, e a gente se divertia sem precisar de capa de cadeira com laço de fita.
    Historiar o Recife ainda me encanta.
    Grande abraço, Antonio Paulo.

  • Zélia

    A cidade nos envolve muito. Gostei do que disse.
    abs
    antonio paulo

  • Franz disse:

    É triste perceber que tudo se perde como grãos de areia à força do vento fustigante. O que permanace é somente a memória, com as recordações do que ficou esquecido no tempo.
    Tô quase desistindo de tudo isso!

  • Franz

    As escolhas sociais dos dominantesdesmontam as iniciativas de solidariedade, mas não há dominação absoluta.
    abs
    antonio

 

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