Diálogos, escritas, esportes: encontros com a vida

Escrever é manter-se vivo e esperto. Pelo menos, assim penso. Gosto das palavras. Não vivo das suas abstrações, não as vejo como sinais ou rabiscos. Elas expressam sentimentos, experiências, projeções. Poder parecer um exgero, mas as palavras conduzem culturas e instituem valores. Escrever é dialogar, é uma afirmação da sociabilidade, esteticamente digna de celebração. Quando me sento para segurar o cotidiano do blog, teclar, imaginar temas, colocar opiniões, o mundo se descortina.

Não quero o desejo exclusivo. Quero que ele circule. A intimidade com a escrita se amplia, quando você a divide com os outros. Sem a magia da comunhão, ela se esvaziaria. A informática agilizou a comunicação, mas também produziu fragmentações. Um novo processo de alfabetização que estende pelo planeta, com cartilhas virtuais, apresentando signos desconhecidos. Longe estamos das cavernas, das máquinas de escrever, das canetas BIC, de sucesso sem igual. Tudo converge para os verbos gerados pela  epidemia dos computadores.

Deletar, formatar, configurar. A linguagem se multiplica, ensaiando outras   expressões. O blog tem majestade e seguidores. Universaliza-se. Reforça contactos. Inspira. Todos têm o direito de fundá-lo e se lançar para o movimento da internet. Fiz um, com finalidade de falar de futebol, fugindo do lugar comum. Aliás, meu objetivo é mais profundo. Mexo com os entrelaçamentos da cultura, anunciando ou se deslumbrando com as suas invenções.Não deixo, porém, que a bola fique longe das suas travessuras.

É importante não perder de vista as redes que se formam.Numa sociedade de multidões, nada garante que a solidão não apareça e tumultue as escutas da interioridade. São contrapontos velozes, como aquele ataque fulminante da seleção brasileira de 1970. É impossível ler os significados da cultura, na perspectiva de exauri-los. Como decifrar os eixos dessas disputas entre Brasil e Argentina? Com definir certas antipatias ou paixões embrigantes? Somos remetidos a perguntas, sempre que acreditamos haver esgotado os temas e os projetos.

Saber desenhar as curvas é um desafio. Achar que tudo é uma linha reta, é uma melancolia. O mundo dos blogs está cheio de curvas. As informações vão e voltam, se desfiam, em instantes, provocando inseguranças. Cada época possui seu ritmo e modo de ser. A derrota para o Uruguai, em 1950, não se assemelha à despedida do Brasil, da Copa de 2010. Quem torce pelo Santa, depois da sua entrada na série D, fica perplexo com as vibrações do penta. As coisas estão muito misturadas, as dualidades em crise, as cores remodeladas.

Os esportes que curtem velocidade, ocupam espaços privilegiados. A fórmula 1 atrai telespectadores e patrocínios milionários. No futebol, se exige rapidez e muita marcação. A medição  das máquina avança. Calculam-se as distâncias, os tempos incríveis das bolas de tênis, a quantidade de passes errados. A tela exalta o pecado e, muita vezes, nega o perdão. Livrar a sociedade das suas contradições, nem com bolas de cristais, nem com os gênios d ‘As mil e uma noites. As reviravoltas se dão em segundos. As palavras descrevem os temores e as conquistas. A escrita termina revelando tensões, mas sossegue. As trilhas da vida se refazem.

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4 Comments »

 
  • Magaly disse:

    As melhores transposições, acredito, acontecem quando se vive intensamente aquilo que se tenta traduzir por palavras. Não posso usar verbos para falar de dores que não sinto, quer dizer, até posso, mas certamente eles irão ficar murchos, vazios… Da mesma forma funciona com a alegria, com os sonhos, enfim… Com tudo que nos rodeia. Escrever é isso, é conseguir transformação! Conseguir a comunhão das palavras, criar sentidos, dualidades, interpretação e, principalmente, sentimentalismo! Não há bom escritor que não sinta tudo o que escreve…

  • Rosário disse:

    Antônio Paulo,

    Não posso deixar de pensar em Pamuk ao ler seu texto, pois penso que escrever tem a ver com partilhar nossa dose diária de literatura.
    E nessa partilha da escritura, fazemos um brinde com leitores. Brindemos!
    Esse brinde não estabelece fronteiras e por isso trago Gabriel Garcia Márques para brindar conosco. Eis, o que ele diz sobre o escrever:

    “En cada línea que escribo trato siempre, con mayor o menor fortuna, de invocar los espíritus esquivos de la poesía, y trato de dejar en cada palabra el testimonio de mi devoción por sus virtudes de adivinación, y por su permanente victoria contra los sordos poderes de la muerte.”

    (Gabriel Garcia Márquez – 1982)

  • Magaly

    As escritas falam da vida quando batem no coração. Aproximam, criam laços. Por mais íntimas que sejam, trazem uma conversa com o mundo. O último livro de Pamuk, Outras Cores, traça boas reflexões, sobre o tema.
    Gostei do que afirmou e concordo que a vida anda abraçada com as palavras, quando sentida e não mascarada.
    Grato pela leitura
    um abraço
    antonio paulo

  • Rosário

    Gabriel é um mestre, mas sua sensibilidade é também muito especial. O brinde é a abertura para conviver. Isso falta, no mundo da competição e do disfarce. Grato.
    abraço
    antonio paulo

 

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