A exaltação da quantidade, a perda da leveza

Quem escreve se comunica e recebe respostas, mesmo indiretamente. A escrita é uma longa conversa. Passa pelos movimentos do eu e suas questões. Somos, então, nossos primeiros leitores. Ficamos perplexos com afirmações que saem lá de dentro. Estavam trancadas, escondendo rebeldias ou decepções. Por isso, há raciocínios que se repetem. Os incômodos não abandonam quem gosta de duvidar e refletir. Há muitas contradições. As palavras denunciam, despertam sentimentos, mostram que os sonhos moram juntos dos pesadelos. Diante da multiplicidade do mundo, resta cuidar de analisá-lo, questionando certas permanências e alertando para os cinismos dos poderosos.

O Brasil se livrou das profundidades das últimas crises econômicas. Não pulou todos os obstáculos, porém ganhou animação. Os discursos de Lula trouxeram entusiasmos, ecoaram com força. Não falta  o entusiasmo dos  seguidores. É importante não se desfazer do amor próprio, ativar um olhar otimista e relativizar dificuldades. Lula tornou-se conhecido internacionalmente. Uma estrela da política, com a vida cantada em prosa e verso. Cumpriu seus desejos de levantar o orgulho e mostrar ousadia. No entanto, o Brasil possui desigualdades radicais,  problemas cruciais nas relações básicas. As condições de moradia, saúde, educação, transportes são precárias. Não é correto disfarçar o cotidiano pesado da maior parte da população, só porque houve aumento do consumo.

Não devemos fechar os olhos para as greves que estão ocorrendo. Em Minas Gerais, os professores marcam presença. Não voltam atrás. As insatisfações multiplicam-se. Os salários ridículos desmotivam. Como querer ser educador no sufoco das prestações, sem sentir que os governos priorizam investimentos na área? Não bastam computadores nas escolas, nem testes frequentes de avaliação. A produção do conhecimento requer tempo, sem o corre-corre para dar conta do horário. Portanto, fica impossível falar de mão-de-obra competente, num quadro desestimulante. Não é, apenas, Minas que convive com as adversidades.

Como acreditar em projetos administrativos gigantescos se os governos preocupam-se, pouco, com a exaustiva jornada de trabalho e, muito, com os efeitos da propaganda das obras? A Copa de 2014 promete revolucionar. As cidades buscam verbas e se defrontam com greves na construção das arenas. Há atrasos, suspeitas de gastos excessivos e trabalhadores amontoados, varando madrugadas. Com certeza, serão excluídos de assistir aos jogos, devido ao alto preço dos ingressos. Ninguém toca no assunto. O negócio é atender as exigências da organização do evento. Deixa o futuro chegar, apagar as agonias, pois a festa será monumental.

Não se trata de pessimismo. Os rituais da sociedade também não recusam alegrias, nem divertimentos. Salve a possibilidade de haver emprego! No entanto, as estatísticas esclarecem e enganam. A modernidade fortaleceu a concepção de progresso, voltada para a acumulação. Há exemplos históricos. O que sobra para viver? O quanto as jornadas de trabalho atingem boa parte do dia, sem contar o trajeto do transporte? E os momentos para entrelaçar as afetividades? O fim do dia anuncia cansaço e a espera da madrugada para reiniciar as atividades. Não é toa que Suape não anda no pique que se projetava. Lá os incômodos não se foram. A tensão não é gratuita. O corpo padece, não é uma máquina.

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6 Comments »

 
  • Monique disse:

    É verdade, meu caro.
    Infelizmente, a propaganda passou a ser mais exaltada do que as consolidações das propostas.Investir numa boa educação está além da quantidade de escolas e creches.E quem manterá essas estruturas?
    O Brasil está ameaçado por uma imensa falta de professores.Com estímulos zero, ninguém mais quer ser professor.Esse profissional deve ter de volta o RESPEITO da sociedade,pois são eles os pilares de toda uma boa estrutura social.
    As perfumarias da Copa 2014 pedem gastos altíssimos, bem como corrupção e desvio de verbas das obras.Mas o futebol é o ópio.
    Porém, os trabalhadores em greve são a chama da esperança de que ainda há a resistência, nem tudo são flores e que é preciso sempre estar a tento e lutar contra os desconfortos.

    Abraço Antonio!

  • Monique

    Não se cuida mesmo do que é fundamental. Não dá para acreditar em que não investe em educação e saúde. É terrivel.
    abs
    antonio paulo

  • Marcelo de Barros-História-bacharelado 2 périodo disse:

    Gostei muito do texto,é concordo que o aumento do poder de compra não vai conseguir transformar a sociedade brasileira como seria se houvesse maior investimento na educação,como é sugerido no texto.
    Realmente é revoltante o descaso que acontece no brasil,na minha opinião a Educação resolveria TODOS os problemas do brasil,problemas que são tratados na marcha da maconha,GLS,movimento negro,MST,entre outros,mais a maioria desses movimentos e da sociedade só vê as suas causas e esquece que a educação é a causa em comum.Na época ditatorial,havia gente de todo tipo lutando por um ideal,e,até hoje exaltamos a força desse movimento,com suas músicas,jornais,hoje agente vê uma juventude que têm tanta causa,e ao mesmo tempo,não têm nenhuma.

  • Marcelo

    Realmente, é um descuido grande confundir consumo com felicidade. Há muita coisa marcada pela desigualdade e que precisa de atenção. Mas a propaganda ilude.
    abs
    antonio

  • Ana Renata disse:

    Por isso que se faz necessário,que nós como seres racionais nos mantenhamos atentos para o que a propaganda está a anunciar é preciso um olhar crítico a tudo.
    Abraço!

  • Ana

    A atenção é importante. A pressa dificulta a reflexão.
    abs
    antonio

 

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