Os ditadores: delírios, desamparos, solidão

O tempo passa, mas os governos não ganham a forma das muitas utopias sonhadas. Elas servem para inquietar e promover rebeldias. Denunciam desmantelos frequentes. Trazem reflexões que incomodam os dominantes. A socialização do poder é um desafio. Nem as revoluções contemporâneas conseguiram ultrapassar certas práticas do passado e tivemos várias experiências totalitárias em pleno século XX. Foi uma frustração, depois de tantas mudanças no pensamento e na ciência. Os anúncios de críticas ao capitalismo e suas mazelas ficaram no discurso. As ditaduras mostram a vontade de coagir e de evitar a diversidade cultural. Elas não desapareceram.

A questão não se restringe aos desmandos da política. As escaramuças, no Oriente Médio, misturam crenças com corrupções, assassinatos com promessas de salvação nacionalista. Kadafi resiste, mesmo com as sanções da ONU. Considera-se uma messias, eleito para levar os líbios para a casa dos anjos. Já recebeu apoios claros de quem, agora, o condena. Essa confusão distrai o sentido da política e das possibilidades de fugir das censuras absurdas. De repente, os interesses são outros. As explicações não convencem, a moeda de troca é particular e traiçoeira. Há sempre discursos, análises, planejamentos. Não faltam farsas, apesar dos protestos.

Os últimos dias de Hitler , no poder, demonstram a solidão e o delírio. Todos seus adeptos, mais íntimos, esperando dele milagres. Uma infantilização que causa medo, pois são processos que se repetem. Um líder termina conquistando e refazendo emoções de parte da população, perdida nas  escolhas. O caso da Alemanha não é único. O nazismo foi cruel, seu comandante, arrogantemente, prometia o infinito. Outros, também, acionaram ilusões e não dispensaram a força. Lembre-se de Mao, Médici, Franco, Mussolini, Stálin… O museu é grande, com admiradores que não cansam de visitar seus ídolos e buscar cura para os seus desamparos. A autonomia não é fácil, por isso muitos entregam a responsabilidade de viver nas mãos de quem se oferece com aparente espontaneidade.

As épocas se distinguem, porém se tocam em semelhanças. Tivemos os grande impérios da Antiguidade, as megalomanias de Napoleão, as longas estadias de Vargas no governo central do Brasil. São exemplos de tempos, com práticas sociais diferentes. As questões do exercício da autoridade e seus limites persistem. Nem todos se arriscam na política. Escondem-se no silêncio, com se a omissão não significasse nada. Os horrores das guerras mundiais não se deram por acaso. Há quem invista e configure eternidades. Outros adormecem nas glórias que lhes são oferecidas. Desconhecem os caminhos da história ou abraçam covardias remotas.

No mundo atual, os olhares sobre o passado não têm continuidades. A ligação com o presente é forte e cega. As conexões são jogos da internet, não perturbam os acomodados. As experiências humanas estão pedindo que os olhares sejam mais contemplativos. As atrocidades da nazismo não devem ser entendidas como armadilhas de um só homem. Ele possuiu apoios. O mesmo pode  afirmar-se de outros genocídios que se espalharam pela história. Por que o uso da violência é constante? A cultura não é o leito do sossego. Comunga , também, com pesadelos.

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4 Comments »

 
  • Julio Cesar Silva disse:

    Nossas revoluções sempre são encabeçadas pelo alheio, pelo incogniscível,pelo impalpável. São sempre revoluções acéfalas… o sonho, a utopia de que um amanhã mais justo e fraterno é possível certamente revigora as energias do esperar, mas até quando? Será mesmo que somos o ápice de uma realidade apenas compreendida por nós? As ditaduras, como colocado na reflexão, se apoiam em outras estruturas que não a daquele que as encabeçam; são partilhadas, convivem no mesmo cérebro que sonha, que vislumbra dias melhores. O desespero do amanhã melhor nubla a visão, confunde a mente, torna o regime de exceção, repudiado pelos homens livres, a única saída para corações famintos de esperança, em qualquer esperança. Hitler, Mussolini, Stalin, prometeram concretizar sonhos, utopias, em nome do engodo, da farsa que eram suas personalidade arrogantes e narcísicas. A revolução sempre é acéfala, nunca é encabeçada por aqueles que se propõem a mudar, esperam sempre que alguém dê o primeiro passo… e as incoerências prosseguem…

  • Júlio

    As revoluções terminam não executando seus planos, ficam no discurso e produzem censuras.
    Os ditadores surgem no vazio político, com uso marcado da violência.
    abs
    antonio paulo

  • Gleidson Lins disse:

    o gosto pelo poder estimula a contestação, seguida pela tomadae manutenção do poder, que não tendo mais poder a conquistar entra em declínio. Os meios são diversos, mas os fins são sempre os mesmos: o domínio. Criam-se políticas, filosofias e idealismos com o objetivo final comum de se estar no topo. Essa vontade permanece apenas latente na maioria dos indivíduos, mas alguns a liberam e utilizam todas as artimanhas e forças possíveis para ditar os destinosdos demais e com isso gozar de poderes e prazeres impalpáveis aos demais. Estando no topo agarram-se até o último suspiro ele. Imaginemos se todos os indivíduos deixassem de ser latentes… a humanidade já estaria extinta.

    Abs,
    Gleidson Lins

  • Gleidson

    Muita coisa seria resolvida se a democracia se instalasse, mas ficam os desejos de cargos e glória. Chega o individualismo e interrompe o seguir das utopias.
    abs
    antonio paulo

 

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