Os espelhos de Alice não se quebram, somem

Hoje é dia de andar. Não olhe  para a cor do firmamento. Não se ligue nos desconfortos da preguiça, nem na ressaca da noite sem sono. Andar, aqui, é sinônimo de sonhar. Se sacudiram bolinhas de papel Chamex, se encheram os e-mails de boatos e calúnias, se quiseram consagrar golpes e medos, se os debates não esquentaram os ânimos, tudo isso se torna lembrança passageira, diante da imensa tatuagem que a política não cessa de desenhar em nossos corpos.

O importe é ter cuidado. Preparar a consciência, articulada com a sensibilidade, sem o peso das exatidões das matemáticas, meramente, classificatórias. Preparar o caminho, sabendo que não é único, mas que somos partes decisivas, do seu ponto de chegada e de partida. Não estamos solitários, nem o inferno são os outros, como disse Sartre. Repartir a vida é uma dádiva. Socializar projetos e alargar conquistas culturais merecem atenção contínua.

O voto não é o instante mínimo da arte. Estende-se como um concerto de Vivaldi. Possui melodia. É dançarino. Não mecânico, se agrega às permanências das ações sociais. Da sua firmeza e compromisso dependem anos de convivência e frustrações, diante dos azares das escolhas. Não há como fugir. A história nos pertence. É circo construído com as nossas lonas, com o nosso poder de divertir-se e desmontar-se.

Os tédios, os desencantos, as ansiedades, os desesperos, as paixões fazem a complexidade nunca resolvida dos corações e mentes, dos movimentos do tempo. A política não é estatística fria. É invenção humana. Seus dramas tem escritas imginárias, mas passam pela concretude das necessidade mais imediatas. Estão carregados de desejos. Somos nós e nossas personagens. Focar no egocentrismo é uma atitude menor, por mais que o capitalismo nos conduza a magia do consumo.

Alice resolveu enfrentar as maravilhas e as esquisitices de outros mundos. Não esquecia o que era ela, o tamanho da sua identidade e  o valor das respostas. Viveu a aventura sem se omitir. As relações somem, os espelhos mudam suas molduras, porque a aventura humana é incerteza. É jogo, fuga, fogo, voo, esperteza. A linguagem nos torna poderoso para falar de tudo, sem , contudo,  inventar a sentença final da história. Cabem as especulações.

Simultaneamente, podemos viajar e se desfazer do agora. Visitar as outras experiências. Imaginar a era das revoluções, a amargura das grandes epidemias, a insensatez da bomba atômica, o desequilíbrio arrogantes dos grande impérios, a vontade de afirmar o coletivo. Isso é um sinal de autonomia. Acende desejos e não sossega. O pertencimento ao cosmos é mistério, mas desaparecer das suas aventuras é mergulhar num oceano, apenas, de turbulências.

As luzes das estrelas  iluminam e não pedem nada em volta. O mundo se veste quando se concilia com o abraço. As astúcias de Ulisses circularam, com se nada tivesse começo, nem fim. Ilusão. Elas queriam nos dizer que nós moldamos na argila, o retrato do que a vida trará. Vale pensar. Andar é sentir que cada passo compõe um poema de carne e osso. Dele depende o desenho da coragem ou das asas da impaciência.

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