Os espelhos do mundo e os desenhos inesperados

Conviver significa tentar firmar sociabilidades. Tudo parece simples se as pessoas estão próximas e comungam dos mesmo hábitos. Mas tudo se move com muita rapidez. Estranhamos atitudes antes inaceitáveis. Elas quebram éticas, desmancham tradições. A sensação de medo não deixa de está presente nas mudanças repentinas. Não há como prever ou estabelecer estágios de aprendizagem. Com a velocidade sempre crescente, as sociabilidades carecem de referências. Muitas vezes, perguntamos a que mundo pertencemos. A crise de  valores não se espreguiça, Ela é avassaladora. Temos, então, decifrar códigos num urgência alucinada. As fronteiras se diluem sem pedir licença.

Não estamos falando de revoluções contínuas. O pior é que as transformações, às vezes, expressam confusões e misturas. O diálogo passa por inúmeras intermediações. Há uma manipulação incansável que sustenta modos de dominação. Com o auxílio de tecnologias complexas, o capitalismo investe para não abandonar sua supremacia e mascarar suas contradições. Surgem instituições que apostam no engano. Há espelhos que chegam do passado. Há, porém, manobras que os refazem e os transformam em novidades salvadoras. Não é à toa que a política se envolve com o desgoverno, que os esportes tornam-se espetáculos internacionais.

A surpresa pode desenhar assombrações. Ela cria ambiguidades. Sua força maior se concretiza quando consolidar exclusões. Quem não se seduz pelas suas novidades, sentem-se fora do mundo. Portanto, a crítica e a reflexão são muitas vezes ridicularizadas com o objetivos planejados. O negócio deve prevalecer com seus lucros. A medida é a acumulação imediata, mesmo que a fragilidade se esconda. As bases das mudanças não se fazem com certezas, no entanto elas não dispensam o sabor e o saber das minorias. O gigantesco movimento da exploração não é um mal estar que sacode os inquietos. Ele é administrado com cuidado para evitar rebeldias. O avesso é a moldura do espelho.

A sequência da história se entrelaça com as concepções de tempo. Elas variam muitos. Não dizem, apenas, as abstrações. Quem a restringe a mecânica dos relógios perde-se. As idas e vidas necessitam que a imaginação se acenda. Num mundo com a soberania das sombras as repetições não descansam. O desafio é não adormecer nos modismos cotidianos, A desconfiança atiça. É preciso decompor, onde a homogeneidade se mostrar soberana. É preciso paciência onde os ruídos negam a esperteza dos silêncios. A transparência absoluta não é possível, mas a dúvida escreve-se na própria história do paraíso.

Não custa viajar para o passado, não desprezar os seus mitos, observar como tudo se relacionar. Fixar-se no presente é não compreender as razões da permanência dos espelhos. Impacientar-se para acompanhar as sociabilidades permite afirmar o registro da superfície, enturmar-se para não sair da roda-viva do destaque. Avistar as controvérsias, discutir, indagar sobre o afeto são aprofundamentos solenes. A história sossegada é uma armadilha, se as concepções de mundo que prevalecem justificam e naturalizam a desigualdade. Não é doentio olhar a imagem do espelho. Ela contém a perplexidade do rosto, os vestígios da pressa, os conformismos sedimentados e a abertura para ultrapassar  as visões desmoronadas.

You can follow any responses to this entry through the RSS 2.0 feed. You can leave a response, or trackback from your own site.

Deixe uma resposta

XHTML: You can use these tags: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>