Os Estados Unidos e os contrapontos cotidianos

Obama sente o gosto amargo da queda da popularidade. Não esperava tanto desequilíbrio no país que o elegeu. As pressões são muitas e os republicanos  fazem acusações. Ele estava com outras expectativas. Sonhava com uma consagradora recepção internacional, permanentes elogios e críticas serenas. O capitalismo passa, no entanto, por momento de sufoco. Ele é governante de um poderoso representante dos interesses das corporações que invadem o mundo. Não poderia se ausentar, como um inocente sem pecado original. Portanto, navega em embarcações cheias de furos, como os líderes europeus, tentando resolver as finanças carcomidas.

A existência de crise não significa o anúncio do caos. Ela redefine estratégias, joga fora certas práticas viciadas de mesmices apáticas. Não estamos na época das revoluções. Há desconfianças e restam autoritarismos soltos, apesar de toda exaltação à democracia. É importante não morrer e respirar. O mapa não é o território, mas há espaços para arquiteturas renovadoras e desenhos de fronteiras flexíveis. Não há sentido firmar velhas soluções, quando surgem tantas tecnologias e as sociabilidades desejam se livrar de tradições. A sociedade de consumo possui suas aberturas.Não é,apenas, um desfilar de modas. Ela traz o crescimento de outras geometrias e gramáticas.

Barack Obama vivencia suas frustrações, porém não é a síntese da cultura norte-americana. Há rebeldias antigas que precisam ser lembradas. Os negros lutaram contra preconceitos, promoveram protestos e redefiniram comportamentos. A história dos Estados Unidos não se restringe a glórias militares ou a concentrações de riquezas deslumbrantes. Onde ficam, então, o jazz, o cinema, os movimentos na cultura, a literatura de Auster e Hemingway, as audácias de Woodstock, as conquistas no campo das ciências? O olhar fragmentado é perigoso e as análises centralizadoras concretizam conclusões mesquinhas.

A sociedade não cultiva paralisias asfixiantes. O mundo político norte-americano está além das disputas entre democratas e republicanos.  Obama se centra na vida partidária, mas reconhece que ressurgem alternativas. Ele move-se por outros caminhos para recuperar sua forma e intimidar seus adversários. O índice de desemprego assusta a população, corta sonhos e desfia o mito do progresso contínuo. Desenham-se possibilidades que se amarram na formulação de práticas políticas, desconfiadas da mídia e da propaganda oficial. Os desmantelos econômicos se globalizam, são buliçosos e traiçoeiros. A Europa vive, também, insônias intermináveis.

Por que não atravessar os abismos construindo pontes fora de representações parlamentares e de discurso tradicionais? Não há uma necessidade de respirar longe da atmosfera da razão cínica, da mesmice secular de teorias arrogantes? A imprensa costuma enfatizar as personagens destacadas pelos núcleos de poder dominantes. No entanto, sobram notícias que apontam para deslocamentos sociais instigantes. Eles começam a ser vistos como situações que merecem atenção e aprendizagem. O Tea Party e o Ocupe Wall Street agitam os debates nos Estados Unidos. Traçam trilhas diferentes, porém acusam o sistema e desnudam explorações. Uns afirmam nostalgias conservadoras, outros se colocam na renovação. É fundamental que as sociedades transgridam e aprofundem a reflexão sobre a ordem que as dominam. As aventuras das histórias se reconfiguram quando as verdades comuns perdem sua sacralidade.

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