As redes sociais: ruídos das imagens e dos espelhos

Os animais sociais não deixam de instituírem suas linguagens. Nós estamos na circulação do tempo, inventamos travessias e sinais para realizá-lo. Não há razão para nos assustarmos com as mudanças ou querer uma comunicação, sempre, marcada pela manutenção dos hábitos e técnicas. Os sofistas tiveram sua época, dialogaram numa Grécia com questões políticas fundamentais para refletir sobre o humano. Cervantes contruiu uma história que, ainda hoje, possui espaço soberano na literatura. A contemporaneidade se veste de imagens, celebra a sociedade do espetáculo, acumula mercadorias, dança ritmos estranhos para quem viveu no começo do modernismo. As diferenças culturais não cessam, compõem as hierarquias, mas alimentam sonhos e interroga pesadelos.

Não dá para excluir a comunicação da sociabilidade. Seria uma incoerência sem medida. Existem, porém, formas que transitam pela história que se renovam ou se disfarçam configurando rupturas aparentes. Não custa registrar que as tecnologias ditam normas e se articulam com o discurso do poder. Elas influenciam nas relações sociais, estabelecem caminhos de verdades, mostram os espaços da solidão e da euforia. Com a transformação do mundo numa aldeia global, as afetividades e as tradições se redefiniram rapidamente. Há quem desconfie se elas persistem ou se fragmentaram. Talvez, tenham traduções que não conseguimos enxergar, confusos diante de tantas coisas descartáveis.

Portanto, vamos a busca de sentidos, tentando navegar em outros oceanos. A comunicação oferece meios indispensáveis para manter o fôlego da cultura. Temos muito que dizer mesmo no mais esquisito silêncio. Não é à toa que as linguagens se multiplicam. As redes  sociais aceleram mudanças imaginadas em ficções científicas. Nem todos acompanham o ritmo, nem desejam entender o que acontece. No entanto, a grande maioria observa que a política, a sexualidade, a competição, os sentimentos procuram desenhos desconhecidos. Não se ausentam do que pedem as novas linguagens, criam sobrevivências urgentes.

Sempre, insistimos que as permanências são parceiras das mudanças. As andanças da comunicação buscam companhias, se desfazerem da mudez,  sugerirem o fim de ressentimentos. As redes sociais trazem o perfume da tecnologia do efêmero, não deixam de ornamentar vitrines. Para isso, existem fotos, poemas, sabedorias. lamentações… Elas não penetram, apenas, nos sentimentos atuais. Promovem respostas para as necessidades que se arrastam, com outras manipulações. Nos facebooks, também, se formam feudos, preferências, preconceitos. A curtição e o compartilhamento provocam divisões, concepções de convivência que mascaram antigas tradições. Há esconderijos que o vitual manobra com habilidade. Os paradoxos apresentam-se não impedindo que muitos se divirtam e cultivem banalidades.

Não podemos fixar o determinismo. O vaivém da história é conhecido. Uma sociedade que festeja o valor de troca não construiria uma comunicação que não legitimasse a força das  invenções. É preciso analisar que a cultura não se faz sem objetos. Eles interferem nas relações, consagram especulações sobre o futuro. As invenções distraem, enganam, mas também  indicam que os comportamentos arquitetam solidões e amores que, ainda, não foram vividos. Esquecer que as coisas se infiltram nas memórias e nos projetos, é desmontar a complexidade da cultura. A ambiguidade é um terreno perigoso, porém persistente.

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8 Comments »

 
  • Quésia disse:

    Lendo esse texto foi impossível não fazer uma relação com o livro que estou lendo ” O show do eu”. As pessoas sentem necessidade de se mostrarem e de serem reconhecidas. Acredito que essa seja mais um mecanismo “pós-moderno’ pra disfarçar a solidão do mundo moderno.

  • Thiago Augusto Teixeira de Araújo disse:

    É verdade, Quésia, eu penso igual. A pós-modernidade não para de gerar filhos e o Facebook é o grande parque de diversões onde todos se (des)encontram…

  • Quésia

    Há mesmo uma busca de se esconder da solidão. Faz parte dos nossos tempos. Mas também as solicitações são muitas e as vaidades desmesuradas. Ser só ajuda, muitas vezes, a mergulhar na vida.
    abs
    antonio paulo

  • Thiago

    O face tem muitas alternativas. É um lugar de encontro do nosso tempo. É bom senti-lo e saber seus limites. No entanto, o preconceito pode obscurecer muita coisa. A vida é encontro. abs
    antonio paulo

  • Jonas dos Santos disse:

    Grande visão de nosso cotidiano.
    Abraço!

  • Jonas dos Santos disse:

    “É um lugar de encontro do nosso tempo”.
    Assim como hà bem pouco tempo atrás as pessoas se encontravam na pracinha, no Recife Antigo, no cinema…

  • Jonas

    Definiu bem. abs
    antonio

  • Jonas

    O cotidiano é amplo e não tão comum como dizem.
    abs
    antonio

 

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