Os ídolos e o passado envolvem o tempo e as paixões

Os  ruídos compõem a sinfonia da história. A dissonância não é inimiga da cultura, como também os silêncios e as carícias das brisas. Pensar na harmonia não é uma loucura. Ela é, porém, presença rara na sociedade contemporânea. Na pressa da convivência, as soluções clamam por urgência, nem sempre, por bom senso. Temos que criar modelos de comportamento. Existem os mitos, as crenças religiosas, os ídolos profanos, os mantras da salvação.

As sociedades tradicionais não se afastaram do ritmo das fantasias. Elas tinham outras configurações.Mas quem viveu sem adorações, sem inventar santos e heróis? Redesenham-se as linhas de ligação com o sagrado. Se, hoje, persiste o consumo, não significa que as preferências por certos mistérios findaram. Não há um progesso inevitável. Tudo se mistura. A nostalgia não fugiu da ficção e o passado pesa nas curvas  do corpo.

Os ídolos estão por aí. Soltos no mercado e nas mentes humanas. O cinema fabrica os seus, o futebol não sai da cena e a política reafirma seus ideais. Cada época constrói seu altar e seus ornamentos. As orações variam de acordo com o tamanho da idolatria. As torcidas levam cartazes, cantam gritos de guerras, aproveitam a vida e suas cadências. Há fracassos, insistências, fenômenos, fazeres ocultos.

Romário e Bebeto voltam a formar uma dupla de ataque. Nem todos conseguem, porém, o feito de Tiririca. Simone não teve cacife para transformar sua caminhada, nem tampouco o polêmico Vampeta. No entanto, a ida para política não atrai a grande maioria. Alguns preferem manter-se no seu lugar, cultivar a prudência. Temem descortinar insucessos. O risco possui rostos estranhos.

Lembro-me dos anos 1960. O golpe militar desfigurou as utopias, porém não apagou os ídolos. Os protestos se fizeram atuantes na música, na literatura, nas reuniões clandestinas. Lá fora, em muitos lugares, explodiram rebeliões contra a mesmice e proclamando o valor da imaginação. Acompanhava os protestos e os sentimentos. Beatles traziam mudanças nas sintonias, Woodstock abalou os alicerces cansados das  tradições. Os desejos ferviam na pele do universo.

A dureza da censura não impediu que as conspirações se prolongassem. Ninguém pode se fechar, sacudir a chave fora e dizer que a esperança desapareceu. A cultura é, também, um jogo. Não há garantia de permanência nas regras, porque a instabilidade não deixa decretar o fim das inquietações. Morrem ídolos, aparecem outros. Nietzsche, no século XIX, era um desconhecido. Agora, sacode as reflexões pós-modernas. Desadormece conceitos e interpretações.

Muitos ainda se movem como vivos ou mais do que os vivos. Elvis Presley encanta fãs de épocas diferentes. Marx serve de base para críticas ferrenhas ao capitalismo. Chaplin e Felinni guardam seu lugar no cinema. Sentam-se na primeira fila. Quem não se deleita com os acordes de Mahler, o jazz de Mile Davis, as audácias musicais soberanas de Piazzolla? Apagar certos ídolos ou não perceber que, na vida, pulsa transcendência, é diminuir o sonho. O sol cabe na mão de quem toca o mundo com os olhos. Mantenha-os abertos.

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