Os insistentes vestígios colonizadores

Os estudos futuristas anunciam mudanças na ordem internacional, o famoso rodízio histórico que alimenta as aventuras capitalistas. O Brasil, a Rússia, a Índia, a China despontam como potências. Não haverá transformações radicais. Continuam a exploração e a desigualdade. Como pensar uma sociedade voltada para o lucro sem desequilíbrios e privilégios? A Inglaterra já reinou durante séculos. Teve colônias e poder. Os Estados Unidos sofrem abalos, mas respiram, tentam não perder espaços. Obama enfrenta dificuldades até mesmo eleitorais. A Europa está metida em dívidas, com choques internos, alternativas escassas de se erguer. Os prejuízos tumultuam as relações cotidianas, enfraquecem as conquistas sociais.

A direção é o consumo. Não se discute o supérfluo ou o excesso. Acumular é um mandamento bem seguido pelos liberais, com justificativas consistentes para os que gostam de colecionar objetos e se mostrarem espertos nos negócios. O mundo está dividido, nem todos compactuam dos desgovernos, nem silenciam diante da fome e da violência. No entanto, as crises trazem outros ganhos, renovam espaços de concentração de riqueza e conservam ambições. Não estamos nos tempos das grandes navegações, porém a disputa por mercados aguça estratégias de dominação. A democracia é uma utopia no seu sentido amplo, contudo é sempre bom recordar os seus princípios.

Ter lugar destacado na ordem econômica anima muitos países. Ficam cegos e não planejam redefinir polìticas, atender às maiorias. Apesar de todo discurso tecnoburocrático, cheio de sistematizações e fórmulas, não dá para viajar nos ornamentos e se encantar com políticas de pão e circo. Há olhares históricos que devem ser retomados, repetições que desenganam. O mal-estar afetivo também compõe as organizações sociais. Não se restaura a vida com passeios a shoppings e individualismos crescentes. As previsões são funestas. A depressão já ameaça boa parte da população. O êxito material não garante alegria, pode afirmar decepções.

Muitos preconceitos permanecem acesos, com disfarces estranhos. Quantas guerras ainda existem no planeta? De que maneira são vistos os estrangeiros? A globalização da cultura significa troca de aprendizagens ou massificação galopante? Uma rápida análise da situação das populações imigrantes, na Europa, no revela tensões múltiplas. Parece impossível expulsar as hierarquias. Consagram-se vestígios colonizadores numa sociedade repleta de máquinas e descobertas científicas. A lógica do mercado é forte. As nações que se emanciparam, no século passado, lutam para firmar encontros com modernizações e derrubar autoritarismos. Quem desconhece a persistência de ditaduras ?

O desafio do historiador é observar a dança que ritma as esperanças e desfaz os desejos de escapar dos desconcertos. Enfatizar progressos localizados não é o caminho. Se há aproximações gerais, como torná-las movimentos de extensão de trocas favoráveis e não de construção de fetiches de opressão? Mudam-se os dominadores, porém os códigos de poder sustentam discriminações e asseguram as minoria no comando. Nunca o nosso mundo teve ao seu dispor tanta comunicação. E nunca foi tão dramática a nossa solidão.Nunca houve tanta solidão. E nunca nos visitamos tão pouco (Mia Couto). Há certas fobias que desmancham qualquer busca de imaginar o peso dos sentimentos na vida social. Por quê?

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