Os intelectuais: os avessos do mundo e da história

O cotidiano pede pressa. Muita informação, novidades soltas e vontade de não se fazer distante de tantas coisas. Amanhecemos já acelerados. Nosso olhar vermelho ignora até a vaidade. Pouco nos contemplamos no espelho, preocupados em ganhar tempo. Portanto, o lugar da reflexão diminui. O importante é ler as manchetes e ir para o mundo como uma máquina com uma imagem parecida com as fotografias de felicidade expostas no facebook. É preciso saber andar na vitrine, sem escorregões, como um exilado do último paraíso.

As aventuras da vida contemporânea exigem outros comportamentos. Não é que eles sejam totalmente estranhos. Na história, os tempos se comunicam e trocam simpatias. A memória não está desativada, nem o absoluto reina.  Platão, Agostinho, Kant, Marx, Adorno passeiam pelas nossas cabeças e desenham raciocínios. Há quem goste de repeti-los com certa arrogância. Nada de pensar que existe um progresso afirmado. As idas e vindas são muitas. Falamos do contemporâneo, contudo existem valores de outros passados que transitam em pleno século XXI. No entanto, os debates sobre a periodização continuam ativos, não há como esgotá-los, não há como evitar as distinções.

Os intelectuais não se foram. Vivem, ativamente, com opiniões e intromissões incessantes. Apesar da velocidade, a sociedade necessita de organização e os intelectuais gostam de transitar pelos planejamentos. Tudo, porém, tem seu preço.  As mercadorias desfilam nos corpos, nas lojas, nas conquista de poder. O capitalismo não para de se reinventar, mantendo a exploração e sofisticando o cinismo. Isso se configura, com a atuação dos intelectuais, nos centros de pesquisas, nos encontros acadêmicos. Não queremos admitir que todos seguem o ritmo da dominação.O  pragmatismo  reproduz verdades, aparentemente, inquestionáveis. Ele tem moradia fixa no nosso mundo e anda solto com sede e fome contínuas.

A presença dos intelectuais tem suas histórias. Elas se encontram, se distanciam, se conflitam. Imagine o que pensava Hobbes, Rousseau, Montesquieu, Hegel. Imagine os modismos de hoje, tão comuns nas teses e dissertações. Será que não há encontros? Até onde Freud não conversa com Foucault? Será que a filosofia grega virou tradição morta e inútil? O intelectual nem sempre foi assalariado, nem sempre trabalhou em empresas de consultoria. O mundo é outro, contudo a mudança nunca é radical. Como ressaltar o absoluto se todos são marcados pela incompletude? Sonhamos, transcendemos. A cultura estende-se porque as lacunas existem e são incômodas. A sociedade não dispensa seus mitos. Lembrem Édipo, Prometeu, Ulisses. Cada época busca modelos, traça utopias, se envolve com pessimismos e extravagâncias. As arquiteturas dos labirintos se transformam, porém há sempre que procurar saídas e costurar mantos. Os fios de Ariadne carregam metáforas que atravessam abismos e profecias. Nem sempre miramos o diferente. A nostalgia possui lugares e seduções.

Tecer o texto é sempre o desafio. Não adianta atiçar concepções lineares ou mergulhar no real fixo de identidades naturalizadas. O intelectual movimenta-se quando formula perguntas. Nem tudo merece respostas ou os mistérios evitam que a transparência se lance pelo mundo? Mais uma vez não custa reafirmar a incompletude. Podemos, nas nossas especulações, redefinir paraísos. Não à toa que Adão e Eva não saem das das lendas. Há uma atração pelas origens e também pelas fantasias. Temos poucas respostas, por isso que a inquietude não nos abandona. Portanto, não se aflija. As perguntas inundam a história, com remendos e magias que retomam antigos desencantos e culpas sacralizadas.

Picasso continua impressionando. Toda arte não foge de traçar respostas. O artista vive seu tempo sem exclusividade. Picasso multiplicou as formas, intrigou os acomodados, fermentou  os debates. Quantos admiram a obra dele? Quantos não observam no cubismo uma estética sem sentido? Qual significado da beleza numa sociedade representada pela força do valor de troca? Estamos, no século XXI, contudo muitos localizam a beleza na harmonia das formas, celebram a  habilidade dos gregos e finalizam recuperando tradições. Nada contra a arte grega, desde que não se eternize conceitos e se aprisione as épocas históricas.

Os intelectuais remontam suas escolhas e suas teorias. As divergências trazem a diversidade e as hierarquias. Os intelectuais, no Renascimento, possuíam mecenas, hoje se localizam na produção de mercadorias. Não estão longe dos interesses, nem dos compromissos mais superficiais. A ciência se articula com a técnica: eletricidade, bombas, higienização, computadores… A mídia conduz preferências, é uma fábrica que invade sossegos. A figura do crítico ganha prestígio e, muitas vezes, status especiais. O conhecimento não é nunca despido de articulações políticas. A notícia tem seus preços e destaque vale fortunas. O intelectual promove outros intelectuais. O mercado se abre e celebra o descartável, acende simulações, cria confusões, festeja agenciamentos bem sucedidos. Quem é mesmo o intelectual: o que produz ou o que escreve sobre o que se produz? Até e onde se concretizam  as corporações, qual a medida do sucesso, da extensão dos currículos? Quem determina a vitória e senta-se nos privilégios do poder?

Diante de tantas complexidades, as linguagens se misturam. São muitos alfabetos, leituras com sinais novos que se multiplicam. Não é exagero dizer que viver é interpretar, como afirmou Nietzsche. Cada gesto está repleto de significados. Os enganos acontecem. Quem celebra vitórias pode estar próximo do abismo,  cego com a exaltação do momento. As leituras são velozes e exigem sociabilidades efêmeras. Os sentimentos sofrem com  a fragilidade e as terapias inventam formas e saídas. As drogas atormentam e os governos tentam sistematizar ações que se diluem e terminam trocando o diálogo pela violência.

As sociabilidades mudam , mas não há a quase certeza de que as relações sociais aproximarão os indivíduos. O domínio do capitalismo é sinal de que as divergências continuam e a concentração de riqueza dita suas normas.Não existe uma sociedade com um só tom. As dissonâncias ganham espaços e trazem inquietudes. Ou não conhecem Piazzolla e Glass? Perturbam-se os que se julgam controladores invioláveis do poder. A história está cheia de exemplos de rebeldias ou também de frustrações que exterminam otimismos.

Como tudo exige uma leitura, a sensibilidade torna-se fundamental para dar consistência às possibilidades de mudança. Se predominar o olhar individualista, o mercado fortalece negócios que não animam solidariedades. Mas o artista, na sua criatividade, pode ultrapassar o lugar comum e sugerir alternativas. Nada acontece sem choques. O capitalismo cultiva a mercadoria com muito cuidado e o artista não pode vive apenas do fluir das inspirações mágicas. Funda linguagens, refaz geometrias, porém sua obra entra na dança da grana, pois é preciso sobreviver.

Estaríamos num abismo sem fim? Há brechas que não se fecham e o juízo final está flutuando desenganado. Os contrapontos trazem sensibilidades que atravessam o já consagrado. Mesmo que haja o jogo do mercado, os contrastes provocam transformação nos olhares. Dúvidas acirram e alimentam idas e vindas, coordenam desconfianças. E os movimentos de vanguarda do século passado? Observem como redefiniram tanta coisa. E Freud influenciando o surrealismo? A razão permanece com sua soberania indiscutível?

Há sempre dilemas. São as minorias que absorvem as mudanças mais radicais. As sensibilidades não sofrem metamorfoses urgentes. Os hábitos vão se construindo, numa pedagogia muitas vezes cansativa. A educação para o êxito e a exaltação do pragmatismo são obstáculos permanentes num mundo que não se cansa de produzir em função dos lucros. Se há uma mesmice que desencanta e adormece, massifica e amesquinha, nunca é demais entrelaçar as experiências e não se deixar levar pela acumulação ou as seduções do instante. Se a incompletude no coloca limites, fermenta também o inesperado.  As linguagens não se esgotam e desaparecem. É o vaivém dos tempos que redesenham a história. Qual será a última forma? Qual a profecia mais coerente ? As respostas serão sempre vacilantes, contudo não são mais importantes do que  as perguntas.

  Assegure-se que não é apenas o visível que nos faz estar no mundo. Há certa magia que nos atiça e nos agita para que a apatia não sepulte os desejos e os transforme em coisas meramente descartáveis, em artigos de vitrine coloridas.Os deuses também se cansaram, se envolveram com invejas e acompanham as narrativas que se espalham pelos tempos. O ponto final acaricia o fôlego e anuncia que a vida é indecifrável, por isso estamos aqui traçando sorrisos ou franzindo as testas, atraídos pelo perfume da salvação e pelo malabarismo dos raciocínios.

PS:  Texto apresentado no encontro sobre cultura e memória, na UFPE, na mesa-redonda sobre os intelectuais, no dia 23 de 4 de 2014.

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