Os lugares dos poderes, as dissonâncias permanentes

A vitória dos socialistas trouxe ânimo para muitos grupos políticos europeus. O ex-presidente da França não era uma figura  simpática. Possuía sinais de arrogâncias conservadoras que desagradavam, sobretudo, pela intolerância. Tudo muda, dizem. Não vamos cair no absoluto. Entre a teoria e a prática há, sempre, abismos imensos. Os ideais socialistas criticam a exploração, trazem mensagens de solidariedade, cutucam as insensibilidades do capitalismo. Celebram a divisão das riquezas, ativam sonhos que lembram paraísos. No entanto, na ação de governar os socialistas não seguem caminhos coerentes. A prevalência de hábitos individualistas balançam a sociedade e o fascínio pelas novidades. Difícil segurar práticas promotoras da divisão e da generosidade.

Marx construiu uma teoria articulada  com a prática, sem escorregões maiores. Foi sagaz nas suas reflexões demolidoras, desmontando teses capitalistas, defendendo a igualdade social. As experiências dos governos que traduziram suas críticas não convenceram historicamente. Há muitas desventuras, autoritarismos, concentração de violência que negam as teses marxianas. A política é território de contrapontos. As frustrações continuam, as interpretações variam, os conflitos partidários não cedem. A heterogeneidade faz parte da cultura, não é um fenômeno contemporâneo. Porém, as dissonâncias são assustadoras, criam instabilidades, fortalecem o mundo das mercadorias e do cinismo.

A vitória dos socialistas tem significados, provocará negociações, moverá esperanças. Nem todos desconfiam das armadilhas políticas ou se debruçam sobre o passado para aprender as lições. Ficam nostalgias. Eliminam-se reflexões. As ideias circulam, ganham outras dimensões. O socialismo não é único, o que existe são socialismos que possuem estratégias relacionadas com sistemas de poder. Marx aparece como grande pensador, mas com não lembrar, também, Fourier, Lênin, Rosa, as divergências entre anarquistas e bolcheviques. A travessia é longa, repleta de deslocamentos. O cuidado com a análise desses contrapontos é importante, evita manter mitificações, sacralizar certas circunstâncias.

A presença do capitalismo é hegemônica. Confunde, pois alguns governos se proclamam contra suas práticas, mas terminam se misturando nas bolsas de valores e nas astúcias comercias. Qual é a fronteira possível? Os autoritarismos não se escondem. Uma rápida olhada nos jornais mostra China, Síria, Venezuela, entre outros, firmando violências. A democracia flutua no discurso e nas promessas. Quando a crise se aprofunda, os governos buscam medidas que cortam conquistas, descontentam  maiorias. A Grécia convive com desacertos que se prolongam e a Espanha encontra-se com um alto índice de desemprego.

A euforia desenvolvimentista transfere-se para outros países, como uma redenção milagrosa. Mas os desgastes se mantêm. O Brasil se ressente da falta de médicos, saneamentos, vive desconcertos na educação. Há, contudo, um incentivo desmedido ao consumo, ao endividamento individual, planejamentos obscuros para construção das obras da Copa de 2014. Se os socialistas comemoram avanços na Europa, os neofascistas não sossegam e seduzem parte do eleitorado. A complexa sociedade que se estabelece parece uma grande vitrine. Observar como ela se move e os grupos dominantes vendem seus produtos é saída para fugir da infantilização que contamina parte da população. Não se encante com a superfície das notícias, nem o festejar de datas carimbadas.

PS: Os dias de mudança dos textos( relembrando): terça, quinta, sábado, domingo.

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