Os lugares de Marx e o mundo partido

A possibilidade das releituras traz renovação do fôlego. Os tempos mudam ou redefinem valores. É preciso atenção para não congelar julgamentos. A história corre, possui suas permanências e tradições, porém não há sentido que a determine para sempre. Tudo pode provocar instabilidades. As verdades se desmancham, o sólido se torna líquido e a perplexidade comanda sentimentos inesperados. Quando visitamos certas obras temos que nos lembrar que o balanço existe e a inquietação sacode perguntas.

Nem sempre, estamos diante do mesmo texto e os significados nos desafiam. Passado e presente necessitam, sobretudo, de diálogos e não só de censuras e preconceitos. As polêmicas fazem parte da vida intelectual. Suas extensões ocupam territórios de fronteiras invisíveis. As reflexões de Marx continuam animando debates, reformulando conceitos, traçando caminhos. Escreveu no século XIX, apontando as contradições do capitalismo, desenhando uma teoria crítica avassaladora. Sofreu influências dos iluministas, mas costurou outros conceitos.

A originalidade absoluta é fantasia. Marx conseguiu ler o seu tempo com agudeza, fascinado pelas possibilidades das utopias.Pensou a revolução, as dificuldades do operariado e as armadilhas crescentes da burguesia. Sua época mostrava que a industrialização tomava força e a desigualdade não abandonava a sociedade. Havia intensas jogadas políticas para garantir as minorias no poder. O Estado usava seus aparelhos repressivos, nunca foi neutro e se comprometia com os lucros do capital. As jornadas de trabalho firmavam opressões, quebravam desejos de transformações, danificava o corpo e o afeto.

Seus textos tocam, porque decifram questões que ainda se mantêm perturbando os projetos de solidariedade. Quem conhece o famoso Manifesto de 1848  observa como a burguesia construiu relações sociais, prometendo um outro mundo, agitando a vida urbana, espalhando-se com suas máquinas. Tudo isso acontecia não sem rebeldias e insatisfações. Havia contrapontos.Marx os ressaltava e suas ideias conseguiam ressonâncias importantes. Incomodavam os dominantes, produziam respostas violentas. O conflito se ampliava, estava na aridez do cotidiano.

Não é estranho afirmar que o capitalismo estende suas garras. Sua capacidade de recuperar posições é assombrosa. A tecnologia, hoje, tem uma sofisticação veloz. O discurso do vencedor se articula com as jogadas da mídia e ganha um convencimento que seduz. Há quem se acomode e nem admita olhar que a exploração não cede. É claro que as reflexões de Marx pertencem a um tempo, consagram paradigmas do século XIX, porém é fundamental a releitura. Ela mostra labirintos, busca trilhas, arranha conformismos, nos situa nos artifícios da globalização.Pensar a história como uma navegação progressiva é ilusório.

É sempre instigante questionar para quem serve a concepção de progresso e onde se localizam as vantagens do desenvolvimento. A lógica da acumulação tem mecanismos potentes É uma louvação da quantidade que penetra nas discussões e, muitas vezes, confunde os que se acham donos de novas verdades.Quem se esconde, se mascara. foge da história, adormecido num berço mesquinho. Portanto, nada está pronto. Há lugar para o profano e para aquecer as impaciências. A arrogância estabelece dogmas, mesmo entre aqueles que se nomeiam mensageiros da vanguarda. A nudez da crítica aquece o desejo de movimento.

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