Os moradores de rua e a opressão

 

Morar. Estamos no mundo, procuramos abrigos, queremos atenção, olhamos os outros. Quando se pensava que as ideias iluministas iriam salvar a sociedade, a miséria continua fazendo vítimas e construindo desencantos. A razão cartesiana não deu conta de estimular as utopias. A desigualdade permanece, a concentração de riquezas não se vai, as indiferenças cortam o corpo. A lógica do lucro, dos negócios corruptos, ganha espaço. Sucumbimos. Vemos que as dificuldade trazem violências e desfaz possibilidades de reformas. A aflição se expande como uma epidemia.

As ruas estão cheias de gente. Ela passam, buscam, conversam. Mas há quem se encontre no limite. Conjuga o verbo morar com outro fôlego. Deita-se nas calçadas, veste-se com farrapos. A população dos moradores de rua cresce assustadoramente. Os lugares mostram que opressão é grande. A condição humana desce a ladeira. As drogas se multiplicam, a intolerância se fortalece e as pessoas criam raivas, se incomodam com aquelas figuras que denunciam o desgoverno. Há estranhamentos cotidianos e horizontes nublados.

Somos animais astuciosos, mas não cultivamos a solidariedade. Nem todos apreciam o mundo em que vivem. No entanto, existe uma pressa, uma ambição desmedida, uma carência vendida com mercadoria. A cidade se torna árida. Não acolhe, exclui. Há quem deseje uma assepsia geral. Nem observam que são cúmplices do desconforto. A coletividade heterogênea silencia, celebra seu individualismo doentio. Andamos, como se a cegueira usasse máscaras medonhas e assassinas. Quanta vezes nos lembramos das disparidades, das manobras obscuras, do outro?

A história não sobe degraus. Tropeça. Não tem um sentido perfeito, acabado. Os deuses transpiram, porque são criaturas. Inventamos tudo, porém não conseguimos superar a nossa incompletude. A sociabilidade não transcende os espaços da sujeira, do lixo, da solidão. Não é sem razão que a desconfiança se espalha. Não é preciso alargar o desespero. Ele existe e acende a luz da falta de diálogo. Moramos num mundo descontrolado. Transformamos o afeto numa utopia. As danças dos desabrigados é triste. Elas ouvem os gritos da insônias. Interiorizam-se. Os fantasmas se assustam com tanta apatia e palidez.

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