Os múltiplos dizeres da violência cotidiana

Há palavra intrigante. Seu significado não é complexo. Não precisa  ir ao dicionário para decifrá-la. Ela faz parte das andanças cotidianas. É quase impossível deixá-la ausente das histórias. No entanto, ela assusta. Gostaríamos que fosse riscada dos argumentos, não circulasse nos jornais, ganhasse caminhos ignorados. O desejo não encontra alternativas. Fica na especulação. Quem consegue viver o dia sem ouvir ou ler a palavra violência? Precisa de esforço, de manobras intelectuais ou bastam apenas conversas soltas numa parada de ônibus? Alguns dizem que há uma banalização geral misturada com medos crescentes. Tudo muito confuso, conflituoso, perturbador.

Se há múltiplos espaços onde a violência se amplia, há também variados significados. Não é fácil configurá-la. A sociedade convive com ações e teorias. Nem sempre os consensos funcionam. É mais visível a dissidência, o mal estar, o desacerto. Mas não dá para esperar sossego num  mundo com tantas culturas diferentes. Imagine o que é religião para os povos do Xingu, ou que é religião para quem habita numa cidades de grande população. A densidade dos negócios, nas sociedades capitalistas poderosas, traz perplexidades imensas para quem está num  pequeno povoado do interior. Costuramos as divergências sem  contudo evitá-las.

A questão que incomoda é que as divergências podem atiçar a quebra das sociabilidades. Há o insuportável e a perda de limites. Lembrem-se dos fascismos e dos preconceitos raciais. Não faltam exemplos. As culturas se mantêm, sofrem abalos, algumas escondem-se das narrativas históricas. As idas e vindas geram profecias e desencantos, porém a vida segue, assanhando fantasias e construindo utopias. O juízo final já foi adiado muitas vezes. Os deuses possuem apatias e mudam anseios de dominação. No mundo da grana, a fé se reveste de sinais pouco compatíveis com os discursos dos seus defensores. As religiões , muitas vezes, prometem leilões de indulgências

Depois de decepções crescentes com o progresso, os governos buscam controlar as adversidades. Elas não se fatigam. Será que há um destino oculto? Por que tantas complexidades? Perguntar é quase uma missão que estende desde os tempos mais remotos. Contam-se as tramas dos paraísos sem apagar linhas de violência. A história surge de negações e desobediências, não necessariamente de rabiscos de racionalidades, mas atrelada a lutas e vontades de eliminar os outros. Não são recentes a animosidade e os estranhamentos. O gosto amargo da permanência cria inseguranças. Será que as transformações não consagram disfarces ou enganos perenes?

O exemplo da violência é comum. Não existem só mortes motivadas por assaltos ou ambições familiares. Há guerras infindáveis, genocídios sofisticados. Não é só o corpo que se desfaz. As palavras destroem afetos, explicitam planos egocêntricos, justificam o abandono da maioria. Olhar o cotidiano é o bastante para observar que as violências sobrevivem. Como as informações correm, os meios de comunicação nos instigam a estimular pessimismos. Na esquina da rua houve um acidente, os presos fizeram uma rebelião com consequências desastrosas, as corrupções desviam verbas destindas às vítimas da seca.  Não caberiam exemplos em escritos e lamentos fugidios. Mas o trapézio não se desmancha.

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4 Comments »

 
  • Raquel Muniz disse:

    Interessante observar o nosso olhar estarrecido diante das violências.
    As mulheres são donas de seus corpos, as crianças têm direito à uma educação sem palmadas; os idosos devem ser respeitados; todos devem ter direito às práticas sexuais que bem lhe aprouverem; aqueles com maiores dificuldades devem ser atendidos primeiro. e ter os seus espaços garantidos; os animais não podem ser tratados com crueldade; aqueles que querem salvar o planeta já conseguem vez, voz e vídeo.
    Do ponto de vista histórico, não faz muito tempo que os considerados deficientes poderiam ser mortos ao nascer, as mulheres não podiam votar, aos negros era negado o direito de sentar nas cadeiras que quisessem.
    Sim, há muito disso ainda no mundo, ainda temos muito pelo que lutar. Podemos escolher uma fileira, nos integrar à ela e, com nossa indignação, ideias e atos, fazê-la ser ouvida. Transformar a realidade. Que só, e tão só, com a nossa participação, poderá mudar.
    O que me anima é essa nossa indignação, esse nosso estarrecimento, o nosso estupefar frente a situações que antes poderiam passar despercebidas, embebidas de cotidiano, disfaçadas de normalldade. Quem bom que já podemos reconhecer as situações em que passamos do ponto, agredimos e cerceamos a liberdade alheia.

  • Raquel

    As violências possuem muitas formas, mas há resistências. Isso anima e traz as possibilidades de pensar outra sociabilidade.Boa reflexão.
    abs
    antonio

  • Carolina Ruoso disse:

    A imagem foi muito bem escolhida, ela faz parte do texto. Que começa com a pergunta: “que violência você pratica?”, uma provocação perturbadora, penso. No seu texto você nos fala de violências, das leituras das violências e de como esta palavra circula no tempo. Nos convida a pensar nas formas de apresentação e representação da violências. Entre violências, lembro que você ensinou que historia é também historias das solidariedades. As violências escutamos falar todos os dias e das solidariedades? Quantas praticas solidarias encontramos entre as tantas e faladas praticas de violência? Quando a violência é mais forte que as solidariedades ou, ainda, quando a solidariedade é violenta?

  • Carol

    Boas questões. Não estamos livres das muitas contradições, mesmo com os cuidados que tomamos. A sociedade está confusa e isso também nos toca. Não somos absolutos.
    abs
    antonio

 

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