Os múltiplos significados de Melancolia

Richard Wagner podia ter composto a trilha sonora da criação do mundo. Seria fabulosa a dimensão dramática que daria a um espetáculo tão misterioso. Sua música densa toca no fundo do coração, provoca o ir e vir da transcendência. A beleza alimenta os sonhos que desenham figuras passageiras, mas sedutoras. É o encanto, com toda sua mitologia secular, retomando amores, desprezos, invenções. Wagner conversa com as medidas do sentimento, porém não as aprisiona. Quer companhias,  desafios, estilhaços de cores, desejos de superação. Não adianta a síntese final, a criação é flutuante e escreve os desfazeres do tempo.

Os acordes de Tristão e Isolda, do compositor, se articulam com a imensa viagem de Lars von Trier. Há filmes que fundam concepções de mundo ou mostram capacidade de visitar os subterrâneos da vida, com uma sensibilidade incomensurável. Tudo tem muita magia, porém há quem transforme a magia no sublime. Foge do lugar-comum, faz a aventura dialogar com o inesperado. Não há espectador. Somos levados ao esplendor  de cada imagem e, às vezes, nem nos localizamos. Destruímos qualquer desejo de identidade fixa. Compartilhamos com seus deslumbramentos, sem celebrar banalidades. Cada um se configura na extensão da sua busca. Abraça-se com o momento, como se estivesse vivendo a última eternidade.

Poderia ser a gramática do luto, da tristeza sem verbos. A beleza não deixa que a razão seja o eixo do filme. Ela não se submete à respiração medíocre. Rascunha seus deuses como formas que se renovam, com cores que assustam e fascinam. Lars acende a arte, mostra que o delírio não é  loucura sem travessia, afundado num abismo. É tudo inútil, se o último porto só pode ser a cidade infernal, que está lá no fundo e que nos suga num vórtice cada vez mais estreito (Italo Calvino). O paraíso e o inferno não são pontos de chegada, nem revelam as tramas dos deuses.

Claire e  Justine contemplam os minutos e as situações ativando suas diferenças e semelhanças. Há medos e serenidades. A melancolia é, também, deslocamento, reação, abertura de buracos apagados pela velocidade das euforias. O filme traz o choque dos sentimentos, numa sociedade que teima em optar pela soberania da objetividade e dos negócios. A situação limite acelera a perplexidade, não é estranha à condição humana. Lars faz seu pacto com os labirintos, íntimo e solidário. Não condena,  nem se afasta da tragédia de traçar a narrativa, desmontando equilíbrios.

A arte não ensina o definitivo. Lidar com o inacabado é sua sinalização mais intrigante. Retratar evidências, se é que elas existem, é muito pouco. A música de Wagner envolve e as imagens de Melancolia se entrelaçam com o tempo que parecia não conhecido. Olhar para dentro, perseguir os esconderijos, escutar o silêncio. Na contemporaneidade, temos receio de se espalhar pelos múltiplos significados que impulsionam a cultura. Quebrar a monotonia não é correr em todas as direções. O filme pede uma contemplação sem calendário. Para que anunciar o princípio e o fim? Construímos a história mesmo que faltem luzes. Não sabemos a idade do controle.

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8 Comments »

 
  • Filipe Machado disse:

    O filme em toda sua musicalidade e fotografia apresenta um confronto de ideias e sentimentos que envolvem o ser humano. É algo que suplanta em dimensão o eu figurativamente exposto ao mundo exterior (representativo) para apresentar o real significado da existência e entendimento das diferenças interiores. Os dilemas de uma vida e de sua convivência com os outros.

  • Filipe

    O filme vai mesmo fundo e expõe as dificuldades de aceitar as lacunas. Mas é belo, traz a arte para o sublime.
    abs
    antonio paulo

  • Flávio disse:

    Ôpa Ant. Paulo,

    Me lembrei, ao ler teu texto, de uma crônica de Luiz Fernando Veríssimo, publicada há pouco na imprensa. Citando passagem de um artigo saído na The New Yorker, em que Freud teria se virado para Jung, no momento em que ambos estariam na iminência de desembarcar em NY, e dito “Será que eles sabem que estamos trazendo a peste?”, Veríssimo discorre (até onde uma crônica de jornal permite, claro) sobre o desafio que, de quando em quando, é lançado sobre o pensamento convencional e as crenças arraigadas.

    Veríssimo lembra que é preciso ser agudo e penetrante. Desestabilizar. “Cultivar o deserto/como um pomar às avessas”, dizia João Cabral.

    Parabéns por mais esse texto.

    Grande abraço.

  • Angélica de Paula disse:

    Essa resenha me lembrou outro filme que também traz de forma poética a criação do mundo: A árvore da vida, que pode não trazer Wagner como pano de fundo, mas apresenta uma trilha belíssima e digna do ato sublime.

    Ainda nao assisti Melancolia, mas, após várias críticas e comentários de amigos sobre esse filme a ansiedade só aumenta. Inclusive, Lars von Trier está nas páginas amarelas da Veja desse semana, defendendo seu ponto de vista quanto ao polêmico comentário dado durante uma entrevista em Cannes, em que foi pré-julgado de nazista.

  • Angélica

    Não assisti ao filme A Árvore de Via, mas tenho ouvido muitos comentários. Lars é uma figura polêmica, mas vale ver Melancolia.
    abs
    antonio paulo

  • Flávio

    Lembro-me bem dessa frase de Freud. Mexer com as estruturas é mesmo uma ousadia. Grato. E assista ao filme.
    abs
    antonio paulo

  • Rafael Ferreira disse:

    Gostei do comentário, adicionei a minha lista de filmes a assistir, principalmente com a presença das brilhantes composições de Wagne. Além de mostrar a realidade da humanidade atual utilisando-se de elementos do passado.

  • Rafael

    O filme é muito interessante. Foge do lugar-comum
    abs
    antonio

 

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