Os mundos da invenção, os jogos da vida e da paixão

 

Inventar o mundo expressa as andanças e as metamorfoses da cultura. Nada aparece, de repente, como meteoro perdido ou um cometa em busca de um leito para se esticar. A vida é construção, entrelaçamentos  dos saberes e de experiências. O lúdico tem seu lugar especial, as certezas se sentem ameaçadas, pelo vaivém das opiniões e pelos desenhos das farsas. A cultura não se faz sem ordem, mas convive também com as transgressões. O importante é visualizar qual a medida dos limites.

Apesar dos cantos à objetividade, somos sentimentos e sensibilidades. A paixão nos tira do eixo. Ficamos tomados por um tempo acelerado, cercado de ilusões que se aconchegam no coração. Navegamos, porém, os horizontes são muitos e as embarções não prometem segurança absoluta. No jogos, vemos o balanço da relações e das ansiedades de forma mais prática. Existem regras, obediências, cerimoniais. O resultado é uma aposta. No futebol, muitas vezes, um time sem cartaz vence outro cheio de estrelas.

Na vida, não é diferente. Antecipamos glórias que não chegam. Admitimos vaidades tolas e vazias, pensando na soberania da nossa vontade. Não é à toa que extravasamos muitas coisas nos esportes. As torcidas são pequenos mundos das cartografias dos desejos. Elas criam símbolos, gritos de guerra, agrupam-se como partidos políticos. Fazem das derrotas um salto no abismo, da vitória, a sagração de primavera. Deliciam-se com as conquistas e, rapidamente, se amarguram com as frustrações. Basta ver o que se passa com o Náutico e o Corinthians. Exemplos, para ficarmos, apenas, no discurso.

A ideia de que há uma singularidade em cada ato é aceitável. Não somos da mesma matéria na delicadeza e no cuidado com os outros. Desfiar os mantos sem perceber que foram arquitetados, pela criação, é onde mora o perigo. As individualidades merecem ser preservadas, desde que não desmobilizem a solidariedade. Portanto, a cultura possui histórias, lugares e momentos que se tocam ou, às vezes, se conflitam. A mesmice atrapalha, produz covardias burocratizantes.

Os espelhos sobrevivem para que exercitemos nossos olhares. É saudável evitar o vício de repetir imagens. Há sons, cores, ruídos, traços. Há escutas, resistências, trelas, confortos. É impossível resumir a dimensão do mundo. Com os escritos tentamos dialogar, pois a omisão é um pecado capital. Prometeu conserva sua contemporaneidade. Ler a peça de Ésquilo sobre o mito faz o corpo se articular com as veias abertas da emoção. Sabedoria que permanece. Correntes que se quebram com coragem.

Entre lacunas e desacontecimentos, a cultura borda suas vestimentas. Mas antes disso, as costura com velocidades variáveis. Os modelos mudam e incomodam aos conservadores. Isso não significa a falência das tradições. Se elas desmoronassem rapidamente? Os jogos da vida formulam estratégias. Nada desaparece, sem vestígios, nem que seja nas fantasias. Para isso fomos feitos, para não sermos escravos do que passou, mas para também acordar do sono, espertos e críticos. Quem se julga mestre de todas as artes, desconhece o poder das invenções. Os sabores e os saberes se misturam. Por que não experimentá-los?

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