Os muros falantes e os rebeldes anônimos

    

Antes, sobravam muros, nas cidades, disponíveis para pixações avulsas. Poucos edifícios, muitas casas e terrenos baldios. Eles não eram silenciosos. Anunciavam produtos, telefones de profissionais e palavras de ordens de partidos polìticos. Havia os rebeldes, mais radicais, que exigiam o fim do imperialismo. Eram contra os governos norte-americanos. Mostravam uma reação constante contra os desmandos do capitalismo. Os registros dariam uma pesquisa histórica inusitada. Falavam de uma época. Infelizmente, os muros caíram, as construções são outras, os  poucos existentes descrevem promoções e ofertas sensacionais. Os interesses da grana ganharam, mais espaço, e a política sofre de anemia.

Cada sociedade com seu reino. A apesar das crises das monarquias, não se anulam os ares da aristocracia. A nobreza fascina, nem mesmo a burguesia escapa dos cerimoniais e títulos do Antigo Regime. Famílias reais permanecem vivas e atuantes. Suas festas promovem fofocas internacionais. Os convites são valiosos, com luxos singulares e valores sociais exaltados. Quem disse que as hieraquias morreram ? Os contos de fada continuam e as crianças não se cansam das aventuras dos cavaleiros de capa e espada. Medir os desejos, de cada época, é brincadeira solta. Valem as nostalgias e o simbolismo.

Há relações que permanecem, fixam-se no imaginário, merecem encenações teatrais e fazem sucesso no cinema. O vaivém do tempo é desafio, para quem se distrai com as explicações. Branca de Neve consegue emocionar gerações e o Lobo Mau assusta, com sua esperteza secular. O afeto transforma-se, não é o mesmo de décadas passadas. Há hábitos que se seguram, impõem-se, conservam-se. As poeiras não estão, apenas, nos arquivos municipais. Acumulam-se nas memórias, trazem medos e gestos. O presente, cheio de objetos sofisticados, mistura os azares das bruxas e com as mentiras de Pinóquio.

O tapete mágico percorre os céus, garantindo as luzes das estrelas e o descanso do sol. Nem tudo aparece e move a vida. Se não houvesse esconderijos, como desfrutar das surpresas e se desfazer das amarguras? A cartografia do mundo não cabe nos corações, porém não está  afastada dos futuros que traçamos, nas bordas das incertezas. O tempo não é nem um ser, nem um puro nada: ele é passagem perpétua  de um ao outro, e, se assim podemos dizer, a confirmação recíproca de ambos ( Comte-Sponville). Portanto, as dúvidas se arrastam pelos pensamentos e penetram, no cotidiano, com a astúcia dos instantes instáveis. O ponto final fica nas engenharias, dos sonhos, e dos poetas efêmeros.

No jogo da vida, restam poucas regras. Elas são trilhas sinuosas. No entanto, quando abandonamos referências e diálogos, o esvaziamento do humano ameaça a retomada dos sinais do apocalipse. O Carnaval retorna,sempre, com força e vestes diferentes. Não perde seus adeptos. Nunca deixa de lembrar  práticas, aparentemente, sem conteúdo. No meio das televisões e suas novidades, surgem fantasias que revelam saudades profundas. Portanto, é um grande engano decretar o sepultamento de relações, só porque há uma pressa que empurra a vida. Os ritmos trazem descompassos, mas acertam descuidos e acalentam tranquilidades. O desenho derradeiro está nas mãos do artista desconhecido.

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