Os perigos e os escorregões na marca fatal do pênalti

Os esconderijos fazem parte do jogo da vida. A linguagem nos leva aos Outros. Não faltam veículos de comunicação. No entanto, a transparência do que se diz, nem é sempre possui clareza. A linguagem revela e esconde. É difícil compreender a sua complexidade. Governa impérios. Está submersa no teritório das interpretações. Formula discordâncias e afetos. Bolas de papel transformam-se, em foguetes atômicos. Verdades sagradas geram conflitos religiosos, em espaços profanos.

Sobram lacunas, incertezas, dúvidas. Celebremos Nietzsche, no seu olhar penetrante e devastador. Não é necessário muito embalo. No futebol, os clubes organizam-se, para campeonatos internacionais, com investimentos alto e promessas otimistas. Muitos torcedores nem desconfiam da existência do mercado da bola. O fascínio pelos ídolos, os artifícos das propagandas insistentes os conduzem a comemorar vitórias que, ainda, não aconteceram. As armadilhas são equipadas, com as últimas tecnologias da sedução.

Na própria vida cotidiana, não há como assegurar opções definitivas. Ficamos assustados com manchetes matinais, com os e-mails carregados de pirataria, com os sites confidenciais disfarçados. Não é à toa. A instabilidade incomoda nossas emoções. É como jogador diante do goleiro na cobrança do pênalti. Tudo lembra êxito e vibração, mas o momento compartilha com traições venenosas. O chute desvia e  a frustração arranha os sentimentos de sucesso. Não dá para zombar do lúdico, nem sorrir, numa gozação precipitada. Não custa focar, respirar e suspeitar que Deus também se aposenta.

A mania e  a insistência na produtividade tomam conta da sociedade. Estão em tudo. Na academia, os artigos devem elaborar urgências teóricas. Na política, os discursos respondem aos impulsos mecânicos da mídia. No jogo, as transmissões de TVs se sucedem, quase sem intervalo. Vale o princípio cego do acúmulo. Não é estranho que o tédio permaneça, mesmo com o colorido de tantas novidades ? Baudelaire se traumatizaria com os vazios do corpo, ormanentados e cheios de cremes hidratantes. Paris, do século XXI, acabou de dançar seu últmo tango, chorando o governo de Sarkozy.

Não suspire e nem suspeite. Observe. Os ídolos são nomeados, contratos registrados, milhões gastos e vem a cobrança de fama imediata. A velocidade provoca tensões. O desfazer é, muitas vezes, mais rápido do que o fazer. Movimentos que atrapalham até as maldades dos demônios. Eles estão em recesso.Ausência de criatividade. Fogem dos mensageiros do bem. A paciência é tesouro raro. Os ansiolíticos enchem as prateleiras. Batem recordes de venda, garantindo a soberania do sono químico.

A passagem efêmera, de cada instante, termina não consolidando experiências de sabedoria. Escuta-se pouco. As linguagens entram em coplapso vertiginoso. O aparecer e o desaparecer se confundem. A neura do consumo dita as regras. Muitas luzes cegam quem não usa óculos escuros. A astúcia é cristal abandonado no lixo da praça . Estamos ligados nos voos. Os pés fora da terra derrubam os limites da gravidade. Os relógios não têem números, nem braços. No rádio, se reza a oração fim do dia. A noite não cede seu tempo. O pecador, mais audaz, ora por uma vaga no bigbrother, no domingão do Faustão. Felinamente.

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4 Comments »

 
  • Carlos Eduardo Medeiros disse:

    Antonio Paulo,
    Classifico as suas palavras como um ipê, não sei se conhece o mecanismo de florescimento desta árvore, mas é algo tão intrigante que se analisado com os olhos da alma uma mensagem pode se retirar desta natureza rosa,amarela,branca,roxa ou branca. Quanto mais rigorosos e secos forem os invernos esta árvore ganha mais força para a sua floração. Na secura dos nossos dias é perfeito o colorido das suas palavras que transmitem compromisso com o ser e seus questionametos intrínsecos[“e na secura nossa amar”].No texto de hoje fica claro a realidade brasileira das frustrações diárias e a evasão para o sono farmacêutico. Triste realidade do homem que acha que dinheiro compra felicidade. Triste realidade do homem que não consegue ver florescer a natureza e contemplar a beleza de um dia de sol. Esta felicidade não se compra nos supermercados. Triste do homem que faz do homem DEUS e que coloca no homem aspirações de um Deus. Desta forma,deixa-se cegar pelas luzes de homens em vez de guiar-se pela luz dos seus questinamentos e dúvidas.
    Mais uma vez agradeço por estimular a nossa consciência a trabalhar e a florescer como um ipê. Felinamente!

  • Carlos

    Recebi uma bela lição de vida e fiquei emocionado. Isso deixa a vida mais leve. Por isso que gosto de escvever pensando sempre no diálogo. O mundo é muita coisa, nunca se esgota.
    Grato
    abs
    antonio paulo

  • Carlos Eduardo Medeiros disse:

    Antonio,
    Depois de ler e de finalizar o meu texto com a mesma palavra que você finalizou o seu fiquei com uma dúvida. Sei que as palavras tem múltiplos significados, mas gostaria de tirar a esclarecer.
    Felinamente = ao gato que abre o texto
    Felinamente = Federico Fellini, já que o seu texto traz poesia unida a critica a nossa sociedade.
    Grato pela atenção.
    abs

  • Carlos

    Boa observação. Mas pensei o gato, na astúcia do felino.
    abs
    antonio paulo

 

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