Os rituais do cotidiano retomam assombrações

Há quem se ajuste no presente de forma radical. Não querem saber do passado. Juram que há progressos promissores. Tornam-se  dogmáticos sob o signo da razão. Vivem as tecnologias com entusiasmo quase religioso. Não é à toa que o mundo seja palco de cenários múltiplos. Não esqueçamos os nostálgicos, alérgicos às ficções futuristas, curtindo música no seu rádio de pilhas. Portanto, as controvérsias envolvem as conversas, passam pelas contradições da modernidade, encantam as manchetes da imprensa, assustam-se com a retomada de comportamentos violentos. Insistir na simultaneidade é uma saída para pensar que o mundo gira com velocidade, mas cada um gosta de compor seus instantes e desenhar seus mapas de felicidade.

Certos acontecimentos abalam mesmo os mais pacientes. Não há muita compreensão para rituais macabros, com mortes e sadismos. O descontrole faz tremer as bases das referências que julgamos saudáveis e cheias de atmosferas de convivências solidárias. Pessoas são esquartejadas, sepultadas, guardadas em pedaços, vendidas como objetos. A loucura é a resposta? Parece um ato inconcebível, ensaiar rituais de violência e exercitá-los com detalhes. Não são acontecimentos incomuns. Eles voltam, assombram, distribuem medos e desejos de vingança. Não têm lugares fixos. Não adianta refazer o discurso civilizatório. As pulsões agressivas não abandonam a história.

São as permanências de que tanto falamos adaptadas ao estar no mundo contemporâneo, com suas sofisticações e os seus desenganos. O território das emoções, dos mistérios , das frustrações possui uma vastidão que se arrasta quebrando fronteiras. Um desconhecido entra numa escola de crianças e pratica assassinatos. Ficam desmantelos psicológicos e perguntas com ecos insuperáveis. Alguns redirecionam crenças, santificam horrores e conseguem atravessar anos na penumbra das suas manobras. Que diálogos mantêm com a sociabilidade? Que valores sustentam sua indiferença ou raiva?  Como lidar com tanto desconforto, com afetos congelados e crueldades articuladas?

As redes sociais denunciam governos, lutam contra a especulação imobiliária, mas também revelam segredos íntimos, fotos coloridas, paixões inesperadas. O crescimento das cidades atiça o ressurgir de relações que pareciam muito longe e incapazes de vadiar pelo tempo. Existem explorações escravistas, egocentrismos, idolatrias medievais misturadas com invenções, ainda, estranhas, porém cobiçadas. Será que é possível pensar a história comemorando o presente e deslumbrado com as genialidades das ciências? O que justifica a colocação de limites nos saberes, condenações aos ensaios psicanalíticos, menosprezos por certos temas, sustentação de preconceitos e de arrogâncias mesmo nos espaços voltados para o debate e a renovação?

A lógica é torta ou a verdade é curva, como afirmou Nietzsche? Não adivinhamos quantas coisas cabem na sociedade e até aonde vai a criatividade para superar os impasses. Uma indagação de Eduardo Galeano merece destaque: Qual a diferença entre a violência que mata com motor e a violência que mata com faca ou bala?  Viver a história sem o tique-taque das dúvidas é remar no rio das impossibilidades. Há, sempre, margens que são invadidas por águas rebeldes, cadeiras de balanço pertencentes a museus  insignificantes. É no meio do mundo que o existir se constrói e ele não mora numa planície quieta e sonolenta.

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