Os românticos não abandonaram o mundo

O romantismo é campo de polêmica. É difícil querer harmonia quando algo toca nos sentimentos. Há também quem se negue a conhecer os percursos históricos. Eles são atravessados por muitos significados. É impossível resumi-los com poucas palavras. No entanto,  traçar o mapa de algumas localizações ajuda a evitar a mesmice. A vida é uma doença do espírito, uma ação apaixonada. Quem fez essa reflexão foi Novalis. Um romântico da época em que se construía um pensamento que desconfiava, profundamente, das portas abertas pela razão. Não era, apenas, um elogio ao sentimento, mas uma proposta de repensar a chamada herança iluminista tão bem articulada com capitalismo.

Muitos se incomodaram com um mundo que surgia e marcava os lugares do poder dialogando com a objetividade e a ciência. Nada contra as pesquisas, nem a busca de esclarecimento para facilitar a convivência e desvendar mistérios da natureza. O pior é registrar a apatia e isolar o contraponto. Portanto, o romantismo fere a hegemonia de uma concepção de mundo vitoriosa e questiona a euforia. O capitalismo desmanchou preconceitos e redefiniu relações de trabalho. Derrubou elites, mas não se encontrou com a democracia. Inventou outras relações de poder, com exclusivismos inegáveis.

O romantismo acena para multiplicidade. Exalta a sensibilidade, não se coloca como destruidor de magias e celebra os encantamentos. Visita as interioridades e os amores soltos nos corações. Não é uma escola de princípios rígidos. Entre os românticos havia controvérsias, mergulhos diferentes, comportamentos que podiam se chocar. Balançam a cultura, traziam dúvidas, deixavam o trapezista arriscar o voo da morte. Reafirmava que a vida é complexa e confusa. A luz da razão desenha imagens, projeta redenções, mas não consegue revelar os alguns esconderijos perigosos que não se ausentam da história. É saudável não caiar na onipotência e observar que a desigualdade e a exploração não fecharam seus círculos.

Na história, conhecer os paradoxos incentiva a criatividade. Os românticos se envolveram com a arte, com a forma de vestir, com a situação da mulher, com os significados da cultura. Não se descuidou de visualizar utopias, imaginar paraísos e afirmar a existência de instabilidade. O humano tem dimensões diversas, é desafio constante. De novo Novalis: Nenhuma palavra está completa. As palavras são vogais ora consoantes, palavras que valem por si próprias e palavras que valem por acompanhamento. As variações toma conta do mundo, embora a perfeição e a eternidades conquistem sonhos e desejos.

Muitos se distraem, não ligam para o passado, desconhecem as andanças do tempo. Preferem apostar na velocidade e adormecer no aqui e agora. Não dialogam com vivido, falam do romantismo com associações diretas com cafonice e o brega. Não vamos consolidar continuidades e uniformizar os saberes. A cultura se desloca e romantismo não ficou estático no século XIX. Esticou-se, inventou seus tapetes mágicos. Os tempos se tocam e retomar preconceitos produz desconfortos.Há muita gente que cultiva o brega. Condená-las às margens da história é fermentar elitismos. Não custa, contudo, questionar as trajetórias do romantismo e compreender com ele chegou a sociedade de consumo.

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