Os sentimentos dançam nos ritmos das magias

A sociedade não nega seus sentimentos, mas teme discussões que possam aprofundar sua complexidade. Existem estudos e pesquisas que povoam as mentes de intelectuais. Não faltam polêmicas. As teorias psicanalíticas ganharam força crescente nas últimas décadas. Há quem as subestime e as mistificações exageradas, também, marcam as polêmicas. Observando a história não se pode  calar diante das imensas mudanças vindas com a construção da modernidade. Desde o Renascimento muitas concepções de mundo foram questionadas e redefinidas. Houve sintonias com as tradições clássicas, não se riscou o passado, porém se buscou confrontos com comportamentos e dogmas do medieval. A maneira de exercer a dominação, de explorar a natureza, de desconfiar da religião ampliou as controvérsias.

Freud  começa a estabelecer-se no século XIX. Não vamos, no entanto, centralizar sua atuação como fundamental para repensar as afetividades humanas. As dúvidas e as inquietações lembram tempos remotos. A fundação da psicanálise destaca-se, pois aprofunda o debate e incorpora multiplicidades. Esquecer a importância da literatura, das agonias de Antígona, de Prometeu, das aventuras dos mitos, das celebrações dos livros sagrados restringe à compreensão da magia do humano. Sua dança é constante, agita a imaginação, derruba e fixa temores. É difícil a síntese, é perigoso formar ídolos, responsabilizar indivíduos por reflexões que possuem linhas extensas.

Os dramas dialogam com as circunstâncias de cada época, mas não fogem das memórias. A construção da linguagem é um exemplo de como os entrelaçamentos se dão e as buscas não cessam de arquitetar moradias. Há concepções que se tornam soberanas, porém as rebeldias nunca são silenciadas para sempre. Os totalitarismos cogitaram permanências que não conseguiram. Enganaram, reforçaram violências, tramaram impérios. Foram surpreendidos pelas resistências, terminaram sendo derrotados. Nessa dança do tempo, os sentimentos flutuam. Há estímulos que provocam descontroles e desmancham solidariedades. Existem teóricos que defendem o autoritarismo, exaltam uma natureza humana limitada pelo egocentrismo.

Há traços históricos que incomodam e minam os otimistas. A manutenção da violência e as estratégias colonialistas abalam quem luta para a ampliação de sentimentos que convivam com as diferenças e não anulem a conversa, nem a possibilidade de argumentação. As formas se modificam com o aumento do conhecimento e das manobras políticas. Inventou-se a democracia, o cristianismo questionou a desigualdade, porém, em pleno século XXI, práticas escravistas são denunciadas e genocídios ocupam cenários de crueldade chocante. O mundo se divide e,tragicamente, se desencontra, como se fosse inútil o sonho e prevalecessem profecias sombrias.

Tudo isso assusta. A sociedade se balança. Não há lugar para o absoluto. As saudades transformam-se, as vinganças cedem diante dos ódios, os amores criam trilhas de superação. O ritmo da vida não possui uma sonoridade que iniba deslocamentos. As relações se refazem. A convivência com a instabilidade faz parte das andanças. É instigante. Parece não haver respostas que se segurem diante de tantas divagações. Não é à toa que muitos contemplam o absurdo e o acaso. Visualizar o fim do movimento, eleger a fórmula da quietude, evitar as batidas aceleradas do coração são desenhos de ações frágeis.

PS: A mudança, no texto do blog, ocorre na terça, quinta, sábado e  domingo.

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