Os sentimentos do mundo redefinem lugares

 

Inventamos a história. Nem sabemos as razões. Por mais que se queira fundar teorias, há lacunas permanentes. Há mentes que se agarram aos dogmas, não soltam suas crenças e apostam na vida eterna. É uma escolha. Não existem dúvidas que as escolhas dependem de momentos e de pedagogias de vida. Buscamos coerências, sentidos, pertencimentos. O escorregadio do mundo não traz certezas. No entanto, muitos não enxergam o escorregadio e ligam-se ao concreto. Consideram-se inabaláveis, pois o absoluto conjuga seus verbos e traça as linhas das suas cartografias.

Fermentar discussões sobre as escolhas é algo barulhento e pouco produtivo. Não custa, contudo, pintar as reflexões com as cores que achamos mais atraentes. Nossas paixões podem relevar sentimentos escondidos na infância. Quando construímos as bases das nossas andanças? Explicações não faltam, mas a memória avisa que possui suas falhas. As relações aparecem como estrelas num céu nublado. Vamos vivendo. Somos atraídos por distâncias e, às vezes, somos desacomodados pelo que está mais próximo. A intimidade se dilui, as palavras fogem, tudo se torna estranho. Há quebras inesperadas, afetividades que se estreitam ou se despedaçam sem ruídos.

Olho em redor: não mais a mesa posta o aguarda, pontual e perfumosa. Antes, eu não tinha hora. Agora perdi o tempo. Esse pequeno trecho, de um conto de Mia Couto, nos remete para o tempo. Brinca com contrastes. Pensamos que aprisionamos projetos e os guardamos nos armários mais secretos da subjetividade. Porém, de repente, não sabemos que trilha seguir. A desistência anuncia fracasso ou redenção? O esquecimento é uma forma de responder e multiplicar ansiedades por outras certezas. Estar-no-mundo não é uma queda, uma punição, um pacto com Adão e Eva. Não temos respiração para definir cada escolha. O risco é ritmo dissonante, mas indispensável. Tira-nos das preguiças que alimentam depressões.

Cada vez mais, a complexidade se espraia, porque a capacidade de invenção não se aquieta. Ela assume o divertir-se da vida, o simulacro da onipotência sagrada. É sempre possível imaginar que existe um espelho que tem a forma de um manto. Talvez, o mundo esteja envolvido por ele. Talvez, outros seres assistam aos nossos quixotescos devaneios e aproveitem para exercitar seus malabarismos. Nada nos assegura que estamos sós, no cosmo. A ciência formula hipóteses, desenha fórmulas, fabrica laboratórios poderosos e intelectuais imersos em mistérios que acreditam decifrar. Há os persistentes que contabilizam a vida e renegam os sentimentos. Estão, sempre, com as portas fechadas.

O mundo tem suas sínteses. Elas nos ajudam. Trazem fios para bordar as esperanças e réguas para medir o tamanho das saídas do labirinto. Sem as sínteses, a linguagem pontuaria esfinges frias e enigmas descartáveis. O que move a vida é o seu diálogo com os sentimentos. Nunca confie num único lugar, atravessado por sinais que falam do que foi vivido. A vida se conecta com a morte, porém flutua e desconversa. Não suportaria as vozes dos limites, sem contrapô-las às inquietações da imaginação. O olhar anima-se quando se estende pelo múltiplo, como a ousadia da obra picassiana.

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4 Comments »

 
  • Gleidson Lins disse:

    As religiões e os seus dogmas. Como escolha, parce-me insensato. Porém, ao ver certas pessoas defendendo convictamente dogmas religiosos (presenciei uma dessas defesas esta semana, quando o tema evolução humana foi abordado, incomodando uma pessoa de convicções criacionistas), pergunto-me por qual motivo. E só me vem à mente que só pode ser por escolha (como o texto cita).
    Quanto à possibilidade de vida fora da Terra, seria tão egoísta pensarmos que apenas o nosso planeta foi agraciado, quanto quando achávamos que a Terra era o centro do universo.

  • Gleidson
    Os sentimentos variam, como também a vontade de ficar de bem com a vida. Portanto, há religiões que possuem força e convencem.
    abs
    antonio paulo

  • ladjane disse:

    Há pessoas presas em seus dogmas religiosos.Mas há libertas pela ortodoxia.Quem pode discernir isso?

  • Ladjane

    A incerteza traz reflexão. As escolhas religiosas são difíceis. Cada um se aproxima da sua crença, com cuidado e em busca da salvação.
    abs
    antonio paulo

 

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