O poeta, os sentimentos, o anjo torto

Há sempre quem insista que o homem é um animal racional. Discussão antiga que atravessa a história. Nem todos se envolvem com essa verdade dita  secular. Duvidam da capacidade de equilíbrio que nos pertence. É polêmico. Até mesmo o conceito de razão merece longas reflexões. Não podemos esquecer que a modernidade o elege como básico para sustentar mudanças e nos tornar senhores do mundo. No entanto, os desgovernos povoam as sociedades. Há quem cultive solidariedades, busque soluções, fortaleça utopias. Ninguém deixa, porém, de olhar as arbitrariedades, os exílios, a fome, os desencantos, as competições que persistem apesar de planejamentos e discursos. A confusão não cessa.

A razão seria o caminho para evitar os descontroles. Temos nossas incompletudes. Não são poucas. Vacilamos, cremos em deuses  indiferentes ou promovemos guerras de violências crescentes. Os momentos da razão trariam possibilidades de paz e apagariam as desavenças? Seriam espaços de arquiteturas amigáveis, sem labirintos perigosos, com trilhas suaves e pacíficas? A razão evitaria injustiças radicais, amenizaria impulsos perversos? Enfim, uma luz, um ponto de esclarecimento para nos assegurar histórias vitoriosas, com progressos incansáveis? Nem tudo é tão perfeito ou nada é perfeito? A interrogação é constante.

O penso, logo existo tem uma existência importante. Não quero negar sua validade, nem tampouco que somos animais perdidos, sem ocidentes, nem orientes. Longe mim, a celebração do naufrágio. Descartes, Aristóteles, Kant, Hume merecem saudações. Curtir a diversidade anima a convivência, afasta o pessimismo. O mundo é imenso na sua complexidade. Como interpretá-lo de forma única? Como afirmar apenas o eterno? Há muitas leituras do que acontece. As palavras possuem desenhos inesperados. Quem não se lembra de Freud, Marx, Kafka, Rousseau, Dante, Adorno? Cada um enaltecendo verdades, com admiráveis responsabilidades teóricas. Não fechemos as portas. A razão sobrevive, não foi sepultada por todos. Há desconfianças, suspenses, nostalgias, companheiras das permanências.

As aventuras humanas seguem, as sociabilidades se balançam, as lutas e os conflitos não desistem de firmar desastres. As instituições modificam ações, algumas refazem métodos, mas não alcançam êxitos definitivos. As explicações racionais para os fracassos fragilizam as utopias. Atiçam repetições. As ambiguidades tomam conta do mundo, a dialética do esclarecimento não respira sem enfrentar atropelos. A harmonia não vinga, se desmancha, trai ilusões e anula esperanças. As palavras remontam significados. Os conceitos ganham outros lugares e outras cores. Já se discute como mais intensidade o fim de verdades e a reformulação de princípios.

A modernidade não garantiu nenhum sinal de paraíso. O circo pega fogo e falta entusiasmo para redefinir paradigmas.  As lamentações atingem os insatisfeitos. Não há como esconder que os desfazeres perturbam e nos colocam em situações suspeitas. Fica difícil armar raciocínios. Não me reclamo. Nunca abandono, contudo, a sensibilidade. Lembro-me de Carlos Drummond: “Mundo mundo vasto mundo, se me chamasse Raimundo seria uma rima , não uma solução. Mundo mundo, vasto mundo, mais vasto é meu coração”. Assim, as pedras no meio do caminho não assustam. Como diz, o poeta é preciso ser gauche, ouvir os conselhos do anjo torto, sem desprezar as invenções.

 

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5 Comments »

 
  • Rosário disse:

    Lembrei de uma passagem do escritor walter hugo mãe:

    Quando bebeu o primeiro gole de vinho julgou que a vida, se fosse justa, poderia ser feita daquilo e mais nada. ao inventar as coisas, quem inventara, deveria ter-se ficado por aquilo, um vinho, uma amizade sincera, o calor magnífico do fim da tarde, a paisagem mais bela de todas. era tão fácil inventar só aquilo e só com aquilo garantir com segurança que as pessoas do mundo inteiro seriam felizes.

    walter hugo mãe, o apocalipse dos trabalhadores

  • analucia disse:

    Antônio,
    hoje dia do meio ambiente elejo a ‘sensibilidade’, que você está ressaltando em seu texto, como uma expressão generosa e aliada. Com a força da ‘palavra’ peço que caiam os discursos.

  • Rosário

    Que belo! Hugo tem uma intimidade grande com a escrita.
    abs
    antonio paulo

  • Valerio disse:

    Antônio,

    há muito de irracional, antes talvez seja isso que nos salve,

    no absurdo cotidiano que estamos imersos. A vida deve ser mais

    que suas ferramentas e instrumentos – tais quais a razão.

    até breve

  • Valério
    A vida tem uma complexidade grande e muito risco. É mesmo muita magia.
    abs
    antonio

 

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