Os sentimentos soltos na sociedade líquida

Pensar a história como invenção humana não é fácil. Há esquemas de explicações naturalizados. Insistem na existência de um caráter humano que define escolhas e ações. Muitos se negam a olhar a cultura e suas transformações. Desenham a história como uma sucessão de fatos ou escala de degraus que levam ao apocalipse. Prevalece a concepção de um tempo linear, marcado pelas observações positivistas que lembram o século XIX. Vão reforçar seus argumentos nos princípios da Escola Metódica e desprezam os devaneios do romantismo. Com isso, perde-se a criatividade e se retoma a velha questão da decadência. Há quem não enxergue a ressignificação dos comportamentos. Elege-se a permanência como base das análises, mas não  se percebe que ela dialoga com as modificações e as rebeldias de cada época. É preciso visualizar a  história na  multiplicidade.

Estamos na pós-modernidade. O tempo vai e vem, porém as circunstâncias são outras. O período das grandes revoluções já passou, o Renascimento deu contribuições notáveis à estética moderna, as bombas atômicas mostraram a crueldade política. Sobram lembranças e não faltam admiradores do passado. Não custa contemplar o que foi vivido e articulá-lo com o presente. Não há razão para formatar estranhamentos artificiais. As relações sociais se tocam, mesmo estando distantes. O importante é atentar para os disfarces e as manipulações. O passado fornece exemplos, desde que não se abandone a crítica e não se decrete a nostalgia como modelo.

Os vestígios compõem a memória, nos seus complexos balanços entre o recordar e o esquecer. O sentimento é humano. O amor tem destaque na mitologia e desafia as teorias psicanalíticas. Uma leitura das tragédias gregas ajuda a compreender dimensões  e riscos da sociabilidade. O sentimento aproxima, fortalece coletividade, contudo também promove enganos e instabilidades. Édipo, Prometeu, Afrodite, Sísifo mexem com fantasias atuais. No entanto, o cerco das mudanças é outro. O efêmero domina, a velocidade significa, para muitos, prazeres e encontros com poderes indispensáveis. Portanto, os espelhos fotografam metamorfoses e ameaçam dogmas.Quando narramos as histórias não estamos soltos. Exercemos sensibilidades e nos inserimos nas dúvidas que alimentam o cotidiano. A pressa estimula a superficialidade, desvia a concentração, focaliza a vontade de aparecer.

Visite os textos de Zigmunt Bauman e atice  indagações sobre a contemporaneidade. Não mergulhe de forma radical, mas alicerce seus contrapontos e suas comparações. As teses de Bauman sobre a liquidez dos tempos pós-modernos instigam, desacomodam e desfazem preguiças televisivas. As narrativas históricas não firmam verdades definitivas. Passeie pelo caminho da sinuosidade e se desligue dos deslocamentos contínuos. Classificar e hieraquizar são arquiteturas do pensamento, porém a desconfiança desmonta e reinventa. O amor romântico ainda chama a atenção e atravessa nossas emoções. Há quem sonhe com a eternidade e reconstrua práticas ditas tradicionais (?). Afirmar que tudo resulta do individualismo pragmático é uma ousadia . Situar-se  demanda  paciência que sentimentos líquidos não provocam. A sua história está misturada com outras histórias. Tente vê-las, sem arrogância ou sinais de desespero. No meio de tantas incompletudes, há saídas. Basta não ficar inerte diante da massificação e das armadilhas da mídia.

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2 Comments »

 
  • jailson disse:

    Do lado de cá, vale saber que todos somos Midas. E que sempre se pode tocar, mais do que trocar, as coisas visíveis e invisíveis.
    Um abraço, Obrigado, Jailson

  • Jaílson

    Saudades da sua generosa sabedoria. Vale muito.
    abs
    antonio

 

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