Chico Anysio: os significados da morte e da memória

Chico se foi. Artista, excepcional, é difícil enquadrá-lo em algum modelo. É único e, ao mesmo tempo, múltiplo. Inventou mais de duzentas personagens e viveu com intensidade cada um. Há lembranças selecionadas, de certas figuras, mas vale a criatividade. Seu humor impressionava, tinha um fôlego que se espalhava. O novo fazia parte da sua aventura. Não cansava, desmanchava a mesmice e gostava de expandir suas ambições. Inquieto, provocou polêmicas e invejas. Compartilhou, não fugiu da solidariedade, renovou com coragem . Há uma aceitação, quase unânime, de sua participação singular na televisão brasileira. Não adianta estimular comparações. Chico é Chico.

80 anos, muitos filhos e netos, casamentos, livros, companheiros de jornadas, fases de decepção, brigas com a famosa Globo. Não cabe, aqui, levantar informações, entrar em minúcias. A morte traz silêncios e ruídos. Mostra como tudo pode ser interrompido com dor e desânimo. Não podemos evitá-la, atravessa narrativas, sacode as memória. Sempre o inconformismo, o que deixou de ser completado, as lacunas do humano. Um ritual que prossegue ritmando as culturas, perturbando os corações, desafiando a ciência. Muitos dizem que não a temem, parecem preparados para aceitar os limites. No entanto, os sentimentos são desiguais, surpreendem, não costumam morar na quietude.

Costumo dizer que não há morte na história. Não me refiro aos suspiros agonizantes dos corpos, aos sofrimentos cultivados nos hospitais, às tristezas que tumultuam as expectativas dos amigos. A vida se encerra, a sociedade lamenta, celebra, agita-se, estica seus comentários sobre a fama ou a falta de sorte de outros. Há anônimos. Poucos alcançam as manchetes. A maioria termina em cemitérios mal cuidados. Resta, porém, a saudade serena ou devastadora. Alguém se vai, fisicamente se decompõe. São as recordações dos encontros, os exemplos, as divisões, o vivido, as experiências compartilhadas, totalmente, esquecidas? A morte transfere emoções, desloca, não se reduz à frieza dos corpos.

Chico se foi. A sociedade exalta seus feitos, cria-se um vazio, as lágrimas marcam rostos. Tudo passa.  Surgem outros fatos, as repercussões mudam, as significações desenham momentos diferentes. Quem morreu perde espaço nas lembranças, mas não desaparece. É a força da sociabilidade, os entrelaçamentos, a instituição do imaginário, o apegos aos afetos soltos. Portanto, redefinem-se significados relacionados com o que cada um representou, não existe modelo, nem geometria fixa nos caminhos que constituem as memórias. O ponto de exclamação ou de interrogação merece lugar, talvez, mais visível do que o ponto final.

A morte balança as mínimas certezas. A cultura, porém, não se fecha, retoma comportamentos e se distrai com saberes inesperados. Os mitos não cessam de viajar pelos tempos, acenando para os desejos de eternidade. Tudo é uma construção, as regras dialogam com os desmandos, o futuro atrai profecias. As possibilidades estão no mundo. Possuem gosto de acaso. Nem por isso, as religiões se acabaram, as crenças se intimidaram. O eterno retorno é apenas uma especulação filosófica? As respostas circulam junto com as perplexidades. A simultaneidade nos faz conversar com os instantes, rever passados, compreender que há movimento. O anjo torto de Drummond anuncia descobertas…

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