Os sonhos flutuam nos tapetes mágicos da vida

Quem parte sabe qual o destino perseguido? Qual o significado de viajar pelo mundo desconhecendo os caminhos de chegada? Quem cultiva o sonho convive com o medo e o desespero ou mergulha em fantasias coloridas e brilhantes? Nem sempre quem parte visualiza seu desembarque. Pode ficar à toa, sem escolher o lugar definido, esperando algum sinal de equilíbrio. Outros desenham suas retas.Rapidamente. Cumprem as profecias das primeiras cartomantes. Possuem a intuição que indica sortes e desejos fortalecidos.

O sonho não sobrevive sem sentimentos, sem toques de ilusão. Não são imaginações tardias, despidas de qualquer relação com o vivido. O sonho ajuda na elaboração do tempo de cada um, não permite que a mesmice tome conta das travessias. Sua conexão com o passado não significa medo, mas fabricações da memória. Sua conexão com o futuro não é desespero, porém costura das transcendências que envolvem as projeções pessoais.

O ponto de partida é algo que alerta, produz ruídos e avisa perigos. Os enganos existem e tumultuam as expectativas criadas. Portanto, o conselho é se desapegar da certeza e desconfiar do absoluto. Os tropeços atrapalham e , ao mesmo tempo, saculejam. Nas grandes competições esportivas, os vaivéns as torna complexas e imprevisíveis. O poder do sonho é estímulo, mas também armadilha para disfarçar lacunas.

Contemplem as campanhas do Náutico e do Sport. Liguem-se nas trajetórias do Timbu e do Leão, desde o início do Brasileirão. O impulso maior é subir, atingir o pico da montanha. Chegar, na série A, transforma torcedores em fundamentalistas radicais. Pouco se situam nas dificuldades. Morrem nos braços das promessas. Criam gritos e canções de dentro do sonho de quem desmanchou as dúvidas e já prever conquistas consagradoras.

O Náutico colocou fogo no pedaço. Figurou na ponta da tabela, assustou os favoritos e deu vaidade desmesurada ao técnico Gallo. O vermelho e branco atacava com destemor e , na primeira fase, deixou todos acreditando no sucesso final. Ninguém caiu na real de analisar o elenco, ver suas limitações. Foram muitas contratações, seguidas de dispensas. Faltou dinheiro e sobraram jogadores descompromissados. O Náutico entrou numa caverna escura, desceu do seu tapete mágico.

O Leão vacilou. Compremeteu-se, depois de sofrer derrotas. Sentiu o amargo de estar na beira do abismo. Futebol é jogo. As circunstância mudam e o Sport resolveu desobstruir sua passagem. Contratou Geninho, reforçou o time. Saiu do incômodo, porém sem muita convicção. Quando se pensava numa disparada, surgia uma derrota melancólica. O elenco desligava-se dos afazares mais urgentes, mandado para o lixo oportunidades de gol primárias.

As coisas se complicaram e a reviravolta se distancia. O Náutico luta para não se perder no precipício. Cada jogo é uma batalha. Os horizontes apontam tempestades desorientadoras. O salvador da pátria, Roberto Fernandes, não se entrega. Avalia o risco que corre e flutua. O Sport junta cacos e lamentações. O jogo traz medidas que tritura esperanças ou espanta azares. O último minuto, talvez, confirme a profecia do sonho, mesmo que o tapete se desfie.

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2 Comments »

 
  • Rosário disse:

    Caro Antonio Paulo,

    Tenho feito alguns incursões pelo seu blog, desde que ouvi falar das tais “astúcias de Ulisses” no mundo do futebol. Não ousei escrever comentários devido minha ignorância no tema futebol. Mas,o texto de hoje me fez pensar sobre a matéria delicada de que são feitos os sonhos que sonhamos cotidianamente. Estou lendo “Outras Cores” de Pamuk e passei a pensar nas correspondances (no sentido benjaminiano) entre seus textos e os de Pamuk. Parece-me que eles partilham algo comum: a escrita não se faz sem sonhos.

    Abraços

    Rosário

  • Rosário

    Ainda não vi o livro de Pamuk. Já comprei mas estou sem tempo de ler. Fico feliz com sua entrada no blog. Assim podemos dialogar com mais frequência. Com certeza, os sonhos e as escritas são conectados. Mesmo que não percebamos, a vida não corre sem a fantasia.
    um abraço
    antonio paulo

 

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