Os sustos da vida, os ritmos do inesperado

            

Quem pensa a história está ligado no tempo. Os acontecimentos tem um fluir, não são estáticos. É preciso defini-los no seu ritmo. Se acreditamos na sucessão dos instantes, na força das causas e das consequências, podemos passear no trem do progresso. Alguns exageram e sacodem as soluções para o futuro. Isso era muito comum no século XIX. Houve, no entanto, muitas mudanças.

A ciência não deu as respostas esperadas. Faz , em muitas ocasiões, o jogo do mercado das trocas, abandona os projetos utópicos de antes. Ela cultiva , então, o pragmatismo, envolve-se com laboratórios e pesquisas destinadas ao acúmulo de lucros. Frustrações, para muitos, que acreditavam na neutralidade do conchecimento e esqueciam-se da luta política. Não há equilíbrio permanente. Ele é fugaz e . às vezes, traiçoeiro.

O tempo vai e volta. Temos períodos marcados por otimismo, outros por uma melancolia devastadora. O progresso trouxe profecias que não se realizaram, pois as contradições continuam firmes e as desigualdades se multiplicam. Agora, a economia possui outros lugares. A globalização é destruidora de diferenças culturais, aproxima em muitos pontos, mas massifica, elege valores efêmeros. Virtualiza.

Olhar o futuro, não é deixar de lado o passado. A memória é uma relação. O Brasil viveu a perda da Copa do Mundo de 1950. Foi um choque, um pesadelo. Criou uma desconfiaça no futebol nacional. Muitas reflexões foram produzidas, anos depois. Com as conquistas de 1958  e 1962, tudo se revirou. Uma geração de craques fazia a tragédia se distanciar. O mundo assumiu que tínhamos uma cadência especial. As dimensões do mercado da bola se ampliaram e nossos jogadores tornaram-se internacionais. Inventamos outra arte, divertida e surpreendente.

Nada é para sempre. O tempo não fixa medidas definitivas.  Quando os governos militares se instalaram em 1964, a democracia desandou profundamente. Muita censura, muito medo, muita opressão. Os ruídos arranhavam o autoritarismo, duvidavam das suas palavras, desnudavam suas hipocrisias. A intimidação também se esvazia e a persistência cava seus buracos. Os atos de soberania ditatorial não convenciam a todos. Cresceram os ruídos, de dentro e de fora, e o susto inibiu os antigos vencedores. Voltamos às eleições diretas, aos debates, ao encontro de cidadanias perdidas.

A história acendeu suas transgressões e desfez-se  do grito da violência única. A sociedade se reformulou. Os sonhos desenharam outras imagens, mas o tempo mantém seus ritmos variados. Alguns projetos sociais fascinam grupos que apostam na solidaridade. Outros afirmam a força do individualismo. Consolidam visões de riquezas materiais. As invenções políticas se montam e se consagram, de acordo com a aceitação de quem acompanha sua diversidade. Não é simples. O dualismo engana e empobrece a inteligência.

Os craques da bola e da politica nem sempre vencem o desgaste dos anos. Caem no abismo do envelhecimento. Viram fotografias desbotadas, figuras, de museu, obscuras. Pouco questionamos sobre as linhas e curvas do tempo. Geometria perigosa. Não há  negar, porém, que os enganos do presente não ficarão sem respostas no futuro. Não custa dançar a melodia que enternece e pacifica. O relógio de Salvador Dali aguarda um afago. Cansou.

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