Os territórios do saber e a complexidade das disputas

Os territórios do saber existem e não estão isentos das contradições que tomam conta da sociedade. Há ilusões de que os intelectuais possuem lucidez mais aguda, devido ao acúmulo de conhecimentos. Pode acontecer, mas não é uma verdade inquestionável. Muitas vezes, as lógicas acadêmicas constituem castas. As hierarquias não fogem da instituição de privilégios. Portanto, é sempre importante não abandonar a visão da história que olha bem como as ações se entretecem e não se isolam. Se vivemos um cotidiano competitivo, não poderíamos esperar um saber neutro, generoso, democrático. Os espaços do individualismo estendem-se, não apenas pelos mercados e pelas bolsas de valores.

É comum que haja disputas pelos lugares especiais das verdades vencedoras. Não há como dispensar as referências, nem tampouco os argumentos ditos transparentes. A questão é observar os confrontos. Ainda resiste a compreensão dualista que coloca o bem e o mal como organizadores das relações sociais. Há tradições milenares que sustentam o culto a paraísos e elege destinos. Fazem parte da construção da cultura. O passar do tempo não significou o fim das desconfianças. Isso provoca desconcertos. Há conquistas científicas, melhoria de legislações, porém caem compromissos com o coletivo e fortalecem-se burocracias kafkanianas.

A  produção do saber não se ausenta das controvérsias. As universidades sentem seus sistemas da avaliação remontados para dar conta das muitas novidades teóricas. Elas não estão fora das negociações econômicas, nem são o único espaço de aprendizado mais sofisticado da sociedade. Esquecemos, muitas vezes, que o conhecimento não cai do céu. Quem o produz atravessa caminhos diferentes. A homogeneidade é perigosa. Alguns lamentam as dissonâncias, contudo a aceitação passiva de verdades é sinal de submissão e falta de autonomia. Os territórios do saber são pantanosos e labirínticos. Convivem com a inquietude, com vaidades e egocentrismos.

A multiplicação dos saberes vem acompanhada de tecnologias e modismos. Que o diga Foucault. Inventam-se novas formas de disciplinar e reprimir com cinismos envolventes. Os meios de comunicação mudam hábitos com uma velocidade incrível. Estamos, na época, dos discursos competentes e especializados que trazem fórmulas mágicas. A reflexão não é estimulada. A quantidade de informações perturbam as escolhas, desfiguram as intimidades, compõem tiranias disfarçadas. Até mesmo nas badaladas redes sociais há tensões e cenários de exibição. Não devemos celebrar, apenas, o negativo. O poder de transformação e de reinvenção permanecem. Ajuda a estimular reviravoltas e  reconstruir solidariedades. Isso é fundamental para que a história não consagre imagens brilhantes, mas vazias.

Quebrar as fronteíras é um desafio da contemporaneidade. O mundo não se arrasta. Pede decisões rápidas. Os valores se misturam com a atmosfera do descartável. Surgem muitas perguntas e dificuldades imensas de respondê-las. Sempre insisto que as análises nunca devem desconsiderar os sentimentos. Tudo se move com o verbo trabalhar, com o tilintar das moedas, numa coisificação constante. O mesmo saber que desfia e desmancha preconceitos é também utilizado para traduzir vaidades e arquitetar armadilhas. A palavra riqueza tem muitos significados e embriaga com sedução permanente. Acumulam-se saberes, como mercadorias expostas nas vitrines dos shoppings.

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