Os trapézios da história: a incompletude, o tempo, o desejo

Sinto falta dos circos de antigamente. Tenho memória prazerosa. Lembro-me dos detalhes. Firmavam-se admiração e suspense. Os trapezistas me deixavam perplexo. Era uma síntese da vida e não  percebia. O voo de cada trapezista trazia febre no coração e frio na barriga. Saía exultante. Como seria bom que aquele espetáculo não se acabasse… Mas a vida não para de respirar, as ações se multiplicam, os caminhos se entrelaçam, A saudade é grande e as metáforas são belas. A sedução acompanha a nostalgia, Os sentimentos não desprezam as máscaras, choram lágrimas que escondem antipatias ou ressentimentos.Os fascismos fabricam ilusões que fortalecem intolerâncias. Os amigos virtuais são, algumas vezes,  espiões mal resolvidos em busca de detonações anônimas, frequentando as cavernas do facebook.

A história está cheia de trapézios. O tempo nos mostra que a complexidade não cessa.Não há, porém, linearidade. O que foi vivido se entrelaça com o que está sendo vivido. Não sei como apagar o futuro, as tradições, as nostalgias. Sempre as ruínas, os toques, as ansiedades atiçando as mudanças ou buscando adicionar vestígios e até mesmo barbáries. A cultura veste-se de significados. São muitas leituras de cada tempo, existe uma Macondo em cada imaginação, recordando García Márquez e superando cem anos de solidão. O tempo é uma invenção, não possui uma medida,  Ele desconfia do eterno retorno e escreve geometrias alarmantes Deus talvez seja uma criatura e não, um criador, representação de uma absoluto que nos consola e nos engana.

No meio de tantas ocupações que contrariam a ordem reinante, não custa assanhar os mitos. Adão e Eva não ocuparam  o paraíso? E a culpa, o pecado, o perdão, a serpente ditando as ordens? Não pense que existem ausências de significados. As fantasias não andam à toa, Elas ajudam compreender os desencantos do mundo. Por que as religiões estão articulando com a política? O capitalismo não é inocente. Faz alianças, despreza códigos de ética. Usa o pragmatismo como fogo para destruir. Observe os dramas de Cunha e Mendes, não se iluda com as reclamações de Renan, nem a arrogância de Moro. São trapézios perigosos e cínicos, a sociedade não depende de um único voo. Ela não é transcendental. Risca o cotidiano.

A história não é destino, mas possibilidade. Os lugares das reconquistas podem combinar com os desejos. O ponto de exclamação está perdido e o juízo final  mora no abismo de quem vive de um sadismo disfarçado. Não adianta prever o fim da agressividade, a comunhão de todos. A história não compactua com o homogêneo. No entanto, é estranho que a minoria se submeta à maioria, que o discurso da servidão voluntária celebre vitória e curta jantares. Viver cada minuto com se estivesse compondo uma obra da arte seria uma saída. Como desmontar a amargura, a mentira arquitetada pela mídia? O espaço  da especulação não morreu. A incompletude é trágica, pede que a solidariedade não se extinga. A ousadia do trapezista não é minha e nem  sua,Os despertencimentos esfarrapam a lona do circo,

You can follow any responses to this entry through the RSS 2.0 feed. You can leave a response, or trackback from your own site.

Deixe uma resposta

XHTML: You can use these tags: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>