Os vestígios fascistas não calam seus ruídos

O  mundo se revira. Ontem a festa, depois a ressaca, a busca de trilhas de alegria que renovem a flutuação da vida. Muita coisa acontecendo, fica difícil sintonizar as informações. A complexidade interfere nas escolhas, dá aquele vacilo no coração, mas estamos na vida. As notícias correm, trazem vestígios do passado. A Europa não se recompõe. Mais uma crise do capitalismo que assusta. Na época dos desencontros, das perdas, surgem opiniões, saudades, ilusões, reconstruções do vivido. Ninguém gosta de curtir ameaças, de se deslocar para o desespero, de temer as manobras do futuro.

A Espanha não consegue disfarçar que o desemprego é um forte problema social. Os jovens se inquietam, os velhos sofrem com desconfortos, com as famílias desarticuladas. Muitos não esquecem a Guerra Civil. Faz 75 anos, mas a lembrança do Francisco Franco se inscreve na memória. Acredita-se que cerca de 35 mil pessoas tenham morrido por conta das perseguições do governo fascista. Há ressentimentos que permanecem, há também quem elogie as políticas de Franco e o recordem com líder responsável. Não deixou de ter admiradores. O exemplo da Espanha não é único no mundo. No Brasil, existem os que celebram os tempos de ditadura, com entusiasmo patriótico.

Hitler apareceu num tempo difícil para Alemanha. Usou estratégias bem sucedidas para chegar ao poder. Queria conquistar um império, convenceu milhões de que estava com a verdade. Suas ideias se espalharam. Organizaram-se grupos que o viam como redentor da humanidade. Os totalitarismos encontraram espaços, intimidaram democracias, concentram violências. Salazar, Stalin, Franco, entre tantos outros, governaram sob o signo da censura e o preconceito. As ditaduras militares na América Latina trouxeram anos de quebra da liberdade e da renovação. Cantavam elogios a nacionalismos conservadores e opressivos, com as prisões repletas de pessoas. São experiências, historicamente, recentes.

Quando as relações sociais se fragmentam e os ritmos das conquistas materiais diminuem, os abalos chegam, mesmo depois de euforias que pareciam garantir o sossego geral. Passamos por duas guerras mundiais, por dominações neocoloniais, por terrorismos dos mais variados tamanhos. Não há como decretar o fim dos suspenses e a manutenção da paz. As utopias reservam sonhos, mas a fragilidade é inegável. A competição arranha projetos que prometem mais solidariedade. O mundo capitalismo vaivém para assegurar seus valores. Nele não cabe a igualdade, a ética passeia pelas teorias, no entanto se busca a riqueza mesmo que traga o prejuízo de uma maioria. A neutralidade é uma ilusão.

Por isso, é importante não adormecer e acompanhar o momento. O heterogêneo desconcentra, muitas vezes, a atenção e leva ao desconhecimento. A história luta contra o esquecimento para fugir da repetição da barbárie. Nem sempre é uma luta que ergue adesões e o descontrole toma conta dos donos do poder, com ajuda de outros grupos fascinados pela possibilidade de repartir vitória. Há enganos que refazem concepções de mundo. A dimensão da crença em salvadores, da infantilização, não é incomum. Nem todos querem a mesma saída. Ela pode ser labiríntica e retomar vestígios de barbárie para reconstruir idealizações. Os tempos históricos dialogam, inventam significados, escorregam.

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