Os voos da saudade compõem as histórias

Não há o tempo que se defina como definitivo. Os historiadores teimam em organizar períodos, sistematizar identidades, debater sobre os avanços da cultura. Há divergências imensas que não cessarão de existir. No entanto, faz parte da vida contemplar a passagem do tempo e curtir suas perplexidades. Ficamos incomodados, criamos recordações, sentimos velocidades que abalam a firmeza do corpo. A incompletude se anuncia, não há com apagá-la. As ilusões nos visitam, idealizamos futuros, navegamos nas prováveis certezas. As religiões não conseguiram garantir a eternidade, porém insistem nas  orações cotidianas.

Tudo passa. Os relógios são inquietos. Houve a Revolução Francesa, Freud abalou a sociedade da época, a bomba atômica matou sem piedade, as utopias dançam ritmos estranhos. Os acontecimentos desenham formas no tempo. Representam revoluções, fugas, genocídios, infernos astrais. A multiplicidade não tem limites. Procuramos regras e as encontramos. Nunca, porém, elas valem para sempre. Convivemos com saudades de tempos que pareciam negativos e ressuscitamos lembranças de pessoas e de mágoas.

Portanto, a saudade compõe a história. Quando pensamos que o passado está sepultado, ocorrem surpresas e, muitas vezes, nos desfiamos. Não dá para traçar linhas retas, nomear períodos e afirmar que somos soberanos. As histórias não possuem enredos lineares. Os sentimentos se deslocam com uma agilidade impressionante. Esse domínio sobre o tempo é uma falácia. Necessitamos inventar poderes que não sustentamos. O que seria da cultura com uma exatidão inquestionável, sem reclamações ou desaventuras?

A fórmula radical talvez seja uma magia divina. Prefiro ficar longe dessas especulações. Mergulho nas minhas saudades, arrependo-me de escorregões desavisados, mas observo que a vida puxa para frente. Muita saudade termina confundindo os desejos. A história é mesmo um vaivém que os saberes acadêmicos lutam para explicar. Tudo é muito precário, contudo há devaneios e sonhos. Não somos cercados de pesadelos frequentes. Respiramos, conversamos com otimismos, gostamos das configurações dos paraísos e cogitamos tocar no infinito.

Atravessamos os caminhos sem visualizar distinções claras. Há muitas sombras, desperdiçamos raciocínios. Existem sociabilidades que retomam lugares, refazem tradições. Reaparecem comportamentos, ressurgem amores, dispensamos conhecimento. Quem se encanta com fronteiras inexpugnáveis corre o risco de se afundar no abismo. Os voos da saudades aliviam dores e mostram cenários esquecidos, mas presentes nos labirintos do coração. Cada um traça seu tempo, as coincidências aproximam, os diálogos trazem afetividades, as cartografias se alargam.

Não seria exagero concluir que não há como exercer o controle de tanta coisa. No entanto, é preciso que haja transcendências, que a aridez dos desertos não seja a nossa única atmosfera. Por isso, o cansaço dever ser passageiro e a paciência um bem indispensável. Quem se move cultuando salvações defende mistérios e se apega a dogmas. São as escolhas. Os sofrimentos  acordam felicidades fabricadas. Tropeçamos. A história segue. As apostas são muitas. Quando a saudade toma conta de tudo, alguma coisa se partiu profundamente. Houve um voo perdido e solitário. Você conhece a origem do que não parece ter fim?

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