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Os trapézios da repetição: o tricolor no frio da incerteza

Há cenas inesquecíveis. Uma delas presenciei, nas muitas vezes, que fui ao circo. Sempre com a emoção movendo-se, surpresa e cativa. Falo da cena dos trapezistas, com seus encontros no ar, depois de acrobacias magistrais. Tudo vivido por um fio, mas de uma beleza indescritível. Mesmo nos circos, mais modestos, a dança dos artistas deixava os olhos atentos. Num tempo curto, a vida se desenhava numa síntese incomum.

Nas coisas pequenas e nos instantes passageiros, encontramos imagens que testemunham o quanto as relações e os sentimentos se tranformam. Basta exercer a sensibilidade, não se ocupar com o óbvio. O futebol diz muito das aventuras conhecidas e suas contradições. O jogo revela e esconde, cria expectativas e arquiteta promessas. O Santa Cruz continua navegando, por exemplo, sem precisão. O seu barco balança, provoca náuseas. Surge um sinal de que a a vela vai se aprumar, mas a decepção volta, pálida e constante. 

A instabilidade toma conta da maioria. Há uma leve animação, logo desmanchada. Um circo, sem a magia de grandes espetáculos, perdido entre negociações e incompetências. Não adianta atrair multidões, tremer bandeiras, frevar ou fabricar ídolos. Tudo muito frágil, dominado pelo suspiro de efêmero. O Santa se mantém na série D, derrotado pelo Guarany de Sobral. Será que o time não se ligou na presença de 50 mil pessoas naquele domingo no Arruda?

No passado festivo, dos passes de Luciano e dos piques de Ramon, o descaso poderia parecer uma brincadeira infeliz. Não se trata de uma simples decepção, pois a sua repetição cansa e desmotiva. Muitas administrações, cercadas de controvérsias, muitos destinos traçados almejando um sucesso que não acontece. O labirinto é imenso, com saídas pequenas e traiçoeiras. A energia da torcida emocionou, porém o silêncio veio para negar o pulsar das esperanças. Fria e absurda, a mudez se fez soberana.

A cobra coral possui uma história interligada com conquistas admiráveis. Elas estão na memória de tricolores. Nessa atual trajetória de desencontros, contou até com a solidariedade de adversários. O Santa é patrimônio do futebol pernambuco,  não há motivo para testemunhar tantos estragos e derrotas. Os mais fanáticos choram, desfazem seus sonhos, buscam culpados. A tragédia tricolor tornou-se manchete, atravessou conversas, consumiu lexotans, esvaziou copos, produziu insônias.

Givanildo acenou que sairá. Acabou seu compromisso. O time pede desculpas, depois de tantas apatias inexplicáveis. O presidente do clube tem que inventar um discurso de redenção. Ele é político e  está acostumado a situações limites. Suas intenções não se concretizaram. Os sonhos mais ambicionados viraram fanatasmas angustiados.

Não adianta nomear culpados, fazer uma lista de incapazes. É preciso procurar fôlego e afastar os coveiros oportunistas. O Santa sofre por excesso de oportunismo de alguns e desprezo pela ética de outros. Descaminhos  que firmam tristezas, mas esclarecem dúvidas. Não dá para fazer do clube uma vitrine, em função do brilho  de dirigentes. Há um numeroso grupo que se sente enganado e não engole amarguras desgastadas. Fica a crueza do desencanto. Por quanto tempo ?

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Os resultados e as emoções: a bola confunde e alivia

O futebol movimenta-se, como uma roda de um carro de fórmula 1. Muita velocidade para sincronizar tantos acontecimentos. O que mais atrai são os resultados dos campeonatos. A continuidade das vitórias deixa satisfação nas torcidas. Os mais otimistas já visualizam o título e consagram ídolos. Tudo pode ser, porém, desfeito, em semanas. Essa é uma das magias do jogo. Testa nossa capacidade de suportar certas adversidades e aquece as inquietudes.

Os admiradores do Timbu devem estar furiosos. Mais uma derrota, em casa, num fracasso colossal. O time não se articula. Não se vê mudanças substanciais que anunciem uma virada. Há certo consenso que o Náutico não soube contratar. Já o Sport segue sua reabilitação. Ganhou fora e se aproxima do bloco avançado. Se conquistar mais seis pontos dará uma passo fundamental, rumo à série A. Geninho sorri. Gallo garante seu cargo?

Fluminense está tropeçando. O paraíso não se arruma como antes. Brigas internas são anunciadas. Intrigas entre jogadores ameaça o emocional. Muricy tem que usar sua força de comando, para não despencar por causa de  transtornos inesperados. O mesmo ocorre com o Corinthians, no momento do centenário. O Brasileirão é instável. Traz descontroles para os inexperientes ou os convencidos de seu poder de invenção.

O Flamengo vacila, com um elenco sem os talentos do ano passado. Lá se foram Adriano, Love e Bruno. O vazio não se preencheu. Salvou-se, em 2009, num ambiente de muitas fofocas, mas não se encontra em 2010. Talvez, esteja plantando para o futuro. Sua torcida numerosa intranquiliza-se, mas Zico se mostra comprometido. Não quer administrar, com a pressão dos escândalos na imprensa. O  brilho do pragmatismo desvairado é escorregadio.

O São Paulo é outro cercado de mistérios. Preparou-se para ser campeão das Libertadores e sofre, agora, para firmar-se na série A. O Internacional deixou o Tricolor na fila de espera, com problemas variados e soluções, às vezes, traumáticas.Não temos mais equipes arrasadoras e estáveis. Veja o caso do Ceará. Começou dando sufoco em clubes favoritos. Hoje, vive dificuldades. O técnico Mário Sérgio não soube contorná-las. Ontem, respirou, com uma vitória, aliviando a tensão. O Vitória da Bahia convive, também, com desgovernos.

O Santos não é mesmo do começo do ano. A ausência da articulação tão envolvente, de antes, desmantela as suas atuações. É o futebol com suas andanças inesperadas: o Botafogo fazendo a festa, o Palmeiras sem deslanchar na nova era Scolari e o Grêmio lutando para não cair. O Cruzeiro consegue equilibrar-se, sem deslumbrar, construindo vitórias apertadas.

Quem adivinharia tantas desaventuras? O coração termina os campeonatos cheio de remendos. Tricolores frustrados, flameguistas irados, santistas saudosos… Lidar com emoções é sempre um desafio, mas ensina a sentir a vida, na sua diversidade, e saber comprendê-la nos seus ritmos afetivos. A agitação dos tempos não permite respostas claras. Há, sempre, dúvidas e incertezas.

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O dia santo: o domingo, Charles Chaplin e o futebol

Charles Chaplin é o cinema ou o cinema é Charles Chaplin? Mera negociação entre as palavras ou argumentos soltos e provocativos? Chaplin tem o perfume das almas eternas. Nunca vai deixar de encantar. Toda nostalgia, em seu nome, deve ser exercida, sem medo de cometer pecados capitais. Os sentimentos encontram , nos seus personagens, todas as ambiguidades do humano. Ternura, vingança, descuido, invenção, descontrole, tristeza fazem parte dos filmes de Chaplin, com uma graça que diverte os arcanjos.

A criatividade é um convite a flutuação da vida. Dizem que o criador de todas as coisas descansou no domingo. Seu trabalho intenso o fez mergulhar numa reflexão tão profunda que lhe arrancou as forças. Domingo virou um dia especial, iluminado por todas as sortes, arranhado por raros azares. Muita lenda para tantas vidas inquietas em busca de segredos. O tempo passou e o domingo perdeu sua aura. Não é só devaneio ou diversão.

O santo dia transformou-se. Hoje, sobra pouco espaço para o silêncio ou para o vadio. As turbulências não estão, apenas, nas máquinas, mas também nas chamadas praças de alimentação ou nas liquidações repentinas dos grandes maganizes. O sagrado não sabe qual o caminho mais seguro. Domingo é dia de desencontros, de comunhões impossíveis, de sinos quebrados, sem musicalidade, diantes dos ruídos dos carros de som. As promessas estão na síntese da nota de compras.Os templos ocupam as salas frias dos shoppings centers.

O futebol tinha, antes, seus dias escolhidos. O domingo era fundamental, para que um clássico fosse jogado, com toda elegância, inclusive das torcidas que usavam paletós e  gravatas, chapéus e vestidos longos. O jogo, agora, é outro. Consta nos horários nobres das tvs. Não precisa de lugares incomuns. O futebol se faz presente até nas primeiras horas das manhãs. Dependendo de onde a partida está sendo realizada, visita as madrugadas dos insones, sem cerimônias.

O mundo gira muito mais do qualquer roda-gigante eletrônica. Chaplin ficaria perplexo diante de tantas novidades. O seu circo já partiu com toda sua trupe. O público veste outras fantasias, prefere as delícias dos sacos de pipoca e os goles dos refrigerantes adocicados. Nem olham para tela, entretidos com os sabores fabricados.

E no campo da bola ? Os trajes são curtos, sandálias de todas as cores, gritos de guerra com melodias sofisticadas, gravadas em cds. O domingo profano atinge também os rituais das fugas e das travessuras. As torcidas se aquecem, em bares, usam máscaras, desenham figuras em papelões, esperando o foco da câmeras poderosas. A sociedade desfralda imagens, com as mais diferentes cores e intenções.

Gratuidades, desejos, desperdícios. Chega de especulações ! A metafísica também tem ressacas, o corpo estica-se para disfarçar a moleza. Hoje é domingo e não me escondo das tradições. Dia santo é dia santo. Viva a luz solene do futebol, com sede de gols e malabarismos! Cabe Chaplin no meu sofá vermelho, parceiro de tantas vitórias. A solidariedade é o cristal de cada instante, aconchega e desfaz as melancolias.

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A cidade e o futebol: os espaços redesenham-se

Ir para rua não causava tantos traumas. Era o lugar da brincadeira, o espaço das aventuras da infância. Havia boatos provocadores de inseguranças. Mas passavam. O perigo sempre rondou os centros urbanos, desde as suas fundações. A sociedade convive, com instabilidades, nas suas mais diversas épocas. Engana-se quem pensa que a história passa sem sustos. Os ditos paraísos ficaram num passado mítico.

As cidades trazem multidões para o espaço público. Não sabemos mais  quem são os vizinhos. Existe uma carga  pesada de leis e impostos na  regência da vida urbana. A paisagem modifica-se numa velocidade de semanas. O adensamento das populações disparou. Os costumes são outros. A aldeia é global e elege ambições infinitas.

Na minha adolescência, jogava futebol na rua. Não tinha medo do tráfego.Enfrentava a dureza do concreto. O sábado à tarde era sagrado, para a intraquilidade dos que queriam descanso. A meninada tinha muita energia, não cultivava o hábito de ficar vendo televisão. Os meios de comunicação estavam ganhando força, sem contudo, com seus ídolos, tomar conta do mundo.

Os estádios de futebol não eram lugar de conforto. O calor incomodava.Os serviços precários faziam o torcedor reclamar constantemente. As brigas não eram muito frequentes. As famosas torcidas organizadas não ocupavam manchetes de jornal. Assistíamos aos jogos juntos, sem a separação de públicos, embora as tensões estivessem presentes.

As cidades envolveram-se nos desgovernos da especulação imobilária. O futebol amador perdeu muitos dos seus campos, para as construtoras erguerem seus prédios. O discurso da modernização imperava nos projetos dos políticos. O encanto, com o progresso cegava a maioria e fazia a festa das ambições capitalistas. A verticalização agigantava-se, como solução para os impasses da falta de moradias e as felicidades das imobiliárias.

O mundo das diversões e do lazer não está  ausente de tanta transformação. Tudo ocorre numa velocidade incrível. Os terrenos são vendidos e as construções surgem. De repente, somos surpreendidos por identidades urbanas arruinadas. A memória se agonia, tentando recordar-se de casas, praças, cinemas. A pelada da várzea, tão disputada, quase desapareceu. 

O Brasil se prepara para a Copa de 2014. A Fifa estabeleceu condições. Haverá um gasto imenso com reformulações nas mais diversas áreas. Os estádios recebem investimento especial. É claro que todos desejam mais conforto, melhor visibilidade, banheiros decentes, segurança nos transportes. Não esqueçam, porém, do encarecimento dos preços dos ingressos e da elitização constante. Por isso, o apelo de ficar em casa e cultivar as tvs.

Certas peripécias das revoluções tecnológicas merecem reflexões. Nas cidades, o número de carros aumenta, criando problemas e irritações. Não se vê seriedade nas gestões ecológicas. Não se pode negar o valor de  conquistas que ajudam a maioria, mas a violência espalha-se de várias maneiras. Sobram esconderijos, silenciam-se rebeldias.No reino da mercadoria, as relações tornam-se mais coisificadas.

Os ambientes fechados exercem sua soberania. Frios e burocráticos. Simbolicamente, sem dúvida, diminuem a nossa respiração. E a vida para onde vai ? A bola murcha está abandonada embaixo da cama. Tudo administrado, com ares de liberdade e sossego. Um controle sutil nos arrasta para  o conformismo. O desejo domado enche de mediocridade espaços , antes inquietos e contestadores.

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Os artilheiros de ontem: a fama e o esquecimento

No futebol brasileiro, é difícil selecionar quem foram os melhores atacantes. Há uma galeria de grandes artilheiros, sobretudo, na época, em que o jogo visava o ataque. O gol é a festa. Quem gosta de fazê-lo, se veste de astúcia e atenção. Sabe o valor da força da torcida comemorando. Escrevo, aqui, algumas coisas das lembranças.  Não vou falar sobre Pelé. O lugar dele é muito especial.

Recordo-me de Vavá. Ainda era muito pequeno e ouvia os jogos pelo rádio. Na Copa de 1958, o Peito de Aço mostrou sua força. A sua coragem na área era ressaltada. Surgiu no Sport, jogou no Vasco, Palmeiras e passou um período na Espanha. Não se destacava pela sua habilidade, mesmo atuando pela seleção, junto de tantos craques. Na Copa de 1962, voltou a deixar sua marca.Fez gols nas finais que participou e ajudou o Brasil a conquistar títulos. Morreu 2002,  não sendo um artilheiro muito lembrado.

Outro que surpreendeu foi Amarildo. Teve a missão de substituir Pelé em 1962. Causou grande expectativa. Temia-se que não enfrentasse a difícil tarefa. Mas o Possesso, como era chamado, não vacilou. Ao lado de Garrincha, deu agilidade ao ataque brasileiro. Nada de arrepiar e se esconder. Faturou gols importantes e comemorou o bi com muita honra. Também, não está muito presente na memória dos torcedores.

Já Roberto Dinamite é o grande ídolo do Vasco da Gama. Montou sua carreira política com o prestígio que conseguiu no campo.Colocava-se na área, como poucos, e chutava com uma pontaria que assustava os arqueiros. Chegou a jogar no Barcelona, sem muito sucesso. Terminou sua carreira na Portuguesa. Não brilhou na seleção brasileira, como se cogitava. Hoje, é presidente do Vasco e procura retomar as glórias do seu  time do coração.

Romário traz a polêmica em suas ações. Nasceu em 1966. Baixinho, não conseguiu o físico que tanto auxilia nas jogadas decisivas. Isso não o atrapalhou. Temperamento aceso, não suportava crítica, nem muitas ordens dos clubes. Foi do Vasco, Flamengo e Fluminense,  alardeando promessas e mexendo com seus admiradores. Não é à toa que foi autor de mais de mil gols.

Na passagem pelo futebol europeu, afirmou sua categoria na arte de fazer gols. Seus desempenhos na Holanda, PSV Eindhovem, e na Espanha, Barcelona registraram histórias de atuações fantásticas. Consagrou-se como craque internacional, elogiado e festejado pela imprensa. Mesmo cercado de controvérsias, encantou, no Mundial de 1984, fazendo dupla com Bebeto. Atualmente, lançou-se na política , em campanha no Rio de Janeiro.

São pequenas imagens do passado, com lacunas visíveis. A memória é conversa vadia entre o esquecer e o lembrar. O que vale é a ousadia maior do futebol: a busca das redes. Os amigos da retranca nem se  tocam com os ataques arrasadores que tiveram Santos, Cruzeiro, Botafogo nos tempos de Coutinho, Pelé, Tostão, Quarentinha, Dirceu Lopes, Pepe e tantos outros. Os goleadores estão em recesso. Há carências na criação e na leveza. Consagrar a alegria e a emoção, tão parceiras do futebol, tornou-se um ato raro, diante da obrigação de garantir os resultados.

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O Timbu inquieta os Aflitos e o Leão ruge na Ilha

O futebol não deixa tempo para muitas lamúrias. Acelera o ritmo da vida, em competições que atraem as atenções da galera. Jogos se sucedem. A resistência  emocional é um desafio para os fanáticos. Ele possui semelhanças com a política e a religião. É quase uma crença. Suas discussões acaloradas são constantes. As torcidas entram em diputas, cegamente , movidas por paixões. Quem disse que o ser humano é razão?

A série B do Brasileirão é campo de entusiasmo e decepções repetinas. Seus jogos não trazem muita técnica. Não faltam chutões, passes esquisitos, falhas infantis nas cobranças de laterais, enfim a valentia sobra para resolver os  limites. A flutuação é grande. Há times que começam perdendo e são logo condenados pelos críticos. Depois, ressurgem e disparam. Quebram a lógica. O futebol é terra do lúdico. Muitos esquecem desse mandamento.

O importante, entre tantas relações, é que a multidão não cessa de gastar suas energias. Brinca e renova as esperanças numa conversa na esquina. O futebol agrega solitários Não é, apenas, cenário de violência e arrastões. No domingo, mais de cinquenta mil pessoas estavam no Arruda. Na Ilha, terça-feira, mais de trinta mil. Não é de arrepiar? Não se pode desmerecer encontros tão repletos de detalhes e de desejos.

No culto às instabilidades, o Náutico parece desconhecer como fazer as pazes com uma campanha sem tantos atropelos. O Timbu oscila, naufraga, recupera-se. Distanciou-se da ponta da tabela, quando teve um bom  desempenho, logo no início do Brasileirão. Contratou jogadores de todos os cantos. Sua defesa não oferece segurança e seu meio-campo é um transtorno no trato com a bola.

Ocupa a sétima posição, com um saldo negativo de seis gols. Sofreu sete derrotas. Não cessa  de procurar  jogadores. Projeta salvar o setor ofensivo. É difícil saber o que se passa com o Timbu. Resta visualizar um futuro menos aflito, mais sorte na escolhas dos contratados. As confusões ou as misturas de interesses atiçam incertezas. 

O Leão resolveu sair do território perigoso em que habitava. Teve, recentemente, uma fase de glórias. Viu a equipe desandar com as insatisfações de Nelsinho. Ele se foi, reclamando de ingratidão, e o brilho do elenco desmontou-se. O Sport entrou em queda livre, apagou sonhos e avivou desesperos.

Entrou na série B, sem conseguir afastar os azares. A vinda de Geninho fermentou expectativas. Há uma certa afinidade dele com o clube. O Leão se empolgou. Depois de tantas dispensas, arrumou novas contratações e acertou na mosca. O time sobe na tabela. Não se desfez da invencibilidade.

Estamos no meio da travessia. Com os oceanos sempre rebeldes, fica impossível adivinhar para onde rumam as embarcações. Quem garante que os clubes de Pernambuco vão passar para série A ? Por enquanto, o Figueirense, de Santa Catarina, não está vacilando. Firma-se na liderança No entanto, vamos acompanhar as andanças do Timbu e do Leão. Há muita diversão, em tudo isso, e, não somente, uma balança para pesar as emoções.

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O jogo e a arte: estratégias e invenções da vida

Marcel Duchamp tinha ironia e sensibilidade extraordinárias. Não se escondeu dos desafios do seu tempo. Era companheiro das ousadias da arte. Aconchegava-se, nas vanguardas, e fazia crítica à mediocridade. Seguia a trilha de artistas que encantaram e encantam o mundo como Picasso, Dali, Klee, Magritte, Kafka, Debussy e tantos outros. Eles sentiram que a cultura mudava e revolucionaram as  linguagens, sem timidez e com coragem.

Duchamp faleceu em 1968. É difícil limitá-lo a rótulos. Alguns o anunciam como iniciador do pós-modernismo. Outros o consideram o artista mais influente do século XX. Foi um radical nas suas propostas e nas suas obras. Percebeu como a sociedade se deixava levar pela técnica. Não usou da clareza nas suas provocações. Brincava com inteligência. Formulava  interrogações que permanecem instigando a contemporaneidade.

O retrato acima traz uma  das astúcias de Duchamp: jogar xadrez com uma dama em plena nudez. Onde estão a concentração e o foco? A distração diverte e cria? O linear não derruba a vontade de transgredir e quebrar a ordem? As respostas são muitas, se é que elas existem ! O silêncio penetra na sabedoria, com mais firmeza, do que os ruídos dos negócios ambiciosos.

A capacidade de desfazer e refazer é humana. Nunca se ausentou da história. Os exemplos  são quase infinitos. Cervantes escreveu D.Quixote e, ainda hoje, recebe elogios indiscutíveis. Descartes rompeu com as tradições filosóficas e suas polêmicas continuam arranhando  intelectuais. Bach compunha com se estivesse construindo geometrias. Joyce desacomodou, com seu Ulisses, a escrita e influenciou todo modernismo.

A cultura é mesmo uma resposta à incompletude. Somos seus ativos arquitetos no mais simples ato cotidiano. Seus jogos estão além das imagens de um quebra-cabeça. Não há como limitar as controvérsias entre os tempos. Acreditar em hierarquias progressivas, consolida acanhamentos. Tudo se toca, se mistura. A invenção não se restringe à arte ou talvez a vida seja a própria arte, a sua sombra mais pertinente.

Não aquietar preconceitos deveria ser nossa senha de acesso ao mundo. Nos territórios da cultura, a invenção não cessa. A luta pela sobrevivência administrando recursos mínimos, os conflitos constantes para conseguir  emprego, o desejo de ultrapassar as certezas e buscar as novidades, são impulsos que nos chamam para  descobertas e  artimanhas.

No futebol, são insquecíveis as improvisações de Garrincha, o olhar atento de Tostão nas jogadas com Pelé, as cobranças de falta de Zico, as idas e as vindas do polêmico Maradona, as defesas fantásticas de Gilmar, a inteligência de Zito na armação do famoso Santos dos anos 1960. O futebol ativa o desejo de ir adiante. Observar a cultura acende luzes e destrói medos.

Sempre me lembro das músicas da Piazzolla. Não se curvou às tradições. Tornou-se um ícone, por não ser escravo da obediência. Foi destratado, duramente, no seu próprio pais. Retomou o tango, o fez dialogar com o jazz e com outras melodias do mundo. Astor Piazzolla possui um lugar especial entre os compositores da atualidade. Não fugiu das estratégias da criação.

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A cobra coral fuma e a multidão tricolor se assanha

Mover-se é um dos mandamentos da vida. Ficar estático, esperando que o tempo passe, traz preguiça e desmantelos. A torcida do Santa Cruz gosta do movimento e do desafio. Seu time não consegue tranquilizá-la. É de uma inconstância fora do comum. Está na série D, busca contratações desconhecidas, cria suspenses, mas nada que modifique a instabilidade.

Os tricolores não desanimam. No domigo, foram ao Arrudão com a alegria de um carnaval. Mais de cinquenta mil pessoas. Parecia a população de uma cidade, numa assembleia política decisiva. O adversário pouco interessava. O importante era começar bem. Não faltaram gritos, músicas, dizeres. O Recife foi possuído pelos admiradores da cobra coral.

A partida tirou o fôlego de muita gente. O adversário vinha de Sobral, Ceará, e se mostrou audaz. Não se intimidou. Marcou dois gols na frente. O mundo das três cores parecia desmoronar. Quem adivinharia tão desastroso insucesso? O Guarany queria estragar a festa, entristecer a multidão e sair de Pernambuco com uma vitória inédita.

E o Santa? Brasão não articulava nada. Como disse, não era seu dia. Abusou de ficar impedido. Recebeu vaias. Muita conversa não resolve as necessidades da equipe. Brasão precisa acordar ou mesmo ficar no banco de reservas. Talvez, um pequeno susto o traga para luta, com disposição. Ele que é autor de muitas promessas.

A defesa não segurava o ímpeto do adversário.  Tomou dois gols contra, de maneira infantil. Tudo acontece, mas a reação é o caminho de quem tem coragem. O Santa partiu para reverter a situação. No primeiro tempo, o placar mudou. No entanto, a vitória de 3×2 balançava as esperanças da torcida. O time não oferecia confiança.

Na segunda fase, o Guarany não recuou. Foi punido com mais um gol do tricolor. Era o placar ideal. Mais uma vez as coisas se complicaram, quando pintava um quadro de perspectivas de classificação. O time de Sobral diminuiu a contagem, para revolta do técnico Givanildo. Há algo que não se firma nas aventuras do Santa. O entusiasmo, de tanta energia fluindo, parece amedrontar a equipe e tumultuar seu equilíbrio.

Depois do evento, foi interessante ver a urbe, com milhares de pessoas, em busca de transportes, voltando para suas casas. Quase todos uniformizados, com bandeiras, reunindo familiares, enfrentando o precário trânsito. A paixão remove dificuldades, acede desejos de festa e frustra-se com os descuidos.

A cobra coral não afirmou a trilha anunciada. A dúvida questiona o valor do que dizem seus líderes, corta a vontade de curtir outro domingo no Arrudão. Quem ver, no futebol, um momento de superação de tantos contrapontos do cotidiano, não compreende os porquês de vacilações contínuas. A ressaca da amargura e  da incerteza tensiona.

É sempre possível lembrar o pragmatismo do mundo atual. O lugar da diversão e os sabores da alegria ficam condicionados às malícias do mercado da bola. E a torcida permanece na ameaça do  naufrágio, numa embarcação sem direção definida? O mundo de um futuro vazio pode acomodar o fogo das multidões. Estaria decretada a falência geral.

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Há muito futebol no meio do caminho

As agitações estão em toda parte. Azares e sortes povoam o planeta terra. As notícias globalizam-se. Quando causam perplexidades, são repetidas de forma incessante. Na crista da onda, a campanha eleitoral desfila com ornamentos e tatuagens. Profecias de pesquisas, pós-modernas, assinalam o favoritismo de Dilma. Os escândalos recebem atenção. O caso da Receita Federal traz transtornos. Há ruídos intensos.

A violência corre o mundo. Acusações de assaltos e de desgovernos aparecem nas manchetes. A Europa mobiliza-se, criticando a França e seus dirigentes. Os ciganos são alvos de perseguições políticas. No Chile, a expectativa é grande. Todos estimulam ações para salvar os 33 mineiros. Nos cinemas brasileiros, estreia mais um filme sobre Chico Xavier. A diversidade consolida-se como marca do nosso tempo.

O futebol também não descansa. O Sport segue sua invencibilidade e Ciro é o artilheiro da série B. O  Náutico sofreu, mas ganhou. Espera voltar para a ponta da tabela. A esforço é não deixar esmorecer o ânimo. Um bom preparo emocional salva o time de atropelos inesperados. 

A série B é uma gangorra. A Ponte Preta  vem numa disparada. Chegando perto do Figueirense, depois de um começo vacilante. O Bahia oscila, mas se mantém num lugar de destaque. É impressionante como os times flutuam. Há goleadas e quedas de produção imprevisíveis. A Portuguesa é um exemplo. Com a derrota, para o Sport, já  se anuncia uma crise no elenco. Ela estava, antes, entre os primeiros.

O Brasileirão da série A traz o Corinthians despontando. Pegou o descontrolado Goiás e fez um placar histórico: 5×1. Inquieta, mais ainda, o charmoso tricolor carioca, pois o Guarani desencantou,  no seu estádio, e derrubou o time de Muricy. As torcidas nasceram para emoções tão contagiantes? Faz parte do esporte essas tensões e aprendizados. Muita gente não percebe o quanto se aprende nessas idas e vindas. Uma escola para multidões.

O coração bate com ritmos acelerados. Ele quer calma. Nem sempre, ela se realiza. Os palmeirenses se angustiaram. Fizeram parceria com os botafogueses. O time de Scolari perdeu de 3×2 para o Cruzeiro e o Fogão empatou com o Grêmio. Tudo muito certo, se ambos não estivessem no comando do jogo e, no descuido, deixaram os outros triturarem suas alegrias. 

Algumas redenções merecem ser salientadas. O São Paulo procura sair do incômodo e, devagar, escapa do caos que o perturbava. O Atlético Goianense é outro que deseja se livrar da agonia da desclassificação. Goleou o Vitória da Bahia. Quem sabe se esses clubes não pisarão, com mais força, na segunda fase do Brasileirão? O mesmo se aguarda do Flamengo e do Atlético de Minas.

São muitas disputas. Um mundo dentro de vários outros mundos. Captar os infinitos movimentos da sociedade é um desafio inatingível. Os passos apagam-se, nas areias mais duras, e o fôlego de refazer cada caminhada nem sempre nos acompanha. Existem recolhimentos, esconderijos distantes, agulhas bordando sonhos, tapetes mágicos voando para vigiar as estrelas. O futebol tem luzes e sombras. Como os sentimentos da vida, ele nos abraça ou nos desfigura.

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As travessuras de Neymar: a brincadeira tem limites?

Brincar é humano. Cria, distrai, sensibiliza. Nem todos, porém, suportam certos tons das brincadeiras. Alguns investem, na seriedade, como caminho da aceitação social. Admitem que as gozações revelam comportamentos de vadio. Como dizem, em cada cabeça uma sentença.A vida estende-se por muitos espaços, não vamos comprimi-la em quartos estreitos e úmidos.

Na cultura, ordem e transgressão se conflitam. Podem inverter-se, deixando as pessoas confusas. Na contemporaneidade, é difícil assumir valores ou validar éticas. Muito consumo, brilhos incomensuráveis, produtos de todas as cores. Nem tudo é para todos. A grana circula, mantendo desigualdades e estimulando fantasias. Daí, as violências mal explicadas e os governos cheios de programas de inclusão social.

Não dá para simplificar. A complexidade é grande. A virtualidade existe e o afeto se mascara. Não é possível conter a perplexidade ou ser o sábio de todas as verdades. Por isso, brincar ajuda. Ser rebelde não  é o fim da ordem. Sem mudanças, a história não teria nem começo. Imaginem Adão e Eva respeitando todas as regras do paraíso! Muito peso, para pouco desejo.

Neymar está na mídia. O seu jeito traz polêmicas. É ídolo, joga com leveza e diz coisas que ferem. Os protestos são comuns aos seus modos de enfrentar a sua carreira. Ficou no Santos. Ganhou saudações de toda parte. Crônicas exaltaram sua escolha. Serviu de exemplo. As páginas esportivas estamparam sua figura, como um rei. Seu ar de garoto não desapareceu. Pinta o sete, com muita soltura.

Dribla com rapidez. Faz gols com arte. Debocha, sem perceber o outro. Carece de entender os limites. Não é a sua capacidade de invenção que o condena. O que lhe assanha: a ausência de uma formação ética  mais apurada ou  a imaturidade diante das questões que transformam sua vida? O hard incomoda o soft? Neymar não é anjo, nem demônio.

Uma dose de conversa faz bem. A responsabilidade não é uma dádiva. Entra na educação como um cristal portentoso. Recriminar é uma alternativa. Fabricar sentimentos de culpa é uma saída secular  para assegurar antigas ordens. A religião, a política, o esporte têm suas disciplinas, seus mandamentos, suas tradições. 

O capitalismo morde e sopra. Exige docilidade no trabalho e agressividade nas compras. Cartões de crédito agilizam emoções e prometem salvar fossas perenes. Há muita magia, numa lógica que se configura como racional e objetiva. O sucesso é uma palavra encantadora.Seduz a maioria. Neymar não foge do modelo.

Na sua plenitude sonhada, a arte cultiva trilhas sinuosas, mas não humilha os que se negam a compreendê-la. Talvez, o jogador não se situe nessas questões. Não é necessário ser tão metafísico. Aprende-se com os gestos, com a solidariedade, com o toque da afeição.

 Neymar está fascinado por algumas coisas que  ameaçam estragar seu vir-a-ser na vida. Arrisca-se, em nome da vaidade de superfície obscura. Nada de crucificá-lo. Não custa, porém, alertar e  observar o tamanho da  mágoa de quem se julga desrespeitado. Descontrole, em excesso, é porta aberta para quem ousa, apenas, centrando-se no seu próprio bem. O abismo não é uma ficção.

 

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