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O futebol e a política: epopéias e descontroles

No mundo do futebol, a vida não sossega. Ela está presente nos desconfortos  que o cerca. Ele nunca foi uma ilha, nem um oásis especial. Seria estranho querer enfeitiçá-lo com encantos exclusivos . Não há neutralidade nas relações sociais. As astúcias do poder se apresentam em busca de seus espaços. Ficar em cima do muro é coisa das traquinagens sadias da infância. Imaginem um político neutro, sem partido e sem projeto, livre de ambições e conversando com os anjos. Fantasia demais faz mal ao coração.

Mas o épico ainda se sustenta, apesar de tantos heroísmos fabricados. O Salgueiro venceu o Paysandu, enfrentando condições adversas. Está classificado para série B. Festa sem igual, para um time que conseguiu feito que o Santa Cruz passou por longe. Mesmo com uma torcida empolgada o tricolor do Arruda fracassou. O Guarany que o derrotou ,  manteve a escrita. Também ascendeu. Mistérios do futebol inesquecíveis, mostrando a força de vontade e a motivação, tão distantes de alguns clubes. Valeram as conquistas, numa época de tantas desconfianças.

A torcida do Corinthians está esquentada. Suas  ameaças descontrolam o time. Fazem parte do noticiário da imprensa. É uma resposta desequilibrada aos insucessos do Timão. A violência só  empurra a sociedade para beira do abismo. Repercute mal, deseduca, tem eco até na forma de construir a política. A democracia sente-se destorcida, pois há muitas outras formas de reclamar e seguir adiante. A gratuidade da rebeldia não garante mudanças, porém tensões mal resolvidas.

Escândalos atingem a cúpula da Fifa. Denúncias são feitas sobre a escolhas das sedes para os mundiais. O abalo é grande. Deve ser apurado, porque os negócios registram corrupções históricas. Maculam a imagem de um órgão que se  julga mais poderoso do que a ONU. Tudo é possível. Os interesses são gigantescos, nos investimentos, que, muitas vezes, não dão retorno para os países que são sede. Quem lucra é  a Fifa e as  empresas que lhe acompanham na aventura fértil do capitalismo.

A novela Neymar continua, com capítulos atuantes, na mídia. Finalmente, apareceu o perdão para seus erros, sacramentado pelo Fantástico. Certos programas da Globo têm uma audiência marcante. Tornam-se cenários de acontecimentos que ganham a simpatia da sociedade. É importante não desvalorizar o craque santista. Ele quer voltar a ser um rapaz sem pecados. Pede para que a sua vida seja bem conceituada. Nada como um domingo, como lugar para cumprir sua penitência e prometer quietude. 

O controle do mercado, sobre as andanças dos humanos, estimula as trocas de favores. Não há desejo de desperdício. Como tudo tem o fascínio da mercadoria, não custa está sempre com o verniz na mão e o discurso da  salvação na ponta da língua. Administrar patrimônios requer espertezas e vitrines. O fatia do bolo mais gostosa é de poucos. Há os que se incomodam, quando a maioria  luta por um maior pedaço. Vivem, sob o manto disfarçado, de que a escravidão é um mal necessário. O toque da dominação é sutil e ousa  controlar a maioria.

Os professores na gangorra de todas as jogadas

Ensinar  é uma grande arte. Parece não muito cultivada, no nosso Brasil de urgências complicadas. Falta muito investimento na qualidade. Tudo, agora, se resume aos lances tecnológicos. Pensam que redimem a educação no ruído dos computadores. Estou com os antigos(?): educar é dar exemplos. Vivemos épocas de referências sinuosas. Isso tumultua as escolhas. A pressa e o utilitarismo são inimigos da sociedade aberta para reflexão.

Se coisa anda feia nas escolas privadas, imaginem as dificuldades que surgem no cotidiano dos outros alunos . Como acreditar que há interesse no ensino, se os professores não podem nem estudar? Correm, para cumprir carga horária, sem estímulos mais sedutores a não ser contar as moedas no final do mês. Não dá para mascarar tanto desmantelo e cinismo. Na hora da eleição, as promessa são maravilhosas. Haja ilusão! Cidadania frágil provoca essas desesperanças.

Por outro lado, os professores do futebol vivem também seus dramas. Circulam pelo país e , às vezes, pelo mundo, com rapidez incrível. Antes eram técnicos ou treinadores. Foram renomeados, porém a gangorra não se aquieta. Não ganham tão pouco, como os outros professores. Quando são famosos, juntam muitos reais e propriedades variadas. As agonias são diferentes. Muitas ansiedades, tensão nas derrotas, os ruídos das torcidas, as artimanhas dos  dirigentes, a pressão do empresário. E quando os jogadores resolvem fechar os ouvidos?  E os anúncios de demisão ou de covardia tática? 

O vaivém desmonta qualquer um. Silas foi para Flamengo, depois de passar pelo Grêmio. Elogios, para ele, em muitos  jornais de 2009. Terminou sendo substituído por Luxemburgo, com seu papo eloquente. A manobra deu certo, pelo menos nos primeiros momentos. O Corinthians não consegue levantar a cabeça. Muita arrogância, manipulações políticas e ficou sem Mano Menezes. Apela para Tite que se encontrava naquele famoso estágio nos países árabes.

Muricy abalou, positivamente, o Fluminense, mas enfrenta problemas para firmar-se na ponta da tabela. Seu entusiasmo se balança nos gritos insatisfeitos da torcida. No entanto, Renê Simões motiva o  Atlético de Goiás e Carpegiani redimensiona as aspirações do São Paulo. Roberto Fernandes tenta o mesmo com o Náutico. Por enquanto, as frustrações não desaparecem e o Timbu não supera suas tristezas. Chora.

O mercado da bola gira milhões, mas não é o paraíso de todos os arcanjos. A instabilidade envelhece, sem avisar. O silêncio é grande com relação aos artifícios dos negócios. A perplexidade não cessa, pois o esclarecimento tem lugares , contraditoriamente, obscuros. A sociedade se excede nas suas arquiteturas marvilhosas, nos discursos competentes, na petulância de seus especialistas. Os professores se enchem de instrumentos, menosprezando a sensibilidade.

Na hora de debater os caminhos futuros, a imagem do bem se configura na luta contra o mal. Tudo muito plano. Há um medo de se revelar. Ficar vendendo progresso é uma enganação ! A força do coletivo é quem anima a solidariedade. Fazer dos professores o meio das mudanças no mercado, é  caos sem profecias. Todos findam ensinando, conhecendo apenas o fim da história. A palavra se  perde na jogada da melancolia.

O voto e a bola: a dança do inesperado na vida

Falam das esfinges do passado. Lembram Édipo, sentem saudade de Prometeu. Asseguram que os segredos estão escancarados na era de tecnologia. Até a urna é eletrônica, num pais que nem resolveu seus problemas básicos de saúde e educação. A ciência é soberana. Descartes não escreveu perdendo palavras. Firmou-se no mundo da filosofia. Eternizou-se, com suas verdades. Tudo certo e claro? Não. Nada está no lugar e guardado na gaveta da cômoda verde. De repente, se ligue numa campanha eleitoral, onde a religião domina a cena maior e os preconceitos retornam para assustar os vacilantes.

Marina defendeu outros modelos, sem ampliar seu programa de forma mais visível. Atraiu eleitores. Teve uma votação expressiva. Construiu um patrimônio importante. Poucos mediram o momento da opção, as flutuações e os medos que acompanharam muitos seguidores da candidata. Tem razão em defender o equilíbrio ecológico, em mostrar os estragos que trazem o desenvolvimentismo acelerado. Faltou ir mais fundo em outras questões.

Chegou o segundo turno, com reviravoltas. O inesperado não se cansa de aprontar. As igrejas passaram ser espaços definidos como estratégicos. Terços, santinhos, misturas de crenças surgiram nas páginas dos jornais e nos blogs/e-mails da internet. Cadê os planos de governo? Como vamos nos livrar dos infortúnios sociais ? As dúvidas são muitas, mas a luta se acirra. Continuidade ou descontinuidade? A polêmica extrapola toda expectativa, é o bem contra o mal. Os anjos e os demônios devem estar sorrindo, com tanto maniqueísmo.

A cidadania tem seus princípios. Não é  roda-gigante vazia, em festa realizada numa madrugrada chuvosa. O voto pesa. O tempo é parceiro e não dá para esconder aonde cada um caminha. O discurso da ameaça não tem substância. Os brasileiros sobreviveram a muitos desencontros. Não são crianças soltas numa praça abandonada. É preciso não se embriagar com a fofoca. Na eleição, o voto é  de ouro e o silêncio é de prata. Tire o mofo da lucidez e siga adiante sem serrar a sua consciência.

Mas o inesperado não dá sossego. Escolheu o mês de outubro, para festejar suas alegrias. No futebol, os resultados fortalecem as armadilhas do lúdico. Luxemburgo saiu com o saco na mão das Gerais. Redime-se no Rio de Janeiro. O seu Flamengo do coração sapecou 3×0 no grande Internacional de Porto Alegre. Mereceu o troféu da semana da série A. E o Náutico? Está com o pé preso na lama, porém o Sport embarcou numa vitória animadora.Quem se mantém na ponta da tabela são o Figueirense, Bahia, América de Minas e Coritiba. É a fatigante odisséia da séria B.

Os resultados agitam as torcidas. O Fluminense empata com o Botafogo. Arrasta-se. O Grêmio está mordendo. Venceu o Cruzeiro e consolida o esquecido Renato. O São Paulo avança, como ninguém previa. Derrota o Santos, com um placar de 4×3. O Corinthians, com Ronaldo, ficou no empate com o Guarani. Um domingo para sentir o coração balançar. Os acasos da vida trazem movimentos e desfiam verdades. A vitória maior tirou o  Salgueiro  da série C. Feito inesquecível. E música para os ursos dançarem, com todo romantismo dos bons afetos.

O espetáculo tem hora marcada e permanente?

 

Guy Debord escreveu um clássico chamado A sociedade do Espetáculo. Terminou marcando nosso tempo, feito imagens e informações. Ele foi perspicaz nas suas análises. O fetiche da mercadoria impera. Tira o fôlego de todos. A sua travessia é ampla. Quem cair na ingenuidade celebra o ato de comprar, como se estivesse no altar de todos os santos. O espetáculo não é apenas do artista. Ele se espalha nas notícias, ele tem  preço e fascínio avassalador. Quem quer aparecer e ganhar notoriedade entra na onda das manchetes. Não podemos nos esquecer da internet e as armadilhas que a compõem.

Os mineiros chilenos foram resgatados. O ato globalizou-se. Lá estavam cineastas, jornalistas, políticos, esposas, irmãos, filhos… Gente de todo mundo, de todos os lugares. O Chile tornou-se o cosmos. Formou-se uma torcida vestida de uma bela solidariedade. Cada um que saiu do fundo da terra trazia sua bandeira. Aplausos, alegria, discursos, abraços, lágrimas. Sentimentos presentes e constantes. Todos foram salvos. O espetáculo se consumou com êxito, no deserto, fruto de um acidente e a reviravolta animou o mundo.

No domingo, a vida corre solta na busca dos lazeres possíveis. O trabalho não deixa de existir. O feriado quase não circula, nem mesmo nas páginas dos dicionários. Usa disfarces variados. Mais uma vez, o espetáculo ocupa seu espaço. Muitos com horários definidos. Cinemas, teatros, jogos. A ida à praia, com o sol deslumbrante não é também chance de produzir-se? A cerveja gelada, as disputas do Braslieirão, as conversas nas praças de alimentação dos shoppings, tudo se agita, em nome da multiplicidade contemporânea.

Já se foi a idéia do descanso. Adão e Eva não perderam tempo no paraíso. Fizeram o que o desejo atiça. Estamos contando passagens de tempos imemoriais. E o que vivemos? Guias eleitorais com cenas variadas, pesquisas com ares de profecia, debates sobre temas polêmicos, santinhos distribuídos nas campanhas políticas. Parece que há uma programação organizada para festejar o sucesso. A questão da cidadania treme nas bases diante de  projetos vazios, mas coloridos.

Se os dias mudaram seus movimentos, se tudo que acontece pode se transformar num grande evento, o que sobra para se pensar num espetáculo inusitado, surpreendente, maravilhoso ? A agilidade dos meios de comunicação promove milagres tecnológicos na fabricação do simulacro. O dia da criança, o dia da sogra, o dia do comerciário, o dia do professor e assim vai. O afeto vale quando acompanhado de uma chamada lembrancinha.

O espetáculo está, também,  no cotidiano: no assalto aos bancos, nas orações  nas praças públicas, nos casamentos monunentais anunciados nas páginas ditas sociais.Tudo se misturou. Podemos citar, sem restrições, o Corinthians, no tormento de uma crise, e os clubes pernambucanos nas suas trajetórias instáveis. No futebol, ampliam-se disputas, invejas, dissimulações divulgadas, muitas vezes,  pelo sensacionalismo das imagens.

A frequência sensacional dos fins de semana nos supermercados, o público entusiasmado com as aventuras policiais nas telas, a velocidade dos carros de fórmula 1, os encantos do vôlei brasileiro, enfim não falta o que ver. O espetáculo bate em todas as portas. Perdeu a antiga magia, mas flutua nos minutos. Mas o que é mesmo um espetáculo?

As lições múltiplas das cores e dos sentimentos

      

As experiências ensinam a costurar sabedorias. São múltiplas. Viajam pela vida, por mares, ventos, cavernas. Nem todos ousam refletir sobre as suas lições. No mundo da pressa, muitos escolhem ser escravos das manchetes. Acham os torpedos dos celulares o texto mais dinâmico e comunicativo. Habitam na superfície, temem labirintos, se embriagam com a repetição. Usam máscaras de brilhantes, escondendo a vergonha.

A troca nunca deveria ser desvalorizada. Une corpos e sentimentos. É um toque da cultura, na contemplação do ato de compreender as ambiguidades e decifrar as esfinges. Não dá para revelar todos os mistérios, porém ajuda a descobrir muitos esconderijos. Compor o diálogo, com as diferenças, é fundamental. As astúcias de Ulisses, os contatos com as suas aventuras são exemplos da construção do humano. O mito narra e especula sobre as origens, tema intrigante e complexo.

Razão e sensibilidade merecem conectar-se com o caminho das histórias. Não se  perder de vista o que nos cerca, abrir os olhos para as circunstâncias, desfazer-se das metafísicas mecânicas, tudo requer cadência no coração. As notícias circulam, porque possuem seus significados. Li, nos jornais, que Pelé está entrando nos setenta. Muitos ruídos sobre as comemorações, na aldeia global, cheia de rituais. O Santos promete render-lhe homenagens gigantescas.

O interessante é que os muitos convites a celebrações deixou Pelé perplexo. Como se desdobrar para aceitá-los sem exceções? A opção é se recolher, para que não reste ninguém magoado pela recusa do Rei. Ele tornou-se cidadão do mundo. Apareceu, num momento, que a sociedade de massa ganhava fôlego, no entanto a mídia não era, ainda, tão ardilosa como hoje. No futebol, há cores e sentimentos variados. Ronaldo, outro craque, recebe também muitas congratulações, pelas sua façanhas. Pertencimentos semelhantes, com detalhes específicos.

Ele faz moradia no Corinthians, ajudando no centenário do Timão. Jogou, fez gols, animou a torcida. Polemiza. Seu prestígio é indiscutível. Seu sorriso estampa-se, nos anúncios de produtos badalados. Ronaldo é famoso e a mídia, com todo fogo, não respeita sua paz. Sua vereda é outra. Não entra , em campo, com assiduidade, contudo conserva paixões e expectativas. É chamado de o Fenômeno. Coisa de kantianos inocentes.

Na política, os tambores batem com alarde. Os boatos se fortalecem e os projetos sociais se desfiam. A rebeldia esmorece no desvendar da intimidade. Reinventam-se valores e tradições. O que parecia sumido, transforma-se em assombrações assanhadas. O lema é claro: ganhar é urgente. O medo se confunde com a esperança. Numa sociedade de muitos controles sutis e poderosos, o disse-me-disse estimula desconfianças.A teoria abandona a crítica.

Querem atiçar as almas vadias, no conformismo dos sem cores. A denúncia é feita na invasão da vida privada. O virtual trava uma batalha sem sossego. As caixas de mensagens sufocam-se com a insistência de e-mails contudentes, afogando os anjos e acordando os demônios. A arte de criar e tecer a fantasia do sonho ficou nos dribles e na inteligência de jogo de Pelé. Mais vale o resultado, mesmo que seja o desencantamento do mundo. O fetiche da mercadoria manda seu recado cotidiano.

O mundo e o jogo vivem alegrias e tensões do coletivo

Nem tudo se foi para o abismo das frustrações. Há suspiros e risos aliviados que trazem alegria. O mundo está submerso em muitas crises e desenganos. Existem, porém, espaços para reverter fracassos e viver a força do coletivo. Se a esperança nunca vem sem o medo, cabe a sociedade transformá-la em ânimo constante, independente dos obstáculos. A construção da cultura é repleta de ambiguidades. Quem pode esquecer dos lamentos e das críticas da Escola de Frankfurt ? Adorno foi firme ao mostrar os limites da massificação contemporânea.

O resgate dos mineiros chilenos foi um espetáculo inesquecível. São feitos que devem ter suas imagens divulgadas sempre. Chega de estar vendo violências, ataques, debates vazios, jogos apáticos! É preciso afirmar que a solidariedade emociona e liberta. A pressão da sociedade de consumo é mesquinha. Não contém a odisséia de pessoas, em torno do que parecia impossível. A persistência vale, para mostrar que tecnologia não serve apenas para fabricar bombas e explorações.

Na França, a população reage às reformas do seu presidente. Ele quer apagar a memórias das conquistas sociais, fazendo economia em cima das perdas dos outros. É uma manobra terrível do liberalismo.Esvazia a política. Multidões foram as ruas e a tensão não se desfez. Antes, foram os ciganos que sofreram com atitudes nada humanas. Esqueceram os ideais de fraternidade?  A história é uma calça azul suja e desbotada? O rompimento com certas tradições não podem ser aceitas.

E o futebol como anda? O Náutico promete não cair no vulcão e o Sport perde jogos fáceis. Cada vez mais, se distanciam da classificação, enquanto o Salgueiro se organiza para chegar a séria B. Contrastes que fazem as competições atiçarem as surpresas. O Santa cai nos dilemas administrativas. A eleição, para presidente, é o foco maior. As indecisões continuam e todos aguardam propostas concretas. Esperamos que as discussões não sejam religiosas, com carta de compromissos medievais. Levantar o Santa modificará o futebol pernambucano. Sua torcida está carente e com razão.

Na série A do Brasileirão, as disputaw estão quentes. O Santos  se reanima, depois de tantas novelas com Neymar no papel principal. Venceu o Internacional e segue desejando ser campeão. Domingo, enfrenta o São Paulo. Um clássico de enormes expectativas, para todos, pois se o tricolor se afinar, teremos reviravoltas nas profecias. Quem está numa gangorra quebrada é o Corinthians. Dispensou Adílson, tentou Parreira. O pior: o Vasco não teve cerimômia e fez a festa no Rio. O Timão se encosta desespero. Ronaldo garante voltar para enxugar as mágoas.

 O mundo não se cansa. Muita gente, indo e voltando, nos acena para a complexidade do viver. Imaginar a harmomia universal é ficar no reino das fantasias desencontradas. Os choques existem, os egoísmos não se escondem, as ambições se exibem. É uma mistura desafiante. Os duelos do bem contra mal são ressuscitados, mesmo no ritmo das mais astuciosas hipocrisias. Temos que nos olhar, com cuidado, beber na fonte das águas transparentes, desconfiar do riso fácil e das promessas de um pragmatismo cínico.

A bola de cristal do passado está desbotada ?

O passado virou um instante. Perdeu densidade de um tempo que se prolonga. Agoniza nos emails velozes. Deixou de ser uma coleção de lembranças. Portinari que nos salve, com suas pipas sedutoras. Vivemos a velocidade da fórmula 1. Amarguras e prazeres se desfazem em segundos. Falam na falência dos desejos e na vitória dos impulsos. É muita sutileza. O carossel é tecnológico, perdeu a lentidão das antigas festas de paróquias. Paisagens desaparecem na volúpia das construções das torres e das arenas.

É preciso contemplação. Muita pressa perturba o afeto e desvia a reflexão. Queremos resolver tudo com um simples toque superficial. Cadê o abraço? Até na política a guerra santa substitui os programas e as ideias, por beijos em terços e declarações de fé inusitadas. Fica, então, difícil saber o possível caminho de uma sociedade, que se distrai com o efêmero, e decide suas opções fugindo do mergulho no oceano da sabedoria.

Não faltam exemplos de como o coletivo é sinal positivo de solidariedade. Suas atitudes cantam momentos que permanecem na memória. O caso dos mineiros chilenos mostra a força da paciência e da vontade de valorizar a vida humana. O conhecimento desvendando mistérios, abrindo espaços, criando soluções. Quando essa liga se constrói, o ânimo é outro. Diante das brigas por vitrines e ornamentos, nada como recordar que o passado tem tradições que podem ser reconfiguradas.

O tempo é complexo. Sempre foi. Não há como pensá-lo, como algo homogêneo. Mas querer urgência, em tudo, é tramar contra a cultura. Os ritmos definem o agir ou o agir definem os ritmos? A cadência varia, porém esvaziar a experiência é aumentar o drama de quem se sente sem alternativas. O resumo das coisas requer registros múltiplos e não simples traços feitos por iniciados. As relações  ganham dimensões, quando podem ser comprendidas, sem aquele perfume mafioso das espertezas cínicas.

O futuro é uma grande incógnita. Não há bola de cristal que o escravize. As dúvidas não se ausentam do sentir. No entanto, cada passo tem a sua medida e repercussão. O descuidado tropeça com frequência. O arrogante afirma que domina o mundo, com sua vaidade. Nem tudo é tão visível. O futuro é  uma extensão do que tecemos, dos entrelaçamentos que criamos. Os times se perdem quando se metem a explorar o individualismo e consagrar as manobras de bastidores. É o jogo do avesso, do lúdico, sem luzes.

O coração bate em resposta aos desafios da vida. Silencia, quando percebe que o sangue da emoção foi trocado pela frieza dos negócios. As lágrimas não significam apenas dores. Trazem sintonias, despertam a força do coletivo. O mundo vai de acordo com os testemunhos de alegria. O esporte, de derrubar os outros e gritar vantagem, faz morrer o encontro com a superação e a escuta do coração querendo romper com a mesmice. Quem se assanha com o seu sorriso no espelho e sua indiferença ao desandar dos outros, fotografa a imagem desbotada, presa no mercado dos interesses.

A grana tumultua e desmonta a força dos clubes

Ninguém é ingênuo no mundo da bola. Todos sabem que manobras existem em todos os sentidos. Lamentações são feitas, pelos mais apaixonados. As torcidas padecem. São as primeiras vítimas. Pensam em disputas valorizadas pelo amor ao time. Gritam pelas suas cores. Vão aos estádios fervendo de emoção. Consagram ídolos. Ganham o dia com a vitória e uma grande ressaca com as derrotas. No entanto, os desmantelos dos jogadores têm mexido com muita gente.

Há reviravoltas impressionantes. Partidas sensacionais são acompanhadas, em seguida, por desastres surpreendentes. O jogo é escorregadio, mas os abalos deixam a desconfiança se estender. Sente-se uma falta de motivação, que age como uma epidemia. Os times despontam, ensaiam aventuras gratificantes, depois ficam lutando para não fugir do último lugar. Os atrasos salarias recebem comentários negativos e muitos jogadores transferem-se para outros clubes.

O polêmico Luxemburgo está, agora, no Flamengo. O seu coração bate mais alto. O rubro-negro merece, para ele, uma atenção especial. Promete mudanças, perspectivas diferentes e renovar. Mostra-se triste com os vícios que derrubam o entusiamo dos atletas. Não poupa palavras. Considera que os empresários dominam o pedaço do futebol, com uma presença desestruturante. São vistos como os donos informais do poder.

O que Luxa afirma não é novidade. As notícias correm e assinalam o valor da grana. O capitalismo não sobrevive sem negócios. Alguém desacredita nessa sede de lucros e de interesses? Deconhecer o vaivém do mundo só traz frustrações. Achar que aquelas camisas repletas de anúncios são inocentes, apenas ornamentos sem significados maiores, é fugir da realidade da luta, para acumular dividendos. Até nas eleições o capital entra com todo fôlego, o canto das mercadorias se torna sedutor, quando a ética deveria ser  soberana nos projetos  de cada candidato.

O desejo esvazia as reflexões. A morte da crítica é um perigo. Fica o império da fofoca, da futilidade sem preço, dos rótulos sem conteúdo. A contemporaneidade descarta tradições, mas faz valer sua ambições individualistas. Não pode fugir das travessuras do reino dos cartões de créditos ou das astúcias das crises fabricadas.Salvar a economia pela exarcebação do consumo é uma ameça. No futebol, o craque que surge, recebe contratos milionários e se sente poderoso, sem, nem ainda, ter tirado as fraldas.

Muito bom  que o  debate se espalhe. A transparência promove o esclarecimento. Os esconderijos evitam maior liberdade de informação. Os desencontros são propositais e as situações dos clubes revelam precariedade profunda. Amedrontam-se diante da pressões, pois suas administrações não se tocam com as armadilhas. Querem festas imediatas, mesmo que os escândalos tomem conta das manchentes, dias depois.

Sempre insistimos. Não adianta olhar a sociedade, como fragmentos soltos.Isso favorece a concentração de vaidades e de espertezas. Futebol, política, invenções, desenvolvimento, tudo  tem seus lados de convivência. Não há uma soltura ou uma irresponsabilidade enganada. Quando tecemos o manto que encobre os atos sociais, com um pequeno esforço, vemos como suas linhas são íntimas. Denunciar é uma saída. Mostrar como os negócios se costuram ativa a lucidez e o coletivo.

As vitórias do coletivo: o vôlei do Brasil e os mineiros do Chile

 

Ganhar traz, no geral, alegria e otimismo. Pode trazer enganos ou distrair avaliações negativas. Depende do momento e dos rumos tomados, pelos vencedores. A decisão acontece, mas suas repercussões se multiplicam. Seus atores principais não conseguem acompanhar todos os seus desdobramentos. Faz parte da artimanhas da cultura. Não faltam amadilhas, nem abismos profundos.

A seleção brasileira de vôlei jogou partidas extraoordinárias contra a Itália e Cuba. Foi uma dança fatal para seus adversários, perplexos com o domínio verde-amarelo. Astúcias nos saques, contra-ataques rápidos, raça no ânimo, técnica esmerada no passar da bola. A torcida da casa ficou sem ação. Esperava ver a Itália assumir a ponta, deslumbrar e intimidar o Brasil. O tiro saiu pela culatra. Teve que reconhecer nosso estado de graça.

Os cubanos haviam vencido na fase anterior. Possuem uma seleção nova, com uma força impressionante. É preciso cuidado, pois são arrasadores, quando pegam o eixo das articulações. Nada feito no domingo, diante da vontade brasileira. Todos merecem homenagens, pela coragem e concentração. Murilo, Rodrigão, Vissotto, Bruno extrapolaram, mas a dimensão coletiva é importante. O vôlei requer solidariedades constantes, agilidade no raciocínio, sensibilidade para entender o olhar do outro.

É muito diferente do futebol. No vôlei, não há espaço para o jogador se omitir. Custa caro querer ficar disperso, sem se ligar na força do conjunto. Quantas partidas assistimos de futebol com atletas alheios ao que se trama ? E o goleador que termina marcando seu tento, transformando a maldição em heroísmo? O acaso está mais presente e provoca controvérsias. As reclamações pontuam muito a fala dos times fracassados. Observem as entrevistas feitas e as respostas dadas pelos atletas.

No Brasil, o vôlei vem garantindo fãs , em todos os sentidos. Há renovação, os títulos se sucedem. Bernardo é uma liderança indiscutível, envolvido com sua equipe, no ritmo exaltado do coração. A seleção havia sofrido com a derrota contra a Bulgária. A ética foi para o mato. Consagrou-se a facilidade. Alguns se abateram. O desandar do comprtamento ameaçava trazer decepções. As suas  últimas atuações responderam, com firmeza, às dúvidas lançadas , pois o brio e a concentração se pontificaram.

 A sociedade possui  lugares, onde o exercício do coletivo é fundamental. No deserto de Atacama, norte do Chile, outras relações humanas se entrelaçam. As comemorações festejam o quase fim de uma odisséia. Nem tudo está resolvido, porém o caminho está aberto. Os familiares dos 33 mineiros já esboçam um sorriso. O trabalho é intenso. Desde o dia 3 de 8 de 20010, eles estão enterrados vivos.  A sonda T-130 completou a perfuração de um duto. Ela funcionará como a difícil trilha da liberdade. Não sem riscos.

Aventura sem igual. Muitas sutilezas técnicas exigem atenção. Os sobreviventes vivem tensões psicológicas agudas. A instabilidade flutua, entre a esperança e o desespero. A mineração é uma atividade, sempre, cheia de desequilíbrios. Compõe as situações de explorações que comandam as vivências capitalistas. Valeram a mobilização e a coragem.Têm um conteúdo especial para se pensar a política, longe dos debates superficiais.Fortalece a dimensão da alegria de socializar as vitórias.A cultura frutifica atitudes diversas e não apenas o individulismo da competição.

O mundo agitado das notícias e a circulação da bola

Fica difícil mergulhar no vaivém do cotidiano. Os meios de comunicação correm, numa velocidade descomunal. Que tempo temos para fazer uma reflexão, afagar uma notícia, avaliar seus impactos? Vale a sede da quantidade. Então, tudo vira uma grande mistura. O espaço da pausa sumiu, o raciocínio é um suspiro e a vida  se oferece de forma passageira. Parece que estamos entregues à visão da superfície. Somos educados para poucos alardes e uma docilidade improdutiva.

Silenciar não é o caminho. Prefiro cultivar voos rápidos do que naufragar nos restos de um copo d’água. Vejo os jogos na televisão e me pergunto se acontecem num estádio único. Os comentaristas não sabem no que inovar. Tudo fica por conta do poder da imagem, pois a palavra mostra exaustão.O detalhe é assumido, como o dono do pedaço. Portanto, a profundidade morre na primeira padaria comprando a sobra do pão francês.

Um pouco de  ruído assanha as lembranças recentes. O Timbu continua moribundo e o Sport perdeu mais uma chance.Não dá para explicar o que acontece. Profissionais estão mais deslumbrados com os contratos e transferências do que com o toque da bola. Assusta. A volúpia da propaganda desfaz o principal e atiça as instabilidades emocionais. Na onda da derrota, o Atlético Mineiro sofreu mais uma. Dorival que se cuide.

Quase não se fala sobre o desgaste físico dos jogadores, na maratona do Brasileirão. É preciso que haja espetáculo. Não se ressalta a exaustão do corpo. São muitas contusões que impedem melhoria do times. É uma alienação gigantesca, em nome dos negócios e das trocas. No final de semana, algumas vitórias alteraram a classificação. O Cruzeiro é lider; o Corinthians continua desconjutado, tendo a companhia do Fluminense, com problemas visíveis. Uma corda bamba inquietante: Botafogo empatou com o Palmeiras, mas São Paulo, Santos e Ceará venceram. Muitos impactos nas torcidas esperançosas.

Na outra margem do rio, a eleição ressuscita temas de fundo religioso. Será que isso? Não é uma concepção de política que se afaste muito do que vemos no futebol.  Reaviva-se o desejo inconciente de salvação. De repente, as igrejas  passam a definir votos. Gozam de uma força  inesperada nas alianças decisivas do resultado definitivo. Ninguém se recorda da democracia e dos debates sobre a sociedade e seus modelos de vida ?

 Os candidatos seguem o que clama seus eleitores. A pedagogia deixa de ser moradia da política. No fundo, todos querem livrar-se do pecado, nem que seja na urna eletrônica. Quando se pensa as várias arquiteturas do social, evitamos muitas banalidades. Há uma preguiça que adormece o impulso de ultrapassar limites. As responsabilidades sobre as coisas, mais pertinentes, se fantasiam.

A infantilização é avassaladora. Nada contra as crianças, nas suas idades tão poéticas. O sério é o que tempo se adianta e as pessoas não se ligam. Divertem-se na internet com assombrações e boatos medievais. Num mundo do virtual, o espelho da vida se torna uma nota de compra e a carência afetiva a trilha para farmácia da esquina. O barco da solidariedade medita sobre os fazeres da solidão.