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A política e o jogo: tensões e resultados

O Brasileirão faz parceria com o momento histórico da campanha eleitoral. Há muitas semelhanças. Denúncias, promessas, sortes, multidões. A política não deixa de ser um jogo. Não lhe faltam estratégias e nem malabarismos. Quem é o mais sincero nas suas ambições? Quem será o campeão nos votos e na pontuação da tabela? O pior é que o passado retorna com seus vícios. Urnas eletrônicas, uso da internet, especialistas milionários, mas a confusão entre o antigo e moderno é incomensurável.

A  ansiedade veste-se de muitos hábitos. O resultado é o que interessa. O pragmatismo corre solto, não é uso exclusivo das elucubrações econômicas. A ética sofre de doenças incuráveis. Vacila entre uma consulta a Freud ou a um pedido de revisão das teorias de Darwin. Tudo lembra peças de lego. Arme seu brinquedo, explosivo ou ameaçador. O gol de mão pode salvar seu time da desclassificação. Não sossegue.

A imprensa amplia seus espaços para veicular os escândalos. As plateias se renovam, na sua sede pelas novidades. Escolha: pedofilias, corrupções, pontos de droga. O papa está sendo vaiado na Inglaterra. A Igreja Católica passa por apuros. Lamenta-se a existência de preconceitos ou o descuido na projeção dos compromissos. Há notícias de toda ordem. Os eleitores e os torcedores confundem-se nas suas escolhas ou nas suas polêmicas.

Mas há também as indiferenças. É o individualismo ou a apatia o mal do século?  Quem sabe a mania de visitar shoppings centers, em  domingos ensolarados, domine o espetáculo geral? A preguiça do corpo e da mente está perplexa em frente aos programas de TV. Passione geral. Ninguém arrisca medir o tamanho do descrédito. Os partidos e os clubes parecem presos a interesses de difícil transparência. Por isso, a bola rola e procura sempre o êxito, com lucros.

Tiririca, João Paulo, Marina, Aécio, Romário, Sérgio Cabral são candidatos com trajetórias de vida que, muitas vezes, se chocam nas suas travessias. Uma mínima reflexão anunciaria perfis desiguais e desejos diferentes. Nem precisa criar tribunais de julgamento. Por outro lado, o Náutico despenca, o Sport cresce, Dorival Júnior se chateia, Adílson Batista sorri e os árbritos cometem seus enganos costumeiros.

Variações contínuas. Aceleração do consumo até das fofocas. Muita gente nem sabe que a estreia d’ A Sagração da Primavera de Stravinsky foi um tumulto, pelas ousadias da composição. Depois, transformou-se num exemplo para a música contemporânea. O público lê as notícias, sem modelos definidos de recepção. Diverte-se, incomoda-se, conversa, culpabiliza-se.

O mundo não, apenas, gira. Ele agita corações, refaz trilhas, cuida de inventar-se. A certeza é artigo de segunda necessidade. O absurdo e a distração são encantos do mundo do jogo e da política. Na esquina, o sinal está quebrado. Fixou-se no amarelo. Não há conserto. Suas luzes estão sem brilhos. Os automóveis buzinam. Querem justificar suas existências vadias e, contraditoriamente, complexas. O sol aquece as friezas do dia.

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O crepúsculo das cores: as perdas, os jogos, as incertezas

Dizem que as cores têm vida. Não só as cores. O mundo manifesta-se de várias maneiras. As cores desenham símbolos, parecem visitar as intimidades do eu. Já pensou as coisas sem cores ou as pessoas empalidecidas para sempre ? O que é lugar comum termina provocando indagações. Nem sempre,  nos ligamos nos sinais do cotidiano. Vivemos uma cegueira disfarçada.

Na multiplicidade  dos olhares, vamos focalizar os tricolores. Aqueles apaixonados por uma certa combinação de cores, para eles quase sagradas. Como estamos, no futebol, temos que ser, mais ainda, seletivos. A conversa será sobre os desandares do São Paulo, Santa Cruz, Grêmio e Fluminense. O jogo está além das vitórias e derrotas. Formula sua pedagogia. O seu fascínio não possui limites claros. 

O tricolor do Morumbi era o poderoso. O cristal que chamava  à  atenção. Parecia uma fortaleza.  Tinha começos vacilantes, mas logo garantia o seu lugar de campeão. Boas foram as épocas  de Telê e Muricy. Nem sempre, um grande futebol, porém o resultado apagava as desarmonias. O São Paulo mostra-se, hoje, desorientado, depois de pensar um projeto de glórias valiosas.

O Santa Cruz é foco de gozações criativas, para seus adversários, e irritantes , para sua torcida. Ela é ruidosa, renega a apatia do time. Preparou-se para sair do sufoco, em vão. Não faltou agitação, orações e dirigentes acudindo a Cobra Coral. Sua última aventura tumultuou qualquer coração. Apenas, uma terapia demorada pode administrar tanto desmantelo. De nada valeram as fantasias de Brasão. Ele venho não sei de onde e vai não sei para onde. A presença da 50 mil pessoas, no Arruda, não alterou o empenho dos jogadores.

O Grêmio  organizou-se para um longa fase de festas. Nada feito. Quem comemora é o seu rival maior, o vermelho e branco Internacional. Silas não conseguiu estruturá-lo e já está no comando do Flamengo. Seus admiradores são exigentes e reivindicam raça dos jogadores. A última derrota, para o Palmeiras, aumentou o desconsolo do tricolor gaúcho. Onde sacudir tanta frustração? Quem silencia ?

O Fluminense estava deslumbrando platéias. Vagava sem atropelos. Muricy, feliz, reencontrava-se com a possibilidade de títulos. Queria curar certas mágoas. Arquitetava planos para ser exaltado, como treinador singular e ardiloso. O tricolor das Laranjeiras não disparou como se esperava. Cai, lentamente, na fogueira das vaidades.

Muitos infortúnios causam perdas e desânimos. O futebol lembra uma gangorra.  Os tempos tergiversam, as surpresas não fogem. Os clubes e as vidas se constituem, também, desses desencontros. O que castiga o sentimento é a mistura das cores. Buscam-se explicações para as desmontagens, mas nem sempre elas ajudam a levantar o equilíbrio. Abandonar uma paixão é risco sem cálculo.

De repente, as coisas se ajeitam, a nitidez da bandeira brilha e tudo volta a ser alegria. As andanças do lúdico costuram loucuras e aquecem sonhos. O desmoronar faz parte da trama da cultura. Quem pintou a perfeição descansou, no sétimo dia, e desistiu da eternidade. Filosofa sobre as contradições do cosmos. As cores do crespúsculo não são, sempre, o avesso do amanhecer. Os espelhos da alma definem os quadros de cada instante.

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Quem pode falar de perdão nas escadas da fama?

Pedir perdão é algo raro, sobretudo quando é feito publicamente. Usa-se muito a desculpa, palavra presente no cotidiano. Quase sempre repetida, sem nem passar pelo coração. Faz parte dos bons modos mecânicos, mas frios e desprezíveis. Diz o dicionário que perdão é remissão de pena, castigo, ofensa. Quem o pede, reconhece seus erros, quer encontrar outros caminhos.

É difícil a sinceridade,  numa sociedade vigilante e controlada. A fama não tem lugar fixo. Neymar tem assumido atitudes que ameaçam sua posição celebrada de craque. Milhões circularam tentando levá-lo para outras paisagens. Isso é uma história que se esfumaça. A velocidade da notícia é ambígua. Serve para uns, mas causa prejuízos para outros.

Neymar completou 18 anos. De repente, tudo se desenhou  num espelho de imagens de sucessos incessantes. Gols, vitórias, fotos nos jornais, conselhos de Pelé. Seus espaços se ampliaram.Tocaram no infinito. Talvez, custe, para ele, um peso que não esperava. Ele é ídolo.  O futebol anda mal, sem conseguir talentos e o Brasil sem forças para impedir o assédio externo.

Sempre destaco que, no mundo da grana esperta, as relações de poder comandam as negociações com objetivos sinuosos . Quem fica, no altar da mídia, não tem sossego. Quando possui experiência, vacila menos, dribla as situações embaraçosas. Neymar sente que as condições de sua vida mudaram. A onipotência se eleva e o encontra sorridente, disposto a recebê-la.

Perdão é palavra com tons sagrados. Alterar seus sentidos tradicionais é um ato de coragem. A carga pode diminuir, a insônia se desfazer, a televisão exibir a imagen de menino perdido com tanta badalação. Enfim, mais uma travessura do garoto, recriminada por todos, comentada pelas torcidas, amaldiçoada nas declarações do seu pai. A memória não é, no entanto, tão vadia e volúvel, mesmo na sociedade do descartável.

Na história, há momentos de perdões comemorativos: no fim das guerras, nas derrotas políticas, na morte dos inocentes, nas parábolas religiosas. Nem todos têm a obrigação de aceitá-los. Perdão não é esquecimento. Quem o formula espera encontrar boa acolhida, contudo as incertezas permanecem. Há um certo alívio, quando a publicidade se estende e as respostas são simpáticas. Aquela velha questão: vamos para frente que atrás vem gente.

O rebuliço foi grande e Neymar se observou cavando um abismo imenso. Seu técnico na seleção mostrou temores. Dorival Júnior assustou-se, seu time fica em suspense. Chega de ousadias improdutivas! Os discursos da disciplina ecoaram em todos os meios de comunicação. Perdão público, para condenação pública. O jogador estava tenso e triste nas suas declarações.

A instabilidade desequilibra , quando impera o instante das festas fabricadas e das seduções milionárias. Parece até uma estrada sem volta, com pedras atrapalhando a liberdade de correr e mergulhar na leveza do sonho. Ninguém deseja o fracasso de Neymar. Só os invejosos doentios, os que  vestem as frustrações dos outros.

Quando o comportamento se redefinir na prática, o perdão poderá desfiar os bordados desbotados. Ele tem seu ritmo interno impenetrável. Longe dos microfones da TV Globo, os ruídos são outros. A sociedade não silencia. A docilidade faz parte das boas maneiras.

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O mundo sem a bola:Freud e o mal-estar

As competições fazem a festa ou a tristeza.  Quarta, o Fluminense perdeu e viu ameaçada sua  elogiada campanha. Houve outros resultados que chamaram atenção. O Santos voltou a golear e o Cruzeiro segue com suas vitórias. Finalmente, Scolari escapuliu da mesmice: o Palmeiras superou-se e fez três pontos. Luxemburgo mantém sua sina inesperada  no Atlético, com todos perguntando até onde? Sempre lembro que o futebol é um jogo.

O mundo gira veloz, também sem bola. Há acontecimentos de toda ordem que registram a diversidade humana e os conflitos sociais. Nem tudo testemunha violência ou transgressão. Com certeza, seria impossível escrever uma história que contasse todas as nossas peripécias. Viver a multiplicidade, sem sensibilidade aguçada, poder trazer desesperos. Hoje, são bilhões de pessoas ocupando a terra, com a imprensa esperta e a tecnologia dominando, quase sem limites.

Cada época com seus dramas e seus sentimentos. Há o império das religiões, onde crenças e deuses  manipulam as emoções. Existem  guerras por territórios, outras por riquezas acumuladas.  Corpos sarados, beijos repentinos, motos coloridas, descortesias justificadas. Tudo produzido pela sagacidade humana, julgado pelos seus valores, atravessado pelas suas necessidades. O que era destaque, sucumbe. Do que nem se falava, antes, recebe reportagens especiais.

O apego às informações é evidente. Poucos se mostram indiferentes às notícias, mais ainda, aos escândalos, mesmo que eles se  completem com intimidades privadas. Se a economia é tomada pela inflação, uma briga pessoal, entre seus dirigentes, assume proporções inesperadas. Esquecem que a inflação deve ser controlada e investigam os boatos. Nem sempre, as questões coletivas são consideradas importantes. Há uma ansiedade crescente em ser bigbrother.

Não há o inatingível, o absoluto, o sagrado. A sociedade é, ocasionalmente, crítica, duvida, inquieta-se, porém quer resolver problemas mínimos, sem olhar as desigualdades radicais que contaminam as relações sociais. O capitalismo se reveste de técnicas redimensionadas, com astúcia, mas não consegue livrar a sociedade de seus desencantos mais polêmicos. Nunca é demais salientar uma interrogação: será que  é possível construir uma sociedade humana sem dissonâncias ou é do capitalismo alimentar-se, sem cessar, da exploração?

A sede, pela novidade e pelo espetáculo, está no tempo que moramos. Apesar da massificação, as diferenças persistem e a crise não é um discurso acadêmico. Fere os corpos e confunde as almas. Um mundo perfeito é uma utopia suspeita. Somos cheios de lacunas e a morte nos acompanha. Há um mal-estar constante na civilização. A busca da felicidade é corrida sem ponto final. Freud ficava insone com tantos labirintos. 

Entre ousadias, desperdícios, melancolias, amores, figuras de Andy Warhol  vamos construindo um mundo de (des)continuidades. Não existe garantia de que tudo dará certo ou que um juízo final condenará os pecadores mais audazes. As profecias prometem destruir incertezas ou nos colocar no mapa do céu. O mestre Freud  foi atento às aventuras do desejo. O mundo, sem a bola ou com a bola, é uma invenção nossa. Vivê-lo, com certo equlíbrio, é dialogar com as nossas incompletudes.

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As estéticas do futebol: as danças dos corpos e as curvas da bola

Viver com arte, contemplando o belo, atrai boas energias. Nem todos possuem a mesma concepção de arte e nem de beleza. Mas não se pode negar o poder de sedução que cada coisa nos traz, no afeto do sublime. A indiferença à criatividade seria a morte da imaginação. Conformar-se com a mesmice,é o caminho mais banal da mediocridade.

A cultura seria outra, se a estética estivesse ausente. Companheira da sensibilidade, ajuda na formulação das utopias e envolve os sentimentos humanos, na construção das idas e vindas do seus desejos. A dimensão do belo testemunha que não  basta a satisfação das necessidades primeiras, para a mudança dos projetos sociais e a animação da vontade.

Muitas obras de artistas são celebrações da estética, mas ela vai além. Não é teoria exclusiva de iniciados, sobreviventes de academias filosóficas. Nos mais simples gestos, ela se manifesta e atiça a solidariedade. É indefinível, pois se espalha,  pelos eixos do que transcende. Costumamos, na racionalidade que nos persegue, traduzir o campo do conhecimento dentro dos limites da intelectualidade. Esquecemos a experiência cotidiana e a invenção de certas tradições milenares.

Um esporte, que se faz com a dança inusitada dos corpos, em torno de uma esfera fugidia e ousada, não pode se esconder na mesquinhez dos mercados mafiosos. Lembro-me que meu fascínio luminoso, pelo futebol,  foi pela  suas magias e pelo seus mistérios. Mesmo com as paixões clubísticas, nunca renunciei ao encanto que a geometria do jogo da bola deixa no olhar atento.

Na primeira  vez, que fui ao estádio, assisti a um jogo singular. Era o encontro entre as seleções de Pernambuco e de São Paulo. Não o havia desfilar das séries, os negócios , pouco claros, que vitimam os mais inocentes. Juntos aos adultos, deslumbrava-me com a multidão inquieta e com os passes precisos dos craques. Na seleção paulista, estava a base do Santos de Pelé. Não se falava de mídia, nem de retrancas. O gol era o alvo do grito e da alegria.

As reviravoltas da história acontecem. Fica confuso afirmar a supremacia de um tempo sobre outro. Mas a velocidade do consumismo, a fabricação de ídolos passageiros, o futebol como lugar de barganhas obscuras tiram a emoção. Parece que está tudo contaminado pelo lucro. As camisas dos times são vitrines desbotadas de vibração. Sugerem placas de anúncio.

Não vamos consolidar lamúrias, nem riscar a idéia de viver a  vida como uma obra de arte. Embaraçados, com tantas promessas eleitorais, temos mais é que sepultar o cinismo. O passado não se extingue, porque o ritmo do mundo, agora, é outro. Ele não é um espelho triturado, encontrado nos lixões urbanos.

A leveza dança da vida é do tamanho do riso meigo de uma criança. A estética é mais que um pedaço de papel , uma imagem de registros renovadores, um tratado rebuscado sobre as figuras da moda. A estética é a consolidação dos espaços da ética, envolvida com o coletivo. Essa é trilha que anuncia Matisse, esse sonho que não se esgota nas maciez dos travesseiros.

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O futebol lembra a vida e suas sutis artimanhas

Engana-se quem ver o mundo como uma composição de fragmentos distantes. Tudo se toca, mesmo que não sejam visíveis as semelhanças. Existem muitas informações circulando. O descartável assume  um lugar inquestionável na produção dos objetos. Mas a humanidade persiste, com seus sentimentos e ambições, fundando suas histórias e construindo suas narrativas.

Todas as invenções da cultura simbolizam desejos e alimentam futuros. O que foi vivido, no entanto, não está morto. Permanece na memória e pode ganhar até mais força. Não há como sacudir no lixo a nostalgia. O vaivém da vida não acena com conclusões definitivas.Lembranças e esquecimentos fazem parte das ousadias ou dos medos de cada um. Há sempre a pressão do social, deslocando limites, com muita pressa.

O mundo do futebol insere-se no cotidiano. Faz parte ativa das conversas, é presença obrigatória na mídia. Muitos o menosprezam, outros não exergam a importância dos jogos para a imaginação e os costumes. O perde e ganha ensina, prepara para decepções inesperadas. As simulações representam necessidades. As emoções, também, se mostram. As pessoas se transformam nos estádios, arrancam suas máscaras e acendem suas impaciências.

Os profissionais da bola não ficam restritos às disputas dos campeonatos. Lançam-se, mesmo depois de encerradas as carreiras. Arriscam-se em outras aventura. Bebeto e Romário participam da atual da campanha política.   Até Lula, o Presidente, não abandona o seu Corinthians. Nos seus discursos, explora as chamadas metáforas futebolísticas. O compromisso, com os clubes gera votos. Pelé foi Ministro do poderoso sábio FHC.

A Fifa tem um prestígio imenso. Influencia governos e se coloca no centro do amplo negócio das diversões e lazeres. Quem não quer sediar uma Copa do Mundo? Não interessam os sacrifícios, o passar por cima das desigualdades. A grana corre  solta nos cofres das multinacionais do esporte. Observem como Ronaldo, o Kantiano, é bem visto no Timão de São Paulo. Quase não joga. Atrai, porém, patrocinadores. Seu carisma funciona. 

A complexidade da sociedade requer cuidado. Reduções preconceituosas empobrecem o colorido que cobre as tantas construções culturais humanas. Sem astúcias,  não se arquitetam novas experiências, nem se compreende a dimensão do lúdico. A urgência das notícias transforma os meios de comunicação num formulador de pedagogias. Podem ser superficiais, vitrines de manequins disformes, mas é preciso crítica para enfrentá-las.

As muitas relações que compõem a vida social, portanto afirmam o vir-a-ser constante da nossas fantasias. Não há esclarecimentos absolutos sobre os nossos destinos ou sobre as nossas origens. As especulações multiplicam-se e prosseguirão se multiplicando. O jogo é uma das cartografias da vida. Sintetiza artimanhas, descobre malícias, agita invejas, massifica mercados.

Quem escuta, apenas, os silêncios e se desfez dos ruídos, terminou distraindo a sua sensibilidade. As dissonâncias também organizam suas sinfonias. Não podemos abraçar tudo, nem ser os senhores de todos os conhecimentos. Acreditar na fragilidade do humano tem sentido, mas se negar a atravessar suas sinuosas trilhas, consagrando o linear, é consolidar uma solidão demolidora.

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Os trapézios da repetição: o tricolor no frio da incerteza

Há cenas inesquecíveis. Uma delas presenciei, nas muitas vezes, que fui ao circo. Sempre com a emoção movendo-se, surpresa e cativa. Falo da cena dos trapezistas, com seus encontros no ar, depois de acrobacias magistrais. Tudo vivido por um fio, mas de uma beleza indescritível. Mesmo nos circos, mais modestos, a dança dos artistas deixava os olhos atentos. Num tempo curto, a vida se desenhava numa síntese incomum.

Nas coisas pequenas e nos instantes passageiros, encontramos imagens que testemunham o quanto as relações e os sentimentos se tranformam. Basta exercer a sensibilidade, não se ocupar com o óbvio. O futebol diz muito das aventuras conhecidas e suas contradições. O jogo revela e esconde, cria expectativas e arquiteta promessas. O Santa Cruz continua navegando, por exemplo, sem precisão. O seu barco balança, provoca náuseas. Surge um sinal de que a a vela vai se aprumar, mas a decepção volta, pálida e constante. 

A instabilidade toma conta da maioria. Há uma leve animação, logo desmanchada. Um circo, sem a magia de grandes espetáculos, perdido entre negociações e incompetências. Não adianta atrair multidões, tremer bandeiras, frevar ou fabricar ídolos. Tudo muito frágil, dominado pelo suspiro de efêmero. O Santa se mantém na série D, derrotado pelo Guarany de Sobral. Será que o time não se ligou na presença de 50 mil pessoas naquele domingo no Arruda?

No passado festivo, dos passes de Luciano e dos piques de Ramon, o descaso poderia parecer uma brincadeira infeliz. Não se trata de uma simples decepção, pois a sua repetição cansa e desmotiva. Muitas administrações, cercadas de controvérsias, muitos destinos traçados almejando um sucesso que não acontece. O labirinto é imenso, com saídas pequenas e traiçoeiras. A energia da torcida emocionou, porém o silêncio veio para negar o pulsar das esperanças. Fria e absurda, a mudez se fez soberana.

A cobra coral possui uma história interligada com conquistas admiráveis. Elas estão na memória de tricolores. Nessa atual trajetória de desencontros, contou até com a solidariedade de adversários. O Santa é patrimônio do futebol pernambuco,  não há motivo para testemunhar tantos estragos e derrotas. Os mais fanáticos choram, desfazem seus sonhos, buscam culpados. A tragédia tricolor tornou-se manchete, atravessou conversas, consumiu lexotans, esvaziou copos, produziu insônias.

Givanildo acenou que sairá. Acabou seu compromisso. O time pede desculpas, depois de tantas apatias inexplicáveis. O presidente do clube tem que inventar um discurso de redenção. Ele é político e  está acostumado a situações limites. Suas intenções não se concretizaram. Os sonhos mais ambicionados viraram fanatasmas angustiados.

Não adianta nomear culpados, fazer uma lista de incapazes. É preciso procurar fôlego e afastar os coveiros oportunistas. O Santa sofre por excesso de oportunismo de alguns e desprezo pela ética de outros. Descaminhos  que firmam tristezas, mas esclarecem dúvidas. Não dá para fazer do clube uma vitrine, em função do brilho  de dirigentes. Há um numeroso grupo que se sente enganado e não engole amarguras desgastadas. Fica a crueza do desencanto. Por quanto tempo ?

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Os resultados e as emoções: a bola confunde e alivia

O futebol movimenta-se, como uma roda de um carro de fórmula 1. Muita velocidade para sincronizar tantos acontecimentos. O que mais atrai são os resultados dos campeonatos. A continuidade das vitórias deixa satisfação nas torcidas. Os mais otimistas já visualizam o título e consagram ídolos. Tudo pode ser, porém, desfeito, em semanas. Essa é uma das magias do jogo. Testa nossa capacidade de suportar certas adversidades e aquece as inquietudes.

Os admiradores do Timbu devem estar furiosos. Mais uma derrota, em casa, num fracasso colossal. O time não se articula. Não se vê mudanças substanciais que anunciem uma virada. Há certo consenso que o Náutico não soube contratar. Já o Sport segue sua reabilitação. Ganhou fora e se aproxima do bloco avançado. Se conquistar mais seis pontos dará uma passo fundamental, rumo à série A. Geninho sorri. Gallo garante seu cargo?

Fluminense está tropeçando. O paraíso não se arruma como antes. Brigas internas são anunciadas. Intrigas entre jogadores ameaça o emocional. Muricy tem que usar sua força de comando, para não despencar por causa de  transtornos inesperados. O mesmo ocorre com o Corinthians, no momento do centenário. O Brasileirão é instável. Traz descontroles para os inexperientes ou os convencidos de seu poder de invenção.

O Flamengo vacila, com um elenco sem os talentos do ano passado. Lá se foram Adriano, Love e Bruno. O vazio não se preencheu. Salvou-se, em 2009, num ambiente de muitas fofocas, mas não se encontra em 2010. Talvez, esteja plantando para o futuro. Sua torcida numerosa intranquiliza-se, mas Zico se mostra comprometido. Não quer administrar, com a pressão dos escândalos na imprensa. O  brilho do pragmatismo desvairado é escorregadio.

O São Paulo é outro cercado de mistérios. Preparou-se para ser campeão das Libertadores e sofre, agora, para firmar-se na série A. O Internacional deixou o Tricolor na fila de espera, com problemas variados e soluções, às vezes, traumáticas.Não temos mais equipes arrasadoras e estáveis. Veja o caso do Ceará. Começou dando sufoco em clubes favoritos. Hoje, vive dificuldades. O técnico Mário Sérgio não soube contorná-las. Ontem, respirou, com uma vitória, aliviando a tensão. O Vitória da Bahia convive, também, com desgovernos.

O Santos não é mesmo do começo do ano. A ausência da articulação tão envolvente, de antes, desmantela as suas atuações. É o futebol com suas andanças inesperadas: o Botafogo fazendo a festa, o Palmeiras sem deslanchar na nova era Scolari e o Grêmio lutando para não cair. O Cruzeiro consegue equilibrar-se, sem deslumbrar, construindo vitórias apertadas.

Quem adivinharia tantas desaventuras? O coração termina os campeonatos cheio de remendos. Tricolores frustrados, flameguistas irados, santistas saudosos… Lidar com emoções é sempre um desafio, mas ensina a sentir a vida, na sua diversidade, e saber comprendê-la nos seus ritmos afetivos. A agitação dos tempos não permite respostas claras. Há, sempre, dúvidas e incertezas.

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O dia santo: o domingo, Charles Chaplin e o futebol

Charles Chaplin é o cinema ou o cinema é Charles Chaplin? Mera negociação entre as palavras ou argumentos soltos e provocativos? Chaplin tem o perfume das almas eternas. Nunca vai deixar de encantar. Toda nostalgia, em seu nome, deve ser exercida, sem medo de cometer pecados capitais. Os sentimentos encontram , nos seus personagens, todas as ambiguidades do humano. Ternura, vingança, descuido, invenção, descontrole, tristeza fazem parte dos filmes de Chaplin, com uma graça que diverte os arcanjos.

A criatividade é um convite a flutuação da vida. Dizem que o criador de todas as coisas descansou no domingo. Seu trabalho intenso o fez mergulhar numa reflexão tão profunda que lhe arrancou as forças. Domingo virou um dia especial, iluminado por todas as sortes, arranhado por raros azares. Muita lenda para tantas vidas inquietas em busca de segredos. O tempo passou e o domingo perdeu sua aura. Não é só devaneio ou diversão.

O santo dia transformou-se. Hoje, sobra pouco espaço para o silêncio ou para o vadio. As turbulências não estão, apenas, nas máquinas, mas também nas chamadas praças de alimentação ou nas liquidações repentinas dos grandes maganizes. O sagrado não sabe qual o caminho mais seguro. Domingo é dia de desencontros, de comunhões impossíveis, de sinos quebrados, sem musicalidade, diantes dos ruídos dos carros de som. As promessas estão na síntese da nota de compras.Os templos ocupam as salas frias dos shoppings centers.

O futebol tinha, antes, seus dias escolhidos. O domingo era fundamental, para que um clássico fosse jogado, com toda elegância, inclusive das torcidas que usavam paletós e  gravatas, chapéus e vestidos longos. O jogo, agora, é outro. Consta nos horários nobres das tvs. Não precisa de lugares incomuns. O futebol se faz presente até nas primeiras horas das manhãs. Dependendo de onde a partida está sendo realizada, visita as madrugadas dos insones, sem cerimônias.

O mundo gira muito mais do qualquer roda-gigante eletrônica. Chaplin ficaria perplexo diante de tantas novidades. O seu circo já partiu com toda sua trupe. O público veste outras fantasias, prefere as delícias dos sacos de pipoca e os goles dos refrigerantes adocicados. Nem olham para tela, entretidos com os sabores fabricados.

E no campo da bola ? Os trajes são curtos, sandálias de todas as cores, gritos de guerra com melodias sofisticadas, gravadas em cds. O domingo profano atinge também os rituais das fugas e das travessuras. As torcidas se aquecem, em bares, usam máscaras, desenham figuras em papelões, esperando o foco da câmeras poderosas. A sociedade desfralda imagens, com as mais diferentes cores e intenções.

Gratuidades, desejos, desperdícios. Chega de especulações ! A metafísica também tem ressacas, o corpo estica-se para disfarçar a moleza. Hoje é domingo e não me escondo das tradições. Dia santo é dia santo. Viva a luz solene do futebol, com sede de gols e malabarismos! Cabe Chaplin no meu sofá vermelho, parceiro de tantas vitórias. A solidariedade é o cristal de cada instante, aconchega e desfaz as melancolias.

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A cidade e o futebol: os espaços redesenham-se

Ir para rua não causava tantos traumas. Era o lugar da brincadeira, o espaço das aventuras da infância. Havia boatos provocadores de inseguranças. Mas passavam. O perigo sempre rondou os centros urbanos, desde as suas fundações. A sociedade convive, com instabilidades, nas suas mais diversas épocas. Engana-se quem pensa que a história passa sem sustos. Os ditos paraísos ficaram num passado mítico.

As cidades trazem multidões para o espaço público. Não sabemos mais  quem são os vizinhos. Existe uma carga  pesada de leis e impostos na  regência da vida urbana. A paisagem modifica-se numa velocidade de semanas. O adensamento das populações disparou. Os costumes são outros. A aldeia é global e elege ambições infinitas.

Na minha adolescência, jogava futebol na rua. Não tinha medo do tráfego.Enfrentava a dureza do concreto. O sábado à tarde era sagrado, para a intraquilidade dos que queriam descanso. A meninada tinha muita energia, não cultivava o hábito de ficar vendo televisão. Os meios de comunicação estavam ganhando força, sem contudo, com seus ídolos, tomar conta do mundo.

Os estádios de futebol não eram lugar de conforto. O calor incomodava.Os serviços precários faziam o torcedor reclamar constantemente. As brigas não eram muito frequentes. As famosas torcidas organizadas não ocupavam manchetes de jornal. Assistíamos aos jogos juntos, sem a separação de públicos, embora as tensões estivessem presentes.

As cidades envolveram-se nos desgovernos da especulação imobilária. O futebol amador perdeu muitos dos seus campos, para as construtoras erguerem seus prédios. O discurso da modernização imperava nos projetos dos políticos. O encanto, com o progresso cegava a maioria e fazia a festa das ambições capitalistas. A verticalização agigantava-se, como solução para os impasses da falta de moradias e as felicidades das imobiliárias.

O mundo das diversões e do lazer não está  ausente de tanta transformação. Tudo ocorre numa velocidade incrível. Os terrenos são vendidos e as construções surgem. De repente, somos surpreendidos por identidades urbanas arruinadas. A memória se agonia, tentando recordar-se de casas, praças, cinemas. A pelada da várzea, tão disputada, quase desapareceu. 

O Brasil se prepara para a Copa de 2014. A Fifa estabeleceu condições. Haverá um gasto imenso com reformulações nas mais diversas áreas. Os estádios recebem investimento especial. É claro que todos desejam mais conforto, melhor visibilidade, banheiros decentes, segurança nos transportes. Não esqueçam, porém, do encarecimento dos preços dos ingressos e da elitização constante. Por isso, o apelo de ficar em casa e cultivar as tvs.

Certas peripécias das revoluções tecnológicas merecem reflexões. Nas cidades, o número de carros aumenta, criando problemas e irritações. Não se vê seriedade nas gestões ecológicas. Não se pode negar o valor de  conquistas que ajudam a maioria, mas a violência espalha-se de várias maneiras. Sobram esconderijos, silenciam-se rebeldias.No reino da mercadoria, as relações tornam-se mais coisificadas.

Os ambientes fechados exercem sua soberania. Frios e burocráticos. Simbolicamente, sem dúvida, diminuem a nossa respiração. E a vida para onde vai ? A bola murcha está abandonada embaixo da cama. Tudo administrado, com ares de liberdade e sossego. Um controle sutil nos arrasta para  o conformismo. O desejo domado enche de mediocridade espaços , antes inquietos e contestadores.

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