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Quem dança o último tango no suspiro da decisão?

No final do ano, as decisões aparecem frequentemente. O calendário tem  valor simbólico,  pois a vida se compõe de ritmos descontinuados. As datas servem como referências, mas o emocional balança com seus próprios signos. Os dois últimos meses do ano anunciam as festas e as compras. A agitação faz parte da tradição e as vitrines se enchem de preços ditos promocionais. Além disso, quem gosta de futebol aguça seus sentidos. O Brasileirão  vive sua corrida mais instável e esperada.

Na trajetórias dos últimos atos, lembrei-me do filme de Bertolucci, O último tango em Paris, de grande impacto nos anos 1970. As interpretações de Marlon Brando e Maria Schneider ganharam o mundo. Cenas desafiantes para os bem-comportados. A Igreja Católica revoltou-se com o desrespeito ao sagrado. O diretor aprofundou um olhar que chocou os conservadores.Criaram-se polêmicas intelectuais variadas. Depois, das rebeldias de 1968, lá via uma perspectiva  sombria sobre as relações humanas e seus afetos. Os atores representavam a melancolia do seu tempo? Ou a sociedade passava por uma transformação destruidora?

Na época, não comprendi muita coisa. Sai com questões e tristezas. Não me esquecia da trilha sonora de  Gato Barbieri, com um som nostálgico e sedutor. Existia a sensação de que algo havia se perdido e o paraíso é uma lenda ultrapassada. A música casava-se com as dores e as lamentações do filme. Ainda hoje, a ouça com sentimento inusitado. Compreendo, também,o cerne  da trama que Bertolucci construiu. Os desacertos estão dentro das relações culturais, mas elas não impedem que as reinvenções tragam outras alternativas.

O labirinto não se extinguiu. Ele  sintetiza o drama humano, nos seus desenhos modernos ou pós-modernos. Não há fechamento definitivo, mesmo quando as inquietudes se multiplicam e as incertezas se estendem pelos caminhos mais conchecidos. A perplexidade vai se restruturando. O diretor italiano foi profético em muitas passagens. A marca da solidão não abandonou o cotidiano e as paixões fugazes advinham que o estranhamento é perigoso para quem coisifica as pessoas.

Já assistiu ao filme muitas vezes. Tema de debates e análises. Traz proximidades com os despertencimentos contemporâneos. Ficamos flutuando na velocidade que tumultua o querer-bem. Por onde traçar a trilha saudável dos afetos? Para onde vão as ambições de consumo e suas artimanhas para influenciar nos nossos desejos?  Há exclusividade no amor?  O tango, composto por Barbieri, ressoa com força no coração.

Os produtos da cultura nos alertam para os costumes. Freud insistia na compulsão à repetição, na dificuldade que temos de sair de certas rotinas do sofrimento. Vitórias e derrotas penetram na convivência e exigem mudanças. Quando as decisões se aproximam, o sangue esquenta sua vontade de decifrar todas as cartas do futuro. No futebol, não é diferente.

Quem garante engessar as peripécias dos jogos? Quem pode acalmar envolvimentos decisivos? Como estão, agora, o Timbu, o Leão, os corintianos ou os tricolores do Fluminense? Quem dançará o último  tango ouvindo os acordes contemplando cada instante ? Bertolucci tinha razão. O desencontro é  ritmo que contagia. Nada é para sempre e o final é uma abertura para o infinito.

O circo não é de lona, a bola perde-se na arena

Nada de discursos de apologia ao passado. Acredito em mudanças, não fico chorando de saudades, porque existem paisagens de concreto soberanas nas formas urbanas. Tenho certas antipatias pela exaltação desmedida do progresso, sobretudo aquele coberto de acumulações e utilitários. Sei que o equilíbrio é uma utopia. A balança sempre se descontrola. Não custa, no entanto, imaginar um mundo equilibrado, um certo  encanto das harmonias, misturadas com as dissonâncias.

Há lugar para todos. O romantismo de Chopin pode conviver com as ousadias de Stravinsky. O samba de Noel tem céu aberto para escutar as ironias de Raul Seixas. Os poemas de Neruda tem moradia nos versos de Drummond.Os dribles de Garrincha podem navegar nos oceanos de Ronaldinho. A simultaneidade não é um mal. Ela registra a complexidade da vida. Tira do eixo os que se deitam na lineridade  melancólica da Avenida Central. A cerveja não se estranha com o sabor de licor. Cada um divaga na sua busca, sabendo que o absoluto é uma miragem.

Divirto-me vendo jogos na TV. Quase todo o dia, para espreguiçar as tensões e amolecer as lembranças. Contrario-me com as jogadas pouco elaboradas. Comento a crise de talentos. Todos seguem muitos jovens para o exterior. Se os craques invadissem os gramados com suas firulas, os estádios estariam cheios. Mas o caminho é  inverso. Querem construir arenas portentosas, mesmo que o futebol padeça de desenhos mágicos. O que marca é a arquitetura, movida a milhões de moedas internacionais.

O conforto dita as leis. Os circos perderam suas lonas. As habilidades dos seus astros são vistas em luxuosas casas de espetáculo. O preço, lá em cima, hierarquiza o acesso. O mesmo destino tiveram os cinemas de subúrbios. O que vale é a segurança e a poltrona, com a moldura do corpo. Se a inércia for grande, instale uma tela, com um sistema de som e imagens atualizado, e deixe o DVD se espalhar pela sala escura. Seja dono do seu cenário.

Tudo parece maravilhoso. O recolhimento evita sobressaltos. Na dispensa, armazene batatinhas e chocolates. Não esqueça do telefone sem fio. Você consagra a tecnologia de ponta, embora o tédio de ficar, sempre, em casa passa  por uma cabeça sem idéias. Chame Baudelaire, o poeta da modernidade. Difícil, ele já se foi, porém desconfiava da sinfonia do progresso. Então, um livro dele, junto da cadeira, e, vez por outra, acorde a mente lendo versos proféticos.

A mobilidade  das prestações ajudam a modernizar seu ambiente doméstico, acalmar seus brios de torcedor enlouquecido. Sua solidão pode ser amenizada. Junte os amigos e compre um pacote do Brasileirão. Maravilhosa alternativa, para mostrar o prazer que seus rendimentos proporcionam. Vibre com seu futuro, com o cheiro do eletrônico. O plástico resolve tudo, desde que tenha as siglas dos créditos mais badalados. Aproveite e não enferruje  muito a cabeça. Por que não fazer uma semana, com os shows dos Beatles e com filmes de Fellini? Quebra a rotina. Se preferir, grave os melhores momentos de Sport e Ipatinga. Teus amigos rubro-negros vão adorar.

A fama está em cada esquina da vida moderna

     

A sociedade elege seus ídolos. Precisa de realizar seus sonhos.Os modelos servem para alimentar fantasias. Mesmo as ditas relações tradicionais exigem transcendências, para além das questões religiosas e divinas. Os mitos estão presentes, em todos os períodos. Não encerram suas aventuras, apenas mudaram suas vestimentas. Hércules representa força e astúcias. Édipo luta contra o destino. Júpiter mostra seu comando, com suas vinganças. 

No mundo contemporâneo, o espetáculo assume lugar de destaque. Os heróis não desistiram de glorificar seus atos. Eles estão nas guerras, nas rebeldias, nas greves, nos confrontos das crenças. Mas a fama não fica restrita ao grandioso. A coragem torna, momentos do cotidiano, cenários especiais. Alguém salvou uma criança de afogamento ou evitou que um assalto se consumasse. Outros distribuíram parte, de seus prêmios lotéricos , em comunidades carentes.

Tudo se agiganta. Cabe a mídia decifrar os códigos do sucesso. Não se deve esquecer a velocidade que acompanha as construções do imaginário do nosso tempo. As aparências, suspeitas de constantes consagrações, provocam ressignificações. A novidade chama outros desenhos, ambiciona rapidez nas trocas e lucro nos negócios. O espetáculo pode ser gratuito, mas há as exuberâncias que os meios de comunicação configuram. Na esquina da sua rua , acontecem relações inesperadas ou atos surpreendentes. Não os compare com as performances de Los Hermanos ou os filmes norte-americanos.

Tudo tem seu preço e seus interesses. Afinal, o capitalismo continua assanhado, acordando formas e arquitetando produtos. São jogos, bem elaborados, com a juda das teorias científicas e das técnicas sofisticadas. Não é exagero lembrar a carreira meteórica do menino Neymar. Quantas notícias foram fabricadas ou quantos julgamentos se consolidaram sobre as trilhas seguidas pelo craque santista? Mascarou-se de anjo ou de demônio, suas brincadeiras ganharam censuras, porém sua fama concretizou-se. Até quando, não sabemos?

No mundo do descartável, espera-se cada dia com certa ansiedade. Eis que Neymar encontra-se com ex-professor Dorival Júnior. Oportunidade ímpar para as câmeras, instante sublime do perdão fotografado e distribuído, sem censuras. O jogador redime-se das suas travessuras e Dorival mostra a largueza do coração. A imprensa festeja, com páginas de jornais cheias de detalhes sobre os suspiros de cada um. A fama transformou o abraço, num drama épico, solene e, ao mesmo tempo, alegre.

É o cerco que estamos submetidos, pelo poder do indidualismo e das tecnologias globalizantes. Não adianta se aquietar. As notícias atravessam desertos e oceanos. As subjetividades vivem em trapézios, mesmo que não frequentam circos. A autonomia se fragilizou diante da multiplicação dos desejos. Corre-se e não se conhece  a chegada. O pior: parte-se de imediato, sem roteiro definido.

Neymar fez dois gols, dificultando, mais ainda, a trajetória do Atlético, clube do mestre Dorival. O espetáculo não podia parar. Quando o apito do árbitro determina, a bola rola e o talento se move. O perdão está firmado, cada um busca navegar no seu barco. O ano se finda e o Brasileirão não desculpa quem não vence suas disputas. A hora da consagração se avizinha. Haverá outras circunstâncias, para que os protagonistas do afeto renovem suas boas ações.

Na corrida das decisões, as notícias lembram o caos

Numa população espalhada, por um vasto mundo, tudo pode acontecer. O espaço da surpresa diminui, pois a diversidade de comportamentos é uma constante. O que chocava, antes, se torna banal e amedronta. A violência é uma ameaça sufocante. Não tem hora para descanso. Há assaltos, pedofilias, atropelamentos, fomes, troca de tiros, assassinatos estranhos. Fica difícil selecionar um fato e eleger um escândalo supremo. A imprensa pesquisa, sem muito sucesso, manchetes fantásticas e assustadoras.

No futebol, as decisões tomam contam do Brasileirão. A coisa está embolada, de uma forma especial. Quem vai ganhar? Na série A, Cruzeiro, Fluminense e Corinthians disputam pontos mínimos. Não houve uma disparada. Os jogos não oferecem espetáculo de entusiasmo. Os talentos não aparecem e as saudades do passado firmam raízes. Afirmam que é ocraque do certame é o argentino Conca. E os brasileiros preferem migrar? Não há revelações? Todas as artes residem na Europa?

A desclassificação é outro desafio. Goiás e Atlético Mineiro se balançam. Perderam suas tradições? Nada definido, o desastre pode ser grande. O drama não menor na série B. O Ipatinga perdeu novamente, depois de uma trajetória mais leve. O Náutico vive no meio de fofocas diárias. Dispensou jogadores, atualizou os salários e aposta numa reviravolta. Já o América de Natal anda lá atrás, com esperanças, porém orando sempre para se salvar do abismo. Encarar uma série C não é tarefa confortável.

Outras conversas animam o mundo esportivo. A meninas do vôlei conseguem aumentar suas chances. Querem mais um feito internacional? Nem tudo são perfumes sedutores. Luxemburgo sofre com mais um torpedo demolidor. Não é uma novidade. Dessa vez, a força da notícia teve mais impacto. Escancarou-se sua vocação para o jogo de baralho. É um vício, atormentador. Sua carreira de sucessos se desmancha. Apela para que a passagem pelo Flamengo não desfaça seu passado, de vez. Muita grana envolve as damas e os reis do carteado.

É interessante a famosa escada da fama. Ninguém aprende a lição que traz o fracasso? Somos educados para vencer, não importanto os riscos morais e as dependências físicas?  O caso Bruno não se esgota. Quem o via idolatrado pelos rubro-negros da Gávea, fica perplexo. Nunca o inferno esteve tão vizinho ao paraíso. A decifração dos mistérios não avança. Existem muitas acusações mal explicadas. Bruno mostra descontrole e agressividade. Os advogados criam versões e a polícia não fecha suas especulações.

Gira o mundo, com dizem alguns. Obama não vive bons momentos políticos,  Serra foi reclamar de Lula no exterior, Abílio Diniz  elogia o planejamento do governo, Roberto Carlos será tema de uma escola de samba carioca. Preguiça de encarar as contradições. As palavras penetram nas cavernas das loucuras universais. Compreender, mesmo que não seja para sempre, nos aproxima dos outros. Sucumbir aos extremos da desconfiança é  profetizar a elegia do caos. Sem o triscar as respostas, viramos esfinges de pedras, suspensos e alheios. Como no quadro provocador de Shimakuro.

O domingo não perde a imagem da preguiça

No expansão marítima européia, o olhar era muito voltado para os oceanos e as possibilidades de fazer negócios. Vencer as turbulências das ondas gigantescas, como contavam as histórias da época. O mundo não se apresentava, como uma aldeia global, mas a Europa buscava outros caminhos para o comércio. Os planos iriam estreitar contatos e acordos. O tempo passou. O capitalismo ganhou força, se enrolou em muitas crises, o muro de Berlim caiu, o futebol glorificou Pelé, Ivete Sangalo é a rainha da Bahia e Lula tornou-se presidente do Brasil , por duas vezes.

Mudanças que mereciam muitas especulações. Não estamos mergulhando em assuntos acadêmicos, porém nada como dialogar com as tantas coisas que nos tocam. Se antes navegar era preciso, meus cumprimentos para Colombo e minha admiração pelas aventuras de Marco Polo. Não deixo de anunciar, também, que viver sempre é preciso. Foi o arcanjo Italo Calvino que trouxe parte dessa magia nas páginas d’ As Cidades Invisíveis.

A conversa vai solta, desfaz os limites, no entanto há uma direção. Não apaguei que, hoje, é domingo, o dia do descanso, pelo menos simbolicamente, ou do sono precioso para os cansados do cotidiano. A memória se balança e me recordo das brincadeiras e dos clássicos tão marcantes, na fase boa do Santa Cruz. As transformações não acontecem no vazio. Estamos na era da informática, com celulares de todas as cores e todas as solidões. As embarcações são outras. A palavra de ordem é consumir e, aí, se  faz  a integração do social com o político.

O domingo não é aquele domingo e a aldeia global se arquitetou com velocidade. O futebol continua firme, ocupando vitrines exuberantes nas mensagens televisivas. Muita gente torce no calor dos estádios. Nega-se a cochilar na poltrona, detesta o famoso repeteco e suas sofisticações visuais. Outros recolhem-se aos ruídos dos shoppings e procuram filmes e parcerias para vê-los. A sociedade de massas não quer quietudes, mas sacos de pipoca e copos de coca-cola circulando, no frio das salas de cinema. Construiu-se um mercado cheio de conforto, sem animais marinhos ameaçadores, com uma sede de lucro inestimável.

Reorganizar as transgressões, dentro de cercas bem fincadas, para não fugir dos espaços da diversão. Apesar das alternativas, o controle se prolonga até na vontade de se distrair e contrariar as adversidades. O mundo do negócio é tão avassalador que a suspeita mora na cabeça de quem reflete. Conspirações existem, quando os fantasmas parecem vagabundos, levitando sem agonia e angústia. No domingo, a idéia de feriado ainda beslica. É um dia especial.

O Brasileirão curte momentos decisivos, os jogos se arrastam e sol do verão insiste em comungar com as praias.Nos lugares da convivência, as fofocas se espalham, as línguas se esquentam, a inveja ensaia sua negatividade. A trilha da mesmice assusta quem se deleita com a criatividade. Tudo se parece. A multiplicidade das formas não esconde a unidade dos princípios. A comunicação se virtualiza. Tenho saudade do tempo que o domingo era o domingo e as máscaras se usavam, apenas, nos carnavais.

Futebol, Carolina e Beatriz: as sortes e as paixões

Chico Buarque fala de Carolina que não viu o tempo passar na janela. Destino cruel, tristeza sem luz, dor de todo mundo. Mas nem é julgamento, nem juízo final. Tantos se distraem de outras maneiras. Dividem seus instantes com a solidão, contando os dias apagados pelos desencontros. Olham os voos dos beija-flores imaginando trapézios invisíveis. Chico e Edu, também, cantam  Beatriz, arcanjo do grande circo místico, que parece anunciar que o amor e a beleza venceram, mesmo que seja por um triz. 

Anular as sortes e as paixões é uma declaração de mal-estar. Os seus lugares não se erguem sem fascínios, mesmo calados e arredios. Cada atividade humana gasta instantes e estimula continuidades. Não dá para voltar atrás. O renascimento é uma imagem cativante, mas tem razão Cartola quando sentencia que a vida é um moinho. Vamos compondo os infinitos dizeres que cabem, no mundo, que não se encerra na sua dimensão física.

A poesia da existência não mora, apenas, na sutileza do artista. Ela está no que move a paixão, não importa se passageira ou ilusória. Sem paixão o ritmo do tempo se vestiria de melancolias e meditações sem fim. Será que não é instigante romper a cadência ? Só se dança bolero ou um tango traz inquietude para o sangue? Às vezes, o corpo se entrega a um sossego improdutivo. Mede, com uma régua mínina, cada passo e suspiro. Fantasia prisões e adormece.

O jogo empolga pelo inesperado, pela quebra, pela possibilidade da sorte se espalhar e empurrar desejos intimidados pelo medo dos azares. As coisas não são  simples, nem se resumem a gritar nomes, abraçar bandeiras, jurar fidelidade. No futebol, torcemos por um time até o último momento. Que encanto é esse que perdura e arranha a eternidade? São as cores, as memórias coletivas, a influência da família, a vontade de optar por símbolos para sintetizar projetos? Vale a emoção, muito mais do que a objetividade.

O cerco da instabilidade não é o retrato de tudo que acontece nas nossas aventuras. Recusamos. Deslocamos. Consolidamos. Conectamos. Nem sempre, algo atrai de forma definitiva. As portas de vidro já conseguem esconder  figuras e defender a alegoria dos movimentos. Quando juntamos o coletivo, a energia se amplia. Não há como explicar, a costura dos mistérios.

 O time está no meio do vulcão, morrendo no fogo violento, mas o afeto do grupo faz a lágrima se desviar. É uma fase. Amanhã será outro dia.As artimanhas dos jogos são poderosas. O futebol usa muitas saídas. Mesmo tomado pelo mercado astucioso e pouco ético da bola, ele não submerge. É especialista em inventar coreografias, vocabulários, superstições. Seduz multidões, porque a frieza dos cálculos dos seus investidores foge do absoluto.

Vencer, sem sustos, não é regra de nenhum jogo. Pode significar um momento fugaz, de uma velocidade mágica. Os dizeres da sorte e da paixão não monopolizam as ações humanas.Mas Carolina e Beatriz não existiriam sem as suspeitas de que o mundo configura os desertos, para não morrer de paixão. Nomes de mulheres escondem e revelam a sintonia da levitação.

O museu de tudo: futebol, arte, literatura, vida

A palavra museu é mal compreendida. Muitos a ligam a instituições que devem guardar as coisas velhas, desalinhadas. Elas tornam-se lugares frequentados por uma minoria. No entanto, nem tudo está perdido. Há referências a museus que são elogiosas. Há um público que se delicia com suas coleções. Em certos países, eles já entraram no circuito do capitalismo. Nos Estados Unidos, na França, na Inglaterra, possuem prestígio e financiamento. Não são, apenas, uma caixa de antiguidades estranhas.

Gosto da palavra museu. Tem uma sonoridade que me atrai. Seus significados lembram-me Benjamim, o pescador de pérolas, com o bem definiu Hannah Arendt. Sigo, portanto, sem preconceito, arquitetando meu museu de tudo, em homenagem ao poeta João Cabral, também vinculado as suas trilhas. Armarei um jogo divertido, com entrelaçamentos surpreendentes. Brincarei com a memória e a sensibilidade.

Recordo-me do ataque que tinha o Santos: Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe. A bola rolava com elegância. Cada passe era um afeto, um diálogo renovado. A marca do gol se fazia presente. Instigava os atores. Dorval incomodava os laterais. Mengálvio distribuía o jogo. Coutinho tinha uma inteligência rápida. Seu companheiro, Pelé, dispensa comentários. Pepe era avassalador. Chutava como poucos. Ver esses cinco dançarem nos estádios deslumbrava, acordava todos os mágicos aposentados.

Mas quem não conhece futebol, sentirá falta de algum toque. Não custa , então, estender outros  conjuntos. Imaginem um concerto com composições de Chopin, Vivaldi, Mozart, num teatro aconchegante e tradicional. Eles nem se conheciam. Pouco importa a visão física do corpo. Para além do material, há invisibilidades poderosas, fora de qualquer menção aos espíritos religiosos. A simultaneidade nos traz essas articulações dos tempos de forma contínua.

Mas se você não se fascina com a música chamada erudita, viaje. Quem sabe um recital de música popular brasileira com Chico, Caetano e Gil. Como tudo está no território do sonho, convoque o maestro Tom Jobim e se espreguice na poltrona. Sacuda o pó das resistências. Apague as sutilezas das mágoas. Peça a Penélope o manto que fez para Ulisses. Ela não se negará. Talvez, queira, também, ouvir alguns acordes e se desfazer das amarras do passado.

Ainda se queixa. Não há problemas. A cultura foi inventada, para nos acudir e atiçar nossas apatias. Prefere a contemplação das cores. Tudo bem. Coloque-se diante do cubismo de Picasso ou mesmo busque se encontrar nos traços de Salvador Dali. Adormeça no colo das imagens. Acha pouco. Que tal uma ida nas fantasias dos impressionistas ou mesmo um olhar mais histórico nas pinturas renascentistas ? Opções sobram e seu desejo comanda a extensão do seu museu.

Não sossego, pois o espaço é pouco. Se a experiência merece atenção especial, leia os romances de Victor Hugo e  de Hemingway ou entre   no mundo literário de Italo Calvino. Citei pouco e cometi omissões de um colecionador. Cada um construa sua arquitetura de vida, sem afastar-se do sublime da beleza. Nietzsche insistia na força da arte na feitura da vida. É uma pena que não tenha assistido aos dribles de Garrincha. Com certeza, o celebraria, como Dionísio.

A pedagogia das derrotas e as curvas das dualidades

Quem pensa que há um fim para tudo, pode enganar-se. Nada nega que as aparências escondem muita coisa. Quando o mundo será transparente, como prometem religiões, políticos e intelectuais? Profecia difícil e preocupante. A sombra e a luz se complementam. Não se estranham. Mudam de lugar e de forma. No entanto, tocam nos olhares dos humanos de diferentes maneiras.

O amanhecer do dia não significa que tudo se resolveu. O sono é, também, movimento misterioso, sede de acontecimentos pouco iluminados. Acordamos com pressentimentos. Ficamos refletindo, antes de tomar impulso para a vida cotidiana. Criamos roteiros, balançamos a memória. Ontem, meu time perdeu, minha namorada nem telefonou, meu filho criticou a organização da família. O amanhã possui tintas do desenho do passado.

O tempo não requer linha reta, mas curvas, sinuosidade e disposição para fugir das inércias e dos acordos mal definidos. Por isso, não esqueçamos que a vida está  plena de pedagogias. Não imagine ser senhor de todos os saberes, nem que as máquinas aliviaram todas os escorregões, apagando os dissabores. Aprender é ato fundamental. Aprofunda e conecta as multiplicidades. Ganhar, apenas, é momento, não garante permanência de alegrias ou descanso sem prazo de finalização.

A cultura é uma invenção que segue adiante, na medida que esticamos e diversificamos nossa autonomia. Temos futebol, paciências, partidos políticos, Charles Chaplin, Kant,  tensão, borracha, física, sortilégios… Não faltam palavras. Para cada invenção, um nome e seus significados.A linguagem tem corpo e sangue, com diria Otavio Paz. A surpresa assusta. Mas imaginou uma sociedade da mesmice, dormindo na eternidade de um caminho sem pedras, nem abismos? Não haveria reclamação, desespero, monotonia?

São perguntas. Trata-se de um jogo, da especulação que não é gratuita, mas alicerça a inteligência e a vontade de transformar.Isso não é dualidade. Os extremos tem brilhos especiais. Não vamos medir, com fita métrica , a distância entre o bem e o mal. Eles são históricos e não resultados de campanhas políticas. A flutuação do cosmo garante navegações inesperadas e os sentimentos vestem os corações. Nada está pronto. O inacabado é um vizinho que bate na sua porta sem cerimônia.

A visão do apocalipse surge, quando o mundo está nublado pelas incertezas. São guerras fundamentalistas que aproximam a religião da política, festejando o maniqueísmo primário e infantilizante. O medo não escapa da pedagogia. Ela não tem um alvo único. Ensina-se tudo, dependendo do tamanho da ética que se adote. No esporte, no amor, na diversão, na ciência. Há escolhas pragmáticas, de mentes ajustadas para as fortunas metálicas.Há escolhas solidárias, de mentes soltas para compor a leveza do mundo.

A mentira e a verdade passeiam pela sociedade. Sabem que recebem olhares. Sabem que são construções humanas. Não existe um dia em que não circulem. Giram. Escandalizam. Enternecem. Desmontam. Quem faz da vida o apagar das experiências, o explodir das novidades, a entrada em cavernas avulsas, expulsa a emoção e se prende ao futuro. Sem pertencimentos, somos menos do que bolas de papel. Destruindo dúvidas, acreditando na onipotência do google, desprezando as astúcias de Duchamp, esgotamos o desejo de ser arte.

No mundo do futebol:contrapontos e decisões

O Brasil envolveu-se com a eleição, mas o futebol não parou. As torcidas não se escondem. O fracasso, na Copa da África do Sul, trouxe vontade de renovação. Os esquemas de antes não funcionam, derrubavam esperanças e montavam polêmicas vazias. Mano Menezes assumiu a seleção com outros objetivos. Destacou os mais novos e prometeu diplomacia nas relações com a imprensa. Foi recebido sem contrapontos.

Escolheu seu elenco e segue segurando sua difícil missão. Agora, vem o jogo contra a Argentina. Um teste mais provocador, para avaliar como anda a preparação. Chegam as críticas. Reclamam de certas omissões. Robinho continua soberano. Parece o grande líder do grupo. Dizem que passa experiência. Ajuda na composição da sinfonia da mudança, embora não seja mais um menino da Vila. O que se fala é que faz tempo que o ex-santista não atua com arte. Escora-se na fama do passado.

Ronaldinho volta ao cenário. A seleção carece de meias. Ele conquistou à simpatia de Mano. Muitas conversas, dissidências de parte da crônica, mas retorna aquele que parecia ser inesquecível. Suas partidas , no Milan, ainda não convenceram. Instabilidade e certa apatia não estimulam o sonho de vê-lo em forma, como no começo da sua carreira. Há algo nas especulações que firmam mistérios. Isso é comum no futebol. Craques transformam-se em ídolos e depois vegetam no ostracismo.

A grita maior se deu pela não convocação de Hernandes e Marcelo. Os dois estão atraindo um fã-clube crescente, devido as suas atuações na Lazio e no Real. Não foram chamados. O técnico traça o caminho. Suas experiências trarão esclarecimentos mais profundos sobre suas escolhas. No entanto, já se nota barulhos e desconfianças. Ser comandante da seleção é morar em um território sem fronteiras. Todos desejam um pedaço, para construir suas habitações.

O quente está na disputa do Brasileirão. Não houve empolgações fascinantes. Não surgiram talentos excepcionais. Domina a mediocridade, com poucos lampejos de alegria. O que  impressionou foi a dança dos professores. Alguns obtiveram êxito com as trocas de times, outras permaneceram esquecidos e desprezados. O futebol é cruel. As vitórias sinalizam lucros e patrocínios, portanto quem foge do padrão, sai do palco.

O Brasileirão tem sua série B, onde o embate do chutão se alarga, pois aí a arte não consegue lugar. O Náutico e o Sport vivem suas amarguras. Hesitam para a intranquilidade geral dos torcedores. O Timbu teme a desclassificação.Seca adversários. Roberto Fernandes não sosega. Compromete-se com a saída do sufoco.  Por sua vez, Geninho busca o avesso. O Leão encanta-se com a possibilidade de ir para série A. Enfrenta vacilações. Ontem, o Timbu perdeu e o Leão rugiu.

O futebol contempla muito dos fazeres da cultura. Revela tramas, desenha sentimentos, formula diferenças. Depois da tanta discussão  política não custa pensar como as relações são complexas. Sabores e saberes, éticas e estéticas estão visitando e incomodando os que, apenas, se espreguiçam. Quem cultiva preconceitos não tira os olhos do chão. As veias abertas, para o mundo, são sinais de que o coração bate, sem os desprezos dos ressentidos.

Há sempre a busca e a escolha sacudindo o tempo

Nada como uma boa cadeira de balanço, acompanhada por um olhar que contempla uma paisagem de cores claras e penetrantes. Concentra a paciência e instiga a reflexão. Depois do agitar de dias corridos, deixar de lado a inquietação é mais do que humano. A vida não tem roteiro determinado.Podemos traçar certos cenários. Os dramas acontecem, as lágrimas limpam  dores, as vitórias se abraçam com alegrias. Não há inércia total. O mundo se sacode, quando menos esperamos.

Sou torcedor do Santa Cruz. Se perguntarem as razões, não saberia esclarecer. Os sentimentos não têm medidas cartesianas. O envolvimento, com o futebol, passa por essas incertezas. Talvez, meu avô materno, tricolor silencioso, me mexeu com seu afeto e decidi fazer um pacto com a Cobra Coral. Sei que é algo repleto de surpresas. Há amarguras e desprezos, mas também sorrisos e esperanças. Foi uma escolha definitiva.

Na política, não é diferente. Há mais racionalidade, discursos montados com perspicácia e desejo de findar com as desigualdades. É uma opção mais trabalhada, onde o afeto possui o seu lugar. Nas campanhas eleitorais, tiramos dúvidas, reforçamos posições, ampliamos sonhos. O que mais me comove são as parcerias. Fugir da escolha individual e me cruzar com o coletivo. A ética é ponto básico.

No entanto, recordar as falhas dos projetos e a mesquinhez que, às vezes, perturba as pessoas, remove a ilusão de que, um dia, tudo consagrará paraísos exuberantes. A neura do juízo final e do destino não alimenta busca saudáveis. Expande preconceitos. A crença de cada um é a crença de cada um. Todo respeito é grandioso, quando se veste de solidariedade. Cinismo e arrogância desfazem a comunhão, no sentido mais centrado da palavra. Os ressentidos desmontam esperanças e propagam medos.

Olhar o outro sempre é um ato difícil. Encontrar semelhanças, esticar compromissos, repartir experiências, tudo concretriza a profundidade das buscas. O mundo do consumo subverte valores e arquiteta infantilizações. É um perigo, no trato das relações sociais. Mistifica e favorece ao dualismo. Faz os 50 anos voltarem aos cinco, com se a propaganda fosse a cartilha mais justa do ABC. A alegrias fabricadas, nos laboratórios das fantasias mercadológicas, não se comparam com as brincadeiras dos circos de lona e das crianças fertizando suas imaginações.

Não me canso de criticar a lógica da acumulação e a paixão mecânica pela quantidade. A idéia de progresso e a loucura desenvolvimentista distraem o conteúdo das escolhas. Destruir, em nome da sofisticação tecnológica, é caminho para se afundar no pantanal. Encantar-se com hora seguidas de trabalho, em nome dos cofres recheados, pode levar ao descaso com o coração.

Não é à toa que a indústria farmacêutica cresce e a sensibilidade treme, diante da insensatez do utilitarismo.O meu Santa está se movimentando, com o presidente cheio de promessas. Isso não significa escapar do marasmo de anos. Não custa apostar na volta de times motivados e no apego a títulos conquistados com arte. O Brasil escolheu ou ratificou a continuidade de certos caminhos. Falta muito, para o Santa e para o Brasil. As buscas e as escolhas também nos pertencem.