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Por onde caminham as referências e o futebol ?

           

A velocidade é costumeira no mundo contemporâneo. Toda movimentação vem se acelerando com a consolidação da modernidade. São renovações intensas na tecnologia. O capitalismo superou muitos impasses. Consegue esconder-se de crises mais abrangentes. Há sustos  demorados, medos manipulados, mas não faltam agilidades. Aparecem novas fórmulas e ele mantem sua hegemonia.

Não é só da fabricação de objetos, da valorização de bens de consumo que vivemos. A sociedade tem uma multiplicidade de afazeres. Fica até difícil falar de um cotidiano. As tradições são, rapidamente, esquecidas. A política entra na onda do espetáculo, não se preocupa com seus deveres éticos e sociais. Tudo está muito confuso. Já se foi o tempo de se travar debates, sem fim, sobre os caminhos da ideologia. O pragmatismo lembra que não se deve perder minutos preciosos. Produzir é a palavra mágica.

O futebol não poderia fugir de tantas mudanças. Seria uma nostalgia enorme alimentar estruturas passadas, quando tudo está no campo da mercadoria. Na Europa, as relações capitalistas invadiram os esportes de forma decisiva. É claro que os negócios se inquietam. O futebol não é uma ilha de fantasia, cheia de atletas amadores e apaixonados por uma bandeira. O sucesso promove privilégios, funda  hierarquias e seduz de forma avassaladora.

Pelé surgiu, no século passado. Disputou, muito jovem, a Copa de 1958. Consagrou-se. Não era época da mídia acesa, como atualmente. Mas ele se segurou. Quando abandonou sua carreira, procurando outras atividades, muitos o condenaram. Acharam precipitação. Pelé não hesitou. A gritaria não era alta como nos tempos informatizados  aldeia global. Ele seguiu adiante. Evitou desgastes, sofreu adversidades. Ninguém nega a sua qualidade de craque único. É conhecido no mundo inteiro.

Hoje, qualquer risco se transforma num abismo. Há uma pressa colossal na construção e na destruição. As invenções surpreendem e ocupam as vitrines. Todos querem grana para mergulhar no consumo desenfreado. Narciso ficaria tonto dentro de um shopping center de luxo. Quando algum craque desponta a imprensa não sossega. A vida privada se desmancha e a fofoca ganha espaços. A coisificação é violenta. Altera a identidade dos sujeitos, o coloca nas manchetes, tumultua sua vida familiar.

O caso de Neymar mostra a contaminação da fama. Quais são as referências e os limites? Quem sabe responder a uma questão tão melindrosa, se o empresário comanda a leitura das regras. Ter paciência para desfiar os fios não é comum. Por isso, as ruínas convivem com as descobertas suntuosas. O mundo é pleno de ambiguidades que não cessam. Bruno era um goleiro de grande aceitação pelos flameguistas. Está, agora, nas páginas policiais, cercado de acusações e, segundo alguns, bastante deprimido.

E a gangorra dos técnicos? Bastam algumas derrotas, para os times se desfazerem dos seus professores. Quando estão invictos, tornam-se os sábios do universo. Luxemburgo já foi idolatrado. Leão é, no momento, quase um desconhecido.Esfumaçam-se as inteligências e o desemprego chega junto com o esquecimento. Tudo tem que está grávido do imediato. E nós para onde vamos na velocidade do descartável ? Nas conversas, a expressão está ligado domina. A flutuação acabou com a lei da gravidade.

A quietude não é para todos

    

No final de semana, o mundo do futebol se agita. Aquele mundo dos estádios, das torcidas nas ruas, das camisas dos clubes, das expectativas nervosas, assume ruas, bares e conversas soltas. O Brasileirão, nas séries A e B, atravessa regiões. As rivalidades não cessam, pois o jogo chama as controvérsias e esquenta a paixão. Os resultados nem sempre satisfazem, mesmo onde o favoritismo é evidente. Há espaço aberto para decepções inesperadas, ressacas medonhas e reclamações constantes.

O sábado deixou as torcidas do Náutico e do Sport desamparadas. Duas derrotas no momento de disparar na tabela. O Bahia fez a festa em cima dos descuidos do Leão. Armou bem sua estratégia. O Timbu navega na turbulência. Não consegue firmar-se. Gallo suspira diante da falhas primárias de seus jogadores. Foram muitas contratações e nada que vingasse com êxito.

O São Paulo não se encontra. Talvez, esteja partindo para uma refomulação geral. A derrota para o Goiás construiu uma melancolia de rasgar qualquer coração. Se tudo vai mudar, ainda há certo consolo. A frustração acompanha os tricolores acostumados com conquistas.  Já o Santos redimiu-se e goleou o Cruzeiro. O time de Minas não correspondeu, depois de ser apontado como provável campeão. A oscilação marca o Brasileirão. A Ponte Preta não avançou na tabela da série B, perdendo, mais uma vez, em casa. Sinal de que nada está seguro.

A situação está labiríntica para muitos. O Flamengo não se apruma, para o azar de Zico. O Atlético de Minas busca reanimar-se. A passagem de Luxemburgo, pelo seu comando, foi um tiro de misericórdia. O Galo não curtiu as sapiências do tão aclamado e vaidoso professor. Por outro lado, Coritiba e Figueirense seguram suas travessias. Desejam a série A e evitam quedas cruciais.

Fluminense e Corinthians estão na crista da onda. O Timão com mais folga e brilho. Pensa que, no ano de 2010. consolidará feitos inesquecíveis. Seu presidente não cansa de se exaltar. Seu inimigo maior é o tricolor do Morumbi. Muita inveja e descortesia existem na relação dos dois. O Corinthians perdeu, na última rodada, em um jogo sensacional contra o Internacional. Balançou sua sorte, porém sobra vontade para retomar a vitória.

O Fluminense manteve a linha. Venceu o Vitória da Bahia.  Entra num novo embalo e afasta os olhos do grande do azar. Possui um elenco precioso e um técnico acostumado a ser campeão. Resta ter cuidado e conseguir um goleiro mais eficiente. Talvez, isso dê a segurança, traga equilíbrio para não titubear no momento final. O jogo surpreende e resultados se redefinem quando tudo parecia sossegado. Os infortúnios acontecem. Eles descontrolam e mexem com a confiança.

Fica difícil assegurar quem são os favoritos. Mas o bom são essas idas e vindas. Elas estão no âmago do lúdico. Um campeonato decidido, com emoções controladas, torna-se monótono. No futebol, mais do que a vitória, vale o espetáculo. Quem gosta sabe disso. Mesmo que o coração se entristeça com as derrotas, uma partida, com craques com todo fogo, passes e malabarismo articulados, é uma sinfonia inesquecível.

A política e o futebol: violência, repressão e alegria

Os anos 1970 foram duros, depois dos assanhamentos das utopias de 1968. O Brasil vivia a época dos governos militares. O golpe de 1964 colocou, no poder, governos que pouco zelaram pela democracia. Foi um sufoco. Não faltaram censura, repressão e discursos nacionalistas. Tudo não se deu por acaso. Houve parte da população que apoiou o endurecimento. O ufanismo compunha o pensamento de muitos ligados ao autoritarismo.

A história deve ser sempre contada. Seu diálogo com a sociedade é permanente. Consultamos jornais, ouvimos relatos, interpretamos situações e assim a narrativa histórica vai sendo construída. É importante não esquecer a crítica e a presença das relações de poder nos atos humanos. Há períodos que assistimos aos seus desfechos ou às suas descontinuidades. Dos anos 1970 minhas lembranças são fortes. Passava dos dezoito.

O futebol se preparava para mais uma Copa. O fracasso de 1966 perturbava, mas havia uma seleção que se montava para ser campeã. João Saldanha, cronista esportivo, organizava e dirigia o escrete. Saldanha era muito respeitado. Sua posição política não coincidia com a do governo existente. Isso era um problema. Ele acabou sendo demitido, perto de acontecer o Mundial. No entanto, Zagalo era o novo treinador e dispunha de um elenco fora de série: Pelé, Clodoaldo, Rivelino, Carlos Alberto, Jair e outros craques significativos.

O Brasil tinha condições para chegar vitorioso. Nas chamadas esquerdas da época, controvérsias rodeavam o sentimento de torcida. Alguns achavam que uma derrota da seleção abalaria o governo militar. A insatisfação deixaria uma clima pesado. O presidente era Médici e procurava irradiar simpatia. Sobravam propagandas otimistas. Outras pessoas não confundiam as coisas. Queriam a vitória. Não achavam que a derrota traria  danos ao poder.

A seleção fez uma Copa  brilhante. Sua atuações deslumbraram. O time estava bem articulado, jogadores motivados e o coletivo funcionando sem intrigas. A última partida  foi ganha com uma goleada em cima da Itália: 4×1. A vibração foi imensa. Os jogos eram vistos na televisão em transmissão direta. Um sucesso festejado pelos meios de comunicação. O governo não se omitiu. Participou das comemorações da conquista e usufruiu no que pode.

Médici não foi o último dos opressores , porém a violência marcou sua passagem. A luta contra os desmantelos autoritários continuaram. A vitória, no Mundial, tornou-se um momento de alegria. Era bom saber que existiam craques como Tostão, Gérson, Paulo César. Os protestos contra a censura e as restrições à liberdade não cessaram. As belas canções de Caetano, Gil, Chico, Vandré eram ouvidas,com atenção, e motivavam os descontentes.

Quem sabe faz a hora, não espera acontecer, ecoa na história com firmeza e permanece uma referência inesquecível. Havia mobilização crescente, para retomar as eleições diretas e desfazer a série de presidentes intolerantes. Os tempo mudaram, com o envolvimento e a coragem de muitos. No próximo 3 de outubro, mais um exercício de cidadania. É preciso senti-la não só nas companhas de grande porte. Talvez, a democracia estivesse mais esperta e segura, se o cotidiano a recebesse sem descuidos, nem arrogâncias.

O domínio público, a seleção e,novamente, Neymar

Todos conversam sobre os limtes. Ninguém os ignora abertamente. A obediência absoluta causaria danos ao movimento da cultura. A sociedade vive escolhendo, negando, inventado possibilidades de fazer fluir a convivência. Problemas existem, não há como expurgá-los de vez e passear por uma mundo sem contrapontos. A construção da história exige um olhar atento para as perdas e os ganhos. É preciso compreendê-los, para não naufragar. Os julgamento dos valores, nem sempre precisam de tribunais gigantescos.

O vaivém das ordens e das transgressões são comuns e instituintes. Temos surpresas, apagamos frustrações e meditamos sobre desencontros. Mas a vida se completa com as relações que criamos. Não podemos esconder-se dos outros. Por isso, as fofocas invadem as falas e tensionam os grupos. Muitos desgastam-se com notícias indesejáveis. Por isso, o drama de Neymar volta, quando parecia resolvido. Outros atores, opiniões com perspectivas diferentes e  encenações de novidades presentes no cotidiano do atleta.

Ele simboliza os afazeres e os estrelismos do contemporâneo. É um pretexto para tematizar assuntos, desmerecer autoridades, refazer negócios. O mundo da mercadoria é o mundo das trocas. Não importa qual é o produto. Vendem-se relógios, motos, sabonetes. Contudo, há assessorias para se chegar a fama e passar a ser influente no domínio público. Os empresários transitam com desenvoltura, festejando o pragmatismo, calculado lucros.

Agora, saiu a convocação. Neymar dançou, ficou fora. Não há consenso, embora a maioria dos críticos defendam Mano Menezes. É claro que a atitude não pode gerar uniformidades. Não é caso fácil e banal. Envolve sentimentos e posturas éticas. Abala as regras mais usadas da sociedade. A rebeldia não foi banida, porém ela provoca reações. Quem a faz, deve sentir até onde pode ir com as suas travessuras.

Lembrem-se do goleiro Bruno, numa situação, terrivelmente, complicada. Pensou, talvez, que seu prestígio o salvaria das pressões.Mantém-se na prisão, junto com seus companheiros. Não está na vitrine como antes. Caiu no domínio público e muitos mistérios não foram decifrados. Bruno padece e os apoios se esfumaçaram. Uma solidão avassaladora o tortura, segundo notícias que circulam. Seu impasse é grave. Esta além de uma simples travessura.

Os ídolos são efêmeros, quando não visualizam o mínimo de equilíbrio nas suas ações. Ronaldo entrou em labirintos e buscou saídas. Possui lugar garantido na galera e o Corinthians o recebe como mito. Robinho andou um tempo ameaçado. Procura retomar sua carreira e reafirmar sua qualidade de craque fora de série. Outros jogadores gozam de mais estabilidade. Pelé consagrou-se, já deixou os gramados e segura seu reinado.

A reflexão ajuda a desfazer-se da mesmice. Tudo tem uma medida. Ganhar espaços na mídia não confirma vida sossegada. Quem analisa os balanços do mercado sabe das suas inconstâncias. Por isso,  os julgamentos oscilam. Há algo invulnerável? O talento valoriza a obra do artista e o conviver indica inserção na multiplicidade. O ontem, o hoje e o amanhã confundem muitas cabeças. Num tempo, sem referência, elas  sucumbem à dimensão ilusória do intocável e do eterno.

A difícil situação dos goleiros: os arcanjos esquecidos

Diziam que onde os goleiros pisavam, não nascia grama. Era o anúncio da maldição. Os atacantes são os escolhidos pelos deuses da bola. Quando bem sucedidos ganham milhões. O goleiro convive com a fatalidade. Se falha, derruba resultados e fortalece traumas. A condenação é rápida. O futebol não preserva o princípio do equilíbrio. Faz parte do universo da paixão.

Estou, nos caminhos das lembranças, comungando com conversas da memória. Conhecendo algumas histórias dos goleiros, me vem, de imediato, a de Barbosa. Quem não já ouviu falar da famosa derrota de 1950? Trauma nacional  só desfeito com  a vitória de 1958. O Brasil perdeu a Copa. Barbosa, goleiro respeitado, terminou ficando com o peso maior do desastre. Uma injustiça e uma pergunta: por que o ataque não foi mais efetivo?

Gilmar (foto) merece, sempre, estar no altar dos grandes arqueiros. Tinha uma calma excepcional. Engolia seu frangos, sem alardes. Nada como um dia atrás do outro e uma noite no meio. Esteve com a seleção  nos Mundiais de 1958 e 1962. Acampanhou craques inesquecíveis, como Pelé, Didi, Zito e tantos outros. Conseguiu firmar uma liderança nos títulos conquistados.

Muitos passaram pela seleção. Manga e Castilho tiveram seus momentos, mas não tão festejados. Manga fazia defesas espetaculares, porém não mantinha a segurança esperada em muitas ocasiões. Jogou em vários clubes. Foi ídolo no Botafogo e sobre ele existem muitas histórias intessantes, como as contadas sobre  Garrincha. Castilho consagrou-se no Fluminense. Era corajoso nas suas intervenções. Na seleção, não teve muito espaço.

O atual técnico Leão também passou pelo escrete. Era visto como bom goleiro, porém sempre polêmico nas relações pessoais. Nos clubes, por onde atuava, as intrigas não eram poucas. Leão chegou a ser treinador da seleção nacional, sem êxito. Sua demissão  o deixou magoado e trouxe prejuízos para sua carreira. Já Dida, discreto nas suas atitudes, apareceu bem e se afastou da seleção, sem traumas.

Rogério Ceni continua ídolo do São Paulo. Além de ser festejado, como verdadeiro paredão, cobra faltas com maestria. Tem décadas como goleiro do tricolor. Comentam que vai permanecer como dirigente. Ceni possui prestígio, recebe elogios da imprensa, no entanto não é assíduo, nas convocações da CBF. Sente-se injustiçado, embora não toque muito no assunto.

Por aqui, assisti a muitos confrontos, onde os goleiros me chamaram a atenção. Não esqueço de Valdemar que marcou época no Náutico. Seguro e elástico. Detinho, do Santa, me impressionava pela vibração e malabarismo dos voos. Salvou a Cobra Coral de muitas derrotas. Seu lugar, na minha memória, é especial, embora não negue as boas partidas de Gilberto, outra figura importante do futebol pernambucano.

Não sejamos, apenas, envolvidos pelo passado.É imprescindível ressaltar o  agora. Quem não se emociona com a agilidade de Magrão? Quantos resultados ele garantiu para o Sport? Sua simplificadade e profissionalismo são exemplares. Seria incorreto não enaltecer, também, a boa forma de Glédson. O Timbu está bem protegido com suas performances. Enfim, os goleiro são os arcanjos de qualquer equipe. É estranho que não lhes rendam mais homenagens. O esquecimento apaga momentos de brilho do futebol.

As intrigas agitam os ritmos do mundo da bola

A competição faz ferver os  ânimos. Não somente os clubes mostram suas rivalidades. As dificuldades na profissão puxa invejas, traz frustrações. Muitos times se prejudicam, porque a questão do salário incomoda. Há os jogadores especiais e os que ficam fora dos privilégios. Vivemos numa sociedade alimentada por hierarquias e desigualdades. Seria posível pensar uma democracia no terrreno do futebol ? A ingenuidade foi ali na esquina e não voltou.

O Fluminense tem sido vítima de intrigas internas. Os goleiros Fernando Henrique e Rafael não se entendem. Um seca o outro. Além disso, existem as estrelas, com ganhos altíssimos. Lá estão Fred, Conca, Deco recebendo uma grana bem avantajada. Na comparação, muitos do time estão a ver navios.Nem todos aguentam os desníveis. O tricolor caiu de produção, perdeu pontos inexplicáveis. As tensões sempre deixam seus vestígios.

Ciro, artilheiro do Sport, anda destilando mágoas. Sente-se injustiçado e ainda é pressionado pela família. Propostas assanham seu desejo, prometendo transferência para o sudeste. Ciro, o desconsolado, chora nos treinos e  evidencia suas insatisfações , quando é substituído. Ele precisa de cuidados e Geninho sabe disso. A aventura do dinheiro atrapalha a concentração e adia a possibilidade do gol.

O caso Neymar teve desfecho. A direção do Santos articulou a saída do técnico. Não há negar que o jogador é um talento. Sua presença muda a composição de qualquer equipe. O futebol possui, contudo, sorte e azares. Ganso estava arrasando, mas uma contusão forçou sua saída. Não subestimemos os desencontros da vida. As polêmicas estão acesas. O consenso desapareceu. O Santos perdeu, ontem, mesmo com Neymar.

No Palmeiras, Felipão se impacienta. Reclama dos juízes, quer craques para montar o time dos seus sonhos. Até o presidente Beluzzo adoeceu. Será que é a instabilidade? Os jogadores mudam de clube, com uma velocidade notável. Não dá para criar uma ambiente de camaradagem. Poucos analisam, com objetividade, os estragos do  tilintar das moedas. Miram as vantagens imediatas. Morrem nas armadilhas das esperanças.

Outra figura controvertida é Luxemburgo. O Atlético de Minas não se acerta. Falam que ele tem direito a uma multa contratual extraordinária. Não pede para sair e contratou jogadores, sem muito critério. Começam a fofocas e as acusações dentro do elenco. A torcida   exige transformações, atitudes. A coisa desanda e há receio de ações violentas.

O futebol tem cada vez menos transparência. Quando virou um grande negócio, complicou-se. A ambição tumultua, mais intensamente, os projetos mal elaborados. Muitos não percebem que a diversão ocupa lugar milionário no mundo capitalista. Suar a camisa sem receber os salários? Quem lucra aparece na hora da vaia ou se mascara?

A apatia não se tece à toa. As torcidas especulam sobre as derrotas,  temem a desclassificação. O descontrole está interligado com as relações de poder dominantes. O futebol  consolida lugares de ascensão social, para muitos, mágicos. O jogo é coletivo, mas a sociedade não dá bolas para a solidariedade. Exalta o individualismo, despreza o afeto. O vulcão da disputa agita e queima, não perdoa quem não compreende o calor do seu movimento.

Os perfumes do Brasileirão:inquietações da vida

O Brasileirão é um campo aberto de experiências e de surpresas. Quando se diz que o jogo faz parte da vida, muita gente corre para criticar. A cultura não cessa de trazer novidades e não, apenas, nas reflexões científicas. Observar o que acontece no cotidiano nos ensina e nos ajuda a sair de situações complicadas. As repetições incomodam, mas acontecem sem explicações satisfatórias. Estamos cercados dos fazeres do mundo contemporâneo que reclamam interpretações.

O  futebol não foge das idas e vindas. Não tem lugar fixo. Mas o que permanece para sempre? Existe algo imutável, completo, absoluto? Talvez, a afirmação de errar é humano seja forte demais ou não é saudável pensar o erro como pecado. Falhamos e não é pouco. Quando nascemos, a morte já está se preparando para dar o bote. Surgem doenças, remédios, psicoses, ilusões, porém a produção é inesgotável. É impossível nomeá-la.

Nem tudo é caminho de angústia, nem tampouco a certeza se estende nos sentimentos e reflexões de forma definitiva. As sinuosidades dos jogos são constantes, por estarem no contexto da cultura, dialogando com a vida. Veja o caso do Ceará. Começou firme e arrasador. Transita por  num labirinto perigoso. E o Fluminense empatando com o Flamengo, sem aquela categoria que o acompanhava antes ? Contrastes, aparentemente, sem sentidos. O Corinthians mantém sua forma, mesmo sem o versátil Ronaldo.

Estamos passando do meio do caminho do Brasileirão nas suas séries A e B. Não haverá sossego. São Paulo e Palmeiras assumem estratégias de jogo lentas, sem criatividade. Felipão não consegue justificar seus 700 mil reais. É muita grana, para liderar um time sem talentos. Fica aflito. Os técnicos estão sempre na corda bamba. Duas derrotas seguidas geram desconfortos e ameaças. A torcida quer  as vitórias, no futebol, que o cotidiano nega na sua dureza.

Dramas e tramas. O Sport deslancha, com Geninho, o Atlético de Minas se desmantela, com Luxemburgo. Há atitudes de otimismo, vaidades expostas, hesitações no comando. O caso de Neymar rola. Montou-se um grande tribunal. O Santos terminou demitindo Dorival, o técnico insatisfeito com as travessuras do garoto. A sociedade fica intranquila com o comportamento das suas estrelas.Os valores tradicionais se desmancham com qualquer sopro mais forte.

Não custa atiçar a curiosidade. Nas mínimas ações, exibem-se detalhes valiosos.  A vida não se desenha com uma única geometria. Cuca, técnico do Cruzeiro, sofria, em 2009, críticas da imprensa. Hoje, seu time desponta como um dos favoritos. Joel Santana desenganou-se com a Copa do Mundo, mas levanta o Botafogo com autoridade e alegria. Não faltam exemplos que desnorteiam os parceiros das mesmices ou os alérgicos às mudanças.

O Brasileirão vai, ainda, desestabilizar muitas profecias e refazer muitas manchetes. Lembra as pequisas eleitorais. Quem vende verdades indiscutíveis perde-se na arrogância que se depedaça com o ritmo do tempo. A vida é sonho, fantasia, ludicidade, desinvenção. Nas coisas consideradas monumentais,  as vacilações, também, se encontram. Os olhares, de cada um, se lançam por muitos esconderijos, perfumados ou não.

As mercadorias modelam as vitrines do mundo

Seria difícil imaginar um mundo tomado pelas mercadorias. Estou pensando  em que vivia no tempo de Platão. Mas a economia modificou-se muito. O trabalho assalariado ganhou espaço e as fábricas apareceram. Os mitos têm outras moradias. Não se chamam mais de Zeus, Baco ou Afrodite. Os altares possuem outras configurações. As crenças e as verdades escondem-se em territórios da tecnologia e do luxo.

Foram séculos de lutas. Perdas imensas, mortes violentas, utopias de paz, narrativas de ficções extraterrenas. Quando ocorrem as transfomações há uma reviravolta em muitos hábitos. Há os que defendem o progresso e maldizem o passado. Esquecem que os tempos dialogam. A ordem e a transgressão se movimentam trazendo limites e rebeldias diferentes.

O futebol vive, atualmente, no mundo do espetáculo. Não cabem exibições em campos de várzeas.Tudo move-se para sofisticação. A concentração de riquezas é um fato e não um projeto de intelectuais liberais. O mercado da bola acompanha o fluxo dos negócios. O jogador não só recebe sua remuneração. Ele é uma mercadoria na vitrine das especulações. Seu valor varia, como também o tamanha da vitrine que o acolhe.

Nem todos usufruem das mesmas vantagens. Os lugares definem privilégios e poderes. Para um jogador, não é a mesma coisa está no Milan, no Santa Cruz, no Parma, no Real Madrid ou no Santos. Os exemplos são muitos, pois a multiplicidade de rótulos faz parte dos segredos do capitalismo.O consumo é a chama da onipotência pós-moderna. Talvez, com revoluções radicais a vontade de comprar deixaria de ser tão soberana.

 Os clubes passam, por transtornos, quando não conseguem fluir seus negócios. A instabilidade das idas e vindas dos faturamentos influencia na queda de produção das equipes. A  mercadoria-jogador exige cuidado, ocupa destaque de antigos mitos, cerca-se de empresários com artimanhas bem-sucedidas.Nem todos cedem às polêmicas leis do mercado. Há desconfianças, enfrentamentos, convicções de honras e princípios. Mas a ingenuidade escapou do paraíso, foi para o planeta da serpente.

Cada coisa tem seu status. A camisa de Robinho ou de Ganso não tem o mesmo preço da que um jogador da série C usa. O preço é a alma do negócio? A desigualdade precisa ser cruel, para construir sinais de insubordinação? As formas de dominação contém estratégias sutis e assinalam os encantos das vitrines mais ousadas.

Dentro da aldeia global , sobrevivem relações de poder, às vezes, estranhas. As dissonâncias provocam ecos que muitos não escutam. Por isso, o futebol luta para não perder o ritmo veloz dos senhores das finanças. Os resultados inesperados tornam as torcidas inseguras. Muitas explicações são vazias e dissimulam raciocínios enganosos. 

A impaciência estimula a sede de conquistas. Ela representa acesso às maravilhas que o mundo-mercadoria promete. O gol, bem tramado, fica , melhor visto, nas imagens dos programas esportivos. O espetáculo, sem mídia, fragiliza os ruídos do sucesso. Os vidros das vitrines mudam de cores e  vestem a sabedoria dos interesses. Na construção do cotidiano, as pedras, apenas, compõem as armaduras dos edifícios. Nada de jogá-las para estragar os vidros ou riscar a sedução das mercadorias.

A política e o jogo: tensões e resultados

O Brasileirão faz parceria com o momento histórico da campanha eleitoral. Há muitas semelhanças. Denúncias, promessas, sortes, multidões. A política não deixa de ser um jogo. Não lhe faltam estratégias e nem malabarismos. Quem é o mais sincero nas suas ambições? Quem será o campeão nos votos e na pontuação da tabela? O pior é que o passado retorna com seus vícios. Urnas eletrônicas, uso da internet, especialistas milionários, mas a confusão entre o antigo e moderno é incomensurável.

A  ansiedade veste-se de muitos hábitos. O resultado é o que interessa. O pragmatismo corre solto, não é uso exclusivo das elucubrações econômicas. A ética sofre de doenças incuráveis. Vacila entre uma consulta a Freud ou a um pedido de revisão das teorias de Darwin. Tudo lembra peças de lego. Arme seu brinquedo, explosivo ou ameaçador. O gol de mão pode salvar seu time da desclassificação. Não sossegue.

A imprensa amplia seus espaços para veicular os escândalos. As plateias se renovam, na sua sede pelas novidades. Escolha: pedofilias, corrupções, pontos de droga. O papa está sendo vaiado na Inglaterra. A Igreja Católica passa por apuros. Lamenta-se a existência de preconceitos ou o descuido na projeção dos compromissos. Há notícias de toda ordem. Os eleitores e os torcedores confundem-se nas suas escolhas ou nas suas polêmicas.

Mas há também as indiferenças. É o individualismo ou a apatia o mal do século?  Quem sabe a mania de visitar shoppings centers, em  domingos ensolarados, domine o espetáculo geral? A preguiça do corpo e da mente está perplexa em frente aos programas de TV. Passione geral. Ninguém arrisca medir o tamanho do descrédito. Os partidos e os clubes parecem presos a interesses de difícil transparência. Por isso, a bola rola e procura sempre o êxito, com lucros.

Tiririca, João Paulo, Marina, Aécio, Romário, Sérgio Cabral são candidatos com trajetórias de vida que, muitas vezes, se chocam nas suas travessias. Uma mínima reflexão anunciaria perfis desiguais e desejos diferentes. Nem precisa criar tribunais de julgamento. Por outro lado, o Náutico despenca, o Sport cresce, Dorival Júnior se chateia, Adílson Batista sorri e os árbritos cometem seus enganos costumeiros.

Variações contínuas. Aceleração do consumo até das fofocas. Muita gente nem sabe que a estreia d’ A Sagração da Primavera de Stravinsky foi um tumulto, pelas ousadias da composição. Depois, transformou-se num exemplo para a música contemporânea. O público lê as notícias, sem modelos definidos de recepção. Diverte-se, incomoda-se, conversa, culpabiliza-se.

O mundo não, apenas, gira. Ele agita corações, refaz trilhas, cuida de inventar-se. A certeza é artigo de segunda necessidade. O absurdo e a distração são encantos do mundo do jogo e da política. Na esquina, o sinal está quebrado. Fixou-se no amarelo. Não há conserto. Suas luzes estão sem brilhos. Os automóveis buzinam. Querem justificar suas existências vadias e, contraditoriamente, complexas. O sol aquece as friezas do dia.

O crepúsculo das cores: as perdas, os jogos, as incertezas

Dizem que as cores têm vida. Não só as cores. O mundo manifesta-se de várias maneiras. As cores desenham símbolos, parecem visitar as intimidades do eu. Já pensou as coisas sem cores ou as pessoas empalidecidas para sempre ? O que é lugar comum termina provocando indagações. Nem sempre,  nos ligamos nos sinais do cotidiano. Vivemos uma cegueira disfarçada.

Na multiplicidade  dos olhares, vamos focalizar os tricolores. Aqueles apaixonados por uma certa combinação de cores, para eles quase sagradas. Como estamos, no futebol, temos que ser, mais ainda, seletivos. A conversa será sobre os desandares do São Paulo, Santa Cruz, Grêmio e Fluminense. O jogo está além das vitórias e derrotas. Formula sua pedagogia. O seu fascínio não possui limites claros. 

O tricolor do Morumbi era o poderoso. O cristal que chamava  à  atenção. Parecia uma fortaleza.  Tinha começos vacilantes, mas logo garantia o seu lugar de campeão. Boas foram as épocas  de Telê e Muricy. Nem sempre, um grande futebol, porém o resultado apagava as desarmonias. O São Paulo mostra-se, hoje, desorientado, depois de pensar um projeto de glórias valiosas.

O Santa Cruz é foco de gozações criativas, para seus adversários, e irritantes , para sua torcida. Ela é ruidosa, renega a apatia do time. Preparou-se para sair do sufoco, em vão. Não faltou agitação, orações e dirigentes acudindo a Cobra Coral. Sua última aventura tumultuou qualquer coração. Apenas, uma terapia demorada pode administrar tanto desmantelo. De nada valeram as fantasias de Brasão. Ele venho não sei de onde e vai não sei para onde. A presença da 50 mil pessoas, no Arruda, não alterou o empenho dos jogadores.

O Grêmio  organizou-se para um longa fase de festas. Nada feito. Quem comemora é o seu rival maior, o vermelho e branco Internacional. Silas não conseguiu estruturá-lo e já está no comando do Flamengo. Seus admiradores são exigentes e reivindicam raça dos jogadores. A última derrota, para o Palmeiras, aumentou o desconsolo do tricolor gaúcho. Onde sacudir tanta frustração? Quem silencia ?

O Fluminense estava deslumbrando platéias. Vagava sem atropelos. Muricy, feliz, reencontrava-se com a possibilidade de títulos. Queria curar certas mágoas. Arquitetava planos para ser exaltado, como treinador singular e ardiloso. O tricolor das Laranjeiras não disparou como se esperava. Cai, lentamente, na fogueira das vaidades.

Muitos infortúnios causam perdas e desânimos. O futebol lembra uma gangorra.  Os tempos tergiversam, as surpresas não fogem. Os clubes e as vidas se constituem, também, desses desencontros. O que castiga o sentimento é a mistura das cores. Buscam-se explicações para as desmontagens, mas nem sempre elas ajudam a levantar o equilíbrio. Abandonar uma paixão é risco sem cálculo.

De repente, as coisas se ajeitam, a nitidez da bandeira brilha e tudo volta a ser alegria. As andanças do lúdico costuram loucuras e aquecem sonhos. O desmoronar faz parte da trama da cultura. Quem pintou a perfeição descansou, no sétimo dia, e desistiu da eternidade. Filosofa sobre as contradições do cosmos. As cores do crespúsculo não são, sempre, o avesso do amanhecer. Os espelhos da alma definem os quadros de cada instante.