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A dissimulação comanda o show de cada dia

Aguçar o olhar é preciso. As imagens surgem numa velocidade sem igual. Não dá para ficar preso na verdade, pois pouco sabemos da mentira. O mundo se encheu de acasos, com traços geométricos. Não há lógica, quando o pertencimento é vazio ou inesperado. São as travessias da contemporaneidade que acedem luzes  nas cavernas, espalhando especulações.

Tudo é impressionante ou simula o  nunca conhecido. As televisões comandam a ordem que estrutura o cotidiano. De repente, surgem transmissões de qualquer canto. Urgências. Os cenários não têm arquitetura definitiva. Os morros cariocas são invadidos por policiais e se alarga a violência. O mundo da droga recebe impactos e o discurso da redenção ganha poderes. Os telespectadores se encolhem nos divãs, pensando jogar um videogame. Não é filme antigo, das décadas passadas. É a atualidade, empurrada pelos meios de comunicação.

Quem está com a razão? A aposta é alta, pois o simulacro é sofisticado. Os tiros são ruídos  traiçoeiros. A audiência possui silêncio e agonia. Quer um simples vencedor ou torcer pelo massacre ? Há dúvidas. O colorido mexe com a concepção de real. O espaço único não existe. A cobertura das televisões podem amanhã aportar na sua esquina e o escândalo está feito. Para onde vamos? Os caminhos são encruzilhadas, pistas de fórmula 1, cheios de curvas e óleo.

A fabricação das imagens é constante. Parece imediata, porém preparações anunciam que a tecnologia capta sentimentos e engana quem foge do seu fogo. Tudo se mistura, por isso a ética se balança e acorda Spinoza. As soluções se fragmentam no ritmo do show. Na entrega dos prêmios do Brasileirão houve de tudo. Conca foi o craque do ano. No entanto, lá estavam cantores, mágicos, comediantes e o alto comando do futebol. Por final, a carência de bons jogos se prolonga. Então, resta dissimular.

A democracia vai na onda. Consulta pública para eleger os melhores. Telefones em ação, lucros correndo para os cofres, denúncias de subornos desmentidas e a incessante vontade de conviver, com a novidade, se infiltra nos corações. A globalização garante o sucesso de algo que aconteceu no mínimo escoderijo. Quem pode esquecer das aventuras de Truman, num filme profético e sagaz? A liberdade não está perdida ou longe dos debates. Difícil é medi-la ou envolvê-la na ficção promíscua.

Escorregar na pressa não tem importância. O olhar não absorve tudo, também tropeça e testemunha negligências. Ulisses firmou-se, na sua aventura, sem deixar de ouvir o canto das sereias. Abraçou o feitiço, mas não vendeu a alma. A história busca o tempo que a afague e a astúcia que a proteja. O eterno retorno lembra que a transformação promete renovações.  O reino da fantasia tem muralhas, como a antiga Constantinopla.

Quando a vida pede respiração e se ilude com as aparências das formas, as possibilidades de ultrapassar os limites diminuem. É fundamental mirar no espelho e perceber suas quebras. O show é apenas um pedaço, o tardio que alimenta os corpos cansados de trabalhos medíocres. A máquina tira sua atenção, seu sonho e o cheiro do seu travesseiro. Salve-se com o perfume das palavras.

O sorriso do efêmero de dentro do coração

Torci pelo Flu e curti a vitória. Gosto da festa. Alegria gera bons sentimentos, quando acompanhada de permanência. Mas sempre penso outras coisas. Os sorrisos parecem,muitas vezes, colados no rosto. Não encontro o lugar da sua expressão maior. A sociedade traz uma carga de celebração ensaida que provoca desconfianças. A convivência com o fugaz é enganadora. A televisão dita normas, impõe manifestações, sente-se a criadora. Isso não revela o que vem de dentro. Há ensaios para tudo.

O  espetáculo é de todos. Ele se desfaz, contudo, com uma velocidade incrível. Solta-se, como uma pluma. Ontem, era o Flamengo. Assim, prosseguem as aventuras da vida. A escuta do ritmo do coração demora, não é parceria do efêmero. Lembro-me dos frankfurtianos, das suas reflexões. Não significa sacudir a alegria fora. Enganar e desprezar a crítica quebra a rebeldia. Fixa a máscara.Os colonizadores foram cruéis. Implantaram a escravidão. Usufruíram de lucros majestosos, fabricando uma história progressiva. Desmancharam identidades culturais.

 A resposta vem e a linearidade não se segura. O drama que vive os poderosos na Europa e o medo de perder o espaço, para seus antigos dominados, estendem os caminhos da memória. As voltas são grandes e os atalhos se cruzam.Se a euforia perpétua é um fingimento da sociedade de consumo, é preciso descobrir como desmascará-la. Não dá para consagrar a mesmice dos momentos. Seria construir o território da mercadoria, com o sangue manipulado pela grana. As coisas de dentro buscam saídas, no entanto temem os olhares das imagens coloridas.

Os desconcertos não são defeitos, nem lacunas. Quem se recorda dos desencontros sabe que eles também comunicam sabedoria.Vi, no metrô de Paris, pessoas de várias etnias. Uma multiplicidade que agita e visualiza traçados culturais, com bordados primorosos. O sentimento que prevalece não é o de comunhão, mas sim de competição. A disputa não se esconde. A exploração risca cada momento e tumultua quem elege o sossego. Em cada esquina, o ruído prospera. A torcida do Flu se esbaldava, porém seu técnico campeão lamentava a falta de estrutura. Os contrapontos estão acesos. Não adianta desfigurá-los.

 A profissionalização crescente mexeu com o mundo dos prazeres.O famoso mal-estar da cultura firma suas configurações.Os labirintos existem, mas a capacidade de desvendá-los não é uma falácia. Navegar, em oceanos, se articula com a vontade de  não temer turbulências. O vaivém é de todos os tempos, das descontinuidades e das serenidades. Na procura de superar a incompletude, seguimos costurando os feitos e conversando com as frustrações. A curva nos coloca o sobe-e-desce. A esterilidade das avenidas vazias não alimenta o desejo de distrair-se, sem entulhar-se de mistificações.

 Melhor do que tudo é reinventar o mundo, esticando as boas energias que formam o efêmero. Longe das síndromes, dos perigos e das falações inúteis. As histórias de Scherezade são alimentos fundamentais. Apesar dos descontroles e das desigualdades, não há necessidade de apagar das fantasias, os arcanjos, os gênio e as fadas. Se o absoluto não é a nossa moradia, a transgressão nos une a Prometeu. O mito é a resposta, para a narrativa do fascínio.

A volta sempre traz muitas histórias e travessias

Voltei. Cheguei sábado, depois de horas perdidas nas confusões de aeroporto. Foi um bom momento de vida e com surpresas, componentes de toda viagem. Vou comentá-las, sem agonias, pois trazem reflexões interessantes. Gosto de observar, sem deslumbramento. O mundo gira e  é mesmo uma aldeia global. Os entrelaçamentos são muitos. Não deu para escrever, lá em Paris, porém a memória ajudará a seguir adiante.

Desliguei-me das coisas daqui. Firmei meu olhar no cotidiano vivido, num frio que deixava vontade de dormir sempre. Não deixei, no entanto, de correr também para os jornais e me atualizar. Portanto, dedico o retorno ao que vi na chegada e reanimo meu diálogo com a terra querida. Muitas saudades, desse sol e das luzes do Recife. Precisamos de sair dessa desigualdade que foca uma miséria terrível. Não faltam beleza e criatividade, necessitamos aumentá-las.

No futebol, os grandes continuam colhendo as amarguras de um ano, sem dádivas. Muitos erros, jogadores sem motivação e batalhas perdidas. Promessas se perdem na vaidade dos dirigentes. As escolhas são cheias de perplexidades  e de buscas de orgulhos desmesurados. Isso atrapalha muito. Depois, vem a queda e a lamentação. As torcidas continuam inquietas com tantos desacertos. A possibilidade de ir para a série A se distancia.

O Flu ganhou e  mereceu. Nada de maravilhas. Foi um campeonato fraco. Carências de craques marcantes e muito chutão. O Corinthians pensava numa consagração total. Não deu. Armou, fez festas antecipadas, porém o tricolor está por cima. Esperamos que a qualidade seja refeita. É preciso reformular os times e não desejar a grana de todo jeito. Muita ambição, com empresários metidos nas tramas.

O país se renova. Possui uma travessia. Defeitos não estão derrubados. Eles são  graves. Resta caminhar, não se empolgando com a quantidade. Parece uma epidemia. O modelo norte-americano prevalece. Cavamos um buraco para o futuro, em nome de um desenvolvimento que visa acumulação e passa longe da ética. O mundo está tomado pelas peripécias da competição e nos transforma em consumidores. A cidadania se fragiliza.

Tudo se comunica.O estreitamento é contínuo, mas a valorização das identidades culturais não é ponto de apoio. Só se quer ser o que se pode consolidar como mercadoria. Com isso a diversidade se estraçalha e a mesmice se alarga. O futebol se empobrece e as relações sociais se deleitam com as liquidações natalinas. O olhar para o outro é pragmático. Isso está globalizado. Como se desviar desses desencontros?

Pretendo ensaiar alguns diálogos sobre essa minha andança pela França. Não esquecer de dividir a experiência. Gosto de conversar e socializar. Por isso, fico meio triste, com tantas vitórias do invidividualismo. Não custa   abrir outros rumos. Uma vida disfarçada, no reino das mercadorias, termina diminuindo a nossa capacidade de invenção. A pressa contagia e dilacera.

Nem notamos o vulcão queimando. A violência torna-se um espetáculo e nós, entorpecidos. Os espelhos são as imagens das coberturas televisivas? Pois é. Nada de se mudar para dentro do quarto e se fechar no escuro. O coração é forte, quando não se esconde e se estende pelas travessias.

No meio da viagem, as aventuras do inesperado

Estou no meio do caminho.  Nem sei como usar os recursos da maquina. Fica dificil. Mudancas culturais deixam marcas (…) Coisas do oficio.

No Brasil a gente se encontra. Visite os posts anteriores. O ultimo foi no dia 26 de novembro. Viva Ulisses e suas astucias…

Por que tantas suspeitas rondando as disputas ?

 

No domingo, a proximidade do título da série A arrancará muitos suspiros. O Fluminense depende das suas forças. Muricy não vê a hora de recuperar seu prestígio de vez. Saiu muito abalado do São Paulo e, ainda, viveu dias poucos gloriosos no Palmeiras. Apostou numa passagem pelo Rio de Janeiro e pode dar certo.Seu time tem afinação, não é fora de série, mas os adversários são fracos. Nesse Brasileirão, faltaram craques. Honras para Conca que deverá ser eleito o melhor do campeonato.

Sobraram, em 2010, notícias e fofocas das mais ousadas. Luxemburgo foi acusado de adorar o baralho e perder fortunas. Respondeu, com firmeza, no seu blog. Disse que se defenderá na justiça. Querem tirá-lo do pedaço, depois de seguidos fracasso nos clubes que passou. Ele não cede e nem se mostra abatido. Luta para seu Flamengo manter-se na série A. É uma bela maneira de calar os inimigos que não devem ser poucos. Vamos ver até quanto custa esse enfrentamento, com entrada na vida privada de Luxa, ameaçando a sua profissão.

O caso de Bruno gira. Manchetes na página policial quase todo dia. Uma tortura , para quem antes o adorava como ídolo. Advogados, drogas, violências, segredos, desmentidos, uma novela que incomoda quem aprecia o futebol sem arrogâncias e desmantelos. Também surgem conversas sobre Fernando Henrique, o goleiro do Flu. O mundo da bola fortalece disputas, em vez de amenizá-las. As rivalidades e a busca de mídia tornam as relações tensas. Pouca pedagogia, para muita invasão na ética.

Aparecem outras discórdias sérias. Comprometem resultados. Além das denúncias contra os árbitros, de vida tumultuada, alguns times são manchetes negativas. Falam que o São Paulo amoleceu o jogo, para prejudicar o Corinthians e que o Palmeira nem se liga para o Brasileirão. Elegem-se santos e demônios, nos acordos que dizem ser feitos nos bastidores. Lembram as histórias da fórmula 1 que, felizmente, não vingaram. Vettel ganhou e derrubou os combinados. Tudo isso, nega o valor mais rico da diversão e a transforma numa rede de interesses sujos.

Torço para que os boatos não tenham nada de verdadeiro. Nem uma lasquinha. É claro que a sociedade indefine alternativas e nem sempre defende as virtudes contra os gênios do mal. Se a desconfiança dispara, onde se firmará a sociabilidade ? Os negócios existem, as manipulações não se escondem à toa, porém extinguir os limites é destruir qualquer desejo de dividir trabalhos e acreditar nas parcerias com os outros.

O esporte promove espaços, para se aprender a cuidar das regras. É cultura no amplo sentido. Possui poder de sedução, forma talentos, ensina comportamentos respeitosos na convivência com a vitória e a derrota. Mesmo que a grana faça seus estragos, venerando bens materiais que consagram os bem-sucedidos, não vamos festejar as vantagens dos espertos em espalhar o negativo e a traição. A possibilidade de entrelaçar as boas intenções, nunca dever ser marginalizada. O jogar inventa astúcias e arma estratégias. Alardear julgamentos precários e conquistar títulos suspeitos não têm gosto de emoção curtida. Será que tudo merece uma investigação final?

As aventuras dos Ronaldos: controvérsias contínuas

           

Ninguém quer um mundo, onde todos sejam iguais nas suas fantasias. Seria uma condenação. Os mesmos gestos, desejos repetidos, sem criatividade, e dramas cotidianos, com espelhos sem emoção. A velocidade da vida tem exigido esforço e invenção. As máquinas não se conectam com as inércias. Quem antes escrevia cartas, hoje apressa e-mails que atravessam continentes. Não faltam pontos de mutação e estranhamentos. No entanto, nem tudo está tão radicalmente mudado. Há disfarces e  permanências. Revivem-se, ainda, dramas antigos e melancólicos.

A fama continua no foco, na sociedade das vitrines. Quem se mete com a grana, não escapa. Fica com a solidão ameaçada e a intimidade voa para o espaço. Há pessoas que não conseguem se esconder, cultivar quietudes. Gostam da agitação, atiçam o reconhecimento. Aborrecem-se, quando o assédio se alarga, mas se deprimem se forem marginalizadas. Assim, são jogadores do clube dos bem-sucedidos. O futebol é uma passarela privilegiada. Provoca transformações repentinas. Sacode desconfortos, acena com milhões. Lembrem-se do caso recente de Neymar.

Aqui, visitamos os Ronaldos mais badalados. Vamos usar o plural. O Ronaldo do Corinthians está no foco principal. Sofreu com contusões. Deu reviravoltas, enfrentou boatos, casamentos mal resolvidos. A imprensa não dispensava um olhar nas suas aventuras. Recebeu consagrações internacionais. É  um craque. Apesar de estar acima do peso, supera a maioria, com sua inteligência e rapidez. Não vacila na frente ao gol e impõe respeito. Sua moradia é o Timão. Virou símbolo da torcida e motivo para propagandas. Sua presença mexe com negócios inestimáveis.

Seu time disputa o Braslieirão, com chances de ser campeão. Poderia ter disparado, porém existem contrapontos. Nem tudo está definido. Partidas ansiosas perturbarão o coração dos mais fanáticos. A forma física de Ronaldo não traz estabilidade. Ele não garante presença em todas as disputas, embora ambicione fechar o ano com o título. Seria um sonho realizado, depois de muitas controvérsias. Com isso, sua carreira marcaria para sempre a história do Corinthians. Êxito total.

O outro Ronaldo passa por momentos diferentes. Joga no Milan, assegura salário alto e tem lugar na mídia. Recentemente, voltou à seleção brasileira. Oportunidade para refazer caminhos. Expectativas de sucesso e de reencontro com passes articulados. Nada de extraordinário aconteceu. Segue sua saga, para muitos bizarra. Como se estivesse colado numa corda bamba. Despontou como um artista da bola. Foi celebrado, no entanto não se firmou como se aguardava. No seu rosto, há traços de um sorriso enigmático.

Agora, novas notícias ou melhor polêmicas. Ronaldinho foi filmado frequentado as baladas da noite. Os dirigentes do Milan se contrariaram. Quando pensam que o mágico mostrará sua capacidade, ele abandona o circo. Mistérios não faltam. Decifrações de esfinges é tarefa árdua. O mundo da fama não é frio. Abala. Expande encantos e decepções. Tudo isso, com descontroles gerais. Ronaldinho não segue adiante, não desiste de chamar a atenção e parece vagar sem sentido, deixando o tempo fluir.Não precisa de muita complexidade, para perceber o quanto as histórias se cruzam e, ao mesmo tempo, se afastam. O ponto final é uma máscara.

O tempo possui seus descansos e suas viagens

 

Há quem diga que a vida é uma viagem. Reforça seu teor de aventura e lembra as andanças do inesperado. Estou viajando. Chego, hoje, na França. Fazia um bom tempo que não ia lá. Não se trata de  passeio, embora nunca se pode negar que, no meio de caminho, sempre há pedras e pérolas. Vou para uma banca de doutorado e firmar contatos acadêmicos. Debater um pouco o que penso e as ousadias que me chamam.

Anuncio a viagem, porque interfere na escrita do blog. Não terei com mantê-lo, com assiduidade. Posso escrever, mas não quero assumir o compromisso de estar pronto, como estou na minha casa. A vida é viagem e não devemos subestimá-la. Curti-la faz parte do jogo. Não adianta mudar de espaço e continuar preso no mesmo cotidiano. Renovar o fôlego aumenta a capacidade de invenção. No entanto, até sexta está resolvido. O bolg sai. Depois, depende das circunstâncias.

Não é uma despedida, mas uma interrupção. Quem sabe, uma dia desses,  encontre uma boa máquina e solte o verbo. Certo mesmo é que,dia 4 de 12, estou de volta. Muitas águas terão rolado, mas o Haiti se mantém despedaçando, sufocado por problemas. É a história de uma continuidade cruel. Fico triste, porque sei que existem muitos Haitis pelo mundo. A concentração de riqueza é um dos absurdos que ameça a sociabilidade.

Infelizmente, as negociações não param, com a expansão da miséria, em muitos lugares, e distribuição de crack em outros. Mergulho na utopia não consola, porém acorda, retira do pessimismo. Muitos fabricaram idéias otimistas, mesmo testemunhando explorações e violências. Sem acenos para outras paisagens, não daria para se aquietar com tanta desconversa. Portanto, a fantasia e o sonho não devem ser sepultados. A apatia é um grande mal.

Viajo para Paris, onde aconteceram muitas rebeliões. Recentemente, os protestos ganharam as ruas, encurralando o governo. A  revolução nunca terminou, porém produz memória, atiça contrários. O capitalismo não quer  acordo com fim das disparidades. Incentiva o consumo, cria ilhas de segurança e se descuida das epidemias. Faz o jogo da acumulação, firma seus critério de lucro, honrando uma minoria. A sua hegemonia não é absoluta, nem silenciosa.

Deixar de acreditar nas dissonâncias é discordar do direito de reivindicar. Nada de prolongar as mesmices e formar tradições que disfarcem o desejo do diferente. A viagem é uma vida. Às vezes, em dez dias, desconfiamos de cinquenta anos. O tempo é escorregadio, com seus múltiplos calendários. Estou saindo do calor, para sentir frio e rever amigos, olhando de longe as idas e vindas do Brasil. Uma aprendizagem, sem dúvidas.

Embarque feito. Vigilâncias burocráticas cumpridas, deslocamento em todos os sentidos. Visitas ao passado, confrontos. Tudo corre. O mundo se estreita e se estranha. A travessia é de todos. Não importa o tamanho do círculo, nem o último canto do poeta. Quem vive não sossega. Sou muito raiz, sem contudo ter medo do novo. Para quem acha que a história é a construção das possibilidades, a viagem é um manto que se estende com bordados cativantes.

Por onde andam os clubes pernambucanos?

As definições estão acontecendo. Não há mais caminho de volta  ou esperanças para trocar. Sábado, o Náutico livrou-se da desclassificação, com uma goleada marcante. Venceu, depois de muito sofrimento. Dizem que os atrasos salariais frequentes  perturburam o ânimo do grupo. Não é fácil ficar sem grana, numa sociedade cheia de vontades consumistas. O Timbu também dispensou muitos jogadores e fez contratações pouco felizes. No fim, deu certo, mais uma vez ,com Roberto Fernandes no comando.

Se o Náutico iniciou, na série B, com ímpeto assustador, o Sport vacilou muito. Nem Cerezo deu força ao time. Parecia que a ladeira era grande e não tinha como evitar o desastre. O futebol não é destino traçado, sem escapes ou surpresas. Geninho assumiu. Treinador experiente, astucioso, conseguiu a reviravolta. O Leão avançou. Obstáculos foram superados. Cogitou-se em ocupar o famoso G-4 e festejar o retorno à série A.

As previsões otimistas tomaram conta da torcida. O caminho tinha poucas pedras e os adversários não metiam medo. Pouca técnica foi a tônica da série B. As partidas eram sonolentas. Só o Coritiba exibia certa categoria. Portanto, o Sport podia sonhar e lutar sem muita angústia. As expectativas forjam tensões, mas havia muitas certezas. Acontece que o rubro-negro desandou. Perdeu jogos em casa ou nos minutos finais. Empatou. Teve atletas expulsos em momentos decisivos.

Falta jogar contra a Portuguesa, porém a porta está fechada. Não cumpriu sua tarefa tão esperada. Perdeu para o América de Minas Gerais, cometendo erros ditos infantis. Geninho prendeu o time, no primeiro tempo, e Germano saiu por expulsão. Houve desejo de passar adiante, a equipe partiu para recuperar-se, no segundo tempo, porém, os mineiro ficaram  com a vantagem.

O Sport não sobe e o Náutico não cai. Ironias, gozações, rivalidades. Sempre torço para a vitória. Não seco ninguém. Apesar de ser tricolor, evito mesquinhez. Tem gente que conserva raivas e vinganças. Agora, o Salgueiro, fará companhia aos chamados grandes. Vamos ver o que nos aguarda. Não esqueçam que o Icasa e o ASA estão firmes e ultrapassaram muitas barreiras. Incomodaram. Isso é bom. Quebram-se preconceitos. Há renovações.

O Santa Cruz promete redenção. Sua atual diretoria contratou Zé Teodoro, comprometido em pular da série D. Armar-se uma estratégia para não se falhar nas contratações. O ânimo é especial e a torcida não farrapa. O tricolor tem que conquistar  mais espaço. Seu presente destoa dos ecos do passado. As decepções atuais enchem a paciência e evidenciam que o clube vive dificuldades, devido à pouca atenção de seus líderes políticos.

O Santa possui carisma, atrai multidões. Poderia estar trilhando até pela série A. O ano de 2010 foi um novo fiasco. Quando se sucede a eleição, o estímulo renasce. O povão se manifesta e cobra seriedade. Não custa se lembrar dos bons tempos e reviver os gol de Nunes e Fernando Santana, as defesa de Gilberto e Detinho, a sabedoria do mestre Gradim, a classe de Gena na lateral-direita. Nada de se esconder. As três cores merecem brilho.

O jogo refaz a brincadeira e atiça a astúcia

Se cada dia retomasse o outro, integralmente, o mundo se despovoaria. Temos que tocar no que passou, recorrer às lembranças. E as experiências que atravessam as circunstâncias e o movimento dos desejos ? O vaivém é comum. Mostra que as identidades são construídas. Nada de cimentá-las. Há sempre espaços para ensaiar ousadias e redesenhar antigas imagens.

Por isso, a invenção da cultura é ânimo. As desmontagens acontecem e fermentam dúvidas, porém os artifícios são muitos e impedem a unicidade da monotonia. O jogo traz a multiplicação das pedagogias e dos divertimentos. Mudam, com o passar do tempo. Adaptam-se aos costumes e fundam hábitos renovadores. Alguns exigem concentração, outros ruídos. Temos as ações coletivas e as individuais, a simplificidade das regras mais conhecidas e sofisticações trazidas pela informatização da vida.

O jogo acompanha a cultura, não se nega a entrar nas suas astúcias, nem a fugir das suas brincadeiras. Jogos de rua se tornam jogos de salão. A inocência do riso solto é revirada pelo cálculo da grana. Há lugares especiais para se apostar. A sorte e o azar continuam zelando pelas suas identidades. Muitas vezes,  a seriedade domina o movimento dos parceiros, as expectativas de perdas geram tensões. A brincadeira sofre metamorfoses. Fortunas são diluídas, mas as regras são obedecidas e o fracasso arranha a loucura.

O ritmo não é estático, nem homogêneo. Atinge os esportes públicos e com também ao mais íntimo carteado. Há luzes e sombras. Olhos curiosos e raciocínios velozes. O vôlei dos anos de 1960 não se compara com os dos  tempos atuais. O futebol tem passado por reviravoltas incríveis. Os saberes técnicos influenciam na estratégias . Preparações, segredos, educação física,  médicos especializados. Aquela diversão, antes comum nos campos de várzea, ganhou outra estrutura.

A rua agita-se com o comércio e o fluir das motos e automóveis. Casas foram substituídas por edifícios gigantescos. Desconhecemos nossos vizinhos. O recolhimento é cotidiano e muda os rumos da brincadeira. A televisão aumenta sua soberania, prometendo alegrias e lágrimas, sem esforços, consagrando a fantasia pouco crítica. Há de tudo, para garantir audiência e passividade. Em vez de jogar, vemos os outros jogarem e somos parceiros indiretos.

É claro que a cultura não poderia adormecer. Os significados merecem releituras e a emoção se debruça sobre outras paisagens interiores. Não se trata, aqui, de uma condenação, porém de uma insistência. Traçar as diferenças entre os momentos, sem querer firmar hierarquias é importante. Entender as trocas e as singularidades deixam a vida mais rica de autonomia. Não podemos fugir das escolhas, portanto conhecer as histórias das relações sociais ajuda a desobstruir as trilhas.

O diálogo entre as permanências e as novidades testemunham vontades de refazer ou manter certos comportamentos. Nem tudo pertence a ansiedades de se lançar, cegamente, no futuro, nem tampouco mergulhar de volta ao passado. O equilíbrio é um desafio, pois a instabilidade arma  suas assombrações. O humano não dispensa sua identidade trágica. Busca, porém, fôlegos. Nos jogos e nas bricandeiras moram encantos. Porque não encontrá-los, sem disfarces?

A ética visita, provoca e inquieta o mundo

O acirramento das disputas e as necessidades de vitória criam discussões sobre os valores. O mundo tem peso, não é algo abstrato e sem medida. Há formas variadas de avaliá-lo, mas uma simples dor de cabeça já provoca a elaboração de um juízo. A sociedade festeja os vitoriosos. Parece que todos possuem a obrigação de vencer. A derrota é um estigma, um sinal para completar o desengano. Não cabe a existência de um mundo, onde todos celebrem a vitória. As lacunas são muitas e distribuídas desigualmente.

No final das disputas, as suposições se estendem. Correm boatos, ressuscitam-se passados, esticam-se lamentações. No futebol, a figura do árbitro não escapa. Xingado pelas torcidas, analisado pelos comentaristas, perseguidos pelas câmaras de televisão. Acabou-se a época do lance visto uma única vez. As televisões são incansáveis. Saturam. Tecem teorias. Condenam. Salvam. Buscam afirmar-se como donas de juízos finais. Querem acabar com as dúvidas, mostrar eficiência. Bigbrother em três dimensões?

O Brasileirão caminha para chamada reta final. Não há vencedor antecipado, com pontos que lhe tracem um destino de campeão. Então, as explicações não sossegam. Ninguém se arrisca em apontar o ganhador. Muitas conversações, debates cotidianos, crônicas raivosas, julgamento precipitados, opções disfarçadas. Quando sucedem os lances polêmicos, as manchetes se configuram com fotografia de detalhes não percebidos no momento do apito do árbitro. Foi dentro da área e se marcou o pênalti. Houve intenção na falha ou apenas descuido humano?

O bombardeio é grande. Os méritos de pessoas, antes inquestionáveis, desfiguram-se. Todos observam os enganos, vendo, muitas vezes, a mesma imagem. As conclusões podem levar o principal figurante a um ostracismo fatal. Ele era do quadro da Fifa, honesto, articulado com as regras, tranforma-se num suspeito. Esquecem que sua decisão não passou por uma longa reflexão. O instante é tudo, não é possível adiar nada.

As acusações se espalham e dividem-se. O jogo perde a importância, esconde-se da sua dimensão lúdica. O Cruzeiro proclama as injustiças da CBF. O Corinthians coloca-se como vítima. O Fluminense sente-se acuado, com tantos devaneios. Os blogueiros esquentam as incertezas. As regras promovem anseios interpretativos que perturbam a clareza. Bola na mão, mão na bola. Cada um faz suas deduções, com a onipotência das aventuras televisivas.

Com certeza, a série A do Brasileirão trará suspenses. Todos os três concorrentes bem próximos, abrem espaços para pensar o que se passa fora das quadro linhas. Há preparação de resultados ou vale a categoria dos atletas? Tanto esforço e grana não garantem o sucesso? As decisões ficarão por conta das relações de poder? Tudo se complica, porque não há uma equipe favorita, a carência de craques não permite espetáculos.

Num mundo de concorrência cotidianas, os limites servem para impedir  que a soltura tome conta das leis. A transgressão absoluta evitaria qualquer cultura ou a ordem absoluta formaria uma paralisia histórica. Os grupos comportam-se, segundo regras que se coadunem com suas vontades coletivas. Mas a sociedade atual consagra o êxito como objetivo, independente de um peso ou uma medida. A vantagem dissolve, cria territórios de solidão vazia.