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Há muito futebol no meio do caminho

As agitações estão em toda parte. Azares e sortes povoam o planeta terra. As notícias globalizam-se. Quando causam perplexidades, são repetidas de forma incessante. Na crista da onda, a campanha eleitoral desfila com ornamentos e tatuagens. Profecias de pesquisas, pós-modernas, assinalam o favoritismo de Dilma. Os escândalos recebem atenção. O caso da Receita Federal traz transtornos. Há ruídos intensos.

A violência corre o mundo. Acusações de assaltos e de desgovernos aparecem nas manchetes. A Europa mobiliza-se, criticando a França e seus dirigentes. Os ciganos são alvos de perseguições políticas. No Chile, a expectativa é grande. Todos estimulam ações para salvar os 33 mineiros. Nos cinemas brasileiros, estreia mais um filme sobre Chico Xavier. A diversidade consolida-se como marca do nosso tempo.

O futebol também não descansa. O Sport segue sua invencibilidade e Ciro é o artilheiro da série B. O  Náutico sofreu, mas ganhou. Espera voltar para a ponta da tabela. A esforço é não deixar esmorecer o ânimo. Um bom preparo emocional salva o time de atropelos inesperados. 

A série B é uma gangorra. A Ponte Preta  vem numa disparada. Chegando perto do Figueirense, depois de um começo vacilante. O Bahia oscila, mas se mantém num lugar de destaque. É impressionante como os times flutuam. Há goleadas e quedas de produção imprevisíveis. A Portuguesa é um exemplo. Com a derrota, para o Sport, já  se anuncia uma crise no elenco. Ela estava, antes, entre os primeiros.

O Brasileirão da série A traz o Corinthians despontando. Pegou o descontrolado Goiás e fez um placar histórico: 5×1. Inquieta, mais ainda, o charmoso tricolor carioca, pois o Guarani desencantou,  no seu estádio, e derrubou o time de Muricy. As torcidas nasceram para emoções tão contagiantes? Faz parte do esporte essas tensões e aprendizados. Muita gente não percebe o quanto se aprende nessas idas e vindas. Uma escola para multidões.

O coração bate com ritmos acelerados. Ele quer calma. Nem sempre, ela se realiza. Os palmeirenses se angustiaram. Fizeram parceria com os botafogueses. O time de Scolari perdeu de 3×2 para o Cruzeiro e o Fogão empatou com o Grêmio. Tudo muito certo, se ambos não estivessem no comando do jogo e, no descuido, deixaram os outros triturarem suas alegrias. 

Algumas redenções merecem ser salientadas. O São Paulo procura sair do incômodo e, devagar, escapa do caos que o perturbava. O Atlético Goianense é outro que deseja se livrar da agonia da desclassificação. Goleou o Vitória da Bahia. Quem sabe se esses clubes não pisarão, com mais força, na segunda fase do Brasileirão? O mesmo se aguarda do Flamengo e do Atlético de Minas.

São muitas disputas. Um mundo dentro de vários outros mundos. Captar os infinitos movimentos da sociedade é um desafio inatingível. Os passos apagam-se, nas areias mais duras, e o fôlego de refazer cada caminhada nem sempre nos acompanha. Existem recolhimentos, esconderijos distantes, agulhas bordando sonhos, tapetes mágicos voando para vigiar as estrelas. O futebol tem luzes e sombras. Como os sentimentos da vida, ele nos abraça ou nos desfigura.

As travessuras de Neymar: a brincadeira tem limites?

Brincar é humano. Cria, distrai, sensibiliza. Nem todos, porém, suportam certos tons das brincadeiras. Alguns investem, na seriedade, como caminho da aceitação social. Admitem que as gozações revelam comportamentos de vadio. Como dizem, em cada cabeça uma sentença.A vida estende-se por muitos espaços, não vamos comprimi-la em quartos estreitos e úmidos.

Na cultura, ordem e transgressão se conflitam. Podem inverter-se, deixando as pessoas confusas. Na contemporaneidade, é difícil assumir valores ou validar éticas. Muito consumo, brilhos incomensuráveis, produtos de todas as cores. Nem tudo é para todos. A grana circula, mantendo desigualdades e estimulando fantasias. Daí, as violências mal explicadas e os governos cheios de programas de inclusão social.

Não dá para simplificar. A complexidade é grande. A virtualidade existe e o afeto se mascara. Não é possível conter a perplexidade ou ser o sábio de todas as verdades. Por isso, brincar ajuda. Ser rebelde não  é o fim da ordem. Sem mudanças, a história não teria nem começo. Imaginem Adão e Eva respeitando todas as regras do paraíso! Muito peso, para pouco desejo.

Neymar está na mídia. O seu jeito traz polêmicas. É ídolo, joga com leveza e diz coisas que ferem. Os protestos são comuns aos seus modos de enfrentar a sua carreira. Ficou no Santos. Ganhou saudações de toda parte. Crônicas exaltaram sua escolha. Serviu de exemplo. As páginas esportivas estamparam sua figura, como um rei. Seu ar de garoto não desapareceu. Pinta o sete, com muita soltura.

Dribla com rapidez. Faz gols com arte. Debocha, sem perceber o outro. Carece de entender os limites. Não é a sua capacidade de invenção que o condena. O que lhe assanha: a ausência de uma formação ética  mais apurada ou  a imaturidade diante das questões que transformam sua vida? O hard incomoda o soft? Neymar não é anjo, nem demônio.

Uma dose de conversa faz bem. A responsabilidade não é uma dádiva. Entra na educação como um cristal portentoso. Recriminar é uma alternativa. Fabricar sentimentos de culpa é uma saída secular  para assegurar antigas ordens. A religião, a política, o esporte têm suas disciplinas, seus mandamentos, suas tradições. 

O capitalismo morde e sopra. Exige docilidade no trabalho e agressividade nas compras. Cartões de crédito agilizam emoções e prometem salvar fossas perenes. Há muita magia, numa lógica que se configura como racional e objetiva. O sucesso é uma palavra encantadora.Seduz a maioria. Neymar não foge do modelo.

Na sua plenitude sonhada, a arte cultiva trilhas sinuosas, mas não humilha os que se negam a compreendê-la. Talvez, o jogador não se situe nessas questões. Não é necessário ser tão metafísico. Aprende-se com os gestos, com a solidariedade, com o toque da afeição.

 Neymar está fascinado por algumas coisas que  ameaçam estragar seu vir-a-ser na vida. Arrisca-se, em nome da vaidade de superfície obscura. Nada de crucificá-lo. Não custa, porém, alertar e  observar o tamanho da  mágoa de quem se julga desrespeitado. Descontrole, em excesso, é porta aberta para quem ousa, apenas, centrando-se no seu próprio bem. O abismo não é uma ficção.

 

O conforto, a emoção, o poeta: o futebol nas cavernas

Cada época possui suas manias. Os hábitos mudam. Poucos conseguem atravessar séculos. No mundo da velocidade, o descartável é o rei.  Esquecemos o ontem, com uma rapidez incrível. A contemporaneidade é o tempo dos anúncios de máquinas fantásticas, das visitas aos shoppings centers. Os templos se redesenham e as orações se reformam.

O altar do computador oferece-me a oportunidade do blog. Não recuso. Por que não mergulhar nas experiências, sem atacá-las, para se mostrar astucioso ?  O perigo é transformá-las em fetiches. Recusar a dança é perder o fôlego da sensibilidade, acreditar no culto à permanência. Tenho dúvidas sobre o que trará de felicidade os artifícios codificados, mas o  importante é não abandonar a crítica.

Era um frequentador dos estádios de futebol. Não perdia jogos da cobra coral. Estava até nos treinos. Colaborei com a campanha para contruir o Arrudão. Vivi isso , intensamente, até os 22 anos. Depois, minhas idas ao futebol tornaram-se raras. Não deixei de ser torcedor atento. Quando leio o jornal, o que me atiça mais a curiosidade é a página esportiva.

Não firmei uma distância das minhas paixões pelo tricolor. Acho o esporte  um criação humana de valor inquestionável.  Muito intelectual subestima o vaivém do futebol, não observa como ele está articulado com a cultura, nos seus detalhes mais escondidos. O olhar de censura denuncia, muitas vezes, egocentrismo ou vaidades mesquinhas.

Não escapemos da diversidade. Dialoguemos. Meu afastamento dos estádios não é à toa. Entra na vida cotidiana que me cerca. A televisão me traz partidas de todos os lugares, de todos os campeonatos, dos mais diferentes continentes. O poder dos meios de comunicação não se acanha. Ele quer convencer, acomodá-lo na sua caverna. Aquela sentença fatal: saiba de tudo sem sair do seu divã.

Nem Freud seria poupado. Hoje, vejo o futebol, mergulhado no conforto. Tenho canais espertos e imagens cativantes. Estico minha preguiça, sem vergonhas. Descanso é bom, pensar outros universos é saudável. As repetições das jogadas e as minúcias das disputas aquecem especulações. A pergunta: onde mora o limite de tantas travessuras ou o que se disfarça por detrás das máscaras da telinha?

Uma lembrança do poeta Vinícius de Moraes: a vida vem ondas como o mar. Desviar-se dessas ondas pode provocar transtornos. Não custa, porém, senti-las, perceber sua temperatura, contemplá-las. A inquietude não merece desprezo. Aceitar todas as alterações que as máquinas aprontam, sem hesitar, é embriagar-se com uma perigosa alienação.

 O futebol na tv é atraente, mas nele existe uma complexidade maior. As artimanhas sucedem-se . Não apaguemos as incertezas,  o desfiar inconstante  do lúdico. O poeta sabia que o ritmo das ondas não é inimigo das dissonâncias. O mundo gira, incansável.

Dentro da minha caverna, elejo fantasias e a rua ganha estranheza. O futebol não se resume aos encantos das tvs, nem ao conforto dos divãs. Não adormeci nos fascínios, apenas os utilizo. O poeta Vinícius também alertou que a vida é a arte do encontro, embora haja muitos desencontros pela vida.  Acredito nos poetas e reverencio as suas palavras.

O Milan contrata Robinho : a chance da redenção

A vida de um craque tem variações vertiginosas. Não adianta querer encená-la com regras fixas. Há sucessos inquestionáveis, frustrações desesperadoras, desistências inesparadas. O percurso não é reto, as curvas não cessam de incomodar. O futebol é lugar de espetáculo. Contagiante. Quebra a monotonia. Faz ponte com transcendências da alegria e do voo solto dos trapézios.

Robinho apareceu e logo a lembrança de Pelé se iluminou. Sua pedaladas desmontavam defesas, tumultuavam as cabeças de seus marcadores. Estava nos Santos, fazendo parte de uma geração promissora. Criou expectativas. Ocupou manchetes. Seus gols eram repetidos exaustivamentes nas tvs. Seriam os meninos da Vila predestinados, alguns perguntavam? E lá se vai Robinho para a vitrine de luxo internacional.

O mercado da bola não dorme. O Real Madrid moveu seus 30 milhões de dólares. Sonha alto. Localizou um estrela e desejou aumentar o seu brilho. Robinho tinha singularidades. Não expressava o comum, mas os tempos de graça dos grandes jogadores. Rumou para Europa, com certezas e ambições definidas. Aconteceu a convocação, para seleção brasileira, que o tornava mais popular. A vida se ornamentava, com cenários gigantes.

Há tempos de bolas redondas e bolas quadradas. O craque não emplacou no time espanhol. Não houve uma continuidade. As decepções e as críticas apontavam falta de motivação e mesmo deslumbramento com a fortuna alcançada.  Momentos cheios de intrigas e invejas. Observou-se uma queda na produção do craque. Configurou-se uma penumbra. A dúvida terminou  silenciando todos. Os sábios recolheram suas profecias.

Robinho resolveu sair do Real.  O sufoco o atormentava. Seguiu para o futebol inglês, magoado e sem revelar, no entanto, o cerne das complicações. Sua passagem pelo Manchester City também não  repercutiu o planejado. Sempre, a incógnita persistente, de uma matemática que nem Descartes resolveria . A solução foi revisitar o Santos, com o objetivo de ir para a Copa de 2010.

Encontrou-se com Neymar e Ganso. Trouxe animação e voltou ao palco. Na África do Sul, o desandar foi geral. Robinho pensava ser campeão, costurava ligações discutíveis com o comandante Dunga. O final não alimentou boas esperanças. Restava tentar outros espaços. O talento não podia secar. A sinuosidade da vida não é uma castigo perpétuo.

A notícia da sua contratação  pelo Milan acordou seu futuro. Será bem recebido por Ronaldo e Pato. Os brasileiros, em foco, provocam a imaginação dos seus admiradores e dos malabaristas. Quem sabe um ataque nunca visto nos tempos mais recentes? Robinho redimido, sorrindo, pedalando. A retomada sacode o coração. Reinventa.

Vamos festejar. O Santos se sentiu , duplamente, gratificado. Recebeu da Fifa R$ 2,64 milhões. A entidade soberana premia os clubes que formam craques. Uma notícia com um sabor especial. Coincidentemente, Diego e Robinho foram negociados e ,dentro das normas estabelecidas, o clube formador merece uma recompensa. Cabe ao jogadores confirmarem suas trajetórias, romperem com o marasmo e enfeitiçarem os estádios europeus. Nós agradecemos, com entusiasmo.

 

A série B em questão: as ameaças e as tensões constantes

Mitificar a elite, esconde e minimiza dificuldades. O futebol está em toda parte. As disputas se acirram, quando as classificações ameaçam o rebaixamento. Cair para série C é um desastre incomensurável. Vejam o caso do tricolor do Arruda. Enfrenta batalhas contínuas. Os outros clubes de Pernambuco ficam de olho, com medo que a epidemia se alastre.

O  impressionante é a trilha do Náutico. Como se cultiva a instabilidade no timbu! Dispara no início, faz partidas elogiadas. Dá a impressão de que o sucesso está garantido. De repente, se desmantela. O descrédito desmonta as esperanças anteriores. A perplexidade altera vaidades e humores.

Ocorrem contusões em jogadores importantes. Contratações são desanimadoras. Intrigas internas transparecerem e as estratégias de Gallo não superam as decepções contínuas. Fala-se na vinda de outro treinador, como se fosse a saída indiscutível. Surgem  boatos de dispensas.  Nem toda torcida não suporta explicações. Quer resultados. Agita-se.

A questão dos salários repercute.  As versões são muitas, para problemas permanentes. O timbu ressuscita adversários que estavam em situação precária. Seus artilheiros se machucam com facilidade.  O ataque frágil sobrecarrega a defesa. Mais ainda: as expulsões, os cartões amarelos, o desencontro de informações. Uma tempestade se anuncia em pleno final de inverno.

O campeonato não está terminando. Mas pode se formar uma energia negativa que precisa ser expurgda. O Figueirense está aí segurando a posição de líder. Perdia de 2×0, não esmoreceu e consolidou um empate. A Ponte abriu espaço para a vitória. Avança, depois de um início desanimador. O Duque de Caxias ensaia uma reação. Não se intimidou com o São Caetano. Conquistou mais uma vitória.

A reação desses times é uma ameça, para os que  se sentem em desarrumação. A Portuguesa vacila, lembra o Náutico,  em alguns momentos. Tem desencontrado-se na hora do pique decisivo.  O Coritiba mantém sua subida. Sacudiu três gols no ICASA. Está em segundo lugar, na frente da Ponte e do Bahia.

O Sport busca modificar-se. Geninho trouxe boa vontade. Sua experiência é valiosa. Venceu o América de Minas por 1×0. Não estabeleceu, ainda, uma trilha tranquila, como prometeu. No sábado, Sport empatou, depois de estar ganhando de 2×0. Acumulou mais uma frustração. As impaciências se somam.

Essas oscilações tiram a confiança. Os clubes pensam no imediato. Aprisionam-se nas promessas de empresários. Desprezam os jogadores feitos em casa. Não se tocam, com o exemplo do Santos. Preferem arriscar, trazendo desconhecidos ou desmotivados. Todos sonham em se agregar, magicamente, à famosa elite. Não é tão maravilhosa assim. Possuem suas contradições, pouco efêmeras.

Nada de um trabalho mais profundo, pacientemente tecido. Os times de sucesso de Pernambuco foram feitos com valores da base.Quem não se recorda do hexa do Náutico ou do penta do Santa?  No momento, Ciro tem posição de destaque na artilharia. Os exemplos são muitos, porém o mundo do pragmantismo contamina e corrói. Os dirigentes atropelam-se numa bola que nunca será de cristal. Resta, para eles, o consolo de usar manobras, fortalecendo o clientelismo.

A bola de plástico e a lama: o jogo é de todos?

Tudo se entrelaça? Parece . Nada está solto no ar. Há uma comunicação múltipla que prestigia o cosmo. No cotidiano, desenham-se vestígios. A sociedade tem conflitos, ternuras,violências, paixões e desacertos. Nem tudo merece lixo, nem tudo é luxo. Mesmo que a aldeia global fale a linguagem forte do consumo, podemos refletir sobre muita coisa. Ainda…

O futebol traz complexidades. Ela se entretece com a vida cultural. Mexe com tudo. Assanha emoções, agita investimentos, promove diversões. Não precisa ir aos estádios. O  jogo é onipresente. Há espaços, para ele , em toda cidade. Até nos corredores dos prédios, o barulho da bola é identificado. Assusta os mais tensos. Como em um pequeno lugar pode existir tanta vibração?

O lúdico possui suas atrações. Desperdiçá-las é despertencer ao humano. Ando pelas ruas e vejo as crianças brincando. Os carros passam com suas buzinas ameaçadoras. Querem tomar conta de tudo. A bola circula, apesar dos perigos. A esfera tem poderes que a própria razão desconhece. Sua geometria é mágica. Pode ser plástico ou couro, Nike ou Adidas.

E aquelas famosas bolas de meia, de linha, as caixas de papelão ? Qualquer objeto redondo distrai. Faz o tempo vadiar. A geometria se desinventa e uma cartografia astuciosa ensina a ousadia à imaginação. O movimento é o que fascina, como o abraço sensual de dançarinos de tango. O ritmo desinforma os mais sérios.

As cidades se encheram de gente e de construções. Muito cimento armado, vidros, elevadores panorâmicos. As suas ruínas ficam escondidas, para que haja a exaltação ao esplendor. A ordem não consegue, porém, derrubar todas as transgressões. A convivência com o futebol alimenta disciplinas, mas também rebeldias.

As torcidas mostram as contradições. Multidões, gritos, discórdias, batucadas, solidariedades. As ambiguidades são instituintes. Não significam a consagração do caos. O capitalismo as incentiva. Ele sobrevive como pode.  Seus infernos e paraísos não possuem fronteiras nítidas. Os seus anjos não se olham no espelho.

No mundo, todos jogam. Há uns de sorte majestosa. Evitam encruzilhadas. Enfrentam desafios. Contemplam  mitos da sorte. Outros não encaram riscos. Sentem-se desconfortáveis. Lastimam. Confundem azar com falta de sensibilidade.  Submersos na  mediocridade, só suportam  a manchete mínima da página de jornal.  Desconhecem que o gol é o jogo no seu agora divino.

As desigualdades dão resistência aos desmantelos da exploração. Muitos não ligam. Desfazem as cores ou as profecias da derrota. O que é legítimo é a luta. Já vi reviravoltas inconcebíveis. Na vida e no jogo, há moradia de linhas estranhas e  quartos sombrios . Se há a exaltação para o primeiro, há os que, também, se contentam em competir.

A lama suja os pés, o plástico arranha a pele, a dor revela e aquieta abandonos. Os ruídos desadormecem  preguiças. A guerra se estende pelas urbes. Sutis ou agressivas. São astúcias do animal homem. Nas avenidas, se mascaram os rostos com as pinturas da barbárie. Na travessia da palavras, encomenda-se o amém da oração profana, no perdão do ponto final. O vencedor é o dono do jogo ou o artesão da bola?

 

O jogo das contratações: as desigualdades e os azares

 

Não há espaço homogêneo, onde a igualdade se definisse como a maior bandeira. As disputas estão, sempre, presentes. A solidariedade é rara, mas existe , evitando que a sociedade se demorone de vez. A competição atinge todas as relações, sobretudo quando se busca a vitrine e o sucesso. Está tudo dominado por um individualismo atuante e sedento.

No futebol, o mercado da bola não cessa de movimentar-se. Depois das polêmicas sobre a transferência de Neymar, continua o jogo das contratações e das dispensas. O Santos marcou um tento, garantindo sua estrela, contudo muita coisa rola. Os técnicos são alvos prediletos do vaivém. Leão caiu fora do Goiás. Seu trabalho fracassou. Mais um supense, sem muito espanto.

Cultivemos a proximidade. O Sport busca renovar seu time. Quer subir de posição. Trouxe Geninho e Marcelinho Paraíba, para firmar um ânimo mais consistente. No entanto, nem tudo está resolvido. Há carências, o time não ganha o lugar que a torcida quer. Nas mudanças, outros partem. Lá se foram Eduardo Ramos, Leandrão e Pedro Júnior. Reclamações esquentam o ambiente. O dinheiro se esvai, sem retorno.

O Santa Cruz, por sua vez, sente a fraqueza do elenco e teme fracassar na série D. Suas dificuldades são visíveis. Tentou contratar aqueles que saíram do Sport. Nada feito. O tricolor não tem caixa alta. Se perder as próximas partidas encerra, precocemente, seu ano de atividades. Os jogadores desconfiam da situação precária. Preferem não arriscar. O desemprego mete medo em todos.

As diferenças entre os clubes são notáveis.  Não há paraíso. Não se pode, porém, comparar a força do futebol paulista, com os poderes financeiros do futebol pernambucano. A luta é árdua. Salários atrasados, dirigentes reclamando, treinadores exigindo reforços. O jogo clama por resultados positivos. Quando as derrotas se sucedem, a desmontagem avança, sem perdão.

Os clubes não são empresas tradicionais. Mesmo os mais conhecidos passam por atropelos. Vejam o que acontece, agora, com o São Paulo e  o Atlético de Minas Gerais. A fama reverte contextos, mas traz problemas. Ronaldo sofre críticas pela demora em voltar à forma pretendida.  A cobrança é imediata. Isso faz gerar controvérsias e mágoas. Ele reclama da pressa. Exalta seu passado.

A coisificação é algo inegável. O mercado não é só o da bola. Ele é astucioso e gigantesco. Desfaz fronteiras. Penetra nas nossas moradias, manda emails cativantes, explora as descobertas com patrocínios milionários. A massificação é galopante. Há quem se choque com a insistência do consumo. No mundo da desigualdade visível, o dinheiro serve de instrumento para ascensões sociais.

 As fortunas repentinas são, muitas vezes, a porta aberta para deconforto inesperado. Os exemplos se multiplicam. Nem todos se tocam. Não é estranho, portanto, que os trabalhadores da bola se intimidem. Não querem o deserto, mas um boa sombra para assegurar o futuro. Tornam-se migrantes forçados a mudar de ares, quando nem começaram a respirar.

Os resultados do Brasileirão: profecias sem juízo final

 

A torcida do Fluminense vive empolgada com a trajetória do seu time. O comando de Muricy está surtindo efeito. O time organiza-se, com poucas vacilações. Está na liderança. Seu treinador mudou a forma de encarar as estratégias. Não só cruzamento para área, mas também articulações nos passes e ataques rápidos. Ontem, empatou com o São Paulo.

Alguns times continuam passando uma fase assombrosa. O Goiás, o Grêmio e o Atlético Mineiro estão na berlinda. A tensão é grande. A vitória não aparece. O Palmeiras virou em cima do Galo. O Verdão fez dois gols e Scolari salvou-se.  Mais uma vez, a torcida do time de Luxemburgo saiu aborrecida, sem entender a razão de tanto desgoverno.

Ronaldo voltou e sua equipe se firmou perto da ponta da tabela. Não é o primeiro, porém se encontra em segundo lugar, com 34 pontos. Pelo menos não é vítima da instabilidade de outros, como o Cruzeiro que não segura o barco. Não dá a vibração de que poderá ser o campeão. Empatou com o Vasco. PC Gusmão criou uma fórmula defensiva, aparentemente, imbatível. Festeja sua invencibilidade. Sorte ou competência?

O Internacional deixou o Botafogo, na saudade, e avança na tabela, depois do título da Libertadores. Está com 27 pontos, junto com o Santos que não deu moleza. Ganhou de 2×0 do Goiás. Quer ser o destaque de 2010. Sofreu  impacto com a contusão de Ganso. Não está, no entanto, atravessando a agonia do Flamengo. O Mengão contratou Silas e perdeu para o Guarani em Campinas, nos últimos minutos do jogo.

A vantagem do Fluminense e do Corinthians é alentadora. Num campeonato de pontos corridos, há, contudo, mudanças inesperadas. O São Paulo, que vive um inferno astral, já chegou em rodadas finais aprontando surpresas. As quedas acontecem, porque os clubes dependem de muita coisa. A corda é bamba e balança. Contusões, táticas de treinador, diálogos incertos entre dirigentes, finanças travadas tumultuam e revertem as esperanças.

A lembrança de que o futebol é um jogo compõe a metafísica. Por isso, não causa estranheza consagrá-la. O lúdico tem dimensões incontroláveis. Quem persegue o linear comete enganos ou se assusta com qualquer fantasma. Desconhece as tramas da  fantasia. A cultura  responde à incompletude, de formas variadas. O lúdico faz parte dela, com todo seu verniz de gratuidade.

Há muita estrada e muitas pedras no meio do caminho. Não custa especular, ser profeta. É divertido, perigoso. Já pensou se o Ceará retomar sua forma inicial ou o Avaí procurar festejar gols com frequência? E se o Cruzeiro abandonar as hesitações ou o Fogão entrosar, mais ainda, o seu ataque? O juízo final não tem data marcada, portanto o título do Brasileirão, da série A, permanece em disputa.

O Brasileirão e a festa do gol: a animação de sempre

O gol salva, encanta, aquece. Como disse, Paulo Mendes Campos,  o gol é necessário. Quando uma partida se arrasta e surge um gol, quebra-se a monotonia. A torcida até esquece suas lamúrias. O gol bem trabalhado faz a festa e provoca comentários gerais, sem distinção de cores. Ele tem sua estética e faz do futebol também uma arte, com sua pecualiaridade sedutora.

A foto de Pelé, acima, é inesquecível. A posição do corpo e a precisão dos movimentos balançam qualquer olhar. Pelé gostava de surpreender. Não é, sem razão, que fez mais de mil gols . Parecia escolhido pelos deuses: um arcanjo para enfeitiçar os corações de quem admira o bom jogo.

Outros merecem citação: Sócrates, Didi, Leivinha, Vavá, Maradona, Amarildo, Quarentinha, Romário, Roberto Dinamite, Rivelino tinham uma paixão pelo gol sempre viva. Há uma enorme quantidade de amantes da bola e das suas celebrações mais duradouras. O espaço é curto. Ficam as lacunas, mas  as imagens estão na memória.

Lembro-me  dos muitos momentos de alegria que vivi no Arrudão e estádios pernambucanos. Quem pode apagar na recordação os piques de Ramon, os chutes de Bita, as cabeçadas de Nino, as faltas de Luciano, as astúcias de Djalma, a habilidade de Fernando Santana? Não havia retrancas que ressistisse à vontade de atacar, sem passes presos ou chutões para área. Valia o talento. O gol compunha o espetáculo, com toda sua elegância.

Trata-se de uma homenagem às aventuras vividas com prazer. O Brasileirão, série A, está chegando no eixo da sua trajetória. Os resultados, desse final de semana, apontarão certos caminhos. Mas o gol é o tema. Nada de deixar escapá-lo. Nos jogos disputados, até sábado, chega-se próximo dos  400 tentos. 

Faltam artilheiros que encantem com mais decisão. Os gols de Bruno César foram importantes para o Corinthians. Mostraram agilidade, bons passes, tabelas articuladas. Os chutes de Elias, do Timão, foram beijar a rede do combalido São Paulo, duas vezes. Notam-se rapidez, contra-ataques articulados, menos bolas recuadas. Tardelli, Roberto, Neymar, Washington, Wellington Paulista, Emerson são outros que seguem trilhas vitoriosas.

No passado, assistir a um jogo do Santos de Pelé, Coutinho e Pepe era quase uma garantia de que o placar não ficaria mudo. O Cruzeiro de Tostão e Dirceu Lopes tinha uma sutileza na armação de jogadas incrível. O Palmeiras de Ademir da Guia, o Flamengo de Zico, o São Paulo de Careca e o Botafogo de Garrincha formam uma pequena síntese de um futebol extasiante.

Não há como negar que todos desejam rever o ímpeto para o gol retomado de forma radical. A ausência dos craques maravilhosos de antes,  a grana feiticeira atrapalhando profissionais vacilantes e professores ensinando a não passar do meio-de-campo são fatos e ações que intimidam a leveza de inventar.

O futebol é uma diversão e não um lugar de tensões covardes. A emoção importa, mas o medo de perder quando se torna uma doença, destrói os espaços criativos da vida. A multidão gosta do momento precioso de ver a bola se dirigindo para o véu da noiva. Que ele se multiplique !

Barcelona abraça Ronaldinho: o afeto não se esconde

O futebol não é disputa seca, onde a competição domina, amplamente,  e se faz soberana. Na  sua trama, há espaço para  afetos e contemplações. As violências, as misérias, as guerras  estão no mundo, mas não resumem as possibilidades humanas. A capacidade de inventar corre e desafia. A vibração do encanto não está, sempre, adormecida.

Como os belos quadros de Miró no universo da arte, Ronaldinho trouxe para o mundo do futebol deslumbramentos e seduções. Havia saudades de passes diferentes que enganassem os adversários, de faltas que mudassem a trajetória da bola com magia e da vontade de fazer gol fugindo do lugar comum. Quando ele surgiu tudo lembrava  um craque excepcional. A alegria atravessava  os corações de quem apreciava o futebol.

 Ainda muito jovem, nasceu em 1980,  desenha suas firulas, no esporte bretão, com a leveza de um Carlitos. Desfilava, em campo, como um dançarino, senhor de segredos e articulador de surpresas. Cedo saiu do Grêmio , não sem controvérsias. Seu objetivo era fugir da mesmice, conseguir espaço para ter fama internacional.

Prometia práticas diferentes. Não fazia parte das suas jogadas  a preguiça dos medíocres. Rumou para o Paris de Saint-Germain, em 2001, consagrado pela imprensa como uma revelação. Durante a Copa Libertadores de 1998, havia mostrado uma categoria especial. Deixou saudades em Porto Alegre.

O Grêmio não teve forças para segurá-lo, mas Luxemburgo o convocou para seleção, atitude mantida, por Felipão, para o Mundial de 2002.Na Copa, Ronaldinho não despontou como se esperava. O Brasil foi campeão, mas o talento do gaúcho não brilhou com intensidade. Transferiu-se, para o Barcelona, em 2003. Lá fez sucesso, ganhou títulos.

Eleito o melhor jogador do planeta, valorizou-se. A grana acumulou-se em suas mãos. A torcida o idolatrava, porém ele não permaneceu na forma que antes encantava. Vacilou. Muitos boatos sobre a sua vida particular circularam. O ambiente no Barça ficou pesado. Em 2008,Ronaldinho terminou indo para o Milan, em busca de novos tempos.

Na seleção brasileira, também desandou. Sofreu com isso. Dunga desconfiou do seu empenho. Não acompanhou o time que foi a África do Sul . As especulações se ampliaram. O que estava sucedendo? De onde vinha o descontrole? Ele voltaria para o Brasil? 

Resistiu  e não abandonou o Milan. A onda de instabilidade  não foi, porém, quebrada. Aquele sorriso , tão presente nos seus lábios, desapareceu. Não se configurava aquela soltura anterior. Tudo isso, não impediu os movimentos da memória. Numa partida recente, entre Barcelona e Milan, recebeu uma homenagem  admirável. Barcelona não havia esquecido o talento. 

Foi uma bela festa. Não à toa que ela aconteceu, justamente, na Espanha de Joan Miró, notável pintor da vanguarda europeia. Nos seus quadros expressa formas  e cores singulares. Possui um lugar insquecível no modernismo do século passado. Sua vasta obra concentra uma ternura infantil indescritível.

Morreu em 1983, quando Ronaldinho começava sua travessia . Sua arte é incomum, como futebol de um craque que busca retomar antigos ares. Quem sabe se o abraço que recebeu, de uma multidão entusiasmada, não lhe revele o caminho que os euros escondem e mascaram? Quando o ser-mercadoria domina, o labirinto sufoca e desarruma.