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As rivalidades não cessam de aquecer o cotidiano

 

Na pressa costumeira, as notícias enchem jornais com novidades frequentes. Muitas invenções, filmes de bilheterias afortunadas, separações de astros consagrados, negociações sobre as instabilidades no câmbio. Não cessam as rivalidades. A competição tem um amplo lugar, quase inquestionável, em regiões e cidades.Vivemos sob a hegemonia do capitalismo. Seria estranho haver sossego contínuo.

Não sei como Deus assiste a tudo isso. Suas criaturas procurando se enfrentar, a cada momento, de olho nas oportunidades dos outros. A educação forma, renova conhecimentos, mas os signos da violência e da inveja se mantêm. Se Deus não gosta dessas disputas, deve ter aborrecimentos constantes. Não era assim que pensava a sua invenção maior. Mas até as religiões possuem suas dissidências.Há quem desconfie da própria existência de Deus. Há os que defendem o vazio, o absurdo, o niilismo.

Muita conversa que daria tratados imensos. Não custa lançar questões. As guerras se fizeram presentes de forma assídua no século XX. Os motivos são variados e as amarguras consolidam ressentimentos. As guerra mundiais foram cenários de horrores. Não há nem lembranças de fraternidade que consigam fazer esquecer tantas máquinas voltadas para eliminação. No campo simbólico, também se testemunham discórdias fatais. O que significam Oriente e Ocidente? Por que tantos colonialismos e arrogâncias ? As hierarquias perduram justificando escravidões disfarçadas.

Queria ressaltar como as rivalidades entram nos grupos. Falta muito para que o afeto tenha sua soberania. Talvez, seja uma utopia que alimente a vontade de não sufocar a esperança. Não simpatizo com a idéia de uma natureza humana. Seríamos egoístas para sempre? Não há como visualizar a mudança? As pedagogias estão fracassando? Infelizmente, a energia negativa não se esconde. Faz vítimas, às vezes, com rituais macabros.

Oa valores se transformam, porém permanecem comportamentos. Alguns que retomam tradições de comunhão, outros que ressuscitam violências. O mundo se balança. Suas tempestades são fortes e aprofundam mágoas. Mesmo lamentando não há como desistir. Nem todos, atiçam a competicão, nem se promovem com as divergências. Há quem procure quietude, quem conviva com as diferença, sem traumas.

Nesse final de semana passado, os esportes estiveram em evidência. Eles merecem atenção pela representação que produzem das relações sociais. Ensinam  e concertam. O Brasil perdeu, no vôlei, de maneira dramática. As  meninas barsileiras não aguentaram a paciência das russas. Uma lição de que o jogo não se resume à qualidade técnica. Na fórmula 1, a Ferrari sucumbiu, para alegria de muitos. Os éticos comemoraram a queda de Alonso.

A discussão sobre a ética retorna, quando se fala em disputas esportivas. As malandragens distorcem e visam o sucesso. Não interessa o caminho. A celebração da ética é um ato importante. Não devemos elogiar a falta de limites, as ansiedades acumulativas do capitalismo. Nesses debates, falta a contextualização, falta se interrogar sobre as tantas repetições de tramas tão medonhos. Prevalece um olhar na superfície.  Há  vencedores torcendo pelos lucros. Sobre eles se conversa pouco. A força da propaganda é avassaladora e cerca a ética com ferocidade, em muitos casos. A disputa pode também não significar o caos.

Há muitas repúblicas nos espaços do mundo

Ontem, o Brasil comemorou mais um ano de República. As datas históricas lembram trajetórias, sempre atreladas à capacidade de recordação coletiva dos feitos heróicos e retumbantes. Talvez, exageremos na ironia. Ninguém esconde a memória sem punição. As ações possuem significados. Houve muita frustração na época. Os mais radicais esperavam leis democráticas, partidos comprometidos com justiça social, vontade de redefinir os preconceitos vindos da escravidão, abolida em 1888. As história dos povos são acidentadas, não se escrevem com linhas retas.

A Alemanha, a Itália, a Argentina já sofreram dissabores e não estão longe de sofrerem outros. Não há povos  sem manchas nas suas vestes ou sem desmantelos nos seus projetos. As relações se desfazem, revelam-se outras, no diálogo constante entre permanências e mudanças. Existem grupos de poder que programam ilusões e deixam as expectativas se espalharem. O tempo cuida de costurar memórias, de consolidar valores, de refazer decepções. O Brasil republicano não cumpriu o que tanto se anunciava. Continuaram os desmandos oligárquicos, as desigualdades sociais, os descontroles administrativos.

O mundo do século XX, não foi pacífico, nem exemplar. Lá estavam fascistas, racistas, capitalistas vorazes, construtores de bombas atômicas. Mas qual é a época plena de harmonia, sem violências ou individualismos destruidores? Não é sem razão que se fala nos discursos do bem e do mal. A instabilidade percorre cada momento, mesmo quando ele não ocupa um espaço mais dilatado. As culturas são diferentes. Inventam valores e formas que se articulam e se rejeitam. Mas há algo que serve de espelho e assegura as semelhanças.

Os escândalos povoam as sociedades, mesmo as consideradas civilizadas. Nunca esquecer Freud é quase um mandamento, nem tampouco as reflexões do astucioso Maquiavel. Isso é não uma declaração de eternidades. Não vamos proclamar também o descrédito no humano. Achar que os enganos são comuns e persistentes é desistir da história. Há o desejo e a inquietude, o caminhar por cartografias inesperadas e alvissareiras.

Não olhar para as diversidades e as dissonâncias é acreditar no absoluto, no que não se move. Não é o caso. Os anos republicanos passam, as projeções se renovam e as lutas democráticas não esmorecem. Mesmo com o estreitamento da aldeia global, não sacramentemos as repetições. Ativar a dúvida e a crítica ajudam a não sacrificar a esperança.

Se na política o desandar nos atiça, em muitos cantos da vida se formam desencantos. Todo final de ano, as notícias ampliam a sonoridade dos escândalos. No futebol, parece um ritual. No Brasileirão da série A, as denúncias esquentam, com polêmicas ruidosas. Dizem que o campeonato está preparado para o Corinthians, para glória de seu centenário e a honra de seu ídolo Ronaldo. Azar do Cruzeiro e do Fluminense.

Com espertezas, sempre presentes no mercado da bola, com os inúmeros errosde arbitragens, fica dificil ver clareza no horizonte.Insinuar que tudo está combinado é trazer fofocas, sem provas e tumultuar de vez a sequência dos entusiasmos e lamentações. As inseguranças e a falta de ética cercam os grupos sociais, fragilizando até mesmo suas diversões. A República do Futebol não se distancia das outras que desfilam na história.

Os sonhos flutuam nos tapetes mágicos da vida

Quem parte sabe qual o destino perseguido? Qual o significado de viajar pelo mundo desconhecendo os caminhos de chegada? Quem cultiva o sonho convive com o medo e o desespero ou mergulha em fantasias coloridas e brilhantes? Nem sempre quem parte visualiza seu desembarque. Pode ficar à toa, sem escolher o lugar definido, esperando algum sinal de equilíbrio. Outros desenham suas retas.Rapidamente. Cumprem as profecias das primeiras cartomantes. Possuem a intuição que indica sortes e desejos fortalecidos.

O sonho não sobrevive sem sentimentos, sem toques de ilusão. Não são imaginações tardias, despidas de qualquer relação com o vivido. O sonho ajuda na elaboração do tempo de cada um, não permite que a mesmice tome conta das travessias. Sua conexão com o passado não significa medo, mas fabricações da memória. Sua conexão com o futuro não é desespero, porém costura das transcendências que envolvem as projeções pessoais.

O ponto de partida é algo que alerta, produz ruídos e avisa perigos. Os enganos existem e tumultuam as expectativas criadas. Portanto, o conselho é se desapegar da certeza e desconfiar do absoluto. Os tropeços atrapalham e , ao mesmo tempo, saculejam. Nas grandes competições esportivas, os vaivéns as torna complexas e imprevisíveis. O poder do sonho é estímulo, mas também armadilha para disfarçar lacunas.

Contemplem as campanhas do Náutico e do Sport. Liguem-se nas trajetórias do Timbu e do Leão, desde o início do Brasileirão. O impulso maior é subir, atingir o pico da montanha. Chegar, na série A, transforma torcedores em fundamentalistas radicais. Pouco se situam nas dificuldades. Morrem nos braços das promessas. Criam gritos e canções de dentro do sonho de quem desmanchou as dúvidas e já prever conquistas consagradoras.

O Náutico colocou fogo no pedaço. Figurou na ponta da tabela, assustou os favoritos e deu vaidade desmesurada ao técnico Gallo. O vermelho e branco atacava com destemor e , na primeira fase, deixou todos acreditando no sucesso final. Ninguém caiu na real de analisar o elenco, ver suas limitações. Foram muitas contratações, seguidas de dispensas. Faltou dinheiro e sobraram jogadores descompromissados. O Náutico entrou numa caverna escura, desceu do seu tapete mágico.

O Leão vacilou. Compremeteu-se, depois de sofrer derrotas. Sentiu o amargo de estar na beira do abismo. Futebol é jogo. As circunstância mudam e o Sport resolveu desobstruir sua passagem. Contratou Geninho, reforçou o time. Saiu do incômodo, porém sem muita convicção. Quando se pensava numa disparada, surgia uma derrota melancólica. O elenco desligava-se dos afazares mais urgentes, mandado para o lixo oportunidades de gol primárias.

As coisas se complicaram e a reviravolta se distancia. O Náutico luta para não se perder no precipício. Cada jogo é uma batalha. Os horizontes apontam tempestades desorientadoras. O salvador da pátria, Roberto Fernandes, não se entrega. Avalia o risco que corre e flutua. O Sport junta cacos e lamentações. O jogo traz medidas que tritura esperanças ou espanta azares. O último minuto, talvez, confirme a profecia do sonho, mesmo que o tapete se desfie.

O vôlei ganha espaço e o espetáculo se multiplica

 

       

O vôlei faz sucesso. Já consegue seduzir os antes fanáticos pelo futebol. Consegue ganhar títulos seguidos e animar torcidas bem-comportadas. Seus caminhos são outros, perspectivas e formação profissional  com outras ambições. Cabe, como poucos, nos esquemas de transmissão das televisões especializadas. As paixões esportivas respondem aos sentimentos da época. Elas mudam, junto com os hábitos sociais e os financiamentos dos negócios promissores.

Um jogo rápido, como saltos de trapézios no ar, lances inesperados, com rara beleza e agilidade nos reflexos. O vôlei está nas praias, praças, ginásios. Entusiama. Surgem agremiações inspiradas em marcas famosas. Forma-se também uma vitrine luxuosa. Os ídolos possuem fãs delirantes. Gritos, cartazes, tatuagens. Com tanta adesão às aventuras do vôlei, com a vitórias enchendo os corações de alegria, os mais jovens sentem-se ligados aos saques e às cortadas.

As meninas da seleção nacional enfrentaram um campeonato mundial. A preparação foi longa e o otimismo era dominante. Afinal, a memória da conquista olímpica está acesa. O Brasil afirmou sua força, não respeitando a sabedoria dos outros adversários. Muito empenho, inteligência nas táticas e vibração na conquista de pontos. As meninas se garantiram na semifinal. A disputa, com as japonesas, foi majestosa. Ganhamos por 3×2, porém as russas mantiveram a hegemonia. Nada desanimador, a vida continua. 

O vôlei não é chamado, como o futebol, de o esporte das multidões. Possui  outras arquiteturas de lugar e de organização. Mexe muito, porém, com as batidas do coração e acelera a adrelina de forma veloz. A bola circula em construções geométricas atraentes e a concentração dos jogadores exige preparação cuidadosa. O fôlego e fogo do ânimo é um passo para arrancar conquistas. O mundo das comunicações se dá bem com as imagens do vôlei. Sua dimensão estética é privilegiada .

Os esportes mostram a importância das competições, para a sociedade contemporânea. Eles tem sua pedadogogia. Retratam os acertos e os desacertos do cotidiano. Por isso, os investimentos, nessa área, se estendem e se internacionalizam. Há fábricas de materiais esportivos, jornais, técnicos de formação refinada que vivem da expansão dos campeonatos em todas as regiões do mundo. Um mercado de trabalho que se articula bem com os projetos do capital.

O segredo é configurar os espetáculos, para os meios de comunição. Os estádios podem não estar repletos, porém os sofás acolhem torcedores, com seus refrigerantes e guloseimas das mais diversas. A era da industrialização teve suas repercussões. Hoje, as relações são mais sutis, feitas com a ajuda de máquinas planejadoras.  No futuro, veremos, talvez, partidas nervosas envolvendo computadores de alta tecnologia. A interatividade trará sensações, deslocamentos no tempo, aprendizado de códigos de ação desafiantes.

Até onde a autonomia de cada um será  preservada, é uma pergunta ? Os espelhos refazem suas molduras constantemente, como também as previsões sobre o que acontecerá com os poderes e seus donos. Antes valiam as terras com sua plantações e o trabalho contado nas jornada mais intensas. Hoje, o papéis e a imaginação se localizam na soberania dos negócios. Nossa mente, parece um intrigante classificado de jornais, com os mais estranhos anúncios.

Os caminhos tensos do título e da consagração

A arrancada final ganha fôlego. As conversas crescem sobre quem merece a vitória. Parece que todo o passado se desmancha. Não se soma, porém a construção dos tempos tem ritmos . Por isso, as ruínas se mostram, rapidamente, mesmo depois das conquistas valorizadas. O caso do Flamengo é um exemplo. Hoje, o clube teme cair na desclassificação. Quem se lembra do título de 2009? Um time cheio de problemas, mas uma campanha surpreendente. Não é fácil destacar-se na série A, do Brasileirão. O rubro-negro, sob a direção de Luxa, vive, agora, enfrentamentos perigosos. 

A disputa atual está acirrada. Cruzeiro, Fluminense e Corinthians ambicionam a taça, numa contagem de pontos minuciosa e lenta. Os resultados deixam as torcidas apreensivas. Não há uma equipe que convença.  O Corinthians passou por derrotas e quase se afastava da ponta da tabela. Sua vitória sobre o São Paulo trouxe ânimo e muita gozação. Os tricolores do Morumbi não jogaram mal, no entanto a sorte os deixou e , nesse ano, as incertezas dominam  sua trajetória.

O jogo possui muitas cores e desenhos. É mesmo uma das representações mais fascinantes das andanças da vida. Não só o futebol. Imagine o xadrez, com as suas peças e as suas estratégias. Momentos de reflexão e abstração que combinam com o silêncio secreto das grandes meditações. O vôlei exige atenção constante e preparo físico exuberante. Quem se desconcentra, se desgarra da equipe. Até o dominó, tão festejado, inventa tramas. Diverte e congrega. Cada  jogo forma suas expressões vocabulares, cria códigos especiais para os que não conhecem suas magias.

O campo da cultura revela e esconde as astúcias do humano. Muita vontade de disfarçar as faltas e de levantar-se das quedas desconfortáveis. Uma guerra violenta, os descontroles da economia, as religões exaltando seus deuses, os políticos entretidos com o poder, as máfias das drogas acumulando lucros, tudo compõe a vida indefinível de cada grupo. Histórias e memórias, fracassos e descobertas, não dá para cercar tanta coisa com as palavras. O sentir, o agir, o pensar fazem a cultura atravessar o mundo.

O futebol entra na cultura e puxa multidões. Seu lugar é garantido. Se estende por regiões, move milhões e emociona. Não tem sossego. Há pessoas que absorvem momentos e expectativas, com se fossem a salvação de suas angústias ou o deleite maior de seus sonhos. Surgem as torcidas organizadas. Muitas polêmicas, desordens tumultuam ruas, causam medo, promovem lutas e assustam. Poucos mergulham no significado mais íntimo de todo esse envolvimento. O jogo dialoga com o sentimento religioso. Os estádios são  templos quentes e buliçosos, onde moram o pecado e o perdão.

Seguem os últimos encontros da série A. Fluminense depende da sua força. Basta vencer as todas as partidas e curtir a consagração. Cruzeiro e Corinthians estão mais ameaçados. Um pode derrubar o outro, numa partida já com todos os ingressos vendidos. A volta de Ronaldo foi excelente para o Timão. Ele tem conexões com o coração corintiano. Falta pouco. Quem sabe se Cuca não dispensa, de vez, seus azares e muda sua imagem de chorão? A bola se cristal está muda. Espera, como nós.

A barbárie refinada do mercado veloz da bola

O futebol brasileiro é barulhento. Seu destaque no noticiário é visível. Há dias que as suas manchentes dominam a primeira página dos jornais. Não se pode negar que se formata uma vitrine, para encaminhar e trocar valores. O mundo da especulação não se resume às histérias das bolsas de valores. Tudo está contaminado pela volúpia dos lucros. Ser empresário da própria vida se tornou um desafio cotidiano.

Depois da vitória da Copa de 1958, o Brasil ganhou espaços internacionais, sempre ampliados. Era uma geração de craques admirável. Dizia-se que Deus estaria comprometido com  o parto de tantos talentos, numa terra só. Não havia, ainda, os milhões soltos da atualidade. Formava-se um mercado, sem muita pressa. Muitos jogadores não se interessavam em mudar de clube. Basta observar a trajetória de Pelé. Poucos ousavam ir para o exterior. A grana não tinha um feitiço tão avassalador.

Mas o tempo não quer descanso. A globalização faz parte das aventuras do capitalismo. Mundo ficou pequeno, com as tecnologias que planejam lucros imediatos. O valor de troca garante sua soberania. Tudo pode ser um negócio. O futebol caminhou para o centro do vulcão. O famoso mercado da bola estrutorou-se, com seus especialistas e escritórios multinacionais. O dinheiro está em todo lugar. De onde vem, é outra história. A clareza não casa bem com as ambições e as armadilhas empresariais.

Logo cedo, os jogadores se deslumbram, com as possibilidades de fazer fortuna. Messi foi para o Barcelona e levou a família. É o craque mais badalado do momento. No Brasil, a ida para a Europa enlouquece e tumultua sonhos de riqueza. Há um esvaziamento dos campeonatos nacionais. O Brasileirão carece de boas partidas. Tudo indica que o argentino Conca será o craque do ano em curso. Quem poderia imaginar tal façanha na terra do futebol ? Faz parte da sagacidade do capital. Os costumes são atravessados pela ansiedade de juntar moedas.

O paraíso tem seus demônios. A pressa, em acumular, nem sempre é bem- sucedida. Muitos vão cedo, desconhecidos, vagar pelo planeta. As chances variam. Portugal, Espanha, Turquia, países árabes, França, Inglaterra. Não faltam comércio e oportunidades. Os que alcançam o pico maior não são muitos. Analisem as trilhas de Romário, Ronaldo, Ronaldinho, Raí, Robinho, Kaká e vejam as sinuosidades, tratando-se aqui de alguns mais conhecidos. Reflexões interessantes, para quem curte as sutilezas.

Os milhões rodam, mas são poucos os que fazem fortunas. Muita gente se engana e não vê o outro lado do barbárie refinada, com suas misérias e desesperos precoces. Nesse ano, o caso da instabilidade de Ciro merece atenção. Ele recebia a denominação de o Imperador e pensava na sua transferência para um clube que lhe desse mais fama. O que tinha, no Sport, era pouco. Hoje, Ciro desvaloriza-se e incomoda seus fãs. É um exemplo próximo. O importante seria se preocupar com a formação das pessoas. Especular sobre os talentos, como objetos descartáveis, descontrola  a criatividade. Coisificar é um ato de violência.

Quem dança o último tango no suspiro da decisão?

No final do ano, as decisões aparecem frequentemente. O calendário tem  valor simbólico,  pois a vida se compõe de ritmos descontinuados. As datas servem como referências, mas o emocional balança com seus próprios signos. Os dois últimos meses do ano anunciam as festas e as compras. A agitação faz parte da tradição e as vitrines se enchem de preços ditos promocionais. Além disso, quem gosta de futebol aguça seus sentidos. O Brasileirão  vive sua corrida mais instável e esperada.

Na trajetórias dos últimos atos, lembrei-me do filme de Bertolucci, O último tango em Paris, de grande impacto nos anos 1970. As interpretações de Marlon Brando e Maria Schneider ganharam o mundo. Cenas desafiantes para os bem-comportados. A Igreja Católica revoltou-se com o desrespeito ao sagrado. O diretor aprofundou um olhar que chocou os conservadores.Criaram-se polêmicas intelectuais variadas. Depois, das rebeldias de 1968, lá via uma perspectiva  sombria sobre as relações humanas e seus afetos. Os atores representavam a melancolia do seu tempo? Ou a sociedade passava por uma transformação destruidora?

Na época, não comprendi muita coisa. Sai com questões e tristezas. Não me esquecia da trilha sonora de  Gato Barbieri, com um som nostálgico e sedutor. Existia a sensação de que algo havia se perdido e o paraíso é uma lenda ultrapassada. A música casava-se com as dores e as lamentações do filme. Ainda hoje, a ouça com sentimento inusitado. Compreendo, também,o cerne  da trama que Bertolucci construiu. Os desacertos estão dentro das relações culturais, mas elas não impedem que as reinvenções tragam outras alternativas.

O labirinto não se extinguiu. Ele  sintetiza o drama humano, nos seus desenhos modernos ou pós-modernos. Não há fechamento definitivo, mesmo quando as inquietudes se multiplicam e as incertezas se estendem pelos caminhos mais conchecidos. A perplexidade vai se restruturando. O diretor italiano foi profético em muitas passagens. A marca da solidão não abandonou o cotidiano e as paixões fugazes advinham que o estranhamento é perigoso para quem coisifica as pessoas.

Já assistiu ao filme muitas vezes. Tema de debates e análises. Traz proximidades com os despertencimentos contemporâneos. Ficamos flutuando na velocidade que tumultua o querer-bem. Por onde traçar a trilha saudável dos afetos? Para onde vão as ambições de consumo e suas artimanhas para influenciar nos nossos desejos?  Há exclusividade no amor?  O tango, composto por Barbieri, ressoa com força no coração.

Os produtos da cultura nos alertam para os costumes. Freud insistia na compulsão à repetição, na dificuldade que temos de sair de certas rotinas do sofrimento. Vitórias e derrotas penetram na convivência e exigem mudanças. Quando as decisões se aproximam, o sangue esquenta sua vontade de decifrar todas as cartas do futuro. No futebol, não é diferente.

Quem garante engessar as peripécias dos jogos? Quem pode acalmar envolvimentos decisivos? Como estão, agora, o Timbu, o Leão, os corintianos ou os tricolores do Fluminense? Quem dançará o último  tango ouvindo os acordes contemplando cada instante ? Bertolucci tinha razão. O desencontro é  ritmo que contagia. Nada é para sempre e o final é uma abertura para o infinito.

O circo não é de lona, a bola perde-se na arena

Nada de discursos de apologia ao passado. Acredito em mudanças, não fico chorando de saudades, porque existem paisagens de concreto soberanas nas formas urbanas. Tenho certas antipatias pela exaltação desmedida do progresso, sobretudo aquele coberto de acumulações e utilitários. Sei que o equilíbrio é uma utopia. A balança sempre se descontrola. Não custa, no entanto, imaginar um mundo equilibrado, um certo  encanto das harmonias, misturadas com as dissonâncias.

Há lugar para todos. O romantismo de Chopin pode conviver com as ousadias de Stravinsky. O samba de Noel tem céu aberto para escutar as ironias de Raul Seixas. Os poemas de Neruda tem moradia nos versos de Drummond.Os dribles de Garrincha podem navegar nos oceanos de Ronaldinho. A simultaneidade não é um mal. Ela registra a complexidade da vida. Tira do eixo os que se deitam na lineridade  melancólica da Avenida Central. A cerveja não se estranha com o sabor de licor. Cada um divaga na sua busca, sabendo que o absoluto é uma miragem.

Divirto-me vendo jogos na TV. Quase todo o dia, para espreguiçar as tensões e amolecer as lembranças. Contrario-me com as jogadas pouco elaboradas. Comento a crise de talentos. Todos seguem muitos jovens para o exterior. Se os craques invadissem os gramados com suas firulas, os estádios estariam cheios. Mas o caminho é  inverso. Querem construir arenas portentosas, mesmo que o futebol padeça de desenhos mágicos. O que marca é a arquitetura, movida a milhões de moedas internacionais.

O conforto dita as leis. Os circos perderam suas lonas. As habilidades dos seus astros são vistas em luxuosas casas de espetáculo. O preço, lá em cima, hierarquiza o acesso. O mesmo destino tiveram os cinemas de subúrbios. O que vale é a segurança e a poltrona, com a moldura do corpo. Se a inércia for grande, instale uma tela, com um sistema de som e imagens atualizado, e deixe o DVD se espalhar pela sala escura. Seja dono do seu cenário.

Tudo parece maravilhoso. O recolhimento evita sobressaltos. Na dispensa, armazene batatinhas e chocolates. Não esqueça do telefone sem fio. Você consagra a tecnologia de ponta, embora o tédio de ficar, sempre, em casa passa  por uma cabeça sem idéias. Chame Baudelaire, o poeta da modernidade. Difícil, ele já se foi, porém desconfiava da sinfonia do progresso. Então, um livro dele, junto da cadeira, e, vez por outra, acorde a mente lendo versos proféticos.

A mobilidade  das prestações ajudam a modernizar seu ambiente doméstico, acalmar seus brios de torcedor enlouquecido. Sua solidão pode ser amenizada. Junte os amigos e compre um pacote do Brasileirão. Maravilhosa alternativa, para mostrar o prazer que seus rendimentos proporcionam. Vibre com seu futuro, com o cheiro do eletrônico. O plástico resolve tudo, desde que tenha as siglas dos créditos mais badalados. Aproveite e não enferruje  muito a cabeça. Por que não fazer uma semana, com os shows dos Beatles e com filmes de Fellini? Quebra a rotina. Se preferir, grave os melhores momentos de Sport e Ipatinga. Teus amigos rubro-negros vão adorar.

A fama está em cada esquina da vida moderna

     

A sociedade elege seus ídolos. Precisa de realizar seus sonhos.Os modelos servem para alimentar fantasias. Mesmo as ditas relações tradicionais exigem transcendências, para além das questões religiosas e divinas. Os mitos estão presentes, em todos os períodos. Não encerram suas aventuras, apenas mudaram suas vestimentas. Hércules representa força e astúcias. Édipo luta contra o destino. Júpiter mostra seu comando, com suas vinganças. 

No mundo contemporâneo, o espetáculo assume lugar de destaque. Os heróis não desistiram de glorificar seus atos. Eles estão nas guerras, nas rebeldias, nas greves, nos confrontos das crenças. Mas a fama não fica restrita ao grandioso. A coragem torna, momentos do cotidiano, cenários especiais. Alguém salvou uma criança de afogamento ou evitou que um assalto se consumasse. Outros distribuíram parte, de seus prêmios lotéricos , em comunidades carentes.

Tudo se agiganta. Cabe a mídia decifrar os códigos do sucesso. Não se deve esquecer a velocidade que acompanha as construções do imaginário do nosso tempo. As aparências, suspeitas de constantes consagrações, provocam ressignificações. A novidade chama outros desenhos, ambiciona rapidez nas trocas e lucro nos negócios. O espetáculo pode ser gratuito, mas há as exuberâncias que os meios de comunicação configuram. Na esquina da sua rua , acontecem relações inesperadas ou atos surpreendentes. Não os compare com as performances de Los Hermanos ou os filmes norte-americanos.

Tudo tem seu preço e seus interesses. Afinal, o capitalismo continua assanhado, acordando formas e arquitetando produtos. São jogos, bem elaborados, com a juda das teorias científicas e das técnicas sofisticadas. Não é exagero lembrar a carreira meteórica do menino Neymar. Quantas notícias foram fabricadas ou quantos julgamentos se consolidaram sobre as trilhas seguidas pelo craque santista? Mascarou-se de anjo ou de demônio, suas brincadeiras ganharam censuras, porém sua fama concretizou-se. Até quando, não sabemos?

No mundo do descartável, espera-se cada dia com certa ansiedade. Eis que Neymar encontra-se com ex-professor Dorival Júnior. Oportunidade ímpar para as câmeras, instante sublime do perdão fotografado e distribuído, sem censuras. O jogador redime-se das suas travessuras e Dorival mostra a largueza do coração. A imprensa festeja, com páginas de jornais cheias de detalhes sobre os suspiros de cada um. A fama transformou o abraço, num drama épico, solene e, ao mesmo tempo, alegre.

É o cerco que estamos submetidos, pelo poder do indidualismo e das tecnologias globalizantes. Não adianta se aquietar. As notícias atravessam desertos e oceanos. As subjetividades vivem em trapézios, mesmo que não frequentam circos. A autonomia se fragilizou diante da multiplicação dos desejos. Corre-se e não se conhece  a chegada. O pior: parte-se de imediato, sem roteiro definido.

Neymar fez dois gols, dificultando, mais ainda, a trajetória do Atlético, clube do mestre Dorival. O espetáculo não podia parar. Quando o apito do árbitro determina, a bola rola e o talento se move. O perdão está firmado, cada um busca navegar no seu barco. O ano se finda e o Brasileirão não desculpa quem não vence suas disputas. A hora da consagração se avizinha. Haverá outras circunstâncias, para que os protagonistas do afeto renovem suas boas ações.

Na corrida das decisões, as notícias lembram o caos

Numa população espalhada, por um vasto mundo, tudo pode acontecer. O espaço da surpresa diminui, pois a diversidade de comportamentos é uma constante. O que chocava, antes, se torna banal e amedronta. A violência é uma ameaça sufocante. Não tem hora para descanso. Há assaltos, pedofilias, atropelamentos, fomes, troca de tiros, assassinatos estranhos. Fica difícil selecionar um fato e eleger um escândalo supremo. A imprensa pesquisa, sem muito sucesso, manchetes fantásticas e assustadoras.

No futebol, as decisões tomam contam do Brasileirão. A coisa está embolada, de uma forma especial. Quem vai ganhar? Na série A, Cruzeiro, Fluminense e Corinthians disputam pontos mínimos. Não houve uma disparada. Os jogos não oferecem espetáculo de entusiasmo. Os talentos não aparecem e as saudades do passado firmam raízes. Afirmam que é ocraque do certame é o argentino Conca. E os brasileiros preferem migrar? Não há revelações? Todas as artes residem na Europa?

A desclassificação é outro desafio. Goiás e Atlético Mineiro se balançam. Perderam suas tradições? Nada definido, o desastre pode ser grande. O drama não menor na série B. O Ipatinga perdeu novamente, depois de uma trajetória mais leve. O Náutico vive no meio de fofocas diárias. Dispensou jogadores, atualizou os salários e aposta numa reviravolta. Já o América de Natal anda lá atrás, com esperanças, porém orando sempre para se salvar do abismo. Encarar uma série C não é tarefa confortável.

Outras conversas animam o mundo esportivo. A meninas do vôlei conseguem aumentar suas chances. Querem mais um feito internacional? Nem tudo são perfumes sedutores. Luxemburgo sofre com mais um torpedo demolidor. Não é uma novidade. Dessa vez, a força da notícia teve mais impacto. Escancarou-se sua vocação para o jogo de baralho. É um vício, atormentador. Sua carreira de sucessos se desmancha. Apela para que a passagem pelo Flamengo não desfaça seu passado, de vez. Muita grana envolve as damas e os reis do carteado.

É interessante a famosa escada da fama. Ninguém aprende a lição que traz o fracasso? Somos educados para vencer, não importanto os riscos morais e as dependências físicas?  O caso Bruno não se esgota. Quem o via idolatrado pelos rubro-negros da Gávea, fica perplexo. Nunca o inferno esteve tão vizinho ao paraíso. A decifração dos mistérios não avança. Existem muitas acusações mal explicadas. Bruno mostra descontrole e agressividade. Os advogados criam versões e a polícia não fecha suas especulações.

Gira o mundo, com dizem alguns. Obama não vive bons momentos políticos,  Serra foi reclamar de Lula no exterior, Abílio Diniz  elogia o planejamento do governo, Roberto Carlos será tema de uma escola de samba carioca. Preguiça de encarar as contradições. As palavras penetram nas cavernas das loucuras universais. Compreender, mesmo que não seja para sempre, nos aproxima dos outros. Sucumbir aos extremos da desconfiança é  profetizar a elegia do caos. Sem o triscar as respostas, viramos esfinges de pedras, suspensos e alheios. Como no quadro provocador de Shimakuro.