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O novo aparece ou tudo se disfarça na celebração?

                          

Tropa de Elite 2 conseguiu um feito marcante. Desbancou muitos filmes famosos e  se tornou campeão de bilheteria no Brasil. Atrai multidões e nem mesmo o pós-moderno Avatar segurou a vantagem que tinha. Méritos para quem trabalhou na realização do filme. Mostra a curiosidade da população, o que ela procura, o que a move, quando resolve se ligar nas especulações sobre a violência e a corupção. A sociedade  passou por mudanças, mas não se desfez de certas  aberrações para quem pretende se firmar na democracia. Por isso, diante das melhorias, sobram expectativas que as ficções alimentam em cada um.

A ficção não sugere mentiras ou concepções, meramente, fantasiosas. Há um diálogo constante do real com a imaginação. Suas fronteiras são tênues. Os lugares da cultura vivem dos seus significados. O artista não está isolada, numa solidão sem retorno. É um observador, se toca com o mundo que o cerca. Não perde, porém, sua capacidade de invenção. Olha a fragmentação dos desejos sociais e tenta colocá-la nas suas obras. Não foge de uma pedagogia que muitos não percebem.

Ninguém se sustenta  valores, numa negligência perene. Criamos concepções de mundo para opinar e escolher os caminhos. Daí os conflitos ou as articulações coletivas na procura de solidariedade. O movimento faz parte da cultura. Não há um ritmo único, nem um planejamento que silencie as oposições. Num planeta com bilhões de moradores, fica difícil fixar um modo de vida que satisfaça todos. Com as conquistas tecnológicas, a discussão sobre o bem e mal ganham espaços complexos. As relações de poder se dão numa extensão internacional.

A violência e a corrupção não incomodam apenas pequenos grupos. Ela se espalha. Toma conta das elites, angustia intelectuais, desmancha crenças religiosas, fomenta o mercado das drogas. O processo civilizatório não venceu as instabilidades, nem visualizou uma ética que sossegasse o mundo. Não é desconfortável duvidar se existe mesmo esse processo civilizatório? Há sentido para as descobertas ou para os anseios humanos? Tudo é um jogo arquitetada por um grande mágico?

Das tragédias de Sófocles, das profecias judaicas, dos relativismos dos sofistas, das ironias de Voltaire, muito se manteve ou se misturou com tantos outros pensamento e emoções. Contabilizar os feitos culturais é impossível. Consagramos a arte de Pelé, as ousadias estéticas de Dali, as escritas de Borges, os sertões de Rosa, porém é perigoso afirmar hierarquias ou querer testemunhar o homogêneo. Ele tem o perfume barato da mediocridade.O ser humano se acede com muitas luzes. Não dispensa os medos das trevas.

Falamos em evidências, clarezas, eternidades e concretizamos alguns sonhos. Mas pouco conhecemos de que matéria somos feitos, quem está com a razão ou quem definirá o futuro. Apontamos juízos finais ou mergulhamos nos oceanos dos absurdos. Os dias passam com gosto de permanência. De repente, algo descontrola o cotidiano. Por quê? A nossa subjetividade balança, confessa suas fragilidades e respira para aumentar seus espaços. O circo se arma e fotografamos momentos. Fica o suspense. Até quando o espelho conversará com as rugas das nossas faces?

Quem segura as estrelas e renova as esperanças?

Escolher o grande acontecimento de 2010 traz agitações na imprensa. As opiniões são divergentes. Os critérios mudam , de acordo com as concepções de mundo. Brilham as estrelas, as imagens da televisão e as bajulações frequentes. Não há interesse em homenagear aos que furam os esquemas da mesmice. Isso é geral. O sucesso cega e causa inveja. O garoto Neymar esnoba, com seus precoces milhões. Ganha prêmios e desfila pelas boates cercado de companheiros. Não sabe o que lhe espera, nem mede os perigos da glória instantânea.

É um exemplo. Seu futebol encanta, mas ele se perde e pouco liga para os conselhos. Até onde vai segurar tantas preciosidades, é mistério? Lula, presidente falante, entusiasma-se com seus feitos. Surpreendeu. Conseguiu uma popularidade merecida. O Brasil não está equilibrado em tudo, porém rompeu com certa amarras e promete novas conquistas. As transformações sociais deram poder aquisitivo a muitos excluídos.  Há superficialidades em certas alegrias, por isso o cuidado não deve se ausentar.

Quem sempre foi lembrado nas páginas de jornais, com amarguras e decepções? Bruno tem lugar privilegiado. O ex-goleiro do Flamengo, antes idolatrado, hoje adormece nos labirintos das prisões. Não só ele recebeu acusações e aguarda o fim de toda novela. A Igreja Católica também sofreu e viu seu véu de pureza ser manchado, por muitos dos seus sacerdotes. A pedofilia atormetou a vidas dos  padres e bagunçou com os moralismos oportunistas. Ninguém imaginaria tal transtorno décadas atrás.

Mas as rebeldias tiveram outros enfoques. Julian Assange soltou suas bombas cibernéticas. Novidades para queimar segredos escondidos pela diplomacia. Está vivendo pressões e solidariedades. Não é saudável que a hipocrisia prove venenos e mostre por onde andam os poderosos? Muita gente foi às ruas na Europa, para protestar. Um ânimo para desmontar a apatia e assegurar leis sociais importantes. O cinismo da maior parte dos políticos é avassalador. Votam seus próprios salários e não se comprometem com os desacertos.

O julgamento de cada ação daria tribunais majestosos. Julgar possui suas armadilhas. O melhor era que houvesse mais reflexão e diálogo. Uma sociedade de opiniões homogêneas esfarrapa a criatividade. No entanto, não se visualiza esforços para se discutir projetos. A vaidade veste os atos, na busca de ocupar o topo das hierarquias. As diferenças são muitas, porém o feitiço de acumular objetos invade cabeças e corações. A sutileza é, as vezes, um forma de negar o valor da coragem e da inquietação.

As palavras não se esvaziaram, mesmo que os discursos se estendam por todos os caminhos. O final de ano tem símbolos e joga com ânimos desiguais. A continuidade é um fato. A revolução nunca radicalizou como se esperava. Anunciou tempestades, amenizadas pela permanência das relações de poder. As formas definem a coisificação dos desejos.

As pesssoas correm, dispensam as contemplações e se sufocam com os abraços. As escadas possuem arquiteturas que levam aos mesmos andares. Nem percebemos. Medimos tudo pelo tamanho das luzes. Lá dentro, tateamos. Quem apostou milhões acredita que a felicidade é uma dádiva e não uma história ainda inacabada.

O tempo do calendário e a vida desafiando a inércia

Tudo muito próximo do dia 31 de janeiro. Encerra-se o ano, segundo a ditadura do calendário oficial. Festeja-se, assim, para dar mais uniformidade a cultura e unificar as datas da burocracia. Dentro de cada um, o ritmo é outro. As finalizações se dão de outra maneira. As emoções não descansam e olham o calendário com certa desconfiança. Periodizar a vida é importante, como medida de controle, mas com o objetivo de enganar as surpresas. As reviravoltas desmancham suposições e tendências. O movimento da vida é incessante e atiça o bom sono dos preguiçosos.

Antes persistiam os séculos. Cem anos de história cabiam com dificuldade na memória coletiva. Sempre com a preocupação de selecionar. O valor maior era o acontecimento, o extraordinário. Construíam-se divisões que marcavam feitos e aventuras. Houve as revoluções, as quedas de governo, o imperialismo das potências européias. Contava-se nos dedos aquilo que estava fora do comum e se dizia que vinha, lentamente, atravessando as barreiras do tempo. Cada povo desenha seus números e nomeia e seus encantos.

Tudo, hoje, se desacomoda no voo da velocidade. A quantidade predomina, nem sobra espaço para saber direito o que está se passando. As medidas são outras. Não dá para visualizar sinais de inércia. Quem ousaria afirmar que a história tem um sentido ? São tantas invenções, tantas práticas sociais se sucedendo ou mesmo dialogando que periodizar tornou-se uma façanha. A gente vai tocando a vida, sem susto com os noticiários. As relações se transformam, mesmo que garantam disfarces e preservem mesmices.

É que a subjetividades redimensiona seus desejos e segue os caminhos que suas energias consomem. O modo de produção capitalista não tem anseios de eternidade bem-comportada. Ele se costura, entre linhas sinuosas e geometrias pós-modernas. O descartável dura poucos dias. O lixo é imenso, inquieta e causa problemas para os técnicos da administração pública. E os desequilíbrios lá de dentro, as manobras do inconsciente? Os psicanalistas, perplexos, tentam entender as epidemias de síndromes pânico. Talvez, falte adaptação do humano ao mundo das coisas fabricadas.

A ambição invade espaços internacionais. É uma arma dos meios de comunicação. Se possível transmitir algo que interesse a China, ao Japão, ao Chile, ao Equador … Imagens de todas as cores e formas. No futebol brasileiro, os campeonatos regionais sentem-se combalidos. Surgem as disputas patrocinadas, muito longe daquelas partidas domésticas ou mesmo das peladas da várzea. As confusões são sofisticadas e aprontadas por instituições que não andam de bicicleta.

O tempo não larga as trilhas que acompanham os projetos de cada um. Ele não tem um rosto único.Brinca com as identidades e perturba os que se fixam na tradição. Argumentar, segundo as premissas diárias do calendário, é perder a imaginação. A ousadia não merece abandono, nem vamos encurta as passadas das transgressões. Quem mantém a sensibilidade aguçada não simpatiza muitos com as fatalidades. Nada de comparar a vida com um jogo de xadrez. O conhecimento de ontem  se entrelaça com o sentimento que flui no agora. Enquadrar tudo num destino é tecer mediocridades anônimas.

O estranho silêncio no mundo do futebol

No final de ano, os clubes se agitam.Época de arrumar os times e encontrar os reforços tão prometidos. Há certas urgências, sobretudo, depois de fracassos e perdas não esquecidas. Então, surgem listas intermináveis. Os empresários azeitam suas ações e a grana começa a falar alto. No ano passado, o São Paulo contratou um batalhão. Nada feito. O êxito não apareceu. Hoje, o São Paulo está na espreita. Quer renovar, mas com os jogadores da base. Entranhamente, a desconfiança é quase geral.

O Atlético de Minas Gerais parece seguir outro caminho. Mexe-se. Foge das frustrações do tempo de Luxemburgo. Nada de ameaças de série B, porém desejo forte de ser campeão da série A. Recuperar as glórias, sob o comando de Dorival. O Santos não silenciou de vez. Trouxe de volta Elano, diferente do Palmeiras que enfrenta um descontrole em todas as áreas. Dívidas imensas  e craques insatisfeitos. Até o Corinthians está confuso. Não conseguiu fechar o ano com títulos e busca soluções para reanimar a torcida.

A novidade é Ronaldo investindo no mercado da bola, com escritório estabalecido e contactos internacionais poderosos. Mais dinheiro para seus cofres. Todos de olho na Copa de 2014. Ela se aproxima, mesmo que as medidas concretas de estrutura não apareçam. Muitos temem o desandar da carruagem do Mundial. Falta tansparência e projetos. Trata-se de um percurso acidentado, de uma espetáculo globalizado, de resultados discutíveis. O que se ganha e o que se transforma em gastos vazios, num Brasil tão cheio de mazelas?

Por aqui, não muda o ritmo. O Santa Cruz aposta em contratações, livrando-se dos grandes nomes, para evitar despesas. Sempre resta uma combinação de jogadores que não convence. A estratégia é quase a mesma dos outros anos. O tricolor não sai do buraco que entrou. Não cuida das suas bases e as fofocas dominam sua gerência política. Procurar fôlego, fazer campanha para cativar adesões, pular a cerca da dívidas, movimentam a cobra coral. mas as luzes demoram a brilhar e os torcedores se movem numa apatia profunda.

O Sport se envolve com o projeto do hexa. Manteve boa parte do elenco e parece disposto a seguir com sua hegenomia. Não se largou no mercado. Pede paciência. Deixar escapar o hexa é pecado capital. O Náutico vive se vangloriando de que é exclusivo, mesmo com dificuldades visíveis. Insiste, porém, em relembrar suas glórias do passado e gostaria de queimar o filme do Leão. Sua política de contratação é tímida, pois seus limites financeiros impedem maiores voos.

É claro que os segredos de alguns marcam esse vaivém. Quem sabe se o mês de janeiro não chegue com novidades ? Se Ronaldinho se firmar com  o Grêmio? Se Kléber manifestar seu desejo de voltar para o Cruzeiro? O São Paulo não estaria com contratações já definidas ? Os exemplos do passado servem de lição. Futebol virou um negócio melindroso. Não é a simples transação de valores comuns. Revela interesses multinacionais. A Nike e a Adidas não dormem. Os lucros, agora, são repartidos em escala mundial.

A vida tem jogos, ensaios e cenários múltiplos

Didi fez uma afirmação que ficou famoso. Citada pelos boleiros com exaustão. Diz o craque da seleção de 1958: Treino é treino, jogo é jogo. Muita sabedoria. Lembra as teorias dos simulacros tão badaladas nas pós-modernidade. Didi jogava com elegância e a bola parecia escrava das suas ordens. Seu passes eram geniais e seu chute, nas cobranças de falta, quase mortais. Sua liderança, no campo, era determinante. Foi um dos condutores do título que consagrou Pelé e Garrincha. Pura arte que encantou europeus que não cansavam de aplaudir os brasileiros.

É interessante estender o dito acima pela vida. Quantas coisas fazemos com displicência, só para o tempo passar. Concentramos energias, para as grandes aventuras, focados nas vitórias decisivas. O mundo está cheio de verdade ornamentais. Aquelas que enganam, mas são coloridas. Acabamos de observar nos festejos recentes muitos ensaios bem tramados, lembrando nascimentos sublimes e religiosidades universais.

No cerne das relações, encontram-se  as façanhas mais ardilosas da sociedade de consumo. Troca-se afeto por presentes, com sorrisos de batons brilhantes. É o momento em que a cultura mostra seu poder de criação. Não é necessários julgamentos éticos. O que vale é a forma e sua soberania. Nada de mergulhar nos subterrâneos. O negócio se conta e se mede na extensão dos juros, nas promessas de abatimentos nos preços à vista, na esperteza dos vendedores incansáveis.

Muitas acham que a sociedade redesenhada edificaria outros rumos. Outros aconselham poupar as esperanças. Tratam de buscar outros exemplos que acenam com práticas narcisistas. Não há culpados. Os seres humanos gostam da especulação, se deslumbram com a possibilidade de acumular e são animais sociais por desejo de sobrevivência. Consagram Maquiavel e consideram Marx um ingênuo. O cenário da disputa embriaga e fortalece, segundo os considerados realistas.

Tema de difícil solução. Muitas perguntas, dúvidas insistentes. Didi se lançava, com toda força, nas emoções do clássicos. Desprezava os treinos matinais e desfilou pelos cenários do futebol com muito respeito. Quem está com a verdade ou quem brinca de formular metafísicas para explicar tão complexas questões? Tudo está dominado pelos impulsos do lúdico? O jogo das palavras já arma labirintos.

O futuro está tão próximo que prever é quase uma inutilidade.Lá se vão cenas e roteiros que agitaram as festas mais esperadas do ano. O espelho para as próximas celebrações está fabricado. O corpo descansa, mas as fantasias não. Costura-se a alegria, com cuidado, antes que ela se desmanche diante de tantas expectativas. Há ritos de passagens que retornam, para alimentar o setor de serviços e lazer. A revolução industrial possuía outro ritmo e pertencia a disciplinas mais visíveis.

O controle assume sutilezas estéticas, alarga o virtual e se sintetiza na engenharia dos minúsculos celulares. A beleza é produto, com código de barras e poder de coisificação. Não se mostra nas galerias de arte, porém gurda-se nas lojas de departmento. Nos domingos, grupos divertem-se olhando as mercadorias e avaliando suas dívidas. Melhor que o sol ardente, é a atmosfera dos supermercados. Talvez, Picasso a escolhesse para cenário do modernismo. Brincadeira.

Os contrastes não saem do mundo e incomodam

O mundo não tem uma arquitetura perfeita. Não adianta insistir que as lacunas permanecem. Somos incompletos. Seria um grande mistério  termos o dom da onipotência. As desigualdades incomodam e a falta de solidariedade mais ainda. Temos nossos sonhos e eles são críticos, em muitos pontos. Sem a insatisfação, cairíamos numa melancolia, sem igual. Portanto, apesar de tudo, a denúncia tem seu peso e as reclamações podem alterar sentimentos ou fustigar acomodações.

Uma crise vem se arrastando. Trouxe suspenses que não foram abandonadas. O Brasil não sentiu seus efeitos mais danosos. Estávamos vivendo euforias. As compras natalina mostram um entusiamo com o consumo perigosa. Faltou até papel para fazer embalagens. Todas as expectativas foram superadas. O comércio canta canções de sucesso e promete liquidações arrasadoras, para terminar com o pequeno estoque que restou. Nem por isso, vamos ficar cegos e achar que entramos no paraíso das vitrines iluminadas. A história não possui uma trilha linear e o capitalismo sofre agonias e desmantelos repetinos.

Na Europa, nem tudo caminha como se esperava. A crise persiste, junto aos dissabores das nevascas e  aos voos atrasados. Uma descombinação geral, com atropelos por todos os lados. Os antigos colonizadores não conseguem fugir de suas refeições amargas. Uma pequena viagem, no metrô de Paris, já apresenta sinais de desequilíbrio, para um bom observador. Ainda há um charme, uma tradição, um ar conquistador. Mas o governo se aborrece com os imigrantes e faz ameaças constantes. Eles querem emprego, não se esquecem de que já foram explorados. Por que são recebidos com desconfiança?

Quem se lembra das palavras de ordem de 1789 percebe como o tempo inverte propostas e redefine políticas. As relações são tensas e criam-se justificativas para a desordem econômica, totalmente, baseadas em preconceitos. Os pobres ficam com a fatia podre. Planeja-se cortar benefícios sociais, diminuir salários e se ressaltam princípios do neoliberlismo. Cabe espaço para releituras nazistas, de assepsias urgentes. A Europa para os europeus brancos, os outros que se toquem e ganhem outros territórios.

É interessante como os entrelaçamentos se formam. Até nos esportes, mesmo com os fascínios da fortuna fácil, muita gente que jogava na Europa, está de volta para o Brasil. Alguns fracassaram nas suas aventuras, porém outros assumem lugares de estrelas e atiçam o fervor das torcidas. No vôlei, parece uma festa de reecontro com o verde-amarelo. A grana se assanha para onde o movimento se desloca. O Brasil será a sede da Copa Mundial e das Olimpíadas. 

A cartografia atual não é  permanente. O capitalismo é mutante, desde que garanta a acumulação e a flexibilidade dos desejos de troca, com lucros exorbitantes. Esquecer que ele cresceu, em cima da exploração, é um descompromisso com a história. A escravidão moderna e a entradas nas terras americans, africanas e asiáticas deu impulso a ambições e alimentou discursos civilizatórios. A modernidade respirou com força e se espalhou pelo mundo. A vida segue, assusta-se, encanta-se, mas os abismos estão próximos de quem convive com miséria. Os que a deconhecem não se animam com a suas sombras.

As histórias não são fixas, nem para sempre

As recorrências ao futebol fazem parte das armações do blog. Gosto de misturá-lo com outros acontecimentos que a maioria julga importante. É uma forma de mostrar que as relações se entrelaçam, não há nada solto, buscando moradia para se esconder. O mundo se apresenta, todo dia, e a indiscrição toma conta do noticiário. A intimidade fica atônita diante de tantas fofocas. O sangue corre, pelas páginas dos jornais. A paz é simbólica, pois a luta pela sobrevivência não deixa as inquietações silenciarem.

Pois é. A CBF, poderosa e cheia de grana, resolveu alterar a programação dos títulos mais importante do futebol brasileiro. Numa linguagem mais sofisticada, conseguiu redefinir o passado e atiçar a preguiça  de certas memórias. Provocou polêmicas imensas. Patrícia Amorim, presidenta do Flamengo, está indignada. Promete agitar a seu jurídico e ir ao confronto. Aquela velha disputa  que perdeu para o Sport. Isso ainda tumultua a sensibilidade do clube carioca. A vaidade não tem tamanho.

Não sei os interesses que comandam a atitude do senhor Ricardo Teixiera. Não nego que transformou expectativas e redesenhou todo uma quadro de conquistas e troféus. Que ambições movem tal comportamento? É tarefa para pitonisas e não para um blog cercado pelas ressacas do Natal. O que me chama atenção é que houve uma pesquisa histórica, para justificar toda a manobra e dar-lhe status científico. O tempo foi visitado, com consulta à imprensa de época e procurou-se firmar as provas. Festas para alguns, lamúrias para outros.

É  mais significativo , ainda, pelas angústias políticas que está criando,  as ameaças de Julian Assange de produzir mais uma ação cibernética. Uma forma de guerrilha virtual, porém atuante e transgressora. As grandes potências guardam seus segredos e ficam temerosas com os avanços das denúncias. As hipocrisias são desmascaradas e a luta política ganha outros territórios. Mais uma vez, a história sofrerá releituras e as relações de poder abaladas. O absoluto é um sonho, para quem pensar em manter autoritarismos ou fazer da diplomacia um jogo de opressões.

As mudanças nas interpretações do que foi vivido merece atenção. Elas se sucedem e, muitas vezes, a maioria não nota ou emudece. Aquilo que se conta tem repercussão e modifica hábitos. O mundo globalizado reforça a velocidade dos meios de comunição. Por isso que as notícias se espalham numa quantidade desmedida. Muitos não percebem a profundidade do que anunciam e as aventuras que cada momento organiza. Distraem-se com o banal, com o sorriso falso e os enganos de uma massificação sufocante.

Não precisa de estudo acadêmico para se inserir na reflexão, mas compromisso com a sociabilidade. Se o olhar desatento se reproduzisse com frequências, a minoria  abandonaria seu posto dominante. As suas sutilezas são permanentes. Lembram os antigos filmes de ficção científica. Não é apenas a fabricação de guerras e armas que assustam.As armadilhas cotidianas exigem que cada um tenha seus instantes de desconfiança. Há inocências injustificáveis e euforias vazias.  O passado vai e volta e há quem queira administrá-lo. O disfarce pode ser pior que o boato.

O corpo e a paixão anunciam transgressões

 

Corpo quente é sinal de paixão. Então, desoriente-se. Ela não tem regras. Corre e volta sem avisar. É lúdica e amiga das grandes sensações. Nem Descartes consegue sentir a extensão de suas armadilhas. Não se prepare para viver uma paixão. Ela não é invisível, presa no território do sonho. Ela quer perfume e não espíritos generosos, exaltados nas propagandas natalinas. É o contraponto das hipocrisias que se espalham no final do ano. A caridade se transforma em presente ou auxílios passageiros. A paixão visualiza a eternidade, mesmo percebendo que pode se enganar.

É bom falar essas coisas, pois o mundo carece mesmo é de afeto. Inventa festas, ornamenta cidades, promete horários especias para vender suas mercadorias. Mas tudo tem um tempo. Como é efêmera a fantasia dos amigos secretos ! A ressaca é imensa. Não possui medida. Não destaco, aqui, as ressacas das drogas sociais, as lícitas, que são muitas. Cogito, aqui, o vazio de se olhar no espelho e ver que quase nada  se salva da euforia. Parece até que ela não existiu. O reino é dos objetos, a satisfação não traça permanências consoladoras.

Por isso, trazer a paixão para o centro da conversa é importante. A sociedade se veste, com modas exóticas, porém se perde no sentido das relações. A paixão desgoverna, se envolve com a sensibilidade do humano. Não está anunciada nos classificados dos jornais, nem nos noticiários retrospectivos das tvs. É necessário o arranhão, para desfazer a homogeneidade que as comemorações consolidam. Os ingênuos que se cuidem que as artimanhas são sofisticadas, pois planejam garantir lucros e fidelidades.

A disciplina não combina com a paixão. Ela é perigosa,  para quem se move controlando as emoções. Quem gosta da ordem teme qualquer ameaça de transgressão? Estamos, numa sociedade, de deslocamentos constantes, no entanto sem buscas para refazer os desmantelos mais profundo. Tudo se mexe na superfície. A dor se cura com Lexotan ou duas doses de whisky ? Nada de investigar, de fazer o luto como Freud aconselhava. O riso é passageira, como um beijo de um beija-flor.

Dizem que a paixão nem sempre vem acompanhada do amor. Ela tem suas variações. É difícil formular conclusões sobre algo que não se move com regras. O amor é mais  quieto. Solicita tempo para se concretizar. Não poupa regras, nem paciências. Compõe sinfonias serenas. Tudo isso está na idealização. Os nomes mudam e seus conteúdos também. Quando se elege a velocidade como medida, os paradigmas se esfacelam. É o horizonte das ilusões com inúmeras tonalidades de azul.

Muitas especulações lembram como somos senhores de tantas incertezas. Inventamos metáforas, mas observamos que há vazios que nos desafiam. O cessar o fogo é apenas uma expressão. A vida pede passagem para repensá-la, sem sossego. As imagens do progresso ou as as utopias românticas trouxeram teleologias divertidas. As tragédias gregas não se tornaram obsoletas. Como aprendemos com Antígona, Édipo, Prometeu ! A fórmula da felicidade voa no bico de um pássado imaginário. O coração escreve as palavras conjugando o som dos seu ritmos.

As máquinas ditam o ritmo das cidades agitadas

A cidade é uma  invenção histórica de complexidade ímpar. Não deixa de ser uma moradia, apesar de possuir grandiosidades que entusiasmam e inquietam. Não é possível estabalecer muitas comparações entre Bizâncio, na Idade Média, com o Rio de Janeiro, do século XXI. Basta pensar na trilha do tráfico, na torcida do Flamengo, nos barzinhos charmosos de Ipanema. Nem por isso, as distâncias são inegociáveis. Queremos convivência social, afagos, disputamos espaços, enfim as cidades terminam por se parecer, mesmo que costurem outras sociabilidades. Italo Calvino é o mestre do seu simbolismo. Seu livro As cidades invisíveis é transcendência, percorre o humano com uma sutileza admirável. É uma escrita fabulosa. Mais recentemente, Pamuk também, em Istambul, trouxe a cidade para  cenário estético das palavras, bordado as páginas, com força imaginativa e afeto emocionante.

São referências pequenas no número, pois existem outras obras de valor indiscutível. É, apenas, para começar a conversar sobre o cotidiano que vejo e sinto nesses  celebrações finais, com um fundo religioso marcante e, ao mesmo, um gosto pelo consumo sempre crescente. Há uma atmosfera delirante que transforma as máquinas em agentes indispensáveis. Imagine uma quebra no sistema de celulares, sem previsão de retorno ou mesmo uma greve colossal que tumultue o fornecimento de gasolina. E se os famosos piratas de internet resolvem obstruir as comunicações virtuais? Já pensou a TV Globo não transmitir o show de Roberto Carlos ? Seria a morte de uma tradição que se arrasta, mas que consolida uma prática.

As novidades trazem perspectivas de mudança. No entanto, o que fica é o desejo de correr atrás dos presentes, aproveitar os encontros, cultivar a pressa e conquistar toques fugazes. A mobilização é quase imperativa. Procurar um esconderijo é envolver-se com as promessas de uma agência de viagem, promotora de excursões para uma ilha deserta, sem a sombra de Papai Noel ou coquetel de confraternização. A sociedade se prepara para essas datas, com muita agilidade, cercada de promoções e espertezas alucinantes.

Cada ano, o deslocamento de estratégias é maior. Muitas vezes, horários estendidos e documentários sobre os acontecimentos do ano que se finda. O mesmo, com outras luzes, esquentando paixões e firmando que o mundo é o reino das mercadorias. Se houvesse um gênio brincalhão que aprontasse uma pane geral, seria sacrificado na primeira esquina. O pecado ganha outras cores e a roupa nova muda o perfil. O perfume, o peru, o aperto de mão, a leitura de mensagens evangélicas, ocupam as residências.

Estão todos no limite, porém o ânimo ajuda. Nada de desperdiçar tão sublime momento. A crítica pede férias, o vizinho resolve dar bom-dia e pessoas trabalham mais, para poder comprar mais. Tudo passa, como uma produção cinematográfia de sucesso. Algumas notícias impactantes provocam certas preocupações e tristezas. A força das máquinas exige objetividade. No próximo ano, a coisa pode ser diferente, vamos garantir o imediato. O tempo é travessia, a vida, uma invenção. O corpo precisa de aconchego. Estamos na época das fabricações e as crenças sinalizam que os modelos são outros.

O mercado da bola ganha espaços e máscaras

 

A corrida é grande. Haja fôlego e grana. Depois que tudo está ficando nas mãos de intermediários, os negócios se tornaram assuntos de importância dária. Ninguém sabe quais são os sinais de verdade ou se tudo não se trata de ilusões. O mundo dos interesses é forte. Comunica emoções e manipula profecias. Escolhe o momento de assanhar as expectativas. Gosta de brincar,  sacudindo mentiras para todos os lados.

Sabe que as torcidas disputam lugares privilegiados. Isso depende muito do poder dos negócios, para formar times com craques. Ganhar é desejo permanente. Final de ano, as férias serenam os esforços físicos, mas não cala os investidores. Afinal, o comércio dispara nas vendas, as ruas cheias de objetos de todas procedências. O mercado da bola não iria se esconder. O dinheiro não dorme. Possui uma insônia secular. Seus olhos são abertos e nunca necessitam de  colírios.

A sociedade está também agitada. Comprar é um verbo, conjugado como uma melodia graciosa. Então, não custa misturar as trocas, mitificar os valores e fazer a moeda dançar. Por isso, as notícias surgem e desaparecem, como o saco vermelho de Papai Noel, numa época em que as chaminés são ruínas. Se há resultados a comunicar, para que desespero. Página em branco é coisa do passado remoto. Nada como visualizar as possibilidades e balançar o otimismo dos ingênuoa. Não falta assunto, sobra imaginação.

Ronaldinho está lá e cá. É uma pedra preciosa para salvar clubes. Há sempre uma esperança de que ele volte a fazer brotar seu lado mágico. Não é possível que as baladas tenham rifado o seu talento. O ponto das transações se reativa. Até o Grêmio resolveu promover a volta do filho pródigo. Mas há o Flamengo tentando firmar suas intenções. De onde vem a grana, não se sabe. os patrocinadores são convocados e os esquemas são montados. Uma agilidade incrível. A bolsa de valores inveja tanta ciência para vencer o tempo e acumular o lucro.

Não dá para esquecer que estamos na era do espetáculo. O futebol está pobre de artistas. Precisa de um sopro forte, de alguém que retome as acrobacias. Ronaldinho não sai da memória, apesar de todas as suas instabilidades. Seu início profissional foi fulminante. Fermentou delírios. Os elogios o colocaram no alto das montanhas. Finalmente, um artista, ante que se aproxime o juízo final. As vitrines vendem também pessoas, modos de viver, não é apenas dormitórios de produtos industrializados.

Tudo isso distrai a sociedade. Entre um consumo e outro, uma olhada nas notícias. Esse é o deslocamento dos mortais que invadem suas poupanças, como crianças mastigando chocolates. A maioria ouve, apenas, os ruídos dos sinos e dos prédios repletos de luzes. Como tudo se veste de forma diferente ! Trata-se de um rito de passagem, mas que seja eterno enquanto dure. Vivemos de datas e temos que desburocratizá-las. Existem fantasias que se renovam. O carnaval vem por aí. Talvez, Ronaldinho volte para o Brasil e deixe suas máscaras na Itália. Tudo passa, até o delírio das festas.