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As aventuras dos Ronaldos: controvérsias contínuas

           

Ninguém quer um mundo, onde todos sejam iguais nas suas fantasias. Seria uma condenação. Os mesmos gestos, desejos repetidos, sem criatividade, e dramas cotidianos, com espelhos sem emoção. A velocidade da vida tem exigido esforço e invenção. As máquinas não se conectam com as inércias. Quem antes escrevia cartas, hoje apressa e-mails que atravessam continentes. Não faltam pontos de mutação e estranhamentos. No entanto, nem tudo está tão radicalmente mudado. Há disfarces e  permanências. Revivem-se, ainda, dramas antigos e melancólicos.

A fama continua no foco, na sociedade das vitrines. Quem se mete com a grana, não escapa. Fica com a solidão ameaçada e a intimidade voa para o espaço. Há pessoas que não conseguem se esconder, cultivar quietudes. Gostam da agitação, atiçam o reconhecimento. Aborrecem-se, quando o assédio se alarga, mas se deprimem se forem marginalizadas. Assim, são jogadores do clube dos bem-sucedidos. O futebol é uma passarela privilegiada. Provoca transformações repentinas. Sacode desconfortos, acena com milhões. Lembrem-se do caso recente de Neymar.

Aqui, visitamos os Ronaldos mais badalados. Vamos usar o plural. O Ronaldo do Corinthians está no foco principal. Sofreu com contusões. Deu reviravoltas, enfrentou boatos, casamentos mal resolvidos. A imprensa não dispensava um olhar nas suas aventuras. Recebeu consagrações internacionais. É  um craque. Apesar de estar acima do peso, supera a maioria, com sua inteligência e rapidez. Não vacila na frente ao gol e impõe respeito. Sua moradia é o Timão. Virou símbolo da torcida e motivo para propagandas. Sua presença mexe com negócios inestimáveis.

Seu time disputa o Braslieirão, com chances de ser campeão. Poderia ter disparado, porém existem contrapontos. Nem tudo está definido. Partidas ansiosas perturbarão o coração dos mais fanáticos. A forma física de Ronaldo não traz estabilidade. Ele não garante presença em todas as disputas, embora ambicione fechar o ano com o título. Seria um sonho realizado, depois de muitas controvérsias. Com isso, sua carreira marcaria para sempre a história do Corinthians. Êxito total.

O outro Ronaldo passa por momentos diferentes. Joga no Milan, assegura salário alto e tem lugar na mídia. Recentemente, voltou à seleção brasileira. Oportunidade para refazer caminhos. Expectativas de sucesso e de reencontro com passes articulados. Nada de extraordinário aconteceu. Segue sua saga, para muitos bizarra. Como se estivesse colado numa corda bamba. Despontou como um artista da bola. Foi celebrado, no entanto não se firmou como se aguardava. No seu rosto, há traços de um sorriso enigmático.

Agora, novas notícias ou melhor polêmicas. Ronaldinho foi filmado frequentado as baladas da noite. Os dirigentes do Milan se contrariaram. Quando pensam que o mágico mostrará sua capacidade, ele abandona o circo. Mistérios não faltam. Decifrações de esfinges é tarefa árdua. O mundo da fama não é frio. Abala. Expande encantos e decepções. Tudo isso, com descontroles gerais. Ronaldinho não segue adiante, não desiste de chamar a atenção e parece vagar sem sentido, deixando o tempo fluir.Não precisa de muita complexidade, para perceber o quanto as histórias se cruzam e, ao mesmo tempo, se afastam. O ponto final é uma máscara.

O tempo possui seus descansos e suas viagens

 

Há quem diga que a vida é uma viagem. Reforça seu teor de aventura e lembra as andanças do inesperado. Estou viajando. Chego, hoje, na França. Fazia um bom tempo que não ia lá. Não se trata de  passeio, embora nunca se pode negar que, no meio de caminho, sempre há pedras e pérolas. Vou para uma banca de doutorado e firmar contatos acadêmicos. Debater um pouco o que penso e as ousadias que me chamam.

Anuncio a viagem, porque interfere na escrita do blog. Não terei com mantê-lo, com assiduidade. Posso escrever, mas não quero assumir o compromisso de estar pronto, como estou na minha casa. A vida é viagem e não devemos subestimá-la. Curti-la faz parte do jogo. Não adianta mudar de espaço e continuar preso no mesmo cotidiano. Renovar o fôlego aumenta a capacidade de invenção. No entanto, até sexta está resolvido. O bolg sai. Depois, depende das circunstâncias.

Não é uma despedida, mas uma interrupção. Quem sabe, uma dia desses,  encontre uma boa máquina e solte o verbo. Certo mesmo é que,dia 4 de 12, estou de volta. Muitas águas terão rolado, mas o Haiti se mantém despedaçando, sufocado por problemas. É a história de uma continuidade cruel. Fico triste, porque sei que existem muitos Haitis pelo mundo. A concentração de riqueza é um dos absurdos que ameça a sociabilidade.

Infelizmente, as negociações não param, com a expansão da miséria, em muitos lugares, e distribuição de crack em outros. Mergulho na utopia não consola, porém acorda, retira do pessimismo. Muitos fabricaram idéias otimistas, mesmo testemunhando explorações e violências. Sem acenos para outras paisagens, não daria para se aquietar com tanta desconversa. Portanto, a fantasia e o sonho não devem ser sepultados. A apatia é um grande mal.

Viajo para Paris, onde aconteceram muitas rebeliões. Recentemente, os protestos ganharam as ruas, encurralando o governo. A  revolução nunca terminou, porém produz memória, atiça contrários. O capitalismo não quer  acordo com fim das disparidades. Incentiva o consumo, cria ilhas de segurança e se descuida das epidemias. Faz o jogo da acumulação, firma seus critério de lucro, honrando uma minoria. A sua hegemonia não é absoluta, nem silenciosa.

Deixar de acreditar nas dissonâncias é discordar do direito de reivindicar. Nada de prolongar as mesmices e formar tradições que disfarcem o desejo do diferente. A viagem é uma vida. Às vezes, em dez dias, desconfiamos de cinquenta anos. O tempo é escorregadio, com seus múltiplos calendários. Estou saindo do calor, para sentir frio e rever amigos, olhando de longe as idas e vindas do Brasil. Uma aprendizagem, sem dúvidas.

Embarque feito. Vigilâncias burocráticas cumpridas, deslocamento em todos os sentidos. Visitas ao passado, confrontos. Tudo corre. O mundo se estreita e se estranha. A travessia é de todos. Não importa o tamanho do círculo, nem o último canto do poeta. Quem vive não sossega. Sou muito raiz, sem contudo ter medo do novo. Para quem acha que a história é a construção das possibilidades, a viagem é um manto que se estende com bordados cativantes.

Por onde andam os clubes pernambucanos?

As definições estão acontecendo. Não há mais caminho de volta  ou esperanças para trocar. Sábado, o Náutico livrou-se da desclassificação, com uma goleada marcante. Venceu, depois de muito sofrimento. Dizem que os atrasos salariais frequentes  perturburam o ânimo do grupo. Não é fácil ficar sem grana, numa sociedade cheia de vontades consumistas. O Timbu também dispensou muitos jogadores e fez contratações pouco felizes. No fim, deu certo, mais uma vez ,com Roberto Fernandes no comando.

Se o Náutico iniciou, na série B, com ímpeto assustador, o Sport vacilou muito. Nem Cerezo deu força ao time. Parecia que a ladeira era grande e não tinha como evitar o desastre. O futebol não é destino traçado, sem escapes ou surpresas. Geninho assumiu. Treinador experiente, astucioso, conseguiu a reviravolta. O Leão avançou. Obstáculos foram superados. Cogitou-se em ocupar o famoso G-4 e festejar o retorno à série A.

As previsões otimistas tomaram conta da torcida. O caminho tinha poucas pedras e os adversários não metiam medo. Pouca técnica foi a tônica da série B. As partidas eram sonolentas. Só o Coritiba exibia certa categoria. Portanto, o Sport podia sonhar e lutar sem muita angústia. As expectativas forjam tensões, mas havia muitas certezas. Acontece que o rubro-negro desandou. Perdeu jogos em casa ou nos minutos finais. Empatou. Teve atletas expulsos em momentos decisivos.

Falta jogar contra a Portuguesa, porém a porta está fechada. Não cumpriu sua tarefa tão esperada. Perdeu para o América de Minas Gerais, cometendo erros ditos infantis. Geninho prendeu o time, no primeiro tempo, e Germano saiu por expulsão. Houve desejo de passar adiante, a equipe partiu para recuperar-se, no segundo tempo, porém, os mineiro ficaram  com a vantagem.

O Sport não sobe e o Náutico não cai. Ironias, gozações, rivalidades. Sempre torço para a vitória. Não seco ninguém. Apesar de ser tricolor, evito mesquinhez. Tem gente que conserva raivas e vinganças. Agora, o Salgueiro, fará companhia aos chamados grandes. Vamos ver o que nos aguarda. Não esqueçam que o Icasa e o ASA estão firmes e ultrapassaram muitas barreiras. Incomodaram. Isso é bom. Quebram-se preconceitos. Há renovações.

O Santa Cruz promete redenção. Sua atual diretoria contratou Zé Teodoro, comprometido em pular da série D. Armar-se uma estratégia para não se falhar nas contratações. O ânimo é especial e a torcida não farrapa. O tricolor tem que conquistar  mais espaço. Seu presente destoa dos ecos do passado. As decepções atuais enchem a paciência e evidenciam que o clube vive dificuldades, devido à pouca atenção de seus líderes políticos.

O Santa possui carisma, atrai multidões. Poderia estar trilhando até pela série A. O ano de 2010 foi um novo fiasco. Quando se sucede a eleição, o estímulo renasce. O povão se manifesta e cobra seriedade. Não custa se lembrar dos bons tempos e reviver os gol de Nunes e Fernando Santana, as defesa de Gilberto e Detinho, a sabedoria do mestre Gradim, a classe de Gena na lateral-direita. Nada de se esconder. As três cores merecem brilho.

O jogo refaz a brincadeira e atiça a astúcia

Se cada dia retomasse o outro, integralmente, o mundo se despovoaria. Temos que tocar no que passou, recorrer às lembranças. E as experiências que atravessam as circunstâncias e o movimento dos desejos ? O vaivém é comum. Mostra que as identidades são construídas. Nada de cimentá-las. Há sempre espaços para ensaiar ousadias e redesenhar antigas imagens.

Por isso, a invenção da cultura é ânimo. As desmontagens acontecem e fermentam dúvidas, porém os artifícios são muitos e impedem a unicidade da monotonia. O jogo traz a multiplicação das pedagogias e dos divertimentos. Mudam, com o passar do tempo. Adaptam-se aos costumes e fundam hábitos renovadores. Alguns exigem concentração, outros ruídos. Temos as ações coletivas e as individuais, a simplificidade das regras mais conhecidas e sofisticações trazidas pela informatização da vida.

O jogo acompanha a cultura, não se nega a entrar nas suas astúcias, nem a fugir das suas brincadeiras. Jogos de rua se tornam jogos de salão. A inocência do riso solto é revirada pelo cálculo da grana. Há lugares especiais para se apostar. A sorte e o azar continuam zelando pelas suas identidades. Muitas vezes,  a seriedade domina o movimento dos parceiros, as expectativas de perdas geram tensões. A brincadeira sofre metamorfoses. Fortunas são diluídas, mas as regras são obedecidas e o fracasso arranha a loucura.

O ritmo não é estático, nem homogêneo. Atinge os esportes públicos e com também ao mais íntimo carteado. Há luzes e sombras. Olhos curiosos e raciocínios velozes. O vôlei dos anos de 1960 não se compara com os dos  tempos atuais. O futebol tem passado por reviravoltas incríveis. Os saberes técnicos influenciam na estratégias . Preparações, segredos, educação física,  médicos especializados. Aquela diversão, antes comum nos campos de várzea, ganhou outra estrutura.

A rua agita-se com o comércio e o fluir das motos e automóveis. Casas foram substituídas por edifícios gigantescos. Desconhecemos nossos vizinhos. O recolhimento é cotidiano e muda os rumos da brincadeira. A televisão aumenta sua soberania, prometendo alegrias e lágrimas, sem esforços, consagrando a fantasia pouco crítica. Há de tudo, para garantir audiência e passividade. Em vez de jogar, vemos os outros jogarem e somos parceiros indiretos.

É claro que a cultura não poderia adormecer. Os significados merecem releituras e a emoção se debruça sobre outras paisagens interiores. Não se trata, aqui, de uma condenação, porém de uma insistência. Traçar as diferenças entre os momentos, sem querer firmar hierarquias é importante. Entender as trocas e as singularidades deixam a vida mais rica de autonomia. Não podemos fugir das escolhas, portanto conhecer as histórias das relações sociais ajuda a desobstruir as trilhas.

O diálogo entre as permanências e as novidades testemunham vontades de refazer ou manter certos comportamentos. Nem tudo pertence a ansiedades de se lançar, cegamente, no futuro, nem tampouco mergulhar de volta ao passado. O equilíbrio é um desafio, pois a instabilidade arma  suas assombrações. O humano não dispensa sua identidade trágica. Busca, porém, fôlegos. Nos jogos e nas bricandeiras moram encantos. Porque não encontrá-los, sem disfarces?

A ética visita, provoca e inquieta o mundo

O acirramento das disputas e as necessidades de vitória criam discussões sobre os valores. O mundo tem peso, não é algo abstrato e sem medida. Há formas variadas de avaliá-lo, mas uma simples dor de cabeça já provoca a elaboração de um juízo. A sociedade festeja os vitoriosos. Parece que todos possuem a obrigação de vencer. A derrota é um estigma, um sinal para completar o desengano. Não cabe a existência de um mundo, onde todos celebrem a vitória. As lacunas são muitas e distribuídas desigualmente.

No final das disputas, as suposições se estendem. Correm boatos, ressuscitam-se passados, esticam-se lamentações. No futebol, a figura do árbitro não escapa. Xingado pelas torcidas, analisado pelos comentaristas, perseguidos pelas câmaras de televisão. Acabou-se a época do lance visto uma única vez. As televisões são incansáveis. Saturam. Tecem teorias. Condenam. Salvam. Buscam afirmar-se como donas de juízos finais. Querem acabar com as dúvidas, mostrar eficiência. Bigbrother em três dimensões?

O Brasileirão caminha para chamada reta final. Não há vencedor antecipado, com pontos que lhe tracem um destino de campeão. Então, as explicações não sossegam. Ninguém se arrisca em apontar o ganhador. Muitas conversações, debates cotidianos, crônicas raivosas, julgamento precipitados, opções disfarçadas. Quando sucedem os lances polêmicos, as manchetes se configuram com fotografia de detalhes não percebidos no momento do apito do árbitro. Foi dentro da área e se marcou o pênalti. Houve intenção na falha ou apenas descuido humano?

O bombardeio é grande. Os méritos de pessoas, antes inquestionáveis, desfiguram-se. Todos observam os enganos, vendo, muitas vezes, a mesma imagem. As conclusões podem levar o principal figurante a um ostracismo fatal. Ele era do quadro da Fifa, honesto, articulado com as regras, tranforma-se num suspeito. Esquecem que sua decisão não passou por uma longa reflexão. O instante é tudo, não é possível adiar nada.

As acusações se espalham e dividem-se. O jogo perde a importância, esconde-se da sua dimensão lúdica. O Cruzeiro proclama as injustiças da CBF. O Corinthians coloca-se como vítima. O Fluminense sente-se acuado, com tantos devaneios. Os blogueiros esquentam as incertezas. As regras promovem anseios interpretativos que perturbam a clareza. Bola na mão, mão na bola. Cada um faz suas deduções, com a onipotência das aventuras televisivas.

Com certeza, a série A do Brasileirão trará suspenses. Todos os três concorrentes bem próximos, abrem espaços para pensar o que se passa fora das quadro linhas. Há preparação de resultados ou vale a categoria dos atletas? Tanto esforço e grana não garantem o sucesso? As decisões ficarão por conta das relações de poder? Tudo se complica, porque não há uma equipe favorita, a carência de craques não permite espetáculos.

Num mundo de concorrência cotidianas, os limites servem para impedir  que a soltura tome conta das leis. A transgressão absoluta evitaria qualquer cultura ou a ordem absoluta formaria uma paralisia histórica. Os grupos comportam-se, segundo regras que se coadunem com suas vontades coletivas. Mas a sociedade atual consagra o êxito como objetivo, independente de um peso ou uma medida. A vantagem dissolve, cria territórios de solidão vazia.

Ninguém aposta nas certezas de um destino?

Gosto de caminhar. Não como um exercício, com hora de partida e de chegada. Dispenso relógio. Sou um observador, daquele que se prende aos detalhes. Como não dirijo automóvel, circulo por ambientes de andarilho. Presto atenção às conversas, gestos, rostos. A curiosidade é silenciosa, mas atenta e parceira de imaginação. Nada de se retringir ao instantâneo. Cada ato humano se projeta. A idéia de destino não está abandonada.

Os mitos antigos continuam atiçando nossas mentes. Tinham vidas de aventuras e lutavam para desafiar os desenhos das suas cartografias. Os exemplos são inúmeros. As história de Prometeu e Édipo correm o cosmo e entusiasmam psicanalistas. Ficam como arquétipos. No mundo das máquinas, as permanências da fantasia  são visiveis. Por detrás das novidades, guardam-se lembranças de outros tempos. Quem pode negar os entrelaçamento da música de Piazzolla com as dissonâncias do jazz ou a argúcia de Bach? Quem se recusar a olhar para o passado, despreza o valor da continuidade. Zerar as tradições é uma armadilha.

A história é mudança ? Dúvida pertinente. As transformações e as rebeldias se entretecem com as nostalgias, mas também fundam outras arquiteturas para os labirintos humanos. Os dribles de Pelé, sua intuição diante do gol, sua cabeçada certeira não ficaram congelados. Com os recursos teconológicos, a memória enche-se de complexidade, porque as informações são muitas. Qual a melhor escolha? Os mitos contemporâneos seduzem, merecem narrativas, mesmo que se nutram de outras linguagens.

Portanto, o exemplo ainda é espelho. Os mais novos possuem recursos recentes, para recuar no tempo e isso renova concepções. A ansiedade e o tédio, aparentemente tão antagônicos, se tocam. Muita forma derruba a paciência. De repente, o estranho torna-se comum e não temos como entender o eixo da tanta procura. Por isso, nas minhas andanças não elejo a pressa, nem tampouco elogio os que se pintam sempre com a fama.

Lembr0-me que Didi, jogador excepcional, dizia que treino é treino , jogo é jogo. Mostrava o seu interesse e seu estímulo. Tratava a bola como ninguém. Afirmava ter com ela uma relação de amor. Os cuidados eram mútuos. A bola não iria traí-lo, seu destino de exímio cobrador de faltas estava definido. Assim, a futebol rende graças aos feitos do autor da folha seca que desafiava qualquer geometria cartesiana e tumultuava as expectativas dos goleiros.

As falhas comprovam que, às vezes, há descontroles. Não somos, sempre, os mesmos. Maldizemos dias de sol ou discordamos das cores que, antes, festejavam nossos delírios estéticos. Quando observo o movimento e falas das outras pessoas, as interpretações das sensibilidades  se interligam. A antipatia danifica a estabilidade afetiva, porém é impossível gostar de todos. Qual razão das energias chocaram-se? Isso não desmancha o traço do destino? Não remove as certezas e as convicções? Apostar que os dias passam, e minha vida não remove os ruídos e os silêncios, firma o desejo de conhecer. O outro mora dentro de mim. Com destino ou sem destino, a minha narrativa nunca será solitária.

A vitória da Argentina e os olhares de cada um

Nada como não deixar o coração no sufoco. Perder faz parte da vida. É uma lição que sacode sabedorias e acalma emoções. No entanto, as derrotas causam sobressaltos. Muitos ficam incomodados e concentram raivas. Negam perdão e se entregam aos pesadelos. O jogo entre Brasil e Argentina foi o assunto da semana esportiva. Teste fundamental para o elogiado Mano Menezes. Os programas esportivos gastaram  análises e especulações.

O jogo não foi tão quente, como se esperava. Merecia mais arte, devido à fama dos participantes. Ronaldinho voltava à seleção, depois de uma ausência cercada de polêmicas. Ele lembra o mágico que perdeu a cartola. Deslumbra, se esconde, mas não sai da mídia. É interessante seu percurso.O Brasil continua sua renovação. Nada contra, há valores dignos do lugar que ocupam. Quem conhece a história do futebol, sempre lamenta. Os talentos ainda não convencem, não trazem a garantia de que o time vai engrenar.

A mediocridade não tomou conta das jogadas. Restam esperanças de que a fase Dunga não retorne. É possivel que a seleção ganhe corpo e forma. Então, teremos outros comentários para fazer. Por enquanto, a presença de Robinho provoca interrogações. Está fora do compasso. Não consegue articular o ataque , com seus dribles, antes, espetaculares. Destoa, por ser um dos líderes do grupo, escolhido como exemplo.

O mundo contemporâneo está repleto desses sucessos. Explodem manchetes, encontra-se mais um gênio e começa a odisséia. É cenário comum nos meios de comunicação. Robinho precisa de umas férias, pois talvez tenha exibido-se em excesso. De resto, a equipe mostra boas conversas com o futuro. O toque de bola é ágil, não há os costumeiros chutões e sobra entusiasmo. Não vamos criar fantasias de reinvenção de talentos, nem tampouco preparar velórios e amarguras.

Os argentinos são conhecidos. Enfrentam o Brasil, com muita raça. Rivalidade sempre ressaltada, belisca a vaidade dos atletas. Ninguém despreza a vitrine do mercado da bola. Na sua seleção, há um craque indiscutível. Sua formação foi construída no Barcelona, desde muito cedo. Chama-se Messi. Ele desfila sua arte, sem arrogância. Não é elegante como Pelé ou Zidane, nas suas elaborações. No entanto, surpreende, cativa olhares, move-se com inteligência.

Messi decretou, no final da partida, o resultado , praticamente, inesperado. Usou suas astúcias, aproveitou a vacilação verde-amarela e marcou um belo gol. Tristeza de Mano, porque tudo caminhava para empate e a invencibilidade seria mantida. Jogo é jogo. O lúdico arma e se diverte com suas armações. Não há necessidade de se costurar tragédias e redefinir estratégias de convocação. O grupo anda e a derrota não representou fracasso. É claro que as lições existem. Vale aprendê-las.

A festa sofrerá interrupções. Gozações. Ironias. Preconceitos. Nessa hora, o vencedor se aproveita para descontar ressentimentos do passado. O Brasil estava confortável, agora afirmará algumas mágoas. Como de costume, os donos do apocalipse anunciarão profecias. Quem sabe se Dunga voltará a escada da fama? Numa sociedade de tantas diversidades, tudo se torna possível. É a vontade de cada um registrar seus desejo e ambições.

Diálogos, escritas, esportes: encontros com a vida

Escrever é manter-se vivo e esperto. Pelo menos, assim penso. Gosto das palavras. Não vivo das suas abstrações, não as vejo como sinais ou rabiscos. Elas expressam sentimentos, experiências, projeções. Poder parecer um exgero, mas as palavras conduzem culturas e instituem valores. Escrever é dialogar, é uma afirmação da sociabilidade, esteticamente digna de celebração. Quando me sento para segurar o cotidiano do blog, teclar, imaginar temas, colocar opiniões, o mundo se descortina.

Não quero o desejo exclusivo. Quero que ele circule. A intimidade com a escrita se amplia, quando você a divide com os outros. Sem a magia da comunhão, ela se esvaziaria. A informática agilizou a comunicação, mas também produziu fragmentações. Um novo processo de alfabetização que estende pelo planeta, com cartilhas virtuais, apresentando signos desconhecidos. Longe estamos das cavernas, das máquinas de escrever, das canetas BIC, de sucesso sem igual. Tudo converge para os verbos gerados pela  epidemia dos computadores.

Deletar, formatar, configurar. A linguagem se multiplica, ensaiando outras   expressões. O blog tem majestade e seguidores. Universaliza-se. Reforça contactos. Inspira. Todos têm o direito de fundá-lo e se lançar para o movimento da internet. Fiz um, com finalidade de falar de futebol, fugindo do lugar comum. Aliás, meu objetivo é mais profundo. Mexo com os entrelaçamentos da cultura, anunciando ou se deslumbrando com as suas invenções.Não deixo, porém, que a bola fique longe das suas travessuras.

É importante não perder de vista as redes que se formam.Numa sociedade de multidões, nada garante que a solidão não apareça e tumultue as escutas da interioridade. São contrapontos velozes, como aquele ataque fulminante da seleção brasileira de 1970. É impossível ler os significados da cultura, na perspectiva de exauri-los. Como decifrar os eixos dessas disputas entre Brasil e Argentina? Com definir certas antipatias ou paixões embrigantes? Somos remetidos a perguntas, sempre que acreditamos haver esgotado os temas e os projetos.

Saber desenhar as curvas é um desafio. Achar que tudo é uma linha reta, é uma melancolia. O mundo dos blogs está cheio de curvas. As informações vão e voltam, se desfiam, em instantes, provocando inseguranças. Cada época possui seu ritmo e modo de ser. A derrota para o Uruguai, em 1950, não se assemelha à despedida do Brasil, da Copa de 2010. Quem torce pelo Santa, depois da sua entrada na série D, fica perplexo com as vibrações do penta. As coisas estão muito misturadas, as dualidades em crise, as cores remodeladas.

Os esportes que curtem velocidade, ocupam espaços privilegiados. A fórmula 1 atrai telespectadores e patrocínios milionários. No futebol, se exige rapidez e muita marcação. A medição  das máquina avança. Calculam-se as distâncias, os tempos incríveis das bolas de tênis, a quantidade de passes errados. A tela exalta o pecado e, muita vezes, nega o perdão. Livrar a sociedade das suas contradições, nem com bolas de cristais, nem com os gênios d ‘As mil e uma noites. As reviravoltas se dão em segundos. As palavras descrevem os temores e as conquistas. A escrita termina revelando tensões, mas sossegue. As trilhas da vida se refazem.

As rivalidades não cessam de aquecer o cotidiano

 

Na pressa costumeira, as notícias enchem jornais com novidades frequentes. Muitas invenções, filmes de bilheterias afortunadas, separações de astros consagrados, negociações sobre as instabilidades no câmbio. Não cessam as rivalidades. A competição tem um amplo lugar, quase inquestionável, em regiões e cidades.Vivemos sob a hegemonia do capitalismo. Seria estranho haver sossego contínuo.

Não sei como Deus assiste a tudo isso. Suas criaturas procurando se enfrentar, a cada momento, de olho nas oportunidades dos outros. A educação forma, renova conhecimentos, mas os signos da violência e da inveja se mantêm. Se Deus não gosta dessas disputas, deve ter aborrecimentos constantes. Não era assim que pensava a sua invenção maior. Mas até as religiões possuem suas dissidências.Há quem desconfie da própria existência de Deus. Há os que defendem o vazio, o absurdo, o niilismo.

Muita conversa que daria tratados imensos. Não custa lançar questões. As guerras se fizeram presentes de forma assídua no século XX. Os motivos são variados e as amarguras consolidam ressentimentos. As guerra mundiais foram cenários de horrores. Não há nem lembranças de fraternidade que consigam fazer esquecer tantas máquinas voltadas para eliminação. No campo simbólico, também se testemunham discórdias fatais. O que significam Oriente e Ocidente? Por que tantos colonialismos e arrogâncias ? As hierarquias perduram justificando escravidões disfarçadas.

Queria ressaltar como as rivalidades entram nos grupos. Falta muito para que o afeto tenha sua soberania. Talvez, seja uma utopia que alimente a vontade de não sufocar a esperança. Não simpatizo com a idéia de uma natureza humana. Seríamos egoístas para sempre? Não há como visualizar a mudança? As pedagogias estão fracassando? Infelizmente, a energia negativa não se esconde. Faz vítimas, às vezes, com rituais macabros.

Oa valores se transformam, porém permanecem comportamentos. Alguns que retomam tradições de comunhão, outros que ressuscitam violências. O mundo se balança. Suas tempestades são fortes e aprofundam mágoas. Mesmo lamentando não há como desistir. Nem todos, atiçam a competicão, nem se promovem com as divergências. Há quem procure quietude, quem conviva com as diferença, sem traumas.

Nesse final de semana passado, os esportes estiveram em evidência. Eles merecem atenção pela representação que produzem das relações sociais. Ensinam  e concertam. O Brasil perdeu, no vôlei, de maneira dramática. As  meninas barsileiras não aguentaram a paciência das russas. Uma lição de que o jogo não se resume à qualidade técnica. Na fórmula 1, a Ferrari sucumbiu, para alegria de muitos. Os éticos comemoraram a queda de Alonso.

A discussão sobre a ética retorna, quando se fala em disputas esportivas. As malandragens distorcem e visam o sucesso. Não interessa o caminho. A celebração da ética é um ato importante. Não devemos elogiar a falta de limites, as ansiedades acumulativas do capitalismo. Nesses debates, falta a contextualização, falta se interrogar sobre as tantas repetições de tramas tão medonhos. Prevalece um olhar na superfície.  Há  vencedores torcendo pelos lucros. Sobre eles se conversa pouco. A força da propaganda é avassaladora e cerca a ética com ferocidade, em muitos casos. A disputa pode também não significar o caos.

Há muitas repúblicas nos espaços do mundo

Ontem, o Brasil comemorou mais um ano de República. As datas históricas lembram trajetórias, sempre atreladas à capacidade de recordação coletiva dos feitos heróicos e retumbantes. Talvez, exageremos na ironia. Ninguém esconde a memória sem punição. As ações possuem significados. Houve muita frustração na época. Os mais radicais esperavam leis democráticas, partidos comprometidos com justiça social, vontade de redefinir os preconceitos vindos da escravidão, abolida em 1888. As história dos povos são acidentadas, não se escrevem com linhas retas.

A Alemanha, a Itália, a Argentina já sofreram dissabores e não estão longe de sofrerem outros. Não há povos  sem manchas nas suas vestes ou sem desmantelos nos seus projetos. As relações se desfazem, revelam-se outras, no diálogo constante entre permanências e mudanças. Existem grupos de poder que programam ilusões e deixam as expectativas se espalharem. O tempo cuida de costurar memórias, de consolidar valores, de refazer decepções. O Brasil republicano não cumpriu o que tanto se anunciava. Continuaram os desmandos oligárquicos, as desigualdades sociais, os descontroles administrativos.

O mundo do século XX, não foi pacífico, nem exemplar. Lá estavam fascistas, racistas, capitalistas vorazes, construtores de bombas atômicas. Mas qual é a época plena de harmonia, sem violências ou individualismos destruidores? Não é sem razão que se fala nos discursos do bem e do mal. A instabilidade percorre cada momento, mesmo quando ele não ocupa um espaço mais dilatado. As culturas são diferentes. Inventam valores e formas que se articulam e se rejeitam. Mas há algo que serve de espelho e assegura as semelhanças.

Os escândalos povoam as sociedades, mesmo as consideradas civilizadas. Nunca esquecer Freud é quase um mandamento, nem tampouco as reflexões do astucioso Maquiavel. Isso é não uma declaração de eternidades. Não vamos proclamar também o descrédito no humano. Achar que os enganos são comuns e persistentes é desistir da história. Há o desejo e a inquietude, o caminhar por cartografias inesperadas e alvissareiras.

Não olhar para as diversidades e as dissonâncias é acreditar no absoluto, no que não se move. Não é o caso. Os anos republicanos passam, as projeções se renovam e as lutas democráticas não esmorecem. Mesmo com o estreitamento da aldeia global, não sacramentemos as repetições. Ativar a dúvida e a crítica ajudam a não sacrificar a esperança.

Se na política o desandar nos atiça, em muitos cantos da vida se formam desencantos. Todo final de ano, as notícias ampliam a sonoridade dos escândalos. No futebol, parece um ritual. No Brasileirão da série A, as denúncias esquentam, com polêmicas ruidosas. Dizem que o campeonato está preparado para o Corinthians, para glória de seu centenário e a honra de seu ídolo Ronaldo. Azar do Cruzeiro e do Fluminense.

Com espertezas, sempre presentes no mercado da bola, com os inúmeros errosde arbitragens, fica dificil ver clareza no horizonte.Insinuar que tudo está combinado é trazer fofocas, sem provas e tumultuar de vez a sequência dos entusiasmos e lamentações. As inseguranças e a falta de ética cercam os grupos sociais, fragilizando até mesmo suas diversões. A República do Futebol não se distancia das outras que desfilam na história.