Latest Publications

As lições múltiplas das cores e dos sentimentos

      

As experiências ensinam a costurar sabedorias. São múltiplas. Viajam pela vida, por mares, ventos, cavernas. Nem todos ousam refletir sobre as suas lições. No mundo da pressa, muitos escolhem ser escravos das manchetes. Acham os torpedos dos celulares o texto mais dinâmico e comunicativo. Habitam na superfície, temem labirintos, se embriagam com a repetição. Usam máscaras de brilhantes, escondendo a vergonha.

A troca nunca deveria ser desvalorizada. Une corpos e sentimentos. É um toque da cultura, na contemplação do ato de compreender as ambiguidades e decifrar as esfinges. Não dá para revelar todos os mistérios, porém ajuda a descobrir muitos esconderijos. Compor o diálogo, com as diferenças, é fundamental. As astúcias de Ulisses, os contatos com as suas aventuras são exemplos da construção do humano. O mito narra e especula sobre as origens, tema intrigante e complexo.

Razão e sensibilidade merecem conectar-se com o caminho das histórias. Não se  perder de vista o que nos cerca, abrir os olhos para as circunstâncias, desfazer-se das metafísicas mecânicas, tudo requer cadência no coração. As notícias circulam, porque possuem seus significados. Li, nos jornais, que Pelé está entrando nos setenta. Muitos ruídos sobre as comemorações, na aldeia global, cheia de rituais. O Santos promete render-lhe homenagens gigantescas.

O interessante é que os muitos convites a celebrações deixou Pelé perplexo. Como se desdobrar para aceitá-los sem exceções? A opção é se recolher, para que não reste ninguém magoado pela recusa do Rei. Ele tornou-se cidadão do mundo. Apareceu, num momento, que a sociedade de massa ganhava fôlego, no entanto a mídia não era, ainda, tão ardilosa como hoje. No futebol, há cores e sentimentos variados. Ronaldo, outro craque, recebe também muitas congratulações, pelas sua façanhas. Pertencimentos semelhantes, com detalhes específicos.

Ele faz moradia no Corinthians, ajudando no centenário do Timão. Jogou, fez gols, animou a torcida. Polemiza. Seu prestígio é indiscutível. Seu sorriso estampa-se, nos anúncios de produtos badalados. Ronaldo é famoso e a mídia, com todo fogo, não respeita sua paz. Sua vereda é outra. Não entra , em campo, com assiduidade, contudo conserva paixões e expectativas. É chamado de o Fenômeno. Coisa de kantianos inocentes.

Na política, os tambores batem com alarde. Os boatos se fortalecem e os projetos sociais se desfiam. A rebeldia esmorece no desvendar da intimidade. Reinventam-se valores e tradições. O que parecia sumido, transforma-se em assombrações assanhadas. O lema é claro: ganhar é urgente. O medo se confunde com a esperança. Numa sociedade de muitos controles sutis e poderosos, o disse-me-disse estimula desconfianças.A teoria abandona a crítica.

Querem atiçar as almas vadias, no conformismo dos sem cores. A denúncia é feita na invasão da vida privada. O virtual trava uma batalha sem sossego. As caixas de mensagens sufocam-se com a insistência de e-mails contudentes, afogando os anjos e acordando os demônios. A arte de criar e tecer a fantasia do sonho ficou nos dribles e na inteligência de jogo de Pelé. Mais vale o resultado, mesmo que seja o desencantamento do mundo. O fetiche da mercadoria manda seu recado cotidiano.

O mundo e o jogo vivem alegrias e tensões do coletivo

Nem tudo se foi para o abismo das frustrações. Há suspiros e risos aliviados que trazem alegria. O mundo está submerso em muitas crises e desenganos. Existem, porém, espaços para reverter fracassos e viver a força do coletivo. Se a esperança nunca vem sem o medo, cabe a sociedade transformá-la em ânimo constante, independente dos obstáculos. A construção da cultura é repleta de ambiguidades. Quem pode esquecer dos lamentos e das críticas da Escola de Frankfurt ? Adorno foi firme ao mostrar os limites da massificação contemporânea.

O resgate dos mineiros chilenos foi um espetáculo inesquecível. São feitos que devem ter suas imagens divulgadas sempre. Chega de estar vendo violências, ataques, debates vazios, jogos apáticos! É preciso afirmar que a solidariedade emociona e liberta. A pressão da sociedade de consumo é mesquinha. Não contém a odisséia de pessoas, em torno do que parecia impossível. A persistência vale, para mostrar que tecnologia não serve apenas para fabricar bombas e explorações.

Na França, a população reage às reformas do seu presidente. Ele quer apagar a memórias das conquistas sociais, fazendo economia em cima das perdas dos outros. É uma manobra terrível do liberalismo.Esvazia a política. Multidões foram as ruas e a tensão não se desfez. Antes, foram os ciganos que sofreram com atitudes nada humanas. Esqueceram os ideais de fraternidade?  A história é uma calça azul suja e desbotada? O rompimento com certas tradições não podem ser aceitas.

E o futebol como anda? O Náutico promete não cair no vulcão e o Sport perde jogos fáceis. Cada vez mais, se distanciam da classificação, enquanto o Salgueiro se organiza para chegar a séria B. Contrastes que fazem as competições atiçarem as surpresas. O Santa cai nos dilemas administrativas. A eleição, para presidente, é o foco maior. As indecisões continuam e todos aguardam propostas concretas. Esperamos que as discussões não sejam religiosas, com carta de compromissos medievais. Levantar o Santa modificará o futebol pernambucano. Sua torcida está carente e com razão.

Na série A do Brasileirão, as disputaw estão quentes. O Santos  se reanima, depois de tantas novelas com Neymar no papel principal. Venceu o Internacional e segue desejando ser campeão. Domingo, enfrenta o São Paulo. Um clássico de enormes expectativas, para todos, pois se o tricolor se afinar, teremos reviravoltas nas profecias. Quem está numa gangorra quebrada é o Corinthians. Dispensou Adílson, tentou Parreira. O pior: o Vasco não teve cerimômia e fez a festa no Rio. O Timão se encosta desespero. Ronaldo garante voltar para enxugar as mágoas.

 O mundo não se cansa. Muita gente, indo e voltando, nos acena para a complexidade do viver. Imaginar a harmomia universal é ficar no reino das fantasias desencontradas. Os choques existem, os egoísmos não se escondem, as ambições se exibem. É uma mistura desafiante. Os duelos do bem contra mal são ressuscitados, mesmo no ritmo das mais astuciosas hipocrisias. Temos que nos olhar, com cuidado, beber na fonte das águas transparentes, desconfiar do riso fácil e das promessas de um pragmatismo cínico.

A bola de cristal do passado está desbotada ?

O passado virou um instante. Perdeu densidade de um tempo que se prolonga. Agoniza nos emails velozes. Deixou de ser uma coleção de lembranças. Portinari que nos salve, com suas pipas sedutoras. Vivemos a velocidade da fórmula 1. Amarguras e prazeres se desfazem em segundos. Falam na falência dos desejos e na vitória dos impulsos. É muita sutileza. O carossel é tecnológico, perdeu a lentidão das antigas festas de paróquias. Paisagens desaparecem na volúpia das construções das torres e das arenas.

É preciso contemplação. Muita pressa perturba o afeto e desvia a reflexão. Queremos resolver tudo com um simples toque superficial. Cadê o abraço? Até na política a guerra santa substitui os programas e as ideias, por beijos em terços e declarações de fé inusitadas. Fica, então, difícil saber o possível caminho de uma sociedade, que se distrai com o efêmero, e decide suas opções fugindo do mergulho no oceano da sabedoria.

Não faltam exemplos de como o coletivo é sinal positivo de solidariedade. Suas atitudes cantam momentos que permanecem na memória. O caso dos mineiros chilenos mostra a força da paciência e da vontade de valorizar a vida humana. O conhecimento desvendando mistérios, abrindo espaços, criando soluções. Quando essa liga se constrói, o ânimo é outro. Diante das brigas por vitrines e ornamentos, nada como recordar que o passado tem tradições que podem ser reconfiguradas.

O tempo é complexo. Sempre foi. Não há como pensá-lo, como algo homogêneo. Mas querer urgência, em tudo, é tramar contra a cultura. Os ritmos definem o agir ou o agir definem os ritmos? A cadência varia, porém esvaziar a experiência é aumentar o drama de quem se sente sem alternativas. O resumo das coisas requer registros múltiplos e não simples traços feitos por iniciados. As relações  ganham dimensões, quando podem ser comprendidas, sem aquele perfume mafioso das espertezas cínicas.

O futuro é uma grande incógnita. Não há bola de cristal que o escravize. As dúvidas não se ausentam do sentir. No entanto, cada passo tem a sua medida e repercussão. O descuidado tropeça com frequência. O arrogante afirma que domina o mundo, com sua vaidade. Nem tudo é tão visível. O futuro é  uma extensão do que tecemos, dos entrelaçamentos que criamos. Os times se perdem quando se metem a explorar o individualismo e consagrar as manobras de bastidores. É o jogo do avesso, do lúdico, sem luzes.

O coração bate em resposta aos desafios da vida. Silencia, quando percebe que o sangue da emoção foi trocado pela frieza dos negócios. As lágrimas não significam apenas dores. Trazem sintonias, despertam a força do coletivo. O mundo vai de acordo com os testemunhos de alegria. O esporte, de derrubar os outros e gritar vantagem, faz morrer o encontro com a superação e a escuta do coração querendo romper com a mesmice. Quem se assanha com o seu sorriso no espelho e sua indiferença ao desandar dos outros, fotografa a imagem desbotada, presa no mercado dos interesses.

A grana tumultua e desmonta a força dos clubes

Ninguém é ingênuo no mundo da bola. Todos sabem que manobras existem em todos os sentidos. Lamentações são feitas, pelos mais apaixonados. As torcidas padecem. São as primeiras vítimas. Pensam em disputas valorizadas pelo amor ao time. Gritam pelas suas cores. Vão aos estádios fervendo de emoção. Consagram ídolos. Ganham o dia com a vitória e uma grande ressaca com as derrotas. No entanto, os desmantelos dos jogadores têm mexido com muita gente.

Há reviravoltas impressionantes. Partidas sensacionais são acompanhadas, em seguida, por desastres surpreendentes. O jogo é escorregadio, mas os abalos deixam a desconfiança se estender. Sente-se uma falta de motivação, que age como uma epidemia. Os times despontam, ensaiam aventuras gratificantes, depois ficam lutando para não fugir do último lugar. Os atrasos salarias recebem comentários negativos e muitos jogadores transferem-se para outros clubes.

O polêmico Luxemburgo está, agora, no Flamengo. O seu coração bate mais alto. O rubro-negro merece, para ele, uma atenção especial. Promete mudanças, perspectivas diferentes e renovar. Mostra-se triste com os vícios que derrubam o entusiamo dos atletas. Não poupa palavras. Considera que os empresários dominam o pedaço do futebol, com uma presença desestruturante. São vistos como os donos informais do poder.

O que Luxa afirma não é novidade. As notícias correm e assinalam o valor da grana. O capitalismo não sobrevive sem negócios. Alguém desacredita nessa sede de lucros e de interesses? Deconhecer o vaivém do mundo só traz frustrações. Achar que aquelas camisas repletas de anúncios são inocentes, apenas ornamentos sem significados maiores, é fugir da realidade da luta, para acumular dividendos. Até nas eleições o capital entra com todo fôlego, o canto das mercadorias se torna sedutor, quando a ética deveria ser  soberana nos projetos  de cada candidato.

O desejo esvazia as reflexões. A morte da crítica é um perigo. Fica o império da fofoca, da futilidade sem preço, dos rótulos sem conteúdo. A contemporaneidade descarta tradições, mas faz valer sua ambições individualistas. Não pode fugir das travessuras do reino dos cartões de créditos ou das astúcias das crises fabricadas.Salvar a economia pela exarcebação do consumo é uma ameça. No futebol, o craque que surge, recebe contratos milionários e se sente poderoso, sem, nem ainda, ter tirado as fraldas.

Muito bom  que o  debate se espalhe. A transparência promove o esclarecimento. Os esconderijos evitam maior liberdade de informação. Os desencontros são propositais e as situações dos clubes revelam precariedade profunda. Amedrontam-se diante da pressões, pois suas administrações não se tocam com as armadilhas. Querem festas imediatas, mesmo que os escândalos tomem conta das manchentes, dias depois.

Sempre insistimos. Não adianta olhar a sociedade, como fragmentos soltos.Isso favorece a concentração de vaidades e de espertezas. Futebol, política, invenções, desenvolvimento, tudo  tem seus lados de convivência. Não há uma soltura ou uma irresponsabilidade enganada. Quando tecemos o manto que encobre os atos sociais, com um pequeno esforço, vemos como suas linhas são íntimas. Denunciar é uma saída. Mostrar como os negócios se costuram ativa a lucidez e o coletivo.

As vitórias do coletivo: o vôlei do Brasil e os mineiros do Chile

 

Ganhar traz, no geral, alegria e otimismo. Pode trazer enganos ou distrair avaliações negativas. Depende do momento e dos rumos tomados, pelos vencedores. A decisão acontece, mas suas repercussões se multiplicam. Seus atores principais não conseguem acompanhar todos os seus desdobramentos. Faz parte da artimanhas da cultura. Não faltam amadilhas, nem abismos profundos.

A seleção brasileira de vôlei jogou partidas extraoordinárias contra a Itália e Cuba. Foi uma dança fatal para seus adversários, perplexos com o domínio verde-amarelo. Astúcias nos saques, contra-ataques rápidos, raça no ânimo, técnica esmerada no passar da bola. A torcida da casa ficou sem ação. Esperava ver a Itália assumir a ponta, deslumbrar e intimidar o Brasil. O tiro saiu pela culatra. Teve que reconhecer nosso estado de graça.

Os cubanos haviam vencido na fase anterior. Possuem uma seleção nova, com uma força impressionante. É preciso cuidado, pois são arrasadores, quando pegam o eixo das articulações. Nada feito no domingo, diante da vontade brasileira. Todos merecem homenagens, pela coragem e concentração. Murilo, Rodrigão, Vissotto, Bruno extrapolaram, mas a dimensão coletiva é importante. O vôlei requer solidariedades constantes, agilidade no raciocínio, sensibilidade para entender o olhar do outro.

É muito diferente do futebol. No vôlei, não há espaço para o jogador se omitir. Custa caro querer ficar disperso, sem se ligar na força do conjunto. Quantas partidas assistimos de futebol com atletas alheios ao que se trama ? E o goleador que termina marcando seu tento, transformando a maldição em heroísmo? O acaso está mais presente e provoca controvérsias. As reclamações pontuam muito a fala dos times fracassados. Observem as entrevistas feitas e as respostas dadas pelos atletas.

No Brasil, o vôlei vem garantindo fãs , em todos os sentidos. Há renovação, os títulos se sucedem. Bernardo é uma liderança indiscutível, envolvido com sua equipe, no ritmo exaltado do coração. A seleção havia sofrido com a derrota contra a Bulgária. A ética foi para o mato. Consagrou-se a facilidade. Alguns se abateram. O desandar do comprtamento ameaçava trazer decepções. As suas  últimas atuações responderam, com firmeza, às dúvidas lançadas , pois o brio e a concentração se pontificaram.

 A sociedade possui  lugares, onde o exercício do coletivo é fundamental. No deserto de Atacama, norte do Chile, outras relações humanas se entrelaçam. As comemorações festejam o quase fim de uma odisséia. Nem tudo está resolvido, porém o caminho está aberto. Os familiares dos 33 mineiros já esboçam um sorriso. O trabalho é intenso. Desde o dia 3 de 8 de 20010, eles estão enterrados vivos.  A sonda T-130 completou a perfuração de um duto. Ela funcionará como a difícil trilha da liberdade. Não sem riscos.

Aventura sem igual. Muitas sutilezas técnicas exigem atenção. Os sobreviventes vivem tensões psicológicas agudas. A instabilidade flutua, entre a esperança e o desespero. A mineração é uma atividade, sempre, cheia de desequilíbrios. Compõe as situações de explorações que comandam as vivências capitalistas. Valeram a mobilização e a coragem.Têm um conteúdo especial para se pensar a política, longe dos debates superficiais.Fortalece a dimensão da alegria de socializar as vitórias.A cultura frutifica atitudes diversas e não apenas o individulismo da competição.

O mundo agitado das notícias e a circulação da bola

Fica difícil mergulhar no vaivém do cotidiano. Os meios de comunicação correm, numa velocidade descomunal. Que tempo temos para fazer uma reflexão, afagar uma notícia, avaliar seus impactos? Vale a sede da quantidade. Então, tudo vira uma grande mistura. O espaço da pausa sumiu, o raciocínio é um suspiro e a vida  se oferece de forma passageira. Parece que estamos entregues à visão da superfície. Somos educados para poucos alardes e uma docilidade improdutiva.

Silenciar não é o caminho. Prefiro cultivar voos rápidos do que naufragar nos restos de um copo d’água. Vejo os jogos na televisão e me pergunto se acontecem num estádio único. Os comentaristas não sabem no que inovar. Tudo fica por conta do poder da imagem, pois a palavra mostra exaustão.O detalhe é assumido, como o dono do pedaço. Portanto, a profundidade morre na primeira padaria comprando a sobra do pão francês.

Um pouco de  ruído assanha as lembranças recentes. O Timbu continua moribundo e o Sport perdeu mais uma chance.Não dá para explicar o que acontece. Profissionais estão mais deslumbrados com os contratos e transferências do que com o toque da bola. Assusta. A volúpia da propaganda desfaz o principal e atiça as instabilidades emocionais. Na onda da derrota, o Atlético Mineiro sofreu mais uma. Dorival que se cuide.

Quase não se fala sobre o desgaste físico dos jogadores, na maratona do Brasileirão. É preciso que haja espetáculo. Não se ressalta a exaustão do corpo. São muitas contusões que impedem melhoria do times. É uma alienação gigantesca, em nome dos negócios e das trocas. No final de semana, algumas vitórias alteraram a classificação. O Cruzeiro é lider; o Corinthians continua desconjutado, tendo a companhia do Fluminense, com problemas visíveis. Uma corda bamba inquietante: Botafogo empatou com o Palmeiras, mas São Paulo, Santos e Ceará venceram. Muitos impactos nas torcidas esperançosas.

Na outra margem do rio, a eleição ressuscita temas de fundo religioso. Será que isso? Não é uma concepção de política que se afaste muito do que vemos no futebol.  Reaviva-se o desejo inconciente de salvação. De repente, as igrejas  passam a definir votos. Gozam de uma força  inesperada nas alianças decisivas do resultado definitivo. Ninguém se recorda da democracia e dos debates sobre a sociedade e seus modelos de vida ?

 Os candidatos seguem o que clama seus eleitores. A pedagogia deixa de ser moradia da política. No fundo, todos querem livrar-se do pecado, nem que seja na urna eletrônica. Quando se pensa as várias arquiteturas do social, evitamos muitas banalidades. Há uma preguiça que adormece o impulso de ultrapassar limites. As responsabilidades sobre as coisas, mais pertinentes, se fantasiam.

A infantilização é avassaladora. Nada contra as crianças, nas suas idades tão poéticas. O sério é o que tempo se adianta e as pessoas não se ligam. Divertem-se na internet com assombrações e boatos medievais. Num mundo do virtual, o espelho da vida se torna uma nota de compra e a carência afetiva a trilha para farmácia da esquina. O barco da solidariedade medita sobre os fazeres da solidão.

O futebol na semana das orações e da maçã verde

    

A eleição foca os debates, mas o futebol não perde sua vez. O Brasileirão, série A, segue sua trajetória. As partidas ficam mais decisivas e todo cuidado é pouco. Alguns apreensivos, com o perigo de segurar a laterna, e outros organizados para não deixar o título fugir. Os jogadores parecem mais envolvidos, sabem o quanto vale uma boa classificação. Como a vontade de ver a moeda tinindo motiva, o investimento pessoal também ganha dimensões aceleradas. É claro que há outras questões que levam a busca de cada um. Ficar preso aos salários é muito mesquinho.

No entanto, as notícias são variadas. O caso Bruno continua se arrastando. O drama se agudiza  e os esclarecimentos são limitados. O goleiro vem apresentando-se depressivo, com a saúde abalada. A pressão é grande. Muito mistério que se prolonga, melancolicamente. O preço da fama é traiçoeiro. Da riqueza, aparentemente, poderosa, ao descaso público. Isso desmonta qualquer um, considerando os limites e as ambições individuais.

A luta pela conquista do título é acirrada. O Corinthians vive problemas de contusão constantes. Fica complicado armar o time, com sucessivas mudanças. As vitórias não acontecem, como antes. Ronaldo,  ainda no banco, cria polêmicas. Muitos esquecem que a função básica dele não é jogar, porém, chamar atenção para as propagandas e os negócios. Seu talento é imenso. Isso é inegável. Dentinho e Jorge Henrique estão, também,  afastados. Esses problemas médicos geraram desencontros entre as opiniões dos jogadores e o comentarista Casagrande. Clima tenso.

O Fluminense foi surpreendido, pela rapidez dos meninos da Vila. Muricy não se conforma. Poderia está folgado, na ponta da tabela, no entanto a equipe não dispara. A volta de Fred não foi bem sucedida. Outro problema físico a ser resolvido, atormentando o clube, devido à sequência de partidas. O futebol é um espetáculo de ritmo quase diário. Alimenta jornais e tvs com sua movimentação. Além disso, as torcidas adoram beliscar as fofocas, encher o ânimo de expectativas. Tudo atiça  sentimentos. Vamoo ver que o domingo nos reserva.

Por outro lado, o São Paulo se deu bem com a presença de Carpegiani. Os elogios estão vindo de todos os lados. O Flamengo se ajustou, inicialmente, aos projetos de Luxemburgo. Ele revela seu encanto com o retorno a Gávea. Quer ressuscitar, ser manchete e não abandonou o plano de trilhar o caminho da seleção. Mano Menezes mantém-se,  já na segunda vitória. Mas Luxa é esperto, possui muitos admiradores e a simpatia de  Ricardo Teixeira. Nesse mundo do efêmero, acontece peripécias de todo tipo.

A discussão maior está na política. Como deveria ser sempre. Marina não se define. A sua palavra vale cores. Ela não quer sair esvaziada  da mídia. Controla-se para não cair nas armadilhas.  Boatos, invejas, preconceitos, tudo habita o mundo da política. Seria melhor que surgissem projetos sociais eficazes, mais cuidado com a solidariedade e o afeto. A virtude da política é o apego à cidadania. Esqueceram ou preferem o narcisismo dos cargos?  A guerra santa atua e a culpa sempre lembra o vermelho da maçã.

A saudade embala o tempo, a vida, a memória

Há pessoas que ficam. Criam seus pactos com a eternidade, de forma diferente, mas com uma força afetiva marcante. Outras desaparecem e morrem, sepultando lembranças e passados. Não basta formular pensamentos, divulgar invenções, organizar rebeldias. Os traços de cada um vão desenhando figuras que acompanham a vida. A memória acede o coração e nos move nos mistérios inusitados.

Hoje, Lennon faria setenta anos. Muitos diriam, uma idade redondíssima. Suas polêmicas estiveram, com densidade, presentes nos 1960. Tradições tremiam e os mais conservadores reagiam com violência. Lennon e os Beatles permanecem na agenda da contemporaneidade. Há muita lenda, exageros, mitificações. Isso compõe um mundo carregado pelas investidas da mídia. Não é novidade. O território está aberto para confusão contínua, entre verdades e mentiras, máscaras e éticas, solidariedades e hipocrisias.

Lennon meteu-se em muitas controvérsias. Sua música, junto com seus companheiros, provocava sintonias de outros sons. Expressava desconforto para os conformados, porém mexia naqueles que desejavam uma sensibilidade mais solta, sem preconceitos. O capitalismo se afirmou enchendo a sociedade de burocracias e coisificações. Com sua arte, Lennon desafiou, revelou que havia muitos caminhos.

Aliás, os chamados anos 6o ferveram, no campo da cultura. Era a busca de fixar a imaginação no poder. Houve choques incríveis. As religiões se abalaram e a velha política caiu no abismo. Não subestimemos, porém,os que se apegam às hierarquias e ao autoritarismo. As relações são complexas e muita gente fala em nome de Deus e da segurança. Quem esquece as atribulações do golpe de 1964 no Brasil ? E o conflito no Vietnã com os Estados Unidos ambicionando dominar tudo? Terminou sofrendo uma derrota histórica.

A vontade de mudar era motivo de expansão de hábitos renovadores. Lennon não foi estranho a tudo isso. Mesmo, quando os Beatles se separaram, manteve sua vida com sentidos de paz e influenciando seus admiradores. Seu assassinato foi um choque. As loucuras contemporâneas permitem esquisitices, nunca esperadas. Os ídolos são visados, pela adoração e pelo ódio escondido. O caso recente de Neymar assinala bem as dissidências. Alguns ídolos ameaçam e perturbam, outros estimulam correntes de sentimentos mais profundos, para os que se inquietam com a mesmice.

Muita coisa se foi ou se perdeu. Seus registros se esfumaçaram. O capitalismo continua esperto. Sua capacidade de esvaziar protestos e ornamentar as vitrines é incrível. Muitos que expressaram contestações viraram objetos de troca e venda. Lennon não escapou dessas armadilhas. O sistema é enganador e traiçoeiro. O que ele fez, recebeu, depois do sucesso,  uma valorização destacada do mercado, mesmo que condene seus contéudos consumistas.

É sempre bom não deixar a crítica de lado. A dominação não perdoa quem   desconfia dos seus modelos. Lennon sabia disso. Sua obras mostram  insatisfações. Hoje, vivemos essas questões: nos confrontos políticos, nos histerismos religiosos, nas avaliações narcísicas. Não faltam os que denunciam, sem compromissos, com uma gratuidade cínica.Não custa ressaltar que embalos dos tempos se misturam. A disputa é contínua. O sociedade, infelizmente, fortaleceu e sacralizou ações mesquinhas.

O perfume, o charme, a travessura, o jogo da vida

O perfume da vida não tem apenas lugar no corpo. Ele se espalha, nas esquinas e  na contramão da avenida principal. Não acredita ? Acampanhe essa história. Na programação dos filmes da semana, anúncios de muitos mistérios. Fui assistir Igor e Coco Chanel, mas fiquei de olho no sorriso de Julia Roberts. Ele deslumbra as estrelas do firmamento, inverte as ordens do coração. Interessei-me, porém, pelo casal e suas possíveis aventuras.

Chanel desfila, não anda. Inunda a tela, com um charme de quem passeia num tapete mágico. Não se limita às travessuras da beleza. Não mascara seu pragmatismo. Igor treme nas bases. Desmantela-se. Compõe para aguentar a sedução. Chanel quer o perfume que se mantém. Mercadoria rara, mas fascinante. Joga com a vida, não se importando com a mágoa dos outros. Estende-se para o futuro.

Igor, o compositor, suspira. Consegue que A Sagração da Primavera seja aceita. Supera o fracasso da estreia. Sua música assustou os comportados. Cortava a linha do tempo. Tinha parceria com as figuras de Picasso. Era de um mundo de guerras e de revoluções. Começava o século. A desvastação se pronunciava como um juízo final. O capitalismo queria novas colônias. Os artistas desmontavam regras . Os discursos das vanguardas se sucediam.

O cinema traz o diálogo com o passado. Possui suas sintonias, com o tempo, e revela suas permanências. O desejo de mudar não se desfez. Saímos das imagens, para o mundo, com sensações parecidas. Será o perfume das ontologias ou a ressureição dos deuses do Olimpo? É difícil ocultar relações com as mesmas vestimentas. Chanel e Igor vivem uma paixão inventada ou reproduzem o que se alarga pelos cantos de cada escada e de cada quarto?

O jogo da vida não permite interrupções. Talvez, a morte seja um descanso premeditado, pela astúcia de um Grande Mágico. Ganham-se espaços, mas os espelhos não conseguem fotografá-los O cinema se mistura com o que se passa no palácio do rei da antiga Pérsia. A continuada trilha de lamentos de quem, um dia, perdeu o paraíso. A dissonância de Igor Stravinsky se choca com a harmonia de Mozart ? O charme de Coco Chanel some diante do sorriso de Julia Roberts? Por anda a sutileza?

Não faltam objetos diferentes, cheiros de todas as flores, memórias de todas as alcovas. A televisão repete cenas exaustivamente. Vemos um gol,quantas vezes a vontade admitir. A repetição é tão intensa que achamos, em cada imagem, um detalhe especial. Salve-se quem puder entrar na ficção e  na virtualidade. Os fundamentos distraem os reflexivos e testemunham a fé na eternidade. A relatividade do absoluto está no cofre da Bolsas de Valores.

Eis uma questão da existência humana que confunde a travessia de todos: por que pensamos na transformação se nos apegamos à essência do perfume da mesmice ? Compro Chanel número 5 na importadora do shopping, ouço A Sagração da Primavera no home theater da sala, assisto aos jogos de futebol  nas telas enormes das LCDs. O charme, eu invento com as palavras que sonham no papel, como o beija- flor se encanta com  a rosa vermelha do jardim.

Os ídolos e o passado envolvem o tempo e as paixões

Os  ruídos compõem a sinfonia da história. A dissonância não é inimiga da cultura, como também os silêncios e as carícias das brisas. Pensar na harmonia não é uma loucura. Ela é, porém, presença rara na sociedade contemporânea. Na pressa da convivência, as soluções clamam por urgência, nem sempre, por bom senso. Temos que criar modelos de comportamento. Existem os mitos, as crenças religiosas, os ídolos profanos, os mantras da salvação.

As sociedades tradicionais não se afastaram do ritmo das fantasias. Elas tinham outras configurações.Mas quem viveu sem adorações, sem inventar santos e heróis? Redesenham-se as linhas de ligação com o sagrado. Se, hoje, persiste o consumo, não significa que as preferências por certos mistérios findaram. Não há um progesso inevitável. Tudo se mistura. A nostalgia não fugiu da ficção e o passado pesa nas curvas  do corpo.

Os ídolos estão por aí. Soltos no mercado e nas mentes humanas. O cinema fabrica os seus, o futebol não sai da cena e a política reafirma seus ideais. Cada época constrói seu altar e seus ornamentos. As orações variam de acordo com o tamanho da idolatria. As torcidas levam cartazes, cantam gritos de guerras, aproveitam a vida e suas cadências. Há fracassos, insistências, fenômenos, fazeres ocultos.

Romário e Bebeto voltam a formar uma dupla de ataque. Nem todos conseguem, porém, o feito de Tiririca. Simone não teve cacife para transformar sua caminhada, nem tampouco o polêmico Vampeta. No entanto, a ida para política não atrai a grande maioria. Alguns preferem manter-se no seu lugar, cultivar a prudência. Temem descortinar insucessos. O risco possui rostos estranhos.

Lembro-me dos anos 1960. O golpe militar desfigurou as utopias, porém não apagou os ídolos. Os protestos se fizeram atuantes na música, na literatura, nas reuniões clandestinas. Lá fora, em muitos lugares, explodiram rebeliões contra a mesmice e proclamando o valor da imaginação. Acompanhava os protestos e os sentimentos. Beatles traziam mudanças nas sintonias, Woodstock abalou os alicerces cansados das  tradições. Os desejos ferviam na pele do universo.

A dureza da censura não impediu que as conspirações se prolongassem. Ninguém pode se fechar, sacudir a chave fora e dizer que a esperança desapareceu. A cultura é, também, um jogo. Não há garantia de permanência nas regras, porque a instabilidade não deixa decretar o fim das inquietações. Morrem ídolos, aparecem outros. Nietzsche, no século XIX, era um desconhecido. Agora, sacode as reflexões pós-modernas. Desadormece conceitos e interpretações.

Muitos ainda se movem como vivos ou mais do que os vivos. Elvis Presley encanta fãs de épocas diferentes. Marx serve de base para críticas ferrenhas ao capitalismo. Chaplin e Felinni guardam seu lugar no cinema. Sentam-se na primeira fila. Quem não se deleita com os acordes de Mahler, o jazz de Mile Davis, as audácias musicais soberanas de Piazzolla? Apagar certos ídolos ou não perceber que, na vida, pulsa transcendência, é diminuir o sonho. O sol cabe na mão de quem toca o mundo com os olhos. Mantenha-os abertos.