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O museu de tudo: futebol, arte, literatura, vida

A palavra museu é mal compreendida. Muitos a ligam a instituições que devem guardar as coisas velhas, desalinhadas. Elas tornam-se lugares frequentados por uma minoria. No entanto, nem tudo está perdido. Há referências a museus que são elogiosas. Há um público que se delicia com suas coleções. Em certos países, eles já entraram no circuito do capitalismo. Nos Estados Unidos, na França, na Inglaterra, possuem prestígio e financiamento. Não são, apenas, uma caixa de antiguidades estranhas.

Gosto da palavra museu. Tem uma sonoridade que me atrai. Seus significados lembram-me Benjamim, o pescador de pérolas, com o bem definiu Hannah Arendt. Sigo, portanto, sem preconceito, arquitetando meu museu de tudo, em homenagem ao poeta João Cabral, também vinculado as suas trilhas. Armarei um jogo divertido, com entrelaçamentos surpreendentes. Brincarei com a memória e a sensibilidade.

Recordo-me do ataque que tinha o Santos: Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe. A bola rolava com elegância. Cada passe era um afeto, um diálogo renovado. A marca do gol se fazia presente. Instigava os atores. Dorval incomodava os laterais. Mengálvio distribuía o jogo. Coutinho tinha uma inteligência rápida. Seu companheiro, Pelé, dispensa comentários. Pepe era avassalador. Chutava como poucos. Ver esses cinco dançarem nos estádios deslumbrava, acordava todos os mágicos aposentados.

Mas quem não conhece futebol, sentirá falta de algum toque. Não custa , então, estender outros  conjuntos. Imaginem um concerto com composições de Chopin, Vivaldi, Mozart, num teatro aconchegante e tradicional. Eles nem se conheciam. Pouco importa a visão física do corpo. Para além do material, há invisibilidades poderosas, fora de qualquer menção aos espíritos religiosos. A simultaneidade nos traz essas articulações dos tempos de forma contínua.

Mas se você não se fascina com a música chamada erudita, viaje. Quem sabe um recital de música popular brasileira com Chico, Caetano e Gil. Como tudo está no território do sonho, convoque o maestro Tom Jobim e se espreguice na poltrona. Sacuda o pó das resistências. Apague as sutilezas das mágoas. Peça a Penélope o manto que fez para Ulisses. Ela não se negará. Talvez, queira, também, ouvir alguns acordes e se desfazer das amarras do passado.

Ainda se queixa. Não há problemas. A cultura foi inventada, para nos acudir e atiçar nossas apatias. Prefere a contemplação das cores. Tudo bem. Coloque-se diante do cubismo de Picasso ou mesmo busque se encontrar nos traços de Salvador Dali. Adormeça no colo das imagens. Acha pouco. Que tal uma ida nas fantasias dos impressionistas ou mesmo um olhar mais histórico nas pinturas renascentistas ? Opções sobram e seu desejo comanda a extensão do seu museu.

Não sossego, pois o espaço é pouco. Se a experiência merece atenção especial, leia os romances de Victor Hugo e  de Hemingway ou entre   no mundo literário de Italo Calvino. Citei pouco e cometi omissões de um colecionador. Cada um construa sua arquitetura de vida, sem afastar-se do sublime da beleza. Nietzsche insistia na força da arte na feitura da vida. É uma pena que não tenha assistido aos dribles de Garrincha. Com certeza, o celebraria, como Dionísio.

A pedagogia das derrotas e as curvas das dualidades

Quem pensa que há um fim para tudo, pode enganar-se. Nada nega que as aparências escondem muita coisa. Quando o mundo será transparente, como prometem religiões, políticos e intelectuais? Profecia difícil e preocupante. A sombra e a luz se complementam. Não se estranham. Mudam de lugar e de forma. No entanto, tocam nos olhares dos humanos de diferentes maneiras.

O amanhecer do dia não significa que tudo se resolveu. O sono é, também, movimento misterioso, sede de acontecimentos pouco iluminados. Acordamos com pressentimentos. Ficamos refletindo, antes de tomar impulso para a vida cotidiana. Criamos roteiros, balançamos a memória. Ontem, meu time perdeu, minha namorada nem telefonou, meu filho criticou a organização da família. O amanhã possui tintas do desenho do passado.

O tempo não requer linha reta, mas curvas, sinuosidade e disposição para fugir das inércias e dos acordos mal definidos. Por isso, não esqueçamos que a vida está  plena de pedagogias. Não imagine ser senhor de todos os saberes, nem que as máquinas aliviaram todas os escorregões, apagando os dissabores. Aprender é ato fundamental. Aprofunda e conecta as multiplicidades. Ganhar, apenas, é momento, não garante permanência de alegrias ou descanso sem prazo de finalização.

A cultura é uma invenção que segue adiante, na medida que esticamos e diversificamos nossa autonomia. Temos futebol, paciências, partidos políticos, Charles Chaplin, Kant,  tensão, borracha, física, sortilégios… Não faltam palavras. Para cada invenção, um nome e seus significados.A linguagem tem corpo e sangue, com diria Otavio Paz. A surpresa assusta. Mas imaginou uma sociedade da mesmice, dormindo na eternidade de um caminho sem pedras, nem abismos? Não haveria reclamação, desespero, monotonia?

São perguntas. Trata-se de um jogo, da especulação que não é gratuita, mas alicerça a inteligência e a vontade de transformar.Isso não é dualidade. Os extremos tem brilhos especiais. Não vamos medir, com fita métrica , a distância entre o bem e o mal. Eles são históricos e não resultados de campanhas políticas. A flutuação do cosmo garante navegações inesperadas e os sentimentos vestem os corações. Nada está pronto. O inacabado é um vizinho que bate na sua porta sem cerimônia.

A visão do apocalipse surge, quando o mundo está nublado pelas incertezas. São guerras fundamentalistas que aproximam a religião da política, festejando o maniqueísmo primário e infantilizante. O medo não escapa da pedagogia. Ela não tem um alvo único. Ensina-se tudo, dependendo do tamanho da ética que se adote. No esporte, no amor, na diversão, na ciência. Há escolhas pragmáticas, de mentes ajustadas para as fortunas metálicas.Há escolhas solidárias, de mentes soltas para compor a leveza do mundo.

A mentira e a verdade passeiam pela sociedade. Sabem que recebem olhares. Sabem que são construções humanas. Não existe um dia em que não circulem. Giram. Escandalizam. Enternecem. Desmontam. Quem faz da vida o apagar das experiências, o explodir das novidades, a entrada em cavernas avulsas, expulsa a emoção e se prende ao futuro. Sem pertencimentos, somos menos do que bolas de papel. Destruindo dúvidas, acreditando na onipotência do google, desprezando as astúcias de Duchamp, esgotamos o desejo de ser arte.

No mundo do futebol:contrapontos e decisões

O Brasil envolveu-se com a eleição, mas o futebol não parou. As torcidas não se escondem. O fracasso, na Copa da África do Sul, trouxe vontade de renovação. Os esquemas de antes não funcionam, derrubavam esperanças e montavam polêmicas vazias. Mano Menezes assumiu a seleção com outros objetivos. Destacou os mais novos e prometeu diplomacia nas relações com a imprensa. Foi recebido sem contrapontos.

Escolheu seu elenco e segue segurando sua difícil missão. Agora, vem o jogo contra a Argentina. Um teste mais provocador, para avaliar como anda a preparação. Chegam as críticas. Reclamam de certas omissões. Robinho continua soberano. Parece o grande líder do grupo. Dizem que passa experiência. Ajuda na composição da sinfonia da mudança, embora não seja mais um menino da Vila. O que se fala é que faz tempo que o ex-santista não atua com arte. Escora-se na fama do passado.

Ronaldinho volta ao cenário. A seleção carece de meias. Ele conquistou à simpatia de Mano. Muitas conversas, dissidências de parte da crônica, mas retorna aquele que parecia ser inesquecível. Suas partidas , no Milan, ainda não convenceram. Instabilidade e certa apatia não estimulam o sonho de vê-lo em forma, como no começo da sua carreira. Há algo nas especulações que firmam mistérios. Isso é comum no futebol. Craques transformam-se em ídolos e depois vegetam no ostracismo.

A grita maior se deu pela não convocação de Hernandes e Marcelo. Os dois estão atraindo um fã-clube crescente, devido as suas atuações na Lazio e no Real. Não foram chamados. O técnico traça o caminho. Suas experiências trarão esclarecimentos mais profundos sobre suas escolhas. No entanto, já se nota barulhos e desconfianças. Ser comandante da seleção é morar em um território sem fronteiras. Todos desejam um pedaço, para construir suas habitações.

O quente está na disputa do Brasileirão. Não houve empolgações fascinantes. Não surgiram talentos excepcionais. Domina a mediocridade, com poucos lampejos de alegria. O que  impressionou foi a dança dos professores. Alguns obtiveram êxito com as trocas de times, outras permaneceram esquecidos e desprezados. O futebol é cruel. As vitórias sinalizam lucros e patrocínios, portanto quem foge do padrão, sai do palco.

O Brasileirão tem sua série B, onde o embate do chutão se alarga, pois aí a arte não consegue lugar. O Náutico e o Sport vivem suas amarguras. Hesitam para a intranquilidade geral dos torcedores. O Timbu teme a desclassificação.Seca adversários. Roberto Fernandes não sosega. Compromete-se com a saída do sufoco.  Por sua vez, Geninho busca o avesso. O Leão encanta-se com a possibilidade de ir para série A. Enfrenta vacilações. Ontem, o Timbu perdeu e o Leão rugiu.

O futebol contempla muito dos fazeres da cultura. Revela tramas, desenha sentimentos, formula diferenças. Depois da tanta discussão  política não custa pensar como as relações são complexas. Sabores e saberes, éticas e estéticas estão visitando e incomodando os que, apenas, se espreguiçam. Quem cultiva preconceitos não tira os olhos do chão. As veias abertas, para o mundo, são sinais de que o coração bate, sem os desprezos dos ressentidos.

Há sempre a busca e a escolha sacudindo o tempo

Nada como uma boa cadeira de balanço, acompanhada por um olhar que contempla uma paisagem de cores claras e penetrantes. Concentra a paciência e instiga a reflexão. Depois do agitar de dias corridos, deixar de lado a inquietação é mais do que humano. A vida não tem roteiro determinado.Podemos traçar certos cenários. Os dramas acontecem, as lágrimas limpam  dores, as vitórias se abraçam com alegrias. Não há inércia total. O mundo se sacode, quando menos esperamos.

Sou torcedor do Santa Cruz. Se perguntarem as razões, não saberia esclarecer. Os sentimentos não têm medidas cartesianas. O envolvimento, com o futebol, passa por essas incertezas. Talvez, meu avô materno, tricolor silencioso, me mexeu com seu afeto e decidi fazer um pacto com a Cobra Coral. Sei que é algo repleto de surpresas. Há amarguras e desprezos, mas também sorrisos e esperanças. Foi uma escolha definitiva.

Na política, não é diferente. Há mais racionalidade, discursos montados com perspicácia e desejo de findar com as desigualdades. É uma opção mais trabalhada, onde o afeto possui o seu lugar. Nas campanhas eleitorais, tiramos dúvidas, reforçamos posições, ampliamos sonhos. O que mais me comove são as parcerias. Fugir da escolha individual e me cruzar com o coletivo. A ética é ponto básico.

No entanto, recordar as falhas dos projetos e a mesquinhez que, às vezes, perturba as pessoas, remove a ilusão de que, um dia, tudo consagrará paraísos exuberantes. A neura do juízo final e do destino não alimenta busca saudáveis. Expande preconceitos. A crença de cada um é a crença de cada um. Todo respeito é grandioso, quando se veste de solidariedade. Cinismo e arrogância desfazem a comunhão, no sentido mais centrado da palavra. Os ressentidos desmontam esperanças e propagam medos.

Olhar o outro sempre é um ato difícil. Encontrar semelhanças, esticar compromissos, repartir experiências, tudo concretriza a profundidade das buscas. O mundo do consumo subverte valores e arquiteta infantilizações. É um perigo, no trato das relações sociais. Mistifica e favorece ao dualismo. Faz os 50 anos voltarem aos cinco, com se a propaganda fosse a cartilha mais justa do ABC. A alegrias fabricadas, nos laboratórios das fantasias mercadológicas, não se comparam com as brincadeiras dos circos de lona e das crianças fertizando suas imaginações.

Não me canso de criticar a lógica da acumulação e a paixão mecânica pela quantidade. A idéia de progresso e a loucura desenvolvimentista distraem o conteúdo das escolhas. Destruir, em nome da sofisticação tecnológica, é caminho para se afundar no pantanal. Encantar-se com hora seguidas de trabalho, em nome dos cofres recheados, pode levar ao descaso com o coração.

Não é à toa que a indústria farmacêutica cresce e a sensibilidade treme, diante da insensatez do utilitarismo.O meu Santa está se movimentando, com o presidente cheio de promessas. Isso não significa escapar do marasmo de anos. Não custa apostar na volta de times motivados e no apego a títulos conquistados com arte. O Brasil escolheu ou ratificou a continuidade de certos caminhos. Falta muito, para o Santa e para o Brasil. As buscas e as escolhas também nos pertencem.

Maradona, Lula, Serra, Dilma: a vitrine do poder

Os nomes acima estiveram presentes nos meios de comunicação, com uma insistência permanente, desfilando suas vontades de poder.Chamavam leitores. Tocavam fogo nas opiniões. Multiplicavam paiões Mexiam com os indecisos. Transformavam-se em ídolos ou aumentavam o índice de antipatia pessoal. Figuras polêmicas. Ninguém vive sem notícias. Mesmo na época da falta de alfabetos, falar do outro era comum. Somos animais sociais, por necessidade e por prazer. Como viver a vida sem discutir o coletivo ou as virtudes e erros de cada um.

O tempo ensina e sacode verdades. A impaciência é uma constante, numa sociedade que gostaria de cultuar, sempre, a velocidade de um avião. Rebeldia, hoje, é ter paciência, contar as horas nos dedos, não se escravizar com a internet, alargar os momentos de preguiça. Mas e a grana? Pode ser acumulada sem esforço? Tudo não é mesmo mercadoria ? Quase não existem feriados. Trocar é o movimento maior, para que o ânimo se mantenha, mesmo que a saúde mental se desmanche. Deixa rolar. Não vamos estimular muita reflexão. Causa gastrite e incomoda. Respeitemos o caminhar de cada um.

Maradona fez 50 anos. Continua polêmico. Não hesita diante de um microfone. Procura imagens. Jogou muita bola. Craque sem igual no futebol argentino. Sua controvertida trilha não lhe tira os méritos de ser artista, de produzir o encantamento das gerações. É adorado, muito mais do que amado, por seus fãs portenhos. Dirigiu a seleção do seu país na última Copa, sem êxito esperado. No entanto, não escapa da mídia, nem quer ser esquecido.

Lula passou 8 anos na presidência do Brasil. Sua popularidade desafiou os institutos de pesquisa. Fez história, com suas obras e seus discursos inesperados. Poucos acreditavam que ficasse tanto tempo lá em Brasília. Representou a nação, tornou-se cidadão exaltado fora da nossa terra e recebeu elogios de vários cantos do mundo. Marcou mesmo os que, ainda, fecham a porta para seu governo. É claro que as carências são muitas, mas calar sobre as transformações não resolve.

Conhecer o que aconteceu, discutir, sugerir é assegurar que a política tem sonhos democráticos. A eleição lembra direitos e deveres. É festa, para fazer contraponto aos totalitarismos, mas traz meditação, pensar alongado, pois define para onde vão projetos, coragens, dignidades, devaneios. No final, a vitória de Dilma trouxe novas ousadias. Uma mulher no poder central, enfrentando resistências de muitos, como ocorreu durante as disputas dos turnos. O Brasil segue adiante, como muito coisa ainda pendente. Mas houve reviravoltas significativas.

Com a chegada de Dilma, Serra dá um tempo, depois de viver acirrados embates. Ficou com a marca de candidato do bem. Sua campanha poderia tomar outra configuração, porém  firmou um tecla perigosa. Caiu no maniqueísmo. Ágil e experiente, soube movimentar-se. Infelizmente, faltou um debate mais fértil, para todos. Sobraram utilitarismos estratégicos.Tudo merece cuidado e atenção. Repetir certos comportamentos e palavras ameça o fortalecimento de democracia. É preciso assimilar que o mundo tem cores e alegrias, como o quadro de Matisse. A vitória mostra a responsabilidade da escolha. É um outro começo.

Os espelhos de Alice não se quebram, somem

Hoje é dia de andar. Não olhe  para a cor do firmamento. Não se ligue nos desconfortos da preguiça, nem na ressaca da noite sem sono. Andar, aqui, é sinônimo de sonhar. Se sacudiram bolinhas de papel Chamex, se encheram os e-mails de boatos e calúnias, se quiseram consagrar golpes e medos, se os debates não esquentaram os ânimos, tudo isso se torna lembrança passageira, diante da imensa tatuagem que a política não cessa de desenhar em nossos corpos.

O importe é ter cuidado. Preparar a consciência, articulada com a sensibilidade, sem o peso das exatidões das matemáticas, meramente, classificatórias. Preparar o caminho, sabendo que não é único, mas que somos partes decisivas, do seu ponto de chegada e de partida. Não estamos solitários, nem o inferno são os outros, como disse Sartre. Repartir a vida é uma dádiva. Socializar projetos e alargar conquistas culturais merecem atenção contínua.

O voto não é o instante mínimo da arte. Estende-se como um concerto de Vivaldi. Possui melodia. É dançarino. Não mecânico, se agrega às permanências das ações sociais. Da sua firmeza e compromisso dependem anos de convivência e frustrações, diante dos azares das escolhas. Não há como fugir. A história nos pertence. É circo construído com as nossas lonas, com o nosso poder de divertir-se e desmontar-se.

Os tédios, os desencantos, as ansiedades, os desesperos, as paixões fazem a complexidade nunca resolvida dos corações e mentes, dos movimentos do tempo. A política não é estatística fria. É invenção humana. Seus dramas tem escritas imginárias, mas passam pela concretude das necessidade mais imediatas. Estão carregados de desejos. Somos nós e nossas personagens. Focar no egocentrismo é uma atitude menor, por mais que o capitalismo nos conduza a magia do consumo.

Alice resolveu enfrentar as maravilhas e as esquisitices de outros mundos. Não esquecia o que era ela, o tamanho da sua identidade e  o valor das respostas. Viveu a aventura sem se omitir. As relações somem, os espelhos mudam suas molduras, porque a aventura humana é incerteza. É jogo, fuga, fogo, voo, esperteza. A linguagem nos torna poderoso para falar de tudo, sem , contudo,  inventar a sentença final da história. Cabem as especulações.

Simultaneamente, podemos viajar e se desfazer do agora. Visitar as outras experiências. Imaginar a era das revoluções, a amargura das grandes epidemias, a insensatez da bomba atômica, o desequilíbrio arrogantes dos grande impérios, a vontade de afirmar o coletivo. Isso é um sinal de autonomia. Acende desejos e não sossega. O pertencimento ao cosmos é mistério, mas desaparecer das suas aventuras é mergulhar num oceano, apenas, de turbulências.

As luzes das estrelas  iluminam e não pedem nada em volta. O mundo se veste quando se concilia com o abraço. As astúcias de Ulisses circularam, com se nada tivesse começo, nem fim. Ilusão. Elas queriam nos dizer que nós moldamos na argila, o retrato do que a vida trará. Vale pensar. Andar é sentir que cada passo compõe um poema de carne e osso. Dele depende o desenho da coragem ou das asas da impaciência.

A história e a perfeição, Romário e a política

Afirmar que a perfeição é a negação da história deixa muita gente desandando. Parece uma parceria com o absurdo. Mas não há como negar a nossa incompletude. Buscamos sempre. A felicidade não se concretiza, depois de séculos de culturas e descobertas. Vivemos num equilíbrio instável, como disse Freud. O bom é que a história continua. Não houve desistência coletiva, o fôlego se mantém. Na necessidade e no desejo de preencher as lacunas , traçamos as curvas dos caminhos e seguimos, apesar das vacilações.

Não seria um exagero desconfiar das incertezas. As desigualdades permanecem. Há uma dificuldade de derrubá-las, pois as promessas e as profecias fracassam. Os desafios são constantes, desde os inúmeros mitos criados em torno do paraíso. Todos se recordam das tentações de Adão e Eva, das imprudências de Epimeteu, das coragens e medos de Édipo, das arrogâncias de Zeus. Não faltam escritas, nem memórias. Sobram divergências e rebeldias, na forma de interpretar os atos e as metáforas.

Não esqueçam que Platão não via, com muito respeito, os poetas. Sua República, idealizada, estava repleta de hierarquias. Dava conta das perguntas do seu tempo. Mais recentemente, outras contendas transparecem e ganham humores especiais, na filosofia e nas disputas mesquinhas. Maradaona catuca Pelé, com a vara curta, e provoca polêmicas exploradas, com prazer, pelos noticiários internacionais. Não reconhece as qualidades do Rei e o ironiza, com exaustão. Ninguém se cala nos bordados da cultura. O futebol é território fértil de idas e vindas. Uma fofoca vale milhões.

A incompletude faz com que as escolhas não sejam as mesmas. Corremos riscos. Somos aventureiros no traçado das trilhas possíveis da existência. Não temos a onisciência dos deuses. Nossos mantos podem virar tapetes mágicos ou farrapos de cartografias tecidas, com linhas desfiadas. Nada de planícies extensas, sem terrenos escorregadios ou moradias angelicais. A surpresa não se descuida de apontar por andam saídas inesperadas. As esquinas se submetem a sinais que abrem e fecham sem avisar. Há vulcões, oásis, florestas, mangues, oceanos… Cada momento pode ser o espelho do outro. Ventos e tempestades se anunciam, em dias de sol exuberante.

Não é para menos. Romário é ,agora, deputado, depois de uma longa perseguição pelos mil gols. Vai mergulhar em novas questões. Sua popularidade sofrerá abalos ou reconfigurações. Será que ele se vê fora dos tempos de ídolo e artilheiro das grandes torcidas? Com certeza, encontrá outras convivências, outras artimanhas. As expectativas e lembranças se diluem, cenários formam-se com outros sujeitos e discursos. Romário não é ingênuo. Política é política. Futebol é futebol. Atravessar o mundo significa ser sensível às diferenças.

Becos, ruas estreitas, avenidas, praças vazias compõem o cotidiano, com cadências inconstantes. Desconhecer os deslocamentos é perder as possibilidades de redefinir-se. Com todos os desenganos vividos, ainda, se arquitetam esperanças e ousadias. O gol acontece, muitas vezes, no final da partida. Uns choram, outros sorriem. O imprevisível não se esconde, como as estrelas em noite de chuva. A história insiste para que exista o amanhã, mesmo que os pesadelos se instalem no leito da fantasia.

Os sustos da vida, os ritmos do inesperado

            

Quem pensa a história está ligado no tempo. Os acontecimentos tem um fluir, não são estáticos. É preciso defini-los no seu ritmo. Se acreditamos na sucessão dos instantes, na força das causas e das consequências, podemos passear no trem do progresso. Alguns exageram e sacodem as soluções para o futuro. Isso era muito comum no século XIX. Houve, no entanto, muitas mudanças.

A ciência não deu as respostas esperadas. Faz , em muitas ocasiões, o jogo do mercado das trocas, abandona os projetos utópicos de antes. Ela cultiva , então, o pragmatismo, envolve-se com laboratórios e pesquisas destinadas ao acúmulo de lucros. Frustrações, para muitos, que acreditavam na neutralidade do conchecimento e esqueciam-se da luta política. Não há equilíbrio permanente. Ele é fugaz e . às vezes, traiçoeiro.

O tempo vai e volta. Temos períodos marcados por otimismo, outros por uma melancolia devastadora. O progresso trouxe profecias que não se realizaram, pois as contradições continuam firmes e as desigualdades se multiplicam. Agora, a economia possui outros lugares. A globalização é destruidora de diferenças culturais, aproxima em muitos pontos, mas massifica, elege valores efêmeros. Virtualiza.

Olhar o futuro, não é deixar de lado o passado. A memória é uma relação. O Brasil viveu a perda da Copa do Mundo de 1950. Foi um choque, um pesadelo. Criou uma desconfiaça no futebol nacional. Muitas reflexões foram produzidas, anos depois. Com as conquistas de 1958  e 1962, tudo se revirou. Uma geração de craques fazia a tragédia se distanciar. O mundo assumiu que tínhamos uma cadência especial. As dimensões do mercado da bola se ampliaram e nossos jogadores tornaram-se internacionais. Inventamos outra arte, divertida e surpreendente.

Nada é para sempre. O tempo não fixa medidas definitivas.  Quando os governos militares se instalaram em 1964, a democracia desandou profundamente. Muita censura, muito medo, muita opressão. Os ruídos arranhavam o autoritarismo, duvidavam das suas palavras, desnudavam suas hipocrisias. A intimidação também se esvazia e a persistência cava seus buracos. Os atos de soberania ditatorial não convenciam a todos. Cresceram os ruídos, de dentro e de fora, e o susto inibiu os antigos vencedores. Voltamos às eleições diretas, aos debates, ao encontro de cidadanias perdidas.

A história acendeu suas transgressões e desfez-se  do grito da violência única. A sociedade se reformulou. Os sonhos desenharam outras imagens, mas o tempo mantém seus ritmos variados. Alguns projetos sociais fascinam grupos que apostam na solidaridade. Outros afirmam a força do individualismo. Consolidam visões de riquezas materiais. As invenções políticas se montam e se consagram, de acordo com a aceitação de quem acompanha sua diversidade. Não é simples. O dualismo engana e empobrece a inteligência.

Os craques da bola e da politica nem sempre vencem o desgaste dos anos. Caem no abismo do envelhecimento. Viram fotografias desbotadas, figuras, de museu, obscuras. Pouco questionamos sobre as linhas e curvas do tempo. Geometria perigosa. Não há  negar, porém, que os enganos do presente não ficarão sem respostas no futuro. Não custa dançar a melodia que enternece e pacifica. O relógio de Salvador Dali aguarda um afago. Cansou.

A política faz o jogo, o mito distrai o tempo

O jogo é uma invenção humana de alcance universal. A variedade é imensa. Não precisa de recursos extraordinários para se fazer valer. Algumas pedras, algumas tampas de garrafa, uma bola de meia e assim todos se divertem. Além de tudo, possui um valor pedagógico indiscutível. É uma representação das artimanhas da vida, das idas e voltas tão frequentes nas nossas histórias. Aprender é uma dádiva. Democratiza e nos tira do centro do mundo. Ficamos mais atentos à multiplicidade e deixamos os narcisismos suspensos na corda bamba.

Ele tem suas regras. Nada na cultura foge dos limites ou da pretensão de fixar limites. Portanto, o espaço da transgressão incentiva a renovação das ordens e muda as ações do jogo.Ele penetra no cotidiano. Seu simbolismo é imenso e, nem sempre, evidente. Provoca polêmicas. Reduz complexidades. Cria conflitos. O perder e o ganhar inquietam as emoções. A objetividade não garante a sedução. Os jogadores gostam de armar tramas e encantam, com o inesperado.

Na campanha eleitoral, a política redimensiona o jogo. As disputas se radicalizam e, às vezes, a agressividade se espalha de forma contudente. A luta pela vitória desmancha princípios éticos. A sociedade é quem se apequena com tanta fofoca. Centrais de boatos se afirmam como lugares de propagandas. Vestem-se com roupas de personagens da ilusão . O jogo se desfaz da sua pedagogia. Entrega-se às astúcias da mídia. Coisifica-se. A cidadania se vai, pede férias, sente-se maltratada.

Todos somos atingidos. De imediato, tudo passa velozmente. Depois, as feridas surgem, sem curas. Os ressentimentos se avolumam. Ficam as lembranças amargas. Quem não se  recorda das decepções com Jânio Quadros? Prometia varrer as corrupções, mas renunciou. Seu fôlego não durou, segundo ele, devido às forças ocultas ou, para outros, devidos aos seus planos de fermentar o autoritarismo. Jânio obteve, na época, uma votação avassaladora. Tornou-se um mito político.

Antes dele, Getúlio Vargas se manteve muitos anos no poder. Sua liderança mexia com as multidões. Foi moderno, em muitas reformas, porém não dispensou as alianças com as oligarquias mais conservadoras. Há histórias fantásticas sobre as manobras de Vargas e ele é retomado por muitos que, ainda, sentem saudades das suas palavras e o nomeiam como pai. Foi pressionado, suicidou-se e o Brasil perturbou-se. Foram dias de muita instabilidade e ameaças de golpes, tramados pelas lideranças udenistas e outros grupos adversários.

A política fabrica seus mitos, como em outros campos da vida. Temos Pelé, Garrincha, Carmem Miranda, Francisco Alves, Carlos Drummond, Juscelino e muitas figuras que se fixam nas nossas memórias. O mito distrai o tempo. Desafia a finitude, brinca com as verdades, nos traz sensações de se poder construir o impossível.

Ele atrai paixões. Merece um olhar minucioso, sobretudo uma comprensão do espaço da sua invenção e de quem se nutre com o passado, com tanta reverência. Os acontecimentos têm seus mantos e seus ardis. Quando o tempo se distrai, escapulimos da história. A suspeita ajuda a não cair nos disfarces da  aventura da tragédia oportunista. Dialogar com as possibilidades de beslicar as utopias, assanha a solidariedade.

A armadilha tem preço: o foco da bola mascarada

Olhar o mundo. Mas qual é foco? Perceber a totalidade é impossível. Afirmar que tudo é uma confusão de fragmentos, mal coordenados, apaga a alegria. Evitar o brilho das cores, negar a linguagem dos objetos, disfarçar a solidão das estrelas tardias, nada disso traz ânimo para seguir adiante. Continuo apostando no entrelaçamento, nas costuras dos atos. Não que elas sejam visíveis e materiais. Também não estão fora da história, são movidas pela sensibilidade. Descartes está noutra dimensão, seu discurso do método desfia as verdades dos seus contemporâneos.

Há lugares e tempos. Não são poucos. A reflexão exige que o olhar não se perca, no foco das novidades, e abomine as permanências. O eterno retorno não é uma maluquice. A ruptura definitiva é uma megalomania. Tudo não é o mesmo, nem o seu oposto. Piso na chão, sento na cadeira, faço carinho, comunico-me. Ouço murmúrios dos livros, no quarto da biblioteca. Conversas sábias. Lá estão Montaigne, Freud, Carlos Fuentes, Guimarães Rosa e tantos outros mandado energia para vida. É o reino da gratuidade sublime.

O movimento está fora do corpo, balança páginas dos jornais, manda-me para outros espaços. Não faltam violências, drogas, disputas, hipocrisias. Muita gente se  anuncia como dona de nossos destinos. Pouco ligo. Sei que a sociedade é competitiva e não me engano com o riso fácil das imagens. O importante é o foco. O que se repete? O que se mascara? O que distrai a ordem, sem festejar a transgressão? Minha leitura aproxima-se das palavras, não para ser servo, mas para desfazer as hierarquias. 

A suspeita é uma trilha. Trabalhosa e estreita, porém os sinais estão presentes, basta decifrar as relações de poder. Quem é o vencedor? Quem elege o discurso do bem? Quem se diz salvador de todos os pecados? Quem fabrica provocações sem estimular solidariedade? Perguntas que fustigam interpretações. Desconfianças que assanham autonomias. Raciocínios que visitam as armadilhas e mostram a nudez escondida. Tudo tem um preço, me ensinam os senhores do capital. Nada assustador, pois no século XIX, Marx já desmontava as ilusões do progresso, onde se aluga a vontade.

Muita fala para pouco assunto? Talvez. São as amarras do ofício. Quando lembro que o mercado da bola se perfuma com o tilintar das moedas, não se trata de um exercício sedutor de retórica. Voltam a  lógica da suspeita, as investigações da curiosidade nas colunas da imprensa. Surgem acusações que vinham se arrastando desde os tempos da Copa na África do Sul.Os dados remetem a corrupções fortalecidas pelo silêncio ardiloso dos negócios. O público quer rasgar a venda das polêmicas. O poderoso Ricardo Teixeira  firma-se na mudez.

O foco é imenso. Os culpados se revelam inocentes, diante do fato propalado de que há dinheiro rolando para a escolha das sedes dos mundiais de futebol. A Fifa promete aprofundar o caso, diante do escândalos estampados por jornais ingleses. Ninguém é ingênuo. Há interesses  expostos nas vitrines  das trocas nada inocentes. Quando o cinismo transforma-se em ator principal, feche o nariz e fuja para o quintal. Purique o ambiente, com urgência.