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Os sustos da vida, os ritmos do inesperado

            

Quem pensa a história está ligado no tempo. Os acontecimentos tem um fluir, não são estáticos. É preciso defini-los no seu ritmo. Se acreditamos na sucessão dos instantes, na força das causas e das consequências, podemos passear no trem do progresso. Alguns exageram e sacodem as soluções para o futuro. Isso era muito comum no século XIX. Houve, no entanto, muitas mudanças.

A ciência não deu as respostas esperadas. Faz , em muitas ocasiões, o jogo do mercado das trocas, abandona os projetos utópicos de antes. Ela cultiva , então, o pragmatismo, envolve-se com laboratórios e pesquisas destinadas ao acúmulo de lucros. Frustrações, para muitos, que acreditavam na neutralidade do conchecimento e esqueciam-se da luta política. Não há equilíbrio permanente. Ele é fugaz e . às vezes, traiçoeiro.

O tempo vai e volta. Temos períodos marcados por otimismo, outros por uma melancolia devastadora. O progresso trouxe profecias que não se realizaram, pois as contradições continuam firmes e as desigualdades se multiplicam. Agora, a economia possui outros lugares. A globalização é destruidora de diferenças culturais, aproxima em muitos pontos, mas massifica, elege valores efêmeros. Virtualiza.

Olhar o futuro, não é deixar de lado o passado. A memória é uma relação. O Brasil viveu a perda da Copa do Mundo de 1950. Foi um choque, um pesadelo. Criou uma desconfiaça no futebol nacional. Muitas reflexões foram produzidas, anos depois. Com as conquistas de 1958  e 1962, tudo se revirou. Uma geração de craques fazia a tragédia se distanciar. O mundo assumiu que tínhamos uma cadência especial. As dimensões do mercado da bola se ampliaram e nossos jogadores tornaram-se internacionais. Inventamos outra arte, divertida e surpreendente.

Nada é para sempre. O tempo não fixa medidas definitivas.  Quando os governos militares se instalaram em 1964, a democracia desandou profundamente. Muita censura, muito medo, muita opressão. Os ruídos arranhavam o autoritarismo, duvidavam das suas palavras, desnudavam suas hipocrisias. A intimidação também se esvazia e a persistência cava seus buracos. Os atos de soberania ditatorial não convenciam a todos. Cresceram os ruídos, de dentro e de fora, e o susto inibiu os antigos vencedores. Voltamos às eleições diretas, aos debates, ao encontro de cidadanias perdidas.

A história acendeu suas transgressões e desfez-se  do grito da violência única. A sociedade se reformulou. Os sonhos desenharam outras imagens, mas o tempo mantém seus ritmos variados. Alguns projetos sociais fascinam grupos que apostam na solidaridade. Outros afirmam a força do individualismo. Consolidam visões de riquezas materiais. As invenções políticas se montam e se consagram, de acordo com a aceitação de quem acompanha sua diversidade. Não é simples. O dualismo engana e empobrece a inteligência.

Os craques da bola e da politica nem sempre vencem o desgaste dos anos. Caem no abismo do envelhecimento. Viram fotografias desbotadas, figuras, de museu, obscuras. Pouco questionamos sobre as linhas e curvas do tempo. Geometria perigosa. Não há  negar, porém, que os enganos do presente não ficarão sem respostas no futuro. Não custa dançar a melodia que enternece e pacifica. O relógio de Salvador Dali aguarda um afago. Cansou.

A política faz o jogo, o mito distrai o tempo

O jogo é uma invenção humana de alcance universal. A variedade é imensa. Não precisa de recursos extraordinários para se fazer valer. Algumas pedras, algumas tampas de garrafa, uma bola de meia e assim todos se divertem. Além de tudo, possui um valor pedagógico indiscutível. É uma representação das artimanhas da vida, das idas e voltas tão frequentes nas nossas histórias. Aprender é uma dádiva. Democratiza e nos tira do centro do mundo. Ficamos mais atentos à multiplicidade e deixamos os narcisismos suspensos na corda bamba.

Ele tem suas regras. Nada na cultura foge dos limites ou da pretensão de fixar limites. Portanto, o espaço da transgressão incentiva a renovação das ordens e muda as ações do jogo.Ele penetra no cotidiano. Seu simbolismo é imenso e, nem sempre, evidente. Provoca polêmicas. Reduz complexidades. Cria conflitos. O perder e o ganhar inquietam as emoções. A objetividade não garante a sedução. Os jogadores gostam de armar tramas e encantam, com o inesperado.

Na campanha eleitoral, a política redimensiona o jogo. As disputas se radicalizam e, às vezes, a agressividade se espalha de forma contudente. A luta pela vitória desmancha princípios éticos. A sociedade é quem se apequena com tanta fofoca. Centrais de boatos se afirmam como lugares de propagandas. Vestem-se com roupas de personagens da ilusão . O jogo se desfaz da sua pedagogia. Entrega-se às astúcias da mídia. Coisifica-se. A cidadania se vai, pede férias, sente-se maltratada.

Todos somos atingidos. De imediato, tudo passa velozmente. Depois, as feridas surgem, sem curas. Os ressentimentos se avolumam. Ficam as lembranças amargas. Quem não se  recorda das decepções com Jânio Quadros? Prometia varrer as corrupções, mas renunciou. Seu fôlego não durou, segundo ele, devido às forças ocultas ou, para outros, devidos aos seus planos de fermentar o autoritarismo. Jânio obteve, na época, uma votação avassaladora. Tornou-se um mito político.

Antes dele, Getúlio Vargas se manteve muitos anos no poder. Sua liderança mexia com as multidões. Foi moderno, em muitas reformas, porém não dispensou as alianças com as oligarquias mais conservadoras. Há histórias fantásticas sobre as manobras de Vargas e ele é retomado por muitos que, ainda, sentem saudades das suas palavras e o nomeiam como pai. Foi pressionado, suicidou-se e o Brasil perturbou-se. Foram dias de muita instabilidade e ameaças de golpes, tramados pelas lideranças udenistas e outros grupos adversários.

A política fabrica seus mitos, como em outros campos da vida. Temos Pelé, Garrincha, Carmem Miranda, Francisco Alves, Carlos Drummond, Juscelino e muitas figuras que se fixam nas nossas memórias. O mito distrai o tempo. Desafia a finitude, brinca com as verdades, nos traz sensações de se poder construir o impossível.

Ele atrai paixões. Merece um olhar minucioso, sobretudo uma comprensão do espaço da sua invenção e de quem se nutre com o passado, com tanta reverência. Os acontecimentos têm seus mantos e seus ardis. Quando o tempo se distrai, escapulimos da história. A suspeita ajuda a não cair nos disfarces da  aventura da tragédia oportunista. Dialogar com as possibilidades de beslicar as utopias, assanha a solidariedade.

A armadilha tem preço: o foco da bola mascarada

Olhar o mundo. Mas qual é foco? Perceber a totalidade é impossível. Afirmar que tudo é uma confusão de fragmentos, mal coordenados, apaga a alegria. Evitar o brilho das cores, negar a linguagem dos objetos, disfarçar a solidão das estrelas tardias, nada disso traz ânimo para seguir adiante. Continuo apostando no entrelaçamento, nas costuras dos atos. Não que elas sejam visíveis e materiais. Também não estão fora da história, são movidas pela sensibilidade. Descartes está noutra dimensão, seu discurso do método desfia as verdades dos seus contemporâneos.

Há lugares e tempos. Não são poucos. A reflexão exige que o olhar não se perca, no foco das novidades, e abomine as permanências. O eterno retorno não é uma maluquice. A ruptura definitiva é uma megalomania. Tudo não é o mesmo, nem o seu oposto. Piso na chão, sento na cadeira, faço carinho, comunico-me. Ouço murmúrios dos livros, no quarto da biblioteca. Conversas sábias. Lá estão Montaigne, Freud, Carlos Fuentes, Guimarães Rosa e tantos outros mandado energia para vida. É o reino da gratuidade sublime.

O movimento está fora do corpo, balança páginas dos jornais, manda-me para outros espaços. Não faltam violências, drogas, disputas, hipocrisias. Muita gente se  anuncia como dona de nossos destinos. Pouco ligo. Sei que a sociedade é competitiva e não me engano com o riso fácil das imagens. O importante é o foco. O que se repete? O que se mascara? O que distrai a ordem, sem festejar a transgressão? Minha leitura aproxima-se das palavras, não para ser servo, mas para desfazer as hierarquias. 

A suspeita é uma trilha. Trabalhosa e estreita, porém os sinais estão presentes, basta decifrar as relações de poder. Quem é o vencedor? Quem elege o discurso do bem? Quem se diz salvador de todos os pecados? Quem fabrica provocações sem estimular solidariedade? Perguntas que fustigam interpretações. Desconfianças que assanham autonomias. Raciocínios que visitam as armadilhas e mostram a nudez escondida. Tudo tem um preço, me ensinam os senhores do capital. Nada assustador, pois no século XIX, Marx já desmontava as ilusões do progresso, onde se aluga a vontade.

Muita fala para pouco assunto? Talvez. São as amarras do ofício. Quando lembro que o mercado da bola se perfuma com o tilintar das moedas, não se trata de um exercício sedutor de retórica. Voltam a  lógica da suspeita, as investigações da curiosidade nas colunas da imprensa. Surgem acusações que vinham se arrastando desde os tempos da Copa na África do Sul.Os dados remetem a corrupções fortalecidas pelo silêncio ardiloso dos negócios. O público quer rasgar a venda das polêmicas. O poderoso Ricardo Teixeira  firma-se na mudez.

O foco é imenso. Os culpados se revelam inocentes, diante do fato propalado de que há dinheiro rolando para a escolha das sedes dos mundiais de futebol. A Fifa promete aprofundar o caso, diante do escândalos estampados por jornais ingleses. Ninguém é ingênuo. Há interesses  expostos nas vitrines  das trocas nada inocentes. Quando o cinismo transforma-se em ator principal, feche o nariz e fuja para o quintal. Purique o ambiente, com urgência.

Os perigos e os escorregões na marca fatal do pênalti

Os esconderijos fazem parte do jogo da vida. A linguagem nos leva aos Outros. Não faltam veículos de comunicação. No entanto, a transparência do que se diz, nem é sempre possui clareza. A linguagem revela e esconde. É difícil compreender a sua complexidade. Governa impérios. Está submersa no teritório das interpretações. Formula discordâncias e afetos. Bolas de papel transformam-se, em foguetes atômicos. Verdades sagradas geram conflitos religiosos, em espaços profanos.

Sobram lacunas, incertezas, dúvidas. Celebremos Nietzsche, no seu olhar penetrante e devastador. Não é necessário muito embalo. No futebol, os clubes organizam-se, para campeonatos internacionais, com investimentos alto e promessas otimistas. Muitos torcedores nem desconfiam da existência do mercado da bola. O fascínio pelos ídolos, os artifícos das propagandas insistentes os conduzem a comemorar vitórias que, ainda, não aconteceram. As armadilhas são equipadas, com as últimas tecnologias da sedução.

Na própria vida cotidiana, não há como assegurar opções definitivas. Ficamos assustados com manchetes matinais, com os e-mails carregados de pirataria, com os sites confidenciais disfarçados. Não é à toa. A instabilidade incomoda nossas emoções. É como jogador diante do goleiro na cobrança do pênalti. Tudo lembra êxito e vibração, mas o momento compartilha com traições venenosas. O chute desvia e  a frustração arranha os sentimentos de sucesso. Não dá para zombar do lúdico, nem sorrir, numa gozação precipitada. Não custa focar, respirar e suspeitar que Deus também se aposenta.

A mania e  a insistência na produtividade tomam conta da sociedade. Estão em tudo. Na academia, os artigos devem elaborar urgências teóricas. Na política, os discursos respondem aos impulsos mecânicos da mídia. No jogo, as transmissões de TVs se sucedem, quase sem intervalo. Vale o princípio cego do acúmulo. Não é estranho que o tédio permaneça, mesmo com o colorido de tantas novidades ? Baudelaire se traumatizaria com os vazios do corpo, ormanentados e cheios de cremes hidratantes. Paris, do século XXI, acabou de dançar seu últmo tango, chorando o governo de Sarkozy.

Não suspire e nem suspeite. Observe. Os ídolos são nomeados, contratos registrados, milhões gastos e vem a cobrança de fama imediata. A velocidade provoca tensões. O desfazer é, muitas vezes, mais rápido do que o fazer. Movimentos que atrapalham até as maldades dos demônios. Eles estão em recesso.Ausência de criatividade. Fogem dos mensageiros do bem. A paciência é tesouro raro. Os ansiolíticos enchem as prateleiras. Batem recordes de venda, garantindo a soberania do sono químico.

A passagem efêmera, de cada instante, termina não consolidando experiências de sabedoria. Escuta-se pouco. As linguagens entram em coplapso vertiginoso. O aparecer e o desaparecer se confundem. A neura do consumo dita as regras. Muitas luzes cegam quem não usa óculos escuros. A astúcia é cristal abandonado no lixo da praça . Estamos ligados nos voos. Os pés fora da terra derrubam os limites da gravidade. Os relógios não têem números, nem braços. No rádio, se reza a oração fim do dia. A noite não cede seu tempo. O pecador, mais audaz, ora por uma vaga no bigbrother, no domingão do Faustão. Felinamente.

Clássico é clássico, Pelé é Pelé, mundo é mundo

O final de semana ganhou festas, para comemorar os 70 anos de Pelé. Foram muitas homenagens. Os programas de TV exibiam suas façanhas. Os mais novos se deslumbraram. Os gols são obras-primas. Quem disse que o futebol não é uma arte? Quem desconhece a dança divina de Pelé? Sua cadência no campo, sua matada no peito, sua velocidade no raciocínio e sua vontade de vibrar deixam todos extasiados. Sem exagero, ele é único. Atua com majestade.

Mas o Brasileirão segue sua reta decisiva. Talvez, não seja uma reta. Muitos resultados surpreendentes. A evidente instabilidade dos times provoca as torcidas. Quando pensam no título, as coisas se desmancham. O Santos, ontem, perdeu para o laterninha. A segunda derrota seguida. Até o prodígio Neymar não conseguiu destaque. Cobrou um pênalti de maneira melaconcólica e ficou sem assunto. Não quis entrevistas.

Os clássicos  invadiram os estádios. Flamengo e Vasco empataram. Muita crítica ao árbitro, expulsões, porém os times continuam jogando abaixo do nível. Ninguém sabe por onde anda o talento, se desenganado em alguma clínica de recuperação. O mesmo pode ser dito do Sport e Náutico. Outro empate, com muita correria e nada mais. O público incentiva, no entanto se irrita com o primarismo de alguns lances.

O Corinthians reanimou-se e mandou o Palmeiras esperar. Placar mínimo. Ronaldo, como sempre, traz outro ritmo, apesar da sua forma física. Com ele, o Timão se organiza melhor. Algo acontece. Isso é bom, para a emoção da partida. Uma fuga da mediocridade, bem aceita por todos. A perplexidade está presente e não nega fogo. Por isso, a intraquilidade de muitos. O São Paulo não superou o Ceará. Será que chega na Libertadores?

A situação do Atlético de Minas é outra. Luta para escapar do desmantelo. Dorival mudou o time, trouxe força e ordem. Obina marcou três gols no Cruzeiro. No final, o Galo não vacilou e busca a reviravolta definitiva. Os azares de Cuca permanecem uma ameaça. O Cruzeiro se espalha, depois se recolhe. Sua disputa com o Fluminense é aguda. Ninguém se mete a prever quem será o campeão. Além disso, outras inesperadas astúcias podem trair esperanças.

O futebol é movimento. Não se acanha, se a campanha eleitoral está no auge. Não liga para as denúcias e os descontroles dos candidatos. Lá está enfeitando o final de semana, inibindo os clamores da política. Até o Santa Cruz, no ostracismo incrível, fez das suas, na esquecida Copa Pernambuco. Ganhou do Sport de 3×1. Aguarda, agora, as suas eleições.Quem ressuscitar o Tricolor vai receber as honras de uma torcida especial. Há tempo e quem sabe a coragem toque em alguns corações.

 Se o mito Pelé fosse exemplo imitado, o mundo do encanto seria outro. Não custa aprender com a vida. Desenhar o nunca visto, ainda, é um conforto e uma saída do labirinto. Não subestimemos as travessias da cultura. Ninguém se esquece do nazismo, das ditaduras, da bomba atômica. Mas ninguém se esquece também, de Chaplin, de Picasso, de Gandhi, da invenção das vacinas. O mundo é muita coisa. Ulisses que o diga.

O bem e o mal: os jogos do dualismo e das astúcias

Criam-se valores. Não há como viver sem eles. Desde os tempos primordias, citam-se virtudes e desmantelos. O difícil é o consenso. Mudam os valores, pois são históricos. Cada sociedade abraça os seus e ,dentro dela, existem grupos que se rebelam. O mar da inquietude gosta de agitar suas ondas. A população aumenta, trazendo discordâncias, escolhas diferentes ou mesmo acobertando nostalgias tradicionais. Uniformizar o humano, não o faz grandioso.

Há, no entanto, um dualismo forte e permanente que atrai as pessoas. Talvez, as deixe com uma visão de mundo mais sossegada. Optam pela simplicidade.  Ou é uma coisa ou outra. Ou amo ou odeio. Ou silencio ou grito. A lógica do sim ou do não percorre os corações e as mentes. Torço pelo Santa Cruz e não quero saber das desaventuras do Náutico. Adoro o futebol de Pelé, Maradona é mito argentino sem substância. Não se encara a compexidade.

É claro que as alternativas da cultura não estão restritas a uma leitura superficial do bem e do mal. Eles se tocam em determinadas situações. Confundem-se em outras. Quem aponta qual é o verdadeiro bem ou o verdadeiro mal? Oa radicalismos provocam distanciamentos e, muitas vezes, guerras entre povos. Os fundamentalismos arrastam multidões encantadas, com as suas promessas de certezas. O mundo da sofisticação tecnológica não perdeu crenças de eras antigas.

As mobilizações ganham, portanto, caminhos diferentes. Quando se acirram as divergências políticas e religiosas, os dualismos tornam-se soberanos. As luzes se apagam e se busca a saída no escuro. Parece que não estamos mergulhados em muitas contradições. Somos criaturas ansiosas por perfeições que nunca alcançamos. Os tumultos se consagram, pois se despreza o domínio dos poderes vencedores e suas armadilhas. Os meios de comunicação explodem notícias e as interpretações não alargam a democracia.

Muito se fala da diversidade: objetos de cores inovadoras, televisões com recursos sofisticados, arquiteturas ousadas, refazendo moradias. Mas quando nos confrontamos com a ética, volta o dualismo. Os eleitos, para cumprir missões, vestem-se de santos, são símbolos de transcendências milagrosas. Fixa-se o terreno escorregadio do que dizem estar fora da história. Enfatizam-se as permanências, fabricam-se muros, evitam-se diálogos.

 Universalizar o dualismo é um risco. O humano tem suas fragilidades, mas não se descola das coragens e de outras invenções. Há os que cultivam privilégios e não desejam dividi-los. Muitos se fascinam pela grana e afastam-se de qualquer solidariedade. Outros se perturbam, com o excesso de individualismo e pregam o fim dos tempos. Os lugares das relações não cessam de ser redefinidos.

No mover-se das ideias e dos sentimentos,  é muito  pouco repartir o mundo em dois. É melhor compreender as razões de tantos labirintos. Os santistas, os rubro-negros, os flameguistas, os brasileiros, os bolivianos, os franceses, os democratas, os comunistas, os fascistas e assim vamos. As palavras dão significados. Somos eternos e finitos, tudo pode ser um loucura ou um jogo com regras mutantes.  Engessar a vida, na luta do bem contra o mal, esvazia o conteúdo do tempo que passa. Caímos na monotonia do empate combinado, na soberania do mínimo.

Os mundos da invenção, os jogos da vida e da paixão

 

Inventar o mundo expressa as andanças e as metamorfoses da cultura. Nada aparece, de repente, como meteoro perdido ou um cometa em busca de um leito para se esticar. A vida é construção, entrelaçamentos  dos saberes e de experiências. O lúdico tem seu lugar especial, as certezas se sentem ameaçadas, pelo vaivém das opiniões e pelos desenhos das farsas. A cultura não se faz sem ordem, mas convive também com as transgressões. O importante é visualizar qual a medida dos limites.

Apesar dos cantos à objetividade, somos sentimentos e sensibilidades. A paixão nos tira do eixo. Ficamos tomados por um tempo acelerado, cercado de ilusões que se aconchegam no coração. Navegamos, porém, os horizontes são muitos e as embarções não prometem segurança absoluta. No jogos, vemos o balanço da relações e das ansiedades de forma mais prática. Existem regras, obediências, cerimoniais. O resultado é uma aposta. No futebol, muitas vezes, um time sem cartaz vence outro cheio de estrelas.

Na vida, não é diferente. Antecipamos glórias que não chegam. Admitimos vaidades tolas e vazias, pensando na soberania da nossa vontade. Não é à toa que extravasamos muitas coisas nos esportes. As torcidas são pequenos mundos das cartografias dos desejos. Elas criam símbolos, gritos de guerra, agrupam-se como partidos políticos. Fazem das derrotas um salto no abismo, da vitória, a sagração de primavera. Deliciam-se com as conquistas e, rapidamente, se amarguram com as frustrações. Basta ver o que se passa com o Náutico e o Corinthians. Exemplos, para ficarmos, apenas, no discurso.

A ideia de que há uma singularidade em cada ato é aceitável. Não somos da mesma matéria na delicadeza e no cuidado com os outros. Desfiar os mantos sem perceber que foram arquitetados, pela criação, é onde mora o perigo. As individualidades merecem ser preservadas, desde que não desmobilizem a solidariedade. Portanto, a cultura possui histórias, lugares e momentos que se tocam ou, às vezes, se conflitam. A mesmice atrapalha, produz covardias burocratizantes.

Os espelhos sobrevivem para que exercitemos nossos olhares. É saudável evitar o vício de repetir imagens. Há sons, cores, ruídos, traços. Há escutas, resistências, trelas, confortos. É impossível resumir a dimensão do mundo. Com os escritos tentamos dialogar, pois a omisão é um pecado capital. Prometeu conserva sua contemporaneidade. Ler a peça de Ésquilo sobre o mito faz o corpo se articular com as veias abertas da emoção. Sabedoria que permanece. Correntes que se quebram com coragem.

Entre lacunas e desacontecimentos, a cultura borda suas vestimentas. Mas antes disso, as costura com velocidades variáveis. Os modelos mudam e incomodam aos conservadores. Isso não significa a falência das tradições. Se elas desmoronassem rapidamente? Os jogos da vida formulam estratégias. Nada desaparece, sem vestígios, nem que seja nas fantasias. Para isso fomos feitos, para não sermos escravos do que passou, mas para também acordar do sono, espertos e críticos. Quem se julga mestre de todas as artes, desconhece o poder das invenções. Os sabores e os saberes se misturam. Por que não experimentá-los?

Fellini, travessuras, saudades, imagens, efêmero

                          

Contemplar, quando se tem pressa, é uma impossibilidade. Não dá nem para sentir saudade. Os toques constantes dos celulares compõem uma sinfonia atípica. Será que existe ainda o tão portentoso reino humano? Resposta difícil, diante das tantas máquinas que ocupam espaços com volúpia. Mas a paciência é um exercício fundamental. Num cosmos, tão mecânico, o valor do sentimento não poder ser apagado. Esconde o relógio digital, risca o calendário da empresa de seguros e escuta o silêncio do sonho. Assim, a vida está, temporariamente, salva.

Faço esse movimento. Observo, sem inquietude, a folha que cai da árvore balançando-se no ar. Lembro-me de Fellini, o arcanjo do cinema. Várias vezes, assistiu ao seu Amarcord. Beleza, travessuras, irreverências. A fragilidade exposta sem o peso do pecado. Adão e Eva redimidos, soltos no paraíso, escondendo as serpentes num cofre redondo. A poética de um tapete magico desenha as imagens do arcanjo, varrendo  o cotidiano do cartesianismo.

Recordações. O Arrudão cheio de gente alegre com o penta do Santa, parecia que o mundo só tinha três cores. Hoje, a grana dispara, no mercado da bola. Naquela época, o mestre Gradim armava  o time com os meninos da base. Futebol maravilhoso. Não sai da memória o desejo de vitória, os passes surpreendentes e os gols  bem articulados. Nada da amargura da série D. Lá estavam Luciano, Givanildo, Fernando Santana, Ramon e tantos outros. O tricolor fazia a cobra fumar e era temido pelos seus adversários.

Quem pode esquecer aquele lance de Pelé contra o Uruguai na Copa de 1970? E os dribles de Garrincha derrubando seu marcadores em 1958? Tostão jogava com astúcia e inteligência. Deslocava-se, transformava-se em fantasma, tecia sua arte com bordados coloridos. Aquela final de 1970 foi um arraso, como a partida nervosa entre Brasil e Inglaterra. Incomparáveis às partidas do Brasileirão, aos chutões e carrinhos dos beques de hoje. Podiam ter aulas com Mauro, Nílton Santos, Orlando…  Que sonho!

Não pense que há poucos arcanjos vagando pelo mundo. Na literatura, eles caminham em grupo, com se  estivessem ensaiando um balé clássico. Por acaso, já se encontraram com  Italo Calvino, Pamuk, Mia Couto, Paul Auster, García Marquez, Otávio Paz,  Borges num diálogo sobre a solidão e a contemporaneidade? Eles desconhecem os finitos, fazem da morte temas para seus textos, divertem-se com os que fogem das leituras. Por isso, são clássicos. Não cansam, dançam com as palavras entretidos com as músicas de Mile Davis, Chopin, Vivaldi, Chico, Jobim e parceiros de todos os sons.

O mundo é mesmo vasto. Não tem prazo para terminar, mas é moradia também de dissonâncias, hipocracias, corrupções e santos mascarados. É a multiplicidade da cultura. As invenções fustigam a criatividade. Continua valendo o que disse Nietzsche, a verdade é curva. Nada de eleger geometrias de linhas retas,  para explicar as sinuosidades das ousadias. Deixe as histórias circularem e as bolinhas de papel cruzarem os espaços, sem ofensas ou dramas. Cada momento respira seu perfume e não despreza sua preguiça. Correr é fabricar a soberania do efêmero.

A crise é dona do mundo e dos seus dramas?

Crise é uma palavra presente no cotidiano.Seu uso é contínuo. Em todas as situações, quando as tensões e os desacertos acontecem, ela aparece para definir os impasses e suas profundidades. Lembra tensão, momentos de transtorno ou dificuldade de fazer escolhas. Não se localiza, apenas, nos grandes espaços da política. Ela se espalha pelas atividades humanas. Não esquece as paixões. Perturba as vacilações dos sentimentos. Ganha significados quase universais.

O certo é que não podemos fugir do seu cerco. Somos marcados pela incompletude. Inventamos utopias, matemáticas, tecnologias, artes, mas lidamos com muitas lacunas. As insatisfações aparecem e a perplexidade não sossega. O mundo possui muitos caminhos, alguns planos e verdes, outros cheios de pedras e de vulcões. Tem razão Guimarães Rosa, quando afirma que viver é perigoso. Negar a crise não a faz diluir, nem tampouco traz a vida para seu eixo de equilíbrio.

Vejamos o agora. O Náutico se encontra metido em derrotas e inquietações enormes. Não consegue vitórias, seus jogadores reclamam dos salários e seus dirigentes parecem não se entender. Antes, era o Sport que mergulhava em águas turvas. As coisas se inverteram, num fechar de olhos. A velocidade desmonta reações e agrava as angústias. O Leão da Ilha busca ir para série A e enfrenta o Náutico no próximo sábado. Como se trata de um jogo, tudo pode suceder. Quem sabe se o Timbu não ressuscita?

Há jogadores que adormecem no sucesso. O caso de Ronaldinho é típico. Surgiu como um craque excepcional. As manchetes esportivas elogiavam suas partidas e seus gols maravilhosos. Foi para a Europa. Firmou contratos milionários, porém seu talento é misterioso. As controvérsias se acendem, quando se cogita em convocá-lo para seleção brasileira. Está no Milan. É chegado a cultivar uma apatia repentina.

Na política, a França vive turbulências. A maioria não aceita as propostas de Sarkozy. Protestam nas ruas. Milhões de pessoas revelam seus descontentamentos. As negociações devem ser articuladas, pois o país está no pique de uma crise profunda. Nos Estados Unidos, também, nem tudo são flores. Obama encontra resistências. Já não há aquela admiração pelo presidente e suas reformas. As desconfianças crescem e a popularidade diminui.

E nossa campanha eleitoral?  Houve renovação na forma de se apresentar dos candidatos? Há projetos delineados com cuidado ou valem as armadilhas? As acusacões transbordam as margens dos discursos. Tudo é motivo para polêmicas. A vigilância tem o tamanho dos boatos. Não custa aprender. Ausentar-se não é a solução, porém exaltar o baixo nível é um suicídio. A política envolve-se com a complexidade do poder. Nela, a incompletude compõe suas sinfonias mais trágicas.

Pensar numa sociedade ideal, silenciosa, sem mal-estar, talvez seja um sonho incessante. Encostar a cabeça no travesseiro, embalado pela a coerência e a paz, é desejo de quem se desfaz das invejas. Mas as contradições nos  invadem e a pedagogia da disputa impera. A crise instala-se no leito e se cobre com o lençol, como soberana absoluta. E nós voamos nos traços de Van Gogh.  Na  sua (re)invenção das cores, respiramos sem utopias.

O futebol e a política: epopéias e descontroles

No mundo do futebol, a vida não sossega. Ela está presente nos desconfortos  que o cerca. Ele nunca foi uma ilha, nem um oásis especial. Seria estranho querer enfeitiçá-lo com encantos exclusivos . Não há neutralidade nas relações sociais. As astúcias do poder se apresentam em busca de seus espaços. Ficar em cima do muro é coisa das traquinagens sadias da infância. Imaginem um político neutro, sem partido e sem projeto, livre de ambições e conversando com os anjos. Fantasia demais faz mal ao coração.

Mas o épico ainda se sustenta, apesar de tantos heroísmos fabricados. O Salgueiro venceu o Paysandu, enfrentando condições adversas. Está classificado para série B. Festa sem igual, para um time que conseguiu feito que o Santa Cruz passou por longe. Mesmo com uma torcida empolgada o tricolor do Arruda fracassou. O Guarany que o derrotou ,  manteve a escrita. Também ascendeu. Mistérios do futebol inesquecíveis, mostrando a força de vontade e a motivação, tão distantes de alguns clubes. Valeram as conquistas, numa época de tantas desconfianças.

A torcida do Corinthians está esquentada. Suas  ameaças descontrolam o time. Fazem parte do noticiário da imprensa. É uma resposta desequilibrada aos insucessos do Timão. A violência só  empurra a sociedade para beira do abismo. Repercute mal, deseduca, tem eco até na forma de construir a política. A democracia sente-se destorcida, pois há muitas outras formas de reclamar e seguir adiante. A gratuidade da rebeldia não garante mudanças, porém tensões mal resolvidas.

Escândalos atingem a cúpula da Fifa. Denúncias são feitas sobre a escolhas das sedes para os mundiais. O abalo é grande. Deve ser apurado, porque os negócios registram corrupções históricas. Maculam a imagem de um órgão que se  julga mais poderoso do que a ONU. Tudo é possível. Os interesses são gigantescos, nos investimentos, que, muitas vezes, não dão retorno para os países que são sede. Quem lucra é  a Fifa e as  empresas que lhe acompanham na aventura fértil do capitalismo.

A novela Neymar continua, com capítulos atuantes, na mídia. Finalmente, apareceu o perdão para seus erros, sacramentado pelo Fantástico. Certos programas da Globo têm uma audiência marcante. Tornam-se cenários de acontecimentos que ganham a simpatia da sociedade. É importante não desvalorizar o craque santista. Ele quer voltar a ser um rapaz sem pecados. Pede para que a sua vida seja bem conceituada. Nada como um domingo, como lugar para cumprir sua penitência e prometer quietude. 

O controle do mercado, sobre as andanças dos humanos, estimula as trocas de favores. Não há desejo de desperdício. Como tudo tem o fascínio da mercadoria, não custa está sempre com o verniz na mão e o discurso da  salvação na ponta da língua. Administrar patrimônios requer espertezas e vitrines. O fatia do bolo mais gostosa é de poucos. Há os que se incomodam, quando a maioria  luta por um maior pedaço. Vivem, sob o manto disfarçado, de que a escravidão é um mal necessário. O toque da dominação é sutil e ousa  controlar a maioria.